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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15 n.3 Rio de Janeiro May. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000300013 

ARTIGO

 

Modos de vida e modos de beber de jovens indígenas em um contexto de transformações

 

Ways of life and ways to drink of young indigenous in a transformation context

 

 

Maximiliano Loiola Ponte de SouzaI; Suely Ferreira DeslandesII; Luiza GarneloI

IInstituto Leônidas e Maria Deane, Fundação Oswaldo Cruz. Rua Teresina 476, Adrianópolis. 69057-070 Manaus AM. maximiliano@amazonia.fiocruz.br
IIInstituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz

 

 


RESUMO

Através de uma pesquisa etnográfica, analisaram-se as interações entre os atuais modos de vida e de beber de jovens indígenas de uma populosa localidade do Alto Rio Negro. Para tanto, se utilizou um modelo teórico que permitiu decompor e articular a realidade social em diferentes níveis. Observou-se que houve a multiplicação das situações em que se bebe, que são associadas a mecanismos tanto de demarcação de pertencimento como de explicitação de diferenças intergrupais. Atualmente, os jovens inserem-se em múltiplas redes de interação. Através delas, podem criar ambientes juvenis de consumo de álcool, beber longe dos pais e comprar bebidas industrializadas. Com a introdução da escola e o abandono dos rituais de iniciação, o status do jovem tornou-se incerto e sobre ele incidem de forma ambígua as normas sociais de consumo de álcool, num contexto no qual não há consenso na prática cotidiana a respeito das possíveis estratégias para regular o beber juvenil. Através desta pesquisa, puderam-se aventar alternativas teórico-metodológicas para investigar as relações que se estabelecem entre os modos de vida e a produção da saúde e da doença, incorporando a esta análise a cultura (e sua transformação), a vida cotidiana (e suas contradições), as pessoas (e suas subjetividades).

Palavras-chave: Índios sul-americanos, Juventude, Condições de vida, Consumo de álcool


ABSTRACT

The interactions among the ways of life and drink of youths indigenous of a populous place of Upper Rio Negro were analyzed through an ethnographic research. It was used a theoretical model that allowed to decompose and to articulate the social reality in different levels. It was observed that there was a multiplication of the situations in which is possible to drink, that are associated to mechanisms as much of belonging demarcation as of exposition of differences inter-group. Nowadays, youths insert themselves in multiple interaction networks. Through these networks they can create juvenile atmospheres of alcohol consumption, drink far away from the parents and buy industrialized drinks. With the introduction of the school and the abandonment of the initiation rituals, the youth status became uncertain, and it occurs in an ambiguous way the social norms of alcohol consumption, in a context in which there is no consensus in daily practice respect of the possible strategies to regulate juvenile drinking. Through this research, theoretical-methodological alternatives could be suggested to investigate the relationships that are established between the ways of life and the production of the health and disease, incorporating in this analysis the culture (and its transformation), the daily life (and its contradictions), the people (and its subjectivities).

Key words: South American Indians, Youth, Life's conditions, Alcohol consumption


 

 

Introdução

A região do Alto Rio Negro, localizada no noroeste amazônico, é habitada por cerca de 30.000 indígenas1, distribuídos em aproximadamente 22 etnias. Estes compartilham o uso do caxiri (bebida alcoólica fermentada, à base de mandioca e frutas)2, que era consumido particularmente nas festas de troca ou dabucuris3; e nos rituais de iniciação masculina, situações de grande significado simbólico neste contexto sociocultural4,5 .Nos mais de três séculos de contato interétnico, a cachaça também passou a ser consumida, as situações festivas foram incrementadas6 e, em diversos grupos, houve a supressão do rito pubertário7,8. Esta última transformação está associada, em parte, à introdução dos colégios internatos, pelos missionários salesianos. Enclausurados nestas instituições, criadas para catequizá-los e transformá-los em agentes da civilização, os jovens não estavam em companhia dos mais velhos no momento em que deveriam ser iniciados7.

