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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15  suppl.1 Rio de Janeiro Jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000700015 

ARTIGO ARTICLE

 

Ocorrência de enteroparasitoses em portadores de transtornos mentais assistidos na Clínica de Repouso São Marcello em Aracaju (SE)

 

Occurrence of enteroparasitosis in carriers of mental disease assisted at São Marcello Nursing Home in Aracaju, Sergipe State

 

 

Paula Andreza de Carvalho SouzaI; Cynthia Cristina Pagliari de FaroII; Malone Santos PinheiroI; José Melquiades de Rezende NetoIII; Ana Maria Guedes de BritoIV

IInstituto de Tecnologia e Pesquisa, Faculdade de Ciências Biológicas, UNIT. Av. Murilo Dantas 300, Prédio do ITP, Farolandia. 49032-490 Aracaju SE. paulaaracaju@hotmail.com
IIInstituto de Tecnologia e Pesquisa
IIICentro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Tiradentes
IVDepartamento de Farmácia, Universidade Tiradentes

 

 


RESUMO

A transmissão inter-humana, o baixo nível de higiene pessoal, o hábito de coprofagia, entre outros, contribuem para a disseminação de enteroparasitoses em portadores de transtornos mentais. No presente trabalho, verificou-se a ocorrência de enteroparasitas em portadores de transtornos mentais assistidos na Clínica de Repouso São Marcello, Aracaju (SE), no período de fevereiro a maio de 2006, bem como se rastreou os aspectos epidemiológicos de contágio. Para tanto, realizaram-se exames coproparasitológicos, sendo as amostras manipuladas pela técnica de Hoffmann, Pons ou Jannes (1932), e os dados epidemiológicos foram obtidos a partir de questionários aplicados aos responsáveis. Observou-se que 62,22% dos pacientes apresentaram-se infectados por pelo menos um parasito. Percebeu-se, também, uma inadequação no que se refere ao saneamento básico, moradia e hábitos de higiene pessoal. Este estudo realçou a importância de um monitoramento constante com relação às parasitoses e a observância insistente das condições que favorecem a transmissão.

Palavras-chave: Transtornos mentais, Enteroparasitoses, Epidemiologia


ABSTRACT

The interhuman transmission, low level of personal hygiene, coprophagic habits, among others, may contribute to the dissemination of enteroparasitosis in individuals with mental diseases. The object of this paper was to verify the occurrence of enteroparasitosis in individuals with mental diseases assisted at São Marcello Nursing Home in Aracaju, Sergipe State, in the period between February and May at 2006, and track epidemiological aspects of the transmission. So, coproparasitologic exams were performed, and samples were manipulated by Hoffmann, Pons or Janner (1932) technique. The epidemiological data was obtained from questionnaires applied to the legal responsible for each individual. There were 62.22% of patients infected by at least one parasite. Inadequacies regarding sanitation, habitation and habits of personal hygiene were also observed. This study stressed the importance of a constant monitoring of parasitisms and the continuous observance of the conditions that favor their transmission.

Key words: Mental diseases, Enteroparasitosis, Epidemiology


 

 

Introdução

As infecções parasitárias do trato gastrodigestório constituem um grave problema no cenário da saúde pública no Brasil. Essas parasitoses refletem, com uma boa margem de segurança, as condições sócio-econômicas e de infraestrutura geral de diferentes comunidades. As referidas infecções ocorrem com intensidades variáveis, que dependem de fatores relacionados, principalmente, com saneamento básico e educação1.

Águas, alimentos e solos contaminados com resíduos fecais humanos e de outros animais contribuem para as transmissões e disseminações de parasitoses intestinais, precisando, então, merecer atenções prioritárias2.

No que tange aos portadores de transtornos mentais, além dos fatores supracitados, pode-se incluir as questões comportamentais que eles tendem a apresentar no período de agudização da doença. Dentre elas, as cruciais são a coprofagia e os hábitos inadequados de higiene, tanto pessoal quanto alimentar, que agravam ainda mais a incidência de enteroparasitoses3,4.

Mediante o exposto, os objetivos deste trabalho foram verificar a ocorrência de enteroparasitoses e rastrear variáveis relevantes, como comprometimento psicomotor e condições socioeconômica, cultural e ambiental , no âmbito domiciliar dos portadores de transtornos mentais assistidos na Clínica de Repouso São Marcello, em Aracaju (SE), no período de fevereiro a maio de 2006, com a meta de traçar um perfil epidemiológico na amostra alvo deste estudo.

