SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 issue6Living a full life without violence at maturity: the contemporary searchHealth care for aged victims of accidents and violence: analysis of SUS health services in Recife (PE, Brazil) author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15 n.6 Rio de Janeiro Sep. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000600005 

DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

Pensando nas origens da violência

 

Thinking on the violence origins

 

 

Delia Catullo Goldfarb

Centro de Pesquisas e Ações em Gerontologia. dcg@dme.com.br

 

 

Este artigo que gentilmente me foi oferecido para debate é perfeitamente adequado às necessidades atuais no que se refere à elaboração de políticas públicas. Bem escrito, claro, contém um detalhamento sobre as medidas vigentes a respeito da condição de cidadania e direitos humanos da pessoa idosa e oferece uma ferramenta útil para todo interessado no tema. Sendo o conteúdo tão bem apresentado e completo em seus objetivos, tecerei alguns comentários sobre o que o artigo me inspira e mobiliza a partir de meu ponto de vista de psicanalista e gerontóloga que pensa a subjetividade humana e deseja contribuir para uma visão cada vez mais abrangente, tão necessária na hora de se elaborarem políticas públicas.

As autoras falam do subregistro de ocorrências e da falta de monitoramento e orientação para o registro contínuo, padronizado e adequado das informações sobre acidentes e violência e, como bem sabemos, o mesmo acontece quando se trata de violência contra crianças, mulheres, homossexuais, moradores de rua; embora as notificações estejam aumentando, ainda estamos longe do ideal. Isto me fez pensar que haveria algo assim como uma categoria de não cidadãos; de carentes de direitos, categoria da qual parecem formar parte os idosos, especialmente os mais empobrecidos e doentes.

Parece que há alguma coisa na violência que incomoda, a ponto de paralisar a ação de quem deveria oferecer o socorro. Que acontece? Por que fechamos os olhos? Que parte de nós não quer saber o que acontece?

Ao longo da história do pensamento humano, a violência sempre foi um interrogante. É um tema que incomoda, uma realidade da qual ninguém escapa. O tema da violência, de qualquer ponto de vista que o abordemos, é extremamente complexo, e nenhuma ciência ou área do conhecimento pode, por si só, dar conta dessa complexidade, e o pior de tudo é que juntando esforços teóricos podemos apenas explicar uma parte ínfima desse fenômeno; apesar disto, continuaremos longe de evitá-la.

A violência forma parte da condição humana. Todos, por muito pacifistas que sejamos, em algum momento nos descobrimos violentos, nos descobrimos odiando e fazendo, ou ao menos desejando, o mal para alguém. Ou seja, todos somos em maior ou menor medida geradores de algum tipo de violência.

Podemos observar que em todas as sociedades há sempre um segmento que é marginalizado, que é isolado, que representa o que deve ser deixado de fora para garantir a coesão e a união do grupo. É claro o que acontece em qualquer comunidade em caso de "agressão externa"; todo mundo se une ante o externo ameaçador, mas às vezes o externo não é em si mesmo agressivo, mas é agressivo por ser externo, diferente e provocar um certo desequilíbrio, um certo desarranjo na harmonia do grupo.

O externo é o estranho, o estrangeiro, mas não um externo longínquo e desconhecido, porque desse não precisamos ter medo, não precisamos deixá-lo de fora; o estrangeiro é o externo próximo, o vizinho, aquele que por sua diferença nos ameaça e nos questiona. Quando à pobreza, por exemplo, estava confinada a determinados guetos e só a conhecíamos através de índices macroeconômicos; não nos afetava como quando, ao chegar em casa, a vemos dormindo em nossas portas. Assusta porque está próxima demais. Queremos que continue sendo um outro distante, mas é um outro próximo. Essa capacidade violenta do ser humano vai mudando segundo as diferentes épocas históricas, segundo as situações sociais que o sujeito vive, criando-se assim diferentes formas de subjetivação em relação à questão da violência. Por isso, quando Simone de Beauvoir diz que o velho é sempre o outro está falando de algo que está fora de nós, de algo no qual não nos reconhecemos, com quem não nos identificamos, de um estrangeiro de nossas vidas que pretendemos sempre jovens. Nós o colocamos de fora, o marginalizamos.

