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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15  suppl.1 Rio de Janeiro Jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000700057 

ARTIGO ARTICLE

 

Percepção sobre o conhecimento e profilaxia das zoonoses e posse responsável em pais de alunos do pré-escolar de escolas situadas na comunidade localizada no bairro de Dois Irmãos na cidade do Recife (PE)

 

Perception of the zoonosis and responsible pet care by the parents from public schools kindergarten located at metropolitan region of Recife, northeast of Brazil

 

 

Ana Maria Alves LimaI; Leucio Câmara AlvesII; Maria Aparecida da Glória FaustinoII; Nadja Maria Silva de LiraII

ISecretaria de Saúde, Prefeitura da cidade do Recife. Av. Antônio da Costa Azevedo 1135, Peixinhos. 50040-360 Olinda PE. aninhabiovet@yahoo.com.br
IIDepartamento de Medicina Veterinária, Universidade Federal Rural de Pernambuco

 

 


RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi avaliar a percepção sobre zoonoses e posse responsável de pais de alunos, observando o nível de conhecimento e a conscientização dos entrevistados acerca do tema.Uma amostra de conveniência de 64 pais de alunos do pré-escolar de duas escolas situadas na Região Metropolitana do Recife (PE), foi analisada, utilizando um questionário para análise da percepção. Entre os entrevistados, 71,8 % não sabiam reconhecer o significado do termo zoonoses, porém 16% souberam reconhecer pelo menos um tipo de zoonose. Doenças transmitidas de animais a humanos foram associadas a suas formas de transmissão, como contato físico entre animais e o homem, mordeduras, contaminação fecal de água e alimentos com cistos e ovos de nematódeos, penetração de larvas de nematódeos na pele e através de insetos vetores. Os principais cuidados com animais de estimação relatados foram vacinação antirrábica (92,2%), administração de anti-helmínticos (76,6%) e consultas ao médico veterinário (82,8%). Contudo, 23,4% dos pais tinham conhecimento que algumas parasitoses transmitidas por fezes de cães e gatos são zoonoses. A conscientização dos pais não apenas sobre doenças transmitidas por animais, mas sobre posse responsável, constitui-se um instrumento importante para reduzir os riscos de transmissão de zoonoses.

Palavras-chave: Percepção, Zoonoses, Posse responsável, Pais de alunos do pré-escolar


ABSTRACT

The goal of this research was to examine parents' perception of the zoonosis and responsible pet care, observing their level of knowledge and awareness about the theme. A convenience sample of 64 parents from two kindergarten schools located at Metropolitan Region of Recife, Pernambuco State, was surveyed using a perception questionnaire. Findings indicate that 71.8 % didn't know the meaning of the term zoonosis, but 16% recognize at least one type of the disease. Diseases transmitted from animals to humans were associated to the way of transmission, as physical contact between animal and man, bite wound disease, fecal contamination of water, food with cysts or eggs of nematodes, skin penetration of nematodes, and also the arthropod borne disease. The major pet health care reported was rabies vaccine (92.2%), anthelmintic therapy (76.6%), and pet care provide by a veterinarian (82.8%). However, 23.4% of the parents had some knowledge about the zoonotic infections transmitted by dogs and cats feces. The parent's awareness not only about the risks about the diseases transmitted from animals to humans but also the responsible pet care, constitute a important tool to reduce risk of zoonosis transmission.

Key words: Perception, Zoonosis, Responsible pet care, Kindergarten parents


 

 

Introdução

Uma das contribuições da promoção de saúde é a ampliação do seu entendimento, contribuindo para o processo em que a comunidade aumente a sua habilidade de resolver seus problemas de saúde com competência e intensifique sua própria participação. Essa atividade pode ser desenvolvida em espaços diversos, como escolas, por exemplo, permitindo a expansão e o fortalecimento da saúde da população através de um trabalho coletivo e participativo com toda a comunidade escolar1.

O aumento da incidência de doenças ocorre, geralmente, sob condições adversas de vida, que se atrelam a processos de degradação ambiental. A disseminação de muitas doenças ocorre com maior frequência em áreas populacionais de baixa renda, com má estrutura sanitária, onde o homem altera as condições naturais do meio e modifica as paisagens naturais. Dessa forma, os elos de ligação entre o homem e o meio em que vive tornam-se um fator de risco à saúde, pois os elementos ambientais e antrópicos são constantemente a base para a proliferação e desenvolvimento de agentes patogênicos2.

