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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15 n.3 Rio de Janeiro May. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000300015 

ARTIGO

 

Tabaco na mídia: análise de matérias jornalísticas no ano de 2006

 

Tobacco in the media: analysis of journalistic texts in the year of 2006

 

 

Alex Eustáquio de LacerdaI; Fábio de Carvalho MastroianniII; Ana Regina NotoIII

ICurso de Medicina, Universidade Federal de São Paulo. Rua Pedro de Toledo 650/1º andar, Vila Clementino. 04039-002 São Paulo SP. alexminasepm@gmail.com
IICentro Universitário Araraquara
IIIDepartamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo

 

 


RESUMO

Visando compreender a relação entre saúde, imprensa e políticas públicas sobre tabaco no Brasil, foram analisadas matérias sobre tabaco divulgadas na imprensa brasileira no ano de 2006. Através de clipping jornalístico de oito principais jornais e revistas do país, as matérias sobre tabaco foram identificadas e posteriormente submetidas à análise de conteúdo, que permitiu categorização e classificação dos textos. A frequência de matérias de 2006 foi comparada aos anos de 2000 e 2003. Foi observado predomínio de matérias com abordagem factual (46,7%). A maioria das matérias fez menção a consequências negativas, como problemas de saúde física (44,2%), morte (20%) e dependência (14,2%). Na análise das manchetes e lides, as principais categorias observadas foram políticas de controle e o movimentos antitabagistas e divulgação de pesquisas. A frequência de matérias de 2006 (N=120) foi semelhante ao ano de 2003 (N=124) e inferior a 2000 (N=174). A cobertura jornalística sobre tabaco em 2006 foi predominantemente restrita aos danos a saúde e ações antitabagistas. A elevada proporção de abordagem factual e a estabilização da frequência de matérias (2003-2006) podem indicar um empobrecimento na discussão sobre o tema no país.

Palavras-chave: Tabaco, Imprensa, Políticas de saúde, Análise de conteúdo


ABSTRACT

Aiming at understanding the relation among health, press and public policies on Tobacco in Brazil, this article analyses the texts about Tobacco published in the Brazilian press in 2006. In the clipping process of eight newspapers and magazines, the information about Tobacco were identified and then submitted to content analysis allowing categorization and classification of the texts. The frequency of the texts in 2006 was compared to that of in 2000 and 2003. We observed a higher prevalence of factual approach among the texts (46.7%). Most of the texts mentioned the negative consequences, such as physical health problems (44.2%), death (20%) and dependence (14.2%). The analysis of the headlines and lead-ins showed control policies, anti-smoking movements and spreading of results as the main categories observed. The frequency of the articles in 2006 was similar to that of in 2003 and lower to that of in 2000. The journalistic coverage on Tobacco in 2006 was restricted predominantly to harm to health and anti-smoking movements. The high proportion of the factual approach and the stabilization in the frequency of texts (2003-2006) might suggest an impoverishment of the discussion on this issue in the country.

Key words: Tobacco, Press, Health policies, Content analysis


 

 

Introdução

O hábito de fumar é considerado fator de risco para uma série de consequências à saúde, como doenças respiratórias, neoplasias e alterações cardiovasculares1. De acordo com o Banco Mundial2, o consumo do fumo também acarreta prejuízos econômicos, associados à sobrecarga do sistema de saúde, mortes em idade produtiva, aposentadoria precoce, faltas ao trabalho, entre outros. Em um levantamento domiciliar realizado nas 108 cidades brasileiras com mais de 200.000 habitantes, 44% dos entrevistados entre 12-65 anos relataram já ter fumado pelo menos uma vez na vida; 10,1% dos entrevistados preencheram os critérios de dependência de tabaco3.

Nos últimos anos, políticas públicas sobre tabaco foram discutidas e implementadas no Brasil, como a Lei nº 9.294 (1996), que restringiu o uso e a propaganda de produtos fumígeros, e a Lei nº 10.167 (2000), que proibiu definitivamente as propagandas desses produtos. Essa última proibição foi acompanhada da redução do consumo de tabaco entre estudantes das 27 capitais brasileiras4,5. Paralelamente, Mastroianni6, ao estudar a cobertura jornalística, entre 2000 e 2003, observou alta frequência de matérias sobre tabaco relativas à saúde e comportamento.