Iauaretê, distrito rural do município de São Gabriel da Cachoeira, é uma "cidade" indígena7, localizada às margens do rio Uaupés, maior afluente do Rio Negro. Ali foi implantado um internato que funcionou, neste regime, de 1929 a 1986, quando foi transformado em externato. Desde então, famílias de diferentes locais e etnias passaram a migrar para Iauaretê, para dar continuidade à escolarização dos filhos7, visto que nas pequenas comunidades não há oferta de ensino médio. Concomitantemente ao incremento demográfico, a localidade vem sendo urbanizada. Atualmente, dispõe de eletrificação, telefonia, comércios, quartel do exército e agência dos correios que presta serviços bancários.

As mudanças nos padrões de moradia e hábitos dos grupos indígenas residentes em Iauaretê a tornam um local prototípico para o estudo das relações entre modos de vida e o processo saúde/doença, objeto de interesse crescente no campo da saúde coletiva. Porém, os autores que abordam este campo através das ferramentas da epidemiologia clássica não raramente reduzem os modos de vida a variáveis socioeconômicas e demográficas, agrupando-as em indicadores compostos. Estes se mostram pouco eficazes em apreender a multivariedade do real e incorporar dimensões subjetivo-valorativas e culturais9,10, que são essenciais para a compreensão dos fatores que influenciam a produção da saúde e da doença11.

Apresenta-se aqui um estudo exploratório que investiga as dimensões qualitativas da vida social de Iauaretê, associadas ao consumo de bebidas alcoólicas pelos jovens indígenas, visto ali como socialmente problemático. Em Iauaretê, a afirmação corrente é que os jovens bebem cada vez mais cedo, de modo mais frequente e violento, e que há dificuldades coletivas em se lidar com este comportamento.

O objetivo deste trabalho é analisar as possíveis interações entre as atuais condições de vida da população indígena de Iauaretê e o modo de beber dos jovens indígenas, reconhecendo a intrínseca relação que se estabelece entre o contexto sociocultural, a organização social e as estratégias de enfrentamento, localmente disponíveis, para este problema.

 

Pressupostos teóricos

Almeida-Filho entende os modos de vida como o "conjunto articulado de práticas cotidianas"9, que pode ser decomposto em condições de vida e estilo de vida. As primeiras se referem às condições de produção e circulação de bens e serviços, de forma direta, ou via políticas públicas compensatórias. Já o segundo deve ser compreendido como o conjunto de comportamentos, hábitos e atitudes de indivíduos e grupos sociais.

No caso deste trabalho, os jovens compõem o grupo social de interesse. A juventude é aqui entendida como "uma representação ou criação simbólica, fabricada pelos grupos sociais ou pelos próprios indivíduos tidos como jovens, para significar uma série de comportamentos e atitudes a eles atribuídos"12. Já a conduta juvenil priorizada para análise é o consumo de bebidas alcoólicas. Analiticamente, o consumo de álcool pode ser decomposto em diferentes categorias. Entende-se por processo de alcoolização os modos e significados que o beber adquire em um grupo6,13, em determinado contexto. Já problemas relacionados ao uso do álcool relacionam-se a um modo de beber, tido socialmente como associado a efeitos adversos, sendo fortemente influenciado por condicionantes socioculturais e históricos6,14.

Outro conceito-chave é o de espaço, entendido como a expressão geográfico-territorial de relações históricas, sociais, econômicas, culturais e ecológicas, travadas entre sociedades humanas e outros fatores bióticos e abióticos15-17. Este conceito tem representado uma via teórico-metodológica integrativa para se entender as correlações entre vida social e desigualdades sociais e sanitárias. Nas sociedades indígenas, a socialização e a organização da vida são moldadas pelas relações de parentesco, que configuram as estratégias tradicionais de ocupação do espaço (territorialização), atualmente modificadas pela força das relações interétnicas, influenciando o modo juvenil de beber, como se demonstrará.