Neste tema da violência há ao menos uma dimensão social e uma subjetiva, mas falar em dimensão é como falar da altura, largura e comprimento de um corpo; não existe uma sem a outra, o corpo não existe sem as três, e esse corpo da violência exige múltiplos olhares para descobrir e entender todas as suas infinitas dimensões. Tanto a dimensão subjetiva quanto a dimensão social de violência são interdependentes, também não existe uma sem a outra.

Há um texto bem interessante que Freud escreveu em 1929: "O mal-estar na cultura", no qual ele se pergunta pela causa da infelicidade humana e apresenta como motivos: o declínio do corpo que nos obriga a estar sempre lutando por um bem-estar físico que parece sempre fugir de nós; as forças da natureza tão difíceis de serem dominadas; a complexidade dos vínculos que sempre nos colocam em confronto com os outros e a consciência de finitude que nos fala de um limite intransponível. Em definitivo, forças que nos violentam em nosso desejo de perfeição, amor incondicional, eternidade.

Nesse mesmo artigo, Freud diz que os vínculos entre humanos são a fonte de maior satisfação e logicamente, também, a de maior sofrimento, pois o homem, graças a sua capacidade agressiva, em seu amor por outro humano, deseja também possuí-lo, dominá-lo. O homem abandona facilmente sua capacidade solidária e pode explorar o outro como força de trabalho, pode explorá-lo sexualmente, pode até escravizar, estuprar, torturar, matar.

Então o que Freud postula é que os sofrimentos subjetivos estão relacionados a um mal-estar cultural e que ao mesmo tempo a cultura protege o sujeito do desamparo que ela mesma produz, organizando as relações humanas, impondo leis que permitem a vida em sociedade, criando mecanismos que regulam os desejos pessoais, que regulam a agressividade. Então fica claro que o que vai regular a agressividade produzida pelo processo de socialização, pelo processo de renúncia às forças mais primárias de todo sujeito, são os mecanismos sociais.

Além das grandes violências como guerras, fome, genocídios etc., temos as não tão pequenas violências cotidianas como a exclusão social, que tem um efeito dessubjetivante, ou seja, que faz com que a pessoa deixe de ser o que era, não só pelo efeito que isto produz nas vítimas, mas também nos resultados sobre o imaginário social, já que quando não se encontram formas adequadas de ser no mundo, os outros também deixam de vê-lo como sujeito social.

Há uma violência originária no processo de socialização que nos transforma em seres humanos completos, em cidadãos. Uma violência necessária que nos determina, que nos empurra a formas preestabelecidas de pensamentos, ideias, valores. Uma violência que determina até sentimentos e reações emocionais, que nos impõe até as palavras que devemos usar para definir todas coisas dentro de um código compartilhado.

Somos homens e mulheres, jovens e velhos, dentro de uma cultura determinada e que nos determina a sermos de uma ou outra maneira, a ter determinados princípios éticos e determinados valores morais e nos oferece um muito pequeno leque de opções para discordar.

A linguagem divide os objetos do mundo em agrupamentos e categorias. Por exemplo: divide em feminino e masculino, singular ou plural, aumentativo ou diminutivo. Quando um técnico diz: "meus velhinhos"para se referir aos cidadãos idosos usuários do serviço em que desempenha sua função profissional, acredito que está dizendo muito mais, tanto no uso do possessivo "meus"quanto no uso do diminutivo "velhinhos". Com muito carinho e muito desejo de ajudar, pode estar executando um ato de exclusão ou de usurpação de um lugar social.

As palavras que usamos em relação às pessoas definem o lugar social que lhes é atribuído e definem as relações de dominação. E em nossa sociedade, o lugar da dominação é atribuído aos adultos. As crianças e os adolescentes são os que ainda não ganharam o poder de dominação sobre os outros; os idosos são os que já o perderam. Isso está enraizado na cultura.