Os meios de comunicação representam um dos principais elos para a compreensão da dinâmica entre comportamento humano, contexto social e políticas públicas. De acordo com a teoria de agenda-setting, a imprensa seleciona os conteúdos a serem considerados importantes na agenda de acontecimentos. A prioridade atribuída aos temas influencia a opinião pública que, por sua vez, exige políticas para o setor, estabelecendo uma interatividade entre imprensa, sociedade e governo7,8. A imprensa também contribui para a formação de conceitos, atitudes e expectativas sociais que podem favorecer um clima de aceitação, ou rejeição, de questões críticas9,10.

Em relação ao tabaco, estudos internacionais consideram que a imprensa pode ter favorecido a adoção de políticas de controle em alguns países. Durrant et al.11, ao analisarem 1.188 matérias sobre o tabaco, publicadas nos principais jornais australianos, no ano de 2001, concluíram que a cobertura jornalística foi favorável ao controle do tabaco, o que pode ter contribuído para a implementação de políticas no país. Clegg Smith et al.12 analisaram 9.859 artigos sobre tabaco em cem jornais americanos entre 2001 e 2003, notando a ênfase em políticas do controle do uso de tabaco. Løchen et al.13, ao analisarem imagens e textos sobre tabaco em sete jornais e dezenove revistas norueguesas nos anos de 1998 a 1999, observaram que itens promovendo o fumo foram mais comuns que a cobertura sobre problemas de saúde (71% vs 29%).

Apesar dos estudos internacionais mostrarem a influência do jornalismo nesse tipo de mudança, nenhuma pesquisa brasileira foi realizada com foco específico sobre o processo jornalístico relativo ao tabaco. Nesse sentido, este artigo tem por objetivo apresentar e discutir o conteúdo das matérias publicadas sobre tabaco nos principais jornais e revistas de circulação nacional, no ano de 2006, em relação aos seguintes aspectos: tipo de veículo de comunicação, classificação jornalística, fonte(s) das informações, consequências negativas e funções positivas do uso, formas de lidar com a questão, bem como os lides das matérias. O artigo avalia também tendências temporais, por comparação dos resultados de 2006 com estudos realizados nos anos de 2000 e 2003 (os quais utilizaram a mesma metodologia).

 

Metodologia

Amostragem e organização das matérias jornalísticas

O material pesquisado foi composto por todas as matérias jornalísticas publicadas, de janeiro a dezembro de 2006, em oito veículos brasileiros de comunicação: cinco jornais (Correio Brasiliense, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo) e três revistas (Época, Isto É e Veja). Estes veículos foram escolhidos por possuírem circulação nacional, por fazerem parte da "grande imprensa" (possuem as maiores tiragens nacionais) e por terem forte impacto em todos os estados brasileiros, sobretudo nos principais centros de decisão política (São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília). A busca das matérias foi conduzida por uma empresa especializada em clipping jornalístico, por meio de leitura diária dos oito veículos pesquisados.

Foram selecionadas para análise as matérias que tratavam do tema tabaco em mais da metade de seu conteúdo, ou que tinham este tema explícito em manchete. A título comparativo, também foram contabilizadas as matérias sobre álcool, maconha e cocaína. Para acompanhar a qualidade do processo de clipping, periodicamente foi repetida a inspeção de uma subamostra dos exemplares dos jornais e revistas pesquisados.

As matérias selecionadas no clipping foram recortadas e identificadas de acordo com o veículo de comunicação, a sessão e a data de publicação. Para cada matéria, foi organizada uma ficha composta pelo recorte da mesma e um cabeçalho com sua identificação.