 

Metodologia

Trata-se de um estudo do tipo descritivo, que abordou a ocorrência de enteroparasitoses em portadores de transtornos mentais. Para a realização da pesquisa de campo, escolheu-se a Clínica de Repouso São Marcello, em Aracaju (SE), por ser uma clínica considerada padrão para tratamentos de portadores de transtornos mentais no referido estado. No período de fevereiro a maio de 2006, internaram-se nessa clínica 128 pacientes; entretanto, somente noventa pacientes (n=90) participaram deste estudo, posto que, apesar de ter sido esclarecido detalhadamente acerca desta pesquisa aos seus responsáveis legais, apenas noventa assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

Quanto à avaliação clínica realizada pelos psiquiatras acerca do tipo de transtorno mental nos pacientes selecionados para este trabalho, obteve-se que dez pacientes eram esquizofrênicos paranóides, nove sofriam de esquizofrenia indiferenciada, doze eram esquizofrênicos hebefrênicos, nove apresentavam retardo mental moderado, doze apresentavam transtornos afetivos do humor, 21 com transtorno misto ansioso e depressivo, sete com transtorno psicótico polimórfico sem sintomas de esquizofrenia e dez com convulsões dissociativas.

No que concerne à colheita das amostras fecais, destinadas aos exames parasitológicos, utilizaram-se coletores do tipo universal contendo cerca de 30 ml de solução formalina a 5% por coletor. A solução teve como função estabilizar a amostra fecal.

As amostras foram encaminhadas ao Laboratório Central de Biomedicina da Universidade Tiradentes e manipuladas segundo a metodologia de Hoffmann, Pons ou Jannes5. Para execução do diagnóstico clínico laboratorial utilizou-se o equipamento microscópio de luz.

Concomitantemente à colheita das amostras, aplicou-se um questionário com a finalidade de obter dados acerca do comportamento psicomotor do paciente, dos hábitos de perversão alimentar (coprofagia) e higiênicos durante o período de agudização e das condições socioeconômica, ambiental e cultural no âmbito domiciliar.

 

Resultados

Integralmente, participaram da pesquisa noventa pacientes que foram internados na Clínica de Repouso São Marcello, em Aracaju (SE), nos meses de fevereiro a maio de 2006. Os resultados dos exames coproparasitológicos obtidos foram distribuídos em frequência, tendo-se como positivos 62,22% e negativos 37,77% na população objeto deste estudo.

Na amostra positiva, 64,28% encontravam-se infectados por uma espécie de parasita, 32,15% por duas espécies e 3,57% com poliparasitismo.

Avaliou-se a distribuição das espécies parasitárias a partir dos exames fecais realizados nos portadores de transtornos mentais, conforme o gênero, donde se detectou que no gênero masculino 19,64% possuíam Ascaris lumbricoides, 26,7% Ancylostomídeos, 10,71% Strongyloides stercoralis, 3,57% Trichuris trichiura, 19,64% Entamoeba histolytica/ Entamoeba dispar e 1,78% Giardia intestinalis. Já no gênero feminino, foram encontrados os resultados de 8,92% Ascaris lumbricoides, 16,07% Ancylostomídeos, 1,78% Strongyloides stercoralis, 3,57% Trichuris trichiura, 16,07% Entamoeba histolytica/Entamoeba dispar e 1,78% Giardia intestinalis.

Nesta pesquisa, foi observado que 80,3% dos pacientes apresentaram, durante o período de agudização da doença, distúrbios psicomotores que interferiram na higienização pessoal e 57,8% desenvolveram hábitos de coprofagia e ingestão de resíduos estranhos, como terra, papel, filtros de cigarros, entre outros.

O costume em andar de pés descalços estava presente em 76,66% deles, e 78,88% apresentavam parasitoses antes da internação.

Quanto à renda familiar, 82,2% afirmaram ganhar mensalmente um salário mínimo, ficando evidentes as dificuldades das famílias que possuem portadores de transtornos mentais em acolher, cuidar e participar do tratamento, oferecendo assim, uma sobrevivência digna aos seus doentes.

 

Discussão

Em um estudo realizado por Lima et al.6 em portadores de transtornos mentais no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Florianópolis (SC), os pesquisadores relataram que dos 83 pacientes avaliados, 46,81% apresentaram-se positivos para parasitoses intestinais. Deles, 66,66% com uma espécie de parasita, 25,64% com duas espécies e 7,70% com poliparasitismo. Assim sendo, os dados observados nesta pesquisa corroboraram com os encontrados no estudo reportado.

Observou-se que algumas parasitoses foram mais elevadas no gênero masculino, semelhantes aos resultados encontrados pelos pesquisadores Cheng e Wang7 em portadores de transtornos mentais assistidos no Hospital Memorial de Chanq-Gung, Kwei-Shan, Tao-Yuan, Formosa. Eles argumentaram que em casos de distúrbios mentais, como as esquizofrenias e transtornos afetivos bipolares, somente o gênero do portador não fundamenta de forma palpável a determinação de um modelo lógico da frequência em relação às parasitoses, cuja justificativa se comunga neste estudo com os autores acima mencionados.