Mas por muito que a cultura e os velhos mudem, eu acredito que este lugar de exclusão vai continuar existindo de uma ou outra forma (inclusive como inclusão disfarçada) porque a velhice tem outro aspecto que é muito negativo do ponto de vista de experiência humana, tal como analisado na nossa cultura. A velhice é a última fase vital antes da morte, e os velhos lembram aos jovens que eles também vão morrer, e numa cultura em que a morte deve ser negada e excluída, quem está mais perto dela deve ser deixado de fora, marginalizado, pois nos lembra a finitude.

Há um fato para o qual quero chamar a atenção: é que em relação à violência o idoso é geralmente vítima, porém é também frequentemente seu agente.

Frequentemente o idoso se identifica com esse lugar social marginal e assume o discurso excludente como paradoxo de uma inclusão impossível. Temos então a figura do velho bonzinho, paciente, piegas, que não quer molestar ninguém, que se transforma numa espécie de sombra do que já foi, o idoso que diz: Sou velho, não valho nada, sou carta fora do baralho. Às vezes encontramos aquele outro velho que agride a todos e por tudo, que faz da reivindicação sua atividade fundamental, que briga e reclama sem parar, ou aquele outro que parece sentir um grande prazer em fazer mal aos outros. Podemos até encontrar os que por causa de um enorme sofrimento não metabolizável partem para o esquecimento mais radical sob a forma de uma demência que também podemos entender como uma forma de agressão sobre si mesmo.

Há também aqueles outros que lutam pelos seus direitos e os direitos dos outros de forma coletiva, conservando um lugar social e promovendo um outro olhar sobre eles. Ou ainda aqueles que guardam uma boa relação com o prazer. Mas estas duas últimas possibilidades, que sem dúvida são as que todos preferimos, só se darão se esse sujeito, como membro de uma cultura, achar os mecanismos apropriados para o exercício da cidadania (e aqui as políticas públicas são fundamentais) e se contar, em sua própria estrutura psíquica, com os mecanismos necessários para esse exercício.

Quero retomar uma definição dada por Salvarezza, um pioneiro da gerontologia na Argentina. Ele fala de Viejismo, que define o conjunto de preconceitos, estereótipos e discriminações que se aplicam aos velhos simplesmente em razão da idade; dentro desse conjunto achamos uma categoria mais específica que chamamos gerontofobia e se refere a uma conduta inconsciente baseada no medo e no ódio irracional contra os velhos.

E como o medo se liga com a violência? Bem, sabemos que o medo provoca atitudes defensivas, e que a melhor defesa é o ataque. Ataque que vai desde a ignorância, exclusão, até o ataque direto da aniquilação.

Ninguém que tenha sido violento a vida toda passa a ser pacífico só porque envelheceu. Se foi um jovem violento, o mais provável é que seja um velho violento. Se foi uma mãe ou um pai violentos, terá gerado violência na família e tratado seus filhos com violência. Muita vezes, a violência a que são submetidos os idosos não é mais que o troco que eles recebem dos filhos, que também são violentos. Se uma filha foi abusada pelo pai, não podemos pretender que cuide dele quando fica velho.

Por sua vez, agressividade e violência não são coisas que se pode controlar facilmente. A violência irrompe "violentamente", incontroladamente; a pessoa é tomada por essa força que a domina e que ela não pode controlar.

Mas também há outras formas de violências mais solapadas, mais disfarçadas, mais sistemáticas, que podem passar por um leque enorme de possibilidades que vão desde a negação de alimento à negação da palavra.

De qualquer maneira, quando há uma situação de violência familiar contra um idoso, de qualquer tipo que esta seja, devemos pensar que por trás disso há um conflito familiar antigo. Podemos ver até que a família parece bem estruturada e não há conflito manifesto. Mas se há violência, especialmente entre pais e filhos, é porque alguma coisa está acontecendo num nível de conflito profundo e não se está podendo falar do assunto. Há uma agressividade que não está colocada em palavras, que não é simbolizada. Se há violência num casal, é porque há conflito; pode até haver amor, porém é um amor conflituoso.