Análise quantitativa

Para quantificação de alguns dados, foi utilizada a análise de conteúdo, do tipo categorial quantitativo. Trata-se de uma técnica frequentemente utilizada para analisar cientificamente as mensagens divulgadas na mídia (textos, entrevistas, entre outros). Essa técnica busca, de forma objetiva e sistemática, categorizar os conteúdos do material pesquisado, com a finalidade de quantificar elementos e, dessa forma, possibilitar tratamento estatístico e generalizações14.

As matérias selecionadas para a análise foram codificadas com base em um sistema de categorias desenvolvido e testado em estudos anteriores6,15. Foram pesquisadas as seguintes categorias gerais: classificação jornalística da matéria, tema central, consequências negativas do uso, função positiva do uso, causas do uso/dependência, questões familiares, soluções/intervenções para lidar com a questão apresentada, personagens, adjetivação do usuário e fonte(s) das informações.

As matérias selecionadas no clipping foram então submetidas a um processo de codificação realizado por profissionais (codificadores) treinados, pautados em definições objetivas das categorias e em procedimentos padronizados de codificação. As informações obtidas com processo de codificação foram então transferidas e processadas em programa eletrônico, o qual permitiu o cruzamento de informações para a realização da análise quantitativa do processo.

A confiabilidade do processo foi avaliada por meio da codificação em duplicata (por dois codificadores independentes) de uma subamostra aleatória de 10% das matérias pesquisadas. A concordância foi medida por meio do coeficiente estatístico Kappa. Apenas a categoria "tema central" apresentou concordância abaixo do limite aceitável (k<0,8).

Análise qualitativa

Os lides e as manchetes das matérias foram transcritos e submetidos a um segundo processo de análise de conteúdo, porém com categorização e codificação definidos a partir das peculiaridades das matérias. O lide da matéria é geralmente apresentado no primeiro parágrafo e representa a idéia central da matéria. No entanto, algumas matérias são iniciadas com uma breve contextualização (por exemplo, apresentação de um caso) e, nesses casos, o lide pode aparecer logo em seguida. O lide também pode aparecer na forma de subtítulos da matéria. Essa abordagem permitiu a identificação de temas que guardavam relativa homogeneidade entre si e que se repetiram com mais frequência. A partir desse processo, foram definidas as seguintes categorias: ações antitabagistas, divulgação de pesquisas, economia, processos contra a indústria de tabaco e outros.

 

Resultados

Foi verificado que, no ano de 2006, houve a publicação, por parte dos oito veículos, de um total de 120 matérias relacionadas ao tabaco (Tabela 1), o que correspondeu a 30,3% do total de 396 matérias sobre drogas (tabaco, álcool, maconha e cocaína). Observou-se que o veículo com o maior número de matérias sobre tabaco foi o jornal Estado de São Paulo (N=33), seguido pelo jornal Folha de São Paulo (N=31). Entre as revistas, a Veja (N=7) divulgou a maioria das matérias.

 

 

Em relação ao nível de abordagem das matérias houve predominância do nível de factual (46,7%), que é uma abordagem mais superficial e mais restrita à descrição de um fato. Em relação a abordagens mais aprofundadas, as matérias se dividiram em contextuais (20%) e contextuais explicativas (27%). As principais fontes jornalísticas utilizadas para a produção das matérias foram profissionais/especialistas (45,0%) como médicos, coordenadores de programas antitabaco, diretores de recursos humanos. Também foram muito frequentes matérias que fizeram referência a políticas e leis (34,2%) e pesquisas científicas (34,2%). Entre os doze (10%) usuários/fumantes apresentados como personagem das matérias, todos eram "ex-fumantes" que tiveram problemas de saúde física.

Na análise de conteúdo, observou-se que as principais consequências negativas do uso foram problemas relacionados à saúde física (44,2%). Outras consequências observadas foram relacionadas à morte (20,0%) e à dependência (14,2%). Não foram observadas consequências negativas relacionadas a problemas sociais, como na escola, trabalho ou família.