A ocupação de áreas de encostas, principalmente pela população pobre e de forma desordenada, com baixo padrão construtivo e uso incorreto do solo, vem trazendo impactos ambientais, como erosões e ruptura de taludes e supressão da vegetação, com perda de solo de superfície e instabilidade de encostas, contribuindo para uma série de riscos para a população residente. A substituição gradativa de edificações unifamiliares por edificações multifamiliares sobrecarrega a infraestrutura existente e o lançamento de esgoto e lixo nos corpos d'água, contribuindo para a poluição hídrica e a disseminação de doenças, entre elas as de caráter zoonótico3.

A presença de Unidades de Assentamentos Subnormais em áreas alagadas, margens dos rios e canais, inicialmente por mocambos e, atualmente, por edificações de luxo, que contribuem para o confinamento da calha fluvial de alguns trechos dos rios e canais urbanos e para a impermeabilização do solo, causa enchentes de grandes proporções nas ocupações de entorno, sendo esse um fator de risco importante para zoonoses como a leptospirose3.

Outro aspecto relevante está na relação entre o homem e o animal, que vem se tornando cada vez mais próxima, principalmente com os animais de estimação que possuem, um papel importante na estrutura familiar e social4. Porém, esse convívio próximo entre o homem e seus animais de estimação não fica limitado apenas a uma situação de coabitação familiar. Esses animais frequentam áreas públicas e, com frequência, acabam depositando seus dejetos nesses locais. Consequentemente, dejetos de animais parasitados no ambiente acabam provocando doenças em seres humanos5.

Schwabe, em 1984, afirmava que as zoonoses constituíam os riscos mais frequentes e mais temíveis a que a humanidade estava exposta, relacionando, neste contexto, cerca de 150 a 180 doenças6.

Entende-se que as zoonoses são infecções comuns ao homem e a outros animais7. Em decorrência de sua importância, tanto do ponto de vista social quanto do ponto de vista econômico, é necessária a adoção de medidas capazes de minimizar transtornos através da aplicação de métodos adequados para a prevenção, controle ou erradicação destas doenças6.

O Ministério da Saúde8 considera a escola um ambiente educacional e social propício para se trabalhar conhecimentos e mudanças de comportamento, onde adolescentes assumem o papel de agentes multiplicadores. Contudo, estudos epidemiológicos locais, ou seja, aqueles que buscam traçar um perfil de determinadas cadeias de transmissão ou o conhecimento da população sobre o comportamento de determinadas enfermidades, em dada área geográfica, são a base para a aplicação de ações de caráter preventivo9.

No Brasil, Gama et al.10 realizaram um estudo para a avaliação do nível de conhecimento que populações residentes em áreas endêmicas tinham sobre leishmaniose visceral no Estado do Maranhão.

As percepções, os conhecimentos, o comportamento de comunidades em relação às zoonoses foram estudados por diversos autores, em diversos países do mundo, como Wijeyaratne et al.11, que avaliaram a capacidade de implementação de estratégias de controle e prevenção da leishmaniose por parte de comunidades de diversos países como Líbano, Jordânia, Etiópia, Quênia, Tunísia, México, Costa Rica, Colômbia, Peru e Brasil, analisando conhecimentos básicos, percepção e a participação em atividades de prevenção e Armstrong et al.12, que estudaram o risco para doença de Lyme através da percepção dos residentes de uma comunidade infestada pelo carrapato Amblyomma americanum, na Ilha de Gibson nos Estados Unidos.

O conhecimento sobre zoonoses nem sempre alcança a população exposta a riscos constantes. É necessário implementar ações de educação sanitária, as quais requerem a intervenção de autoridades relacionadas com a saúde e o saneamento ambiental, sendo extensivas à comunidade as informações precisas sobre riscos de contrair zoonoses e as formas de preveni-las13.

O objetivo do estudo foi avaliar a percepção de pais de alunos do pré-escolar de duas escolas situadas na Região Metropolitana do Recife (PE).

 

Metodologia

As escolas pesquisadas pertencem à rede particular e municipal de ensino. Os questionários foram entregues aos alunos do maternal, jardim II e alfabetização da escola particular e do pré-escolar da escola municipal para serem respondidos nas suas residências pelos seus pais.

Vale ressaltar que, concomitantemente ao estudo de percepção, foi realizada pesquisa de ovos de parasitos no solo das áreas de lazer das escolas e as séries escolhidas para estudo estão diretamente relacionadas ao grupo de risco de contrair zoonoses através do solo.