 

Metodologia

Realizou-se uma etnografia, entendida como uma "pesquisa de campo com observação prolongada [...], seguida pela produção de dados em condições discursivas e dialógicas, expressos através de formas textualizadas"18. O trabalho de campo, que durou seis meses, teve prévia autorização do Comitê Nacional de Ética em Pesquisa.

Em campo, privilegiou-se observar o cotidiano dos jovens que vivem em Iauaretê ; quando, como, onde, com quem e o que eles bebem; os discursos sobre o modo deles beberem e as estratégias empregadas, ou propostas, para regular este consumo.

O modelo analítico desenvolvido por Contandriopoulos11, no qual decompõe o contexto social níveis distintos e inter-relacionados, para apreender as interfaces entre condições de vida e saúde, foi adaptado para atender aos propósitos desta pesquisa (Figura 1). O nível mais abrangente considerado foi a cultura indígena rionegrina, entendendo que as produções culturais traçam os contornos dos valores e comportamentos em uma sociedade. Buscou-se uma aproximação com os modos e significados, implícitos ou explícitos, do consumo de bebidas alcoólicas, nos mitos e ritos rionegrinos, entendidos como marcadores culturais que orientam normas de comportamento. Igualmente foram valorizados os rituais de iniciação como demarcadores de mudança de status social na população mais jovem.

No nível organização sociopolítica de Iauaretê, se explorou o impacto do crescimento demográfico e da convivência multiétnica nas formas de interação social, e suas possíveis relações com o incremento de situações em que se consomem bebidas alcoólicas.

As condições de vida foram associadas, no contexto de Iauaretê , ao acesso a diferentes bens e serviços, como escola formal, seguridade social, empregados assalariados e transportes, ou seja, às inovações contemporâneas do viver indígena. Já no estilo de vida, alocou-se o consumo de bebidas alcoólicas, tanto nos aspectos que se referem ao processo de alcoolização, quanto aos problemas juvenis relacionais ao uso desta substância.

Respostas sociais de enfrentamento foram entendidas como "mediadas pela consciência individual e coletiva acerca das possibilidades de modificação dos problemas"10; foram remetidas à movimentação social estruturada em torno do beber-problema.

 

Resultados e discussão

Culturas rionegrinas

Nestas culturas, definem-se como consanguíneos os descendentes de um grupo de irmãos ancestrais, que partilham uma língua comum. Os parentes estão agrupados em unidades sociais menores, sibs, que dispunham, tradicionalmente, de locais específicos de moradia, nos quais erguiam suas casas comunais (malocas). Os consanguíneos devem buscar esposas junto a falantes de outra língua que residiriam em outras localidades2,3.

Na mitologia, os cunhados potenciais, ou reais, são representados como inimigos, cuja periculosidade pode ser "domesticada", mas jamais anulada, pelo estabelecimento das trocas matrimoniais2.

Conforme a tradição, o consumo ritual de caxiri teria a potencialidade de promover a reconciliação dos inimigos, mesmo temporariamente. Entretanto, nestas mesmas ocasiões, conflitos eclipsados no cotidiano podem emergir na forma de agressão. Assim, o consumo coletivo de bebidas alcoólicas é um importante elemento da vida social, que tanto pode atenuar quanto exacerbar as diferenças19.

Os dabucuris são festas-rituais, fortemente associadas às trocas matrimoniais, nas quais se consome caxiri e trocam produtos3. A capacidade de oferta de grande quantidade de caxiri pelos membros de uma aldeia evidencia o prestígio da liderança. Habitualmente, se estabelece uma rivalidade amigável, em que os visitantes são desafiados a consumir toda bebida, ao passo que estes bravateiam, afirmando que o caxiri ofertado é pouco, em comparação aos regalos trazidos para os anfitriões7,20.