A maioria das matérias (111; 92,5%) não fez referência a efeitos positivos do cigarro. Em relação às demais, oito (6,7%) fizeram referência ao prazer de fumar e apenas duas (1,7%) ao alívio do desconforto (tensão/ansiedade) relacionado ao ato de fumar.

Como apresenta a Figura 1, a frequência de matérias no ano de 2006 (N=120), comparada aos anos anteriormente pesquisados (2000 e 2003), mostrou-se semelhante ao ano de 2003 (N=129) e inferior ao ano de 2000 (N=174; teste qui-quadrado p<0,01).

 

 

Análise qualitativa

A partir da leitura dos lides das 120 matérias, foram identificadas as categorias de análise predominantes: ações antitabagistas (35%), divulgação de pesquisas (33%), processos contra a indústria de tabaco (8%) e economia (7%).

Na categoria de ações antitabagistas, foram matérias referentes a proibições, restrições/censuras e campanhas/movimentos contra o tabaco. Destacou-se o número de matérias tratando de leis de proibição do fumo em lugares públicos/fechados em países europeus ("Inglaterra Bane Fumo" - O Globo; "Europa Amplia Restrições a Fumantes" - O Globo; "França Proibirá Fumo Em Lugares Públicos" - Folha de São Paulo), que corresponderam à maioria das matérias relacionadas a proibições. Em relação às restrições, destacaram-se matérias relacionadas ao corte de cenas de fumo em desenhos animados ("Tom & Jerry Sem Cigarro" - Isto É; "Cenas Cortadas"- Época). Em relação a campanhas e movimentos, a maioria foi divulgada no mês de maio, em função do dia mundial do combate ao fumo.

A divulgação de pesquisas representou a segunda categoria mais abordada pela imprensa, com temas relativos a comportamento, tratamento/prevenção e saúde. A prevalência do uso de cigarro em faixa etária específica (jovens, idosos) ou sexo (mulheres/homens) corresponderam as principais matérias relacionadas a comportamento ("Mulheres Fumam Mais Que os Homens, Diz Pesquisa" - O Globo; "Pesquisa Indica Que Idosos Solteiros Fumam Mais" - Folha de São Paulo). Em tratamento/prevenção, destacaram-se as pesquisas relacionadas a novos medicamentos, com importante enfoque no lançamento da substância Vareliclina (Champix®), utilizada no tratamento da dependência do cigarro ("Nova Arma Contra o Fumo" - Época; "O Arsenal Aumenta" - Veja). Nas pesquisas relacionadas à saúde, destacaram-se as matérias que abordavam o fumo passivo ("Fumo Passivo Aumenta o Risco de Cegueira" - Folha de São Paulo; "Fumo Passivo Dobra as Chances de Crises Persistentes de Tosse" - Jornal do Brasil).

Processos contra a indústria do tabaco, embora menos prevalente (8%), foi outro tema abordado com certa recorrência, principalmente o processo contra os cigarros light, que pode chegar a prejuízo de 200 bilhões de dólares às indústrias tabagistas ("Processo de Us$ 200 Bi Contra Cigarros Light - O Globo; "Fabricantes de Cigarros Light Enfrentam Ação de Us$ 200 Bi" - Folha de São Paulo; "Ação Pede Us$ 200 Bi de Produtor de Cigarro Light" - Folha de São Paulo).

Na categoria economia (8%), a briga por mercado entre as empresas produtoras de cigarro ("Informe Econômico > Guerra do Cigarro" - Jornal do Brasil; "Com Novo Comando, Philip Morris Vai ao Ataque Contra a Souza Cruz" - Estado de São Paulo) e tentativa de elevar as exportações ("Informe Econômico > Setor Quer Exportar Us$ 5 Bi" - Jornal do Brasil) foram os principais assuntos abordados.

Entre os outros temas abordados (17%), foi observada uma grande diversidade e matérias, como análise de filmes que tratam do tema ("Bastidores do Mercado Tabagista na Tela" - O Globo), uso do tabaco para outros fins ("Tabaco Transgênico Contra o Vírus da Aids" - Jornal do Brasil), dentre outros. Foi observado um único artigo ("Sobre Cafés E Cigarros" - Jornal do Brasil) que levantou uma posição de questionamento frente à validade do controle social do tabaco, pautada na liberdade individual.