E além de pensar num conflito familiar, devemos pensar na força que a ideologia social tem para determinar formas de violência que podem até não ter antecedente histórico na vida dessas famílias, mas que se referem a condutas inscritas na cultura. Se a cultura nos diz que velho é coisa descartável, impotente, que velho é carga social e não patrimônio, de alguma forma nos está dizendo que não precisamos cuidar deles e eles podem morrer.

Devemos considerar também as formas de agressividade do sujeito para consigo mesmo. Quando um idoso, para conseguir um atendimento melhor ou mais rápido em um serviço público qualquer, assume uma conduta piegas, está se violentando, ainda que não saiba disso. Quando se dá demais para se obter de menos, há violência.

Eu me pergunto se em nosso cotidiano profissional e pessoal não tentamos, muitas vezes, abafar essa luta e essa rebeldia; se guiados por nossos preconceitos mais inconscientes não acabamos marginalizando o idoso através de um assistencialismo ou de um conceito de família que não existe mais; ou se, por nosso próprio medo da velhice, tomamos os caminhos mais fáceis.

 

Os autores respondem

The authors reply

São três debatedores que nos brindaram com sua reflexão. José Luiz Telles focaliza a força das diretrizes da Política Nacional do Idoso (PNI) através da Lei nº 8.842 e o que essa orientação do Estado tem permitido caminhar, fundamentar propostas, organizar redes e promover o controle social sobre a questão do idoso no país. É sempre importante lembrar que as políticas específicas surgiram no rastro da tragédia de triste lembrança na Clínica Santa Genoveva, no Rio de Janeiro. Acrescentaríamos que o Estatuto do Idoso segue na mesma direção, propiciando não apenas um pensamento novo quanto a esse segmento social. Gestor que é, o autor cumpre sua função de marcar todos os esforços que estão sendo feitos, seja no âmbito da saúde, seja no âmbito dos direitos humanos, para que esse grupo que já passa de 20 milhões de brasileiros viva melhor e encontre um lugar devido de expressão pessoal, social, cultural e política.

Já o texto de Renato Veras, que também faz uma projeção importante sobre os rumos do envelhecimento no Brasil, ressalta um problema que preocupa a todos os que trabalham com os idosos no país: a total falta de estrutura dos serviços de saúde e sociais para lidar com os que têm algum tipo de dependência e precisam dos serviços públicos e de política e diretrizes concretas e eficazes de atenção. Em toda parte do país faltam equipamentos sociais adequados e estratégias de ação. Artigos publicados neste número temático mostram isso. Renato chama essa ausência do Estado com todas as consequências que vão da negligência, da não atenção, à não especificidade nos serviços e, por vezes, aos maus-tratos, de violência. Repercutindo o autor, diríamos que estamos diante de uma violência de duas mãos: da negligência do Estado que não provê formação, recursos materiais e equipamentos necessários, e dos profissionais que costumam ser pouco atenciosos e eficientes no tratamento dos idosos.

Por fim, o texto de Délia Catullo, de forma arguta como convém a uma psicanalista, dá ênfase às implicações da subjetividade nos maus-tratos, abusos e violências contra os idosos. Medo de nossa própria velhice, concorrência de espaços na família e na sociedade? Tanto a dimensão subjetiva quanto a dimensão social da violência são interdependentes. E como diz a autora: a velhice é a última fase vital antes da morte, e os velhos lembram aos jovens que eles também vão morrer. Numa cultura em que a morte deve ser negada e excluída, quem está mais perto dela deve ser deixado de fora, marginalizado, pois nos lembra nossa própria finitude.

Queremos valorizar as três contribuições articulando-as: possivelmente em nosso inconsciente coletivo esteja inscrito que não é tão grave negligenciar os idosos, sua saúde e sua vida. No entanto, se pensarmos que uma sociedade só é completa, feliz e democrática se não excluir nenhum de seus membros, talvez seja o momento de repensar o lugar dos velhos como atores, produtivos e capazes de acrescentar muito à história, à cultura e às transformações velozes por que nosso mundo está passando.