Outrora, a plena participação nestas festas se dava após o ritual de iniciação, que ocorria entre doze e treze anos4. Durante o processo preparatório, o iniciando era enclausurado e emergia no universo cultural do grupo. Nas festas, o jovem iniciado passava a usar pinturas faciais e os adornos específicos de seu sib, diferenciando-se dos não-iniciados (crianças)4. A capacidade de ingerir grandes quantidades de caxiri e dançar por horas era indicativa da virilidade juvenil, sendo objeto de orgulho para os seus parentes21.

Somente após o ritual de iniciação, que propiciava a plena identificação como membro do grupo, o jovem estaria apto à busca de parceiras sexuais legítimas, em condição de se tornarem esposas. E apenas após o nascimento de seus filhos, o iniciado seria considerado adulto2.

Organização sociopolítica de Iauaretê

Em 2007, a população dessa localidade era estimada em 2.779 habitantes, o quíntuplo daquela existente em 19757. Lá estão representados praticamente todos os grupos étnicos da região. Em Iauaretê, os pequenos e dispersos assentamentos tradicionais, formados por homens de um mesmo sib, foram substituídos por populosos bairros indígenas multiétnicos.

Iauaretê está divida em dez bairros, ou vilas. Cada um possui capela, com seu santo padroeiro, um salão comunitário, onde se realizam festas e outras reuniões; figuras de relevância social como o capitão (chefe político da comunidade), animador, catequista, agente comunitário de saúde e times esportivos de jovens, que competem entre si.

Nos bairros de Iauaretê, observa-se uma releitura dos ideais de autonomia e independência dos pequenos e dispersos grupos de parentesco, que operam no sentido de evitar a fusão e a perda de limites entre as unidades sociais18. Ali, os grupos de vizinhança, formados por parentes e não-parentes, buscam manter relações de apoio e solidariedade, em contraposição aos moradores de outros bairros. A proximidade territorial substitui, em certa medida, as formas de socialização típicas da consanguinidade.

Cada vila é um território específico, que interage com outros territórios-vilas que formam o tecido urbano. Em Iauaretê7, como em outros contextos urbanos do Alto Rio Negro8, o modo de vida aldeã é a referência contra a qual a vida citadina é contrastada. Assim, as vilas de Iauaretê são estruturadas, simultaneamente, segundo as relações de parentesco e pelos novos padrões de assentamento advindos do contato interétnico.

A realização de festas com consumo de bebidas alcoólicas é um meio recorrentemente utilizado na construção e manutenção da identidade grupal. Convidar moradores de outras vilas para suas festas, ou visitá-los em suas comemorações, preserva a distinção entre "nós" e os "outros", ainda que para diluí-las, parcial e temporariamente, no consumo de bebidas alcoólicas.

A partir de sexta-feira ocorrem, concomitantemente, festas nos salões das diferentes vilas. A idéia de uma festa organizada com todos os moradores não parece fazer sentido. Quando o pároco da missão salesiana resolveu que a festa de São Miguel Arcanjo seria coletiva, os moradores da vila de mesmo nome realizaram no fim de semana anterior à celebração oficial, uma festa própria, demarcando sua especificidade frente às outras vilas.

Além das festas comunais, proliferam outras formas de socialização, mais ligadas ao modo de vida urbano, como as comemorações cívico-religiosas (dia da independência, do índio, carnaval)6, e as festas "particulares", como os casamentos e aniversários. Nestas últimas, as interações entre os convivas podem congregar redes de vizinhança, independentemente do pertencimento a bairros determinados. Há, portanto, uma pulverização dos espaços de convivência que proliferam as festas e a ampliam a oferta de bebidas alcoólicas.

 

Condições de vida

Fomos educados no internato dos missionários

No contexto rionegrino, com a introdução da escola formal, dificultou-se a participação dos alunos nos rituais de iniciação e os apartou dos mais velhos. Estes fatos tanto minaram as principais formas de aprendizado dos conhecimentos e valores culturais indígenas, quanto os mecanismos tradicionais de definição do status de adulto naquelas sociedades.