Na literatura consultada, notou-se que vários pesquisadores3,8,9 relataram que em se tratando de portadores de transtornos mentais, principalmente no período de agudização, a ocorrência de distúrbios psicomotores, perversão de hábitos alimentares, apatia, déficit de atenção, agressividade extrapolada, alucinações, deficiência do pensamento, entre outros, atrelados aos efeitos colaterais causados por algumas drogas usadas para tratamentos psiquiátricos, colaboram de forma contundente para as alterações nas atividades ditas fisiológicas e comportamentais normais, carecendo de cuidados especiais por parte de todos que se relacionam com eles.

Os helmintos diagnosticados nos exames coproparasitológicos na população estudada foram geohelmintos, ou seja, eles necessitaram passar pelo solo durante seus ciclos evolutivos (fase de vida livre) a fim de tornarem-se infectantes. Para Chieffi e Amato Neto1, a frequência de infecções por geohelmintos é influenciada por variáveis de natureza ambiental e hábitos pessoais, tais como o costume de andar de pés descalços e sentar no chão, que podem facilitar ou dificultar suas ocorrências, fatores estes usuais em doentes mentais.

Já os protozoários observados, Entamoeba histolytica/Entamoeba dispar e Giardia intestinalis, são transmitidos através de seus cistos, que são veiculados principalmente pela água, mãos e alimentos contaminados, facilitando, assim, as reinfecções5.

Nas condições deste estudo, não foi detectado o parasita adulto Taenia solium, causador da teníase que habita o intestino delgado somente do homem. Segundo Shandera et al.10, o homem usualmente adquire a forma adulta desse parasita ao ingerir carne crua ou mal passada contendo as larvas de seu hospedeiro intermediário, os suínos, como também ao ingerir seus ovos, eliminados através das fezes do portador do verme adulto. Esses ovos vão evoluir para larva, que é denominada Cysticercus cellulosae, em diversos órgãos do homem e de forma peculiar no cérebro, causando a neurocisticercose, que desencadeia diversas manifestações clínicas graves, em especial as síndromes epilépticas.

Conforme Tavares11, as alterações mentais são frequentes no decurso da neurocisticercose, tendo sido descritas síndromes esquizofreniformes, transtornos do humor e deterioração cognitiva.

De acordo com Neves5, o diagnóstico confirmatório de neurocisticercose é realizado através de exames de imagem, especialmente a tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética, que mostram com detalhes as alterações provocadas pela degeneração dos cistos.

Em dez pacientes que participaram desta pesquisa, foi observada a presença de distúrbios convulsivos dissociativos, todavia não foi detectada na sua anamenesia a presença de exames que confirmassem ou descartassem a presença de neurocisticercose.

Para Forlenza et al.12, raramente os distúrbios mentais são definidos com exatidão por não serem utilizadas ferramentas apropriadas para o diagnóstico psiquiátrico. Em virtude disso, os casos que cursam com perturbações menos intensas passam provavelmente despercebidos. Por outro lado, a maioria dos estudos realizados por psiquiatras, tanto no século passado como recentemente, de acordo com Agapejev13, estimaram em até 75% -100% o índice de pacientes acometidos por transtornos mentais na neurocisticercose.

 

Conclusão

A ocorrência de enteroparasitoses (62,22%) encontrada nos portadores de transtornos mentais assistidos na Clínica de Repouso São Marcello, no período de fevereiro a maio de 2006, em Aracaju (SE), foi indubitavelmente preocupante.

Sugere-se que seja implantado na referida clínica um programa de educação continuada voltado à saúde, com a participação multiprofissional, com o intuito de conscientização, principalmente para os familiares dos portadores de transtornos mentais, visto que estes necessitam de cuidados especiais no que se refere à higiene pessoal, alimentar, domiciliar e peridomiciliar, bem como uma política de saneamento básico adequado no seu âmbito familiar, além de melhorias sócio-econômicas por parte do governo federal.

Acredita-se que havendo a priorização dessas metas ao longo do tempo, observar-se-á uma mudança para melhor na qualidade de vida dos portadores de transtornos mentais assistidos pela Clínica de Repouso São Marcello.

 

Colaboradores

PAC Souza foi a autora do estudo, CCP Faro, MS Pinheiro e JM Rezende Neto colaboraram na elaboração do artigo e AMG Brito coordenou o estudo e colaborou na concepção e na elaboração do artigo.

 

Referências

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Artigo apresentado em 26/10/2007
Aprovado em 04/12/2007