 

Discussão

A importância atribuída pela imprensa ao tabaco é expressa quando se compara a proporção de matérias, publicadas nos veículos pesquisados, em relação às demais drogas. Essa preponderância de matérias sobre tabaco também foi observada nos estudos anteriores6,15. Em comparação com os dados de 2003, a frequência de matérias sobre tabaco em 2006 se manteve constante na mídia.

Entretanto, a frequência de matérias de 2000 foi superior aos anos subsequentes. Esse fenômeno pode ter como explicação a promulgação da Lei nº 10.167 no ano de 2000, que proibiu definitivamente as propagandas relacionadas a produtos fumígeros, gerando um maior debate político sobre ações antitabagistas naquele ano6. Paralelamente, foi observada redução no consumo do tabaco entre estudantes nas capitais brasileiras4,5. De acordo com a teoria de agenda-setting, todos esses fenômenos estariam interligados7,8. A maior discussão sobre o tabaco poderia ter influenciado a implantação da lei, bem como esta, dentro de uma dinâmica circular, teria propiciado ainda mais discussão na imprensa. Dessa forma, a imprensa, indiretamente, estaria relacionada com a diminuição do consumo.

Por outro lado, houve uma mudança no nível de abordagem em 2006, pois este tornou-se mais factual em relação aos resultados de 2000 e 2003. A abordagem factual é caracterizada pela superficialidade e geralmente se prende à descrição de um tema específico. Esta mudança pode sugerir que a riqueza de debates observada em 2000 teria perdido intensidade ao longo dos anos subsequentes, com redução de matérias e estreitamento do conteúdo das mesmas.

O debate político sobre ações antitabagistas (proibições, restrições e campanhas e movimentos), um dos principais focos da mídia brasileira em 2006, também tem sido observado em outros países. Durrant et al.11 observaram, ao analisarem matérias sobre tabaco em jornais da Austrália no ano de 2001, que a cobertura jornalística foi favorável ao controle do tabaco, assim como Clegg Smith et al.12 que, ao analisarem artigos sobre tabaco em jornais dos Estados Unidos entre 2001 e 2003, notaram a ênfase em políticas do controle do uso de tabaco. A importância dada a este tema, de acordo com a teoria de agenda-setting, pode contribuir para a implementação de políticas de controle no país. Dessa forma, o considerável número de matérias em 2006 relacionadas ao controle do fumo em locais públicos em países europeus (França, Inglaterra, Irlanda, Itália, Espanha) pode indicar um momento favorável a formulação de leis nacionais voltadas à restrição ao uso do tabaco.

Evidências sobre a influência da mídia na opinião pública e nas políticas públicas também derivam de estudos sobre media advocacy, que é o uso deliberado da mídia por grupos interessados em avançar questões específicas, promovendo mudanças específicas de atitudes, comportamentos e políticas públicas11. Em relação à proposta de media advocacy, Jeff et al.16, ao analisarem 256 jornais nos Estados Unidos, de 1998 a 2001, concluíram que houve aumento de matérias relacionadas a um grupo antitabagista (Students Working Against Tobacco - SWAT) no período. Dentro dessa perspectiva, foi observado neste estudo que as matérias de 2006 relacionadas a grupos antitabagistas se concentraram em um curto período do ano (maio de 2006) e foram relacionadas a campanhas promovidas por estes grupos em face ao Dia Mundial sem Tabaco (31/05). No entanto, essa divulgação pontual pode ser considerada subutilização dos recursos da media advocacy, a qual, para ter maior efetividade, deve ser mais constante.