Com o fim dos rituais de iniciação, com o prolongamento dos anos escolares e a postergação do casamento, vem-se construindo uma nova categoria social, temporalmente dilatada e de limites imprecisos, a de "juventude". O consumo de caxiri era algo esperado de um jovem iniciado de doze ou treze anos21. Entretanto, anciãos de Iauaretê, que foram alunos do internato, dizem ter iniciado o uso de bebida com idade mais avançada, pois os padres não lhes permitiam beber.

Com o fim do internato, os jovens passam a beber mais cedo, como "antigamente", para espanto de seus pais e avós. Isso ocorre num contexto no qual aquele que é chamado de jovem é também associado à categoria de aluno e, conforme uma liderança indígena, "quem está nesta categoria ainda é criança".

Eles têm os amigos da escola

Na escola, convivem jovens de diferentes vilas. Facilmente um jovem terá informações sobre situações de consumo de bebidas alcoólicas que ocorrem nas diferentes vilas de Iauaretê . Ocorrendo uma festa na vila de um "amigo da escola", um jovem pode ser convidado a beber caxiri. Uma vila distinta da sua é um lugar de "outras" pessoas. A relação com os amigos da escola lhe permite uma aproximação menos tensa, porém, o salão comunitário, com suas formalidades, sobretudo no começo da festa, é um espaço pouco convidativo. De forma mais comum, antes de se dirigirem ao local da festa, os jovens ficam bebendo caxiri, na casa de um amigo, residente local.

Aos sábados, as festas iniciam por volta de 13 horas, como capitão da vila explicando os motivos da festa e pedindo que todos bebam juntos e tranquilos. Nesta hora, praticamente não há jovens no salão. Eles estão nas casas, seja nas suas, recebendo visitas, ou nas de outros, sendo visitante.

Pais, mães e lideranças não aprovam esta prática. Entretanto, dizem que não podem expulsar os jovens visitantes e que não lhes oferecer caxiri daria a entender que têm inimizade com eles ou com seus pais. Além disso, caso o filho disponha de pouco caxiri para oferecer aos amigos, isso seria algo vexatório, subentendendo sovinice (recusa a partilha) ou preguiça (sobretudo da mãe do jovem, que não teria preparado uma boa quantidade da bebida).

A depender do ponto de vista, o jovem anfitrião é representado como alguém que "desencaminha" o outro jovem ao chamá-lo para sua casa, obrigando-o a beber grandes quantidades de caxiri. Alternativamente, o visitante pode ser descrito como alguém que se aproveita das regras de etiqueta local para beber o "pouquinho" de caxiri que a mãe de seu amigo preparou para levar para o centro comunitário.

A ida à casa do amigo permite tanto uma entrada menos abrupta num espaço da alteridade (o salão comunitário), como multiplica as oportunidades de beber, criando-se um espaço juvenil para esta prática, diferenciado do ambiente de consumo coletivo. Possuidores de uma rede heterogênea de contatos nos diversos bairros, os jovens passam, sem maiores dificuldades, a transitar de vila em vila, consumindo caxiri.

Aqui é proibido, mas muitos índios estão trazendo

Apesar da venda de cachaça ser proibida em terra indígena22, é fácil encontrar este produto em Iauaretê. A relativa facilidade de deslocamento entre Iauaretê e a sede municipal, propiciada pela grande circulação de barcos, facilita a entrada de cachaça, seja para consumo pessoal ou para venda.

Diferentemente do observado em outras localidades da região6, o acesso dos jovens a esta bebida parece ser maior, ainda que os preços sejam elevados. Isso ocorre num contexto no qual é maior a circulação de dinheiro. Para comprar cachaça, os jovens podem valer-se das amizades com militares indígenas; vender produtos extrativistas; ludibriar aposentados ou coagir parentes idosos que "não vêm seu dinheiro, porque os netos pegam tudo", conforme um septuagenário. Em algumas situações, observou-se que os pais ou avós simplesmente davam dinheiro para os jovens, a fim de "fazê-los felizes". Uma vez obtido o dinheiro, os jovens costumam se cotizar e comprar cachaça.

Assim, a crescente monetarização das relações, associada ao incremento da circulação de pessoas e produtos entre Iauaretê e São Gabriel da Cachoeira, é um fator que vem confluindo para facilitar o acesso dos jovens as bebidas alcoólicas industrializadas.

Respostas sociais de enfrentamento

Dados etnográficos apontam que no Alto Rio Negro, como em outras sociedades indígenas, o controle sobre o beber é intrinsecamente relacionado à disponibilidade da bebida6,23. Analogamente, em Iauaretê, as estratégias aventadas para lidar com o beber-problema juvenil buscavam restringir o acesso a bebidas.

Porém, durante a pesquisa de campo, observou-se que estas propostas não eram efetivadas na prática. Os dados mostram que as festas cumprem uma função muito mais ampla que o congraçamento entre os presentes. Assim, a redução das festas demandaria a alteração de estruturas culturais que demarcam a identidade dos grupos e as relações de prestígio das lideranças. A redução, ou supressão, desses eventos obrigaria as lideranças a buscar novos caminhos para apaziguar diferenças e circunscrever hostilidades. Trata-se de uma difícil tarefa, sobretudo se consideramos a fragilidade dos laços que unem os moradores das vilas, que se valem principalmente da condição de coresidentes para manter a coesão social necessária à vida comunal.

Outro aspecto relevante está ligado à participação feminina nesse contexto. Tradicionalmente, a mulher é responsável pela produção de alimentos e bebidas, o caxiri inclusive. Provê-los em grande quantidade é algo esperado e demandado do pólo feminino dos núcleos familiares8. Suprimir a produção de caxiri implicaria em solapar o ideal do zelo feminino com a roça e manufatura de produtos derivados da mandioca.

Ademais, nas últimas décadas, as mulheres de Iauaretê passaram a auferir lucro com a venda do caxiri. Iniciativas para reduzir sua venda geraram descontentamento entre as mulheres, porque essa fonte de renda representa um aporte financeiro importante para a manutenção das unidades domésticas, num contexto de progressiva ampliação da dependência de bens industrializados de consumo.

No plano político, algumas lideranças associam a proibição legal de entrada da cachaça em área indígena a uma manifestação do sistema jurídico tutelar, que considera o índio legalmente incapaz. Alguns indígenas que se manifestam a favor da proibição comercializam cachaça em Iauaretê. Outros são a favor da proibição da entrada desta bebida, mas caso tenham acesso a ela, costumam consumi-la. Em síntese, esta é uma questão em torno da qual é difícil se construir um único consenso.

Por fim, um grupo minoritário de lideranças aponta a necessidade de se repensar não apenas o modo de beber dos jovens, mas o próprio modo de se viver em Iauaretê. Posta em prática por alguns anciãos, observou-se uma abordagem baseada na idéia de que o controle dos excessos alcoólicos dos jovens passa pela revalorização do respeito à hierarquia ritual característica do modo tradicional de vida2,3, pelo aprendizado dos mitos, das músicas, danças e outras práticas ancestrais que vem caindo progressivamente em desuso na região. Fiéis à sua proposta, esses anciãos vêm investindo no ensino de danças e mitos para os jovens, utilizando, para tal, o espaço interior de malocas reconstruídas por lideranças das associações indígenas. Seu trabalho é apoiado por uns, criticados por outros. Para alguns, o mundo mudou e este tipo de conhecimento não teria mais serventia. Para estes anciãos, o mundo mudou e é por isso que concebem a possibilidade de mudança da situação atual de Iauaretê, e vêem no retorno às tradições uma alternativa para promoção de mudanças sociais.