A elevada frequência de divulgação de pesquisas sobre comportamento e sobre tratamento reflete, em parte, o lançamento de medicamentos. No ano de 2006, foi lançado no mercado o Champix®, medicamento cujo princípio ativo é a valericlina e atua na dependência do tabaco reduzindo a sensação prazerosa. Essa cobertura, por parte da imprensa, favorece e reforça o movimento crescente de cessação do hábito de fumar. Além disso, a maioria das matérias abordou os danos associados ao tabaco com base em dados de pesquisas científicas. Esse tipo de divulgação "fundamentada em dados" representa, de acordo com a literatura, um maior poder de influência frente a opinião pública17.

Apesar da interessante cobertura sobre abordagens farmacológicas, é importante ponderar que o tratamento da dependência envolve a necessidade de abordagens multidisciplinares. As possibilidades de tratamento não farmacológicos incluem aconselhamento médico, materiais de autoajuda, serviços telefônicos (como Viva-Voz), terapia comportamental, entre outros18. Nesse sentido, a imprensa teria realizado uma abordagem mais completa se, além do aspecto farmacológico, tivesse dado semelhante cobertura aos outros aspectos do tratamento.

A distribuição dos temas, entre as matérias que mencionaram problemas relacionados à saúde física e morte, é coerente com as prioridades em saúde relacionadas ao consumo do tabaco. Oliveira et al.19, em revisão da literatura sobre a mortalidade atribuível ao tabaco, observaram elevadas taxas de mortalidade, entre 18%-23%, a maioria das quais relacionadas a casos de câncer de vias respiratórias, doenças cardiovasculares, DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e doenças cerebrovasculares.

No entanto, a cobertura focada exclusivamente em consequências negativas indica que o debate sobre o tema tabaco na mídia em 2006 foi parcial. Além disso, o debate também privilegiou o controle social, o qual pode ter uma série de repercussões positivas como, por exemplo, o estímulo ao debate político. Por outro lado, o intenso controle social também pode ser questionado, por exemplo, em função de prejudicar a liberdade individual. Neste estudo, foi observada uma única matéria (um artigo) que apresentou esse contraponto.

A imprensa tem a função de informar os diferentes aspectos de um determinado tema da forma mais imparcial possível. A parcialidade da imprensa observada neste estudo em relação ao tabaco merece reflexão, na medida em que abriu pouco espaço a discussões mais abrangentes em relação ao tema. Em um estudo qualitativo com jornalistas brasileiros20, foi observado que a maioria dos entrevistados indicou a preocupação em não estimular ou incentivar o uso, apontando que tal prática pode trazer complicações para o jornalista. Nesse sentido, parece existir uma tendência a privilegiar a opinião pública dominante, que isenta o jornalista de contradições com a opinião pública, que é o seu leitor/cliente.

Apesar da parcialidade, a frequente cobertura jornalística sobre o tabaco nos últimos anos ocorreu de forma associada à implementação de políticas e, paralelamente, à redução de consumo. Esse panorama reforça a idéia de circularidade entre imprensa/política/comportamento humano e, dessa forma, sugere a importância da imprensa na mudança de comportamento social frente ao uso de drogas.

 

Conclusões

O presente estudo mostra que a cobertura jornalística sobre tabaco, nos veículos pesquisados no ano de 2006, foi pautada em danos à saúde, políticas de controle e movimentos antitabagistas. No entanto, foram observadas lacunas na cobertura de contrapontos de opinião e temas complementares, como tratamentos não farmacológicos. Além disso, a estabilização da frequência de matérias sobre tabaco (2003-2006) e o predomínio de abordagem factual no ano de 2006 podem indicar que essa posição tornou-se ponto pacífico em relação ao tema. Esse empobrecimento do debate pode ter impactos no comportamento social e, dessa forma, merece ser acompanhado em estudos futuros.

 

Colaboradores

AE Lacerda participou da coleta, análise e interpretação dos dados e do delineamento e redação do artigo. FC Mastroianni participou da interpretação dos dados e revisão crítica do artigo. AR Noto participou da concepção e o delineamento do estudo, da supervisão da coleta de dados, análise, interpretação dos dados e redação do artigo.

 

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Artigo apresentado em 26/05/2009
Aprovado em 23/08/2009
Versão final apresentada em 12/09/2009