 

Considerações finais

Em Iauaretê , cada vila-bairro é vista como uma localidade autônoma, operando em moldes semelhantes ao de uma aldeia indígena, alternando alianças e disputas com consanguíneos e afins, num processo intensificado pela proximidade e pela alta densidade demográfica. Neste contexto, multiplicam-se as situações em que se bebe, que remetem à criação e manutenção de sentimentos de pertencimento e de demarcação de diferenças, fazendo parte dos mecanismos sociais de gerenciamento de conflitos.

A inserção da juventude no tecido social é precária, situando-se a meio caminho entre a posição chancelada pela tradição (recém-iniciado, na ausência de iniciação) e aquela gerada pela colonização (estudante-infantilizado). Ademais, com os novos padrões de territorialização, reordenam-se as formas de interação entre os subgrupos de jovens e suas famílias. Sai do primeiro plano o pertencimento à descendência de ancestrais comuns e se tornam preponderantes os grupos de vizinhança (vilas, formadas por parentes e não parentes que se tornam coresidentes), de amigos da escola (moradores dos diferentes bairros) e outros.

Neste cenário, os jovens estão inseridos em múltiplas redes de interação social, que igualmente têm no consumo grupal de bebidas alcoólicas um mecanismo de expressão de alianças. Através destas redes, os jovens podem se cotizar para comprar bebida (caxiri ou cachaça), beber longe do olhar dos pais quando vão para casas de amigos em outras vilas e criar um ambiente juvenil de consumo.

Ao incidirem nestes jovens de status ambíguo e de redes de interação amplas, as regras de etiqueta social tornam-se inevitavelmente contraditórias. Por um lado, sendo estudantes, são equiparados a crianças, que não deveriam beber; tal pensamento é influenciado pela experiência dos mais velhos como alunos do internato missionário. Por outro lado, demanda-se dos jovens que ingiram grandes quantidades de caxiri, demonstrando tanto sua virilidade, como sua confiança e respeito pelos anfitriões. Valendo-se destas mesmas regras, os jovens reivindicam que lhes seja servido caxiri, seja nos contextos de consumo coletivo, nos salões comunitários, ou microgrupais, na casa de amigos. Ademais, o dinheiro obtido pelos jovens torna-os compradores de bebida, inserindo-os nas relações de comércio que geram renda para outras famílias, num contexto de crescente monetarização.

Assim, observa-se que em Iauaretê vêm ocorrendo importantes transformações na organização social e nas condições de vida, que se refletem nos modos de beber, particularmente daqueles que são chamados de jovens. Porém, diferentemente do senso comum local, o modo de beber juvenil não se configura como resultante de um sistema cultural combalido e perdido. Alternativamente, é esse próprio sistema que configura e cria condições de possibilidade para esta prática juvenil, mesmo que para isso pague-se um preço, na medida em que os mecanismos tradicionais/comunais de coibição de excessos são incapazes de operar plenamente no estilo urbanizado de vida praticado em Iauaretê.

Através da etnografia realizada, evidenciaramse as relações que se estabelecem entre o modo de vida indígena contemporâneo e a representação e configuração de agravos à saúde, localmente identificados como prioritários, como no caso do beber-problema juvenil. Entende-se que, através desta pesquisa, puderam-se aventar alternativas teórico-metodológicas para investigar as relações que se estabelecem entre os modos de vida e a produção da saúde e da doença, incorporando a esta análise a cultura (e sua transformação), a vida cotidiana (e suas contradições), as pessoas (e suas subjetividades).

 

Colaboradores

MLP Souza participou da pesquisa de campo, da concepção e da redação final do artigo. L Garnelo e SF Deslandes participaram de todas as etapas acima, com exceção da pesquisa de campo.

 

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Artigo apresentado em 09/03/2009
Aprovado em 16/06/2009
Versão final apresentada em 22/06/2009