A pesquisa foi realizada através de questionários estruturados com perguntas abertas e fechadas de acordo com Almeida Filho e Rouquayrol14, contendo informações sobre perfil sociocultural e noções sobre zoonoses, posse responsável e medidas higiênico-sanitárias, entregues pelos próprios alunos a 64 pais de alunos do pré-escolar de duas escolas da comunidade do Córrego da Fortuna, situada no bairro de Dois Irmãos na cidade do Recife (PE).

Foi realizada análise estatística para observar a existência de associação significativa em relação ao conhecimento do significado do termo zoono-ses entre os pais dos alunos do pré-escolar da escola municipal e da escola pública, através do teste do qui-quadrado (χ2) de acordo com Calle-gari-Jacques15, utilizando o programa Epi Info 6.0.

O Córrego da Fortuna está situado no bairro de Dois Irmãos na cidade do Recife (PE). Com cerca de 6.000 moradores, é dividida em oito microáreas. A comunidade possui um sistema próprio de abastecimento de água, composto por um poço artesiano, administrado pela associação de moradores.

 

Resultados

Com relação aos dados socioculturais, os resultados obtidos revelaram que 51,55% dos entrevistados estavam inseridos no mercado de trabalho informal e formal; 12,5% dos pais e 14,1% de seus cônjuges tinham o ensino fundamental (1ª a 4ª série), enquanto 29,7% dos pais e 32,8%dos cônjuges tinham o primeiro grau concluído e 32,8% dos entrevistados e 31,3% dos seus cônjuges tinham concluído o ensino médio.

Quando aplicadas às questões referentes ao conhecimento sobre zoonoses, 28,21% (11/39) dos entrevistados da escola particular e 28% (07/25) da escola municipal disseram já ter ouvido falar no termo zoonoses. Esse resultado pode ser explicado bastando apenas observar alguns livros didáticos do ensino fundamental, revistas, o dia a dia dos noticiários, programas de televisão e rádio. Termos técnicos como zoonoses não são observados nesses meios e apenas que seja objeto de pesquisa por parte de professores, ou pelos meios de comunicação, os alunos e a população dificilmente terão acesso aos significados deste ou de outros termos técnicos.

Em relação ao conceito do termo zoonoses, 28,21% (11/39) dos entrevistados da escola particular e 28% (07/25) da escola municipal considera-ram zoonoses como sendo doenças dos animais transmitidas ao homem; 58,97% (23/39) dos pais de alunos da escola particular e 68% (17/25) dos pais de alunos da escola municipal consideram como zoonoses doenças que só afetam os homens, enquanto nenhum dos pais de alunos da escola particular ou municipal disse considerar zoonoses doenças dos homens que podem ser transmitidas aos animais; 12,82% (05/39) dos pais de alunos da escola particular e 4,0% (1/25) dos pais de alunos da escola municipal optaram por não emitir opinião sobre o assunto. Aqui pode-se observar que, a partir do momento que são dadas opções de conceituações, esse ato desperta nos entrevistados a curiosidade e/ou o interesse em buscar a alternativa correta, de alguma forma.

Na Tabela 1, pode-se observar que, entre os entrevistados, existe um conhecimento razoável sobre formas pelas quais os animais podem transmitir doenças.

Com relação à posse de animais, 64,1% (41/64) dos entrevistados declararam possuir animais de estimação, dos quais 75,6% (31/41) são cães, 36,6% (15/41) são gatos, 21,9% (9/41) são aves e 9,7% (4/41) possuem outras espécies de animais, como coelho, peixes e tartaruga. Observou-se que a maioria dos entrevistados que criam animais de estimação têm preferência por cães (75,6%). Contudo, deve-se salientar que uma grande parcela dos proprietários possuem mais de um animal concomitantemente, em particular cães e gatos.

A posse responsável constituiu-se uma parte importante dentro do questionário e entre os entrevistados que possuem animais de estimação, sendo que 65,8% (27/41) afirmaram levar seus animais, sobretudo cães e gatos, ao médico veterinário; 95,2% (39/41) vacinam seus cães e gatos, particularmente a vacina antirrábica, 100% (39/39) e 63,4% (26/41) dosificam com regularidade anti-helmínticos aos seus animais.

Independente de possuírem ou não animais de estimação, quando os entrevistados foram questionados sobre que cuidados consideravam importantes para evitar que os animais fiquem doentes, 92,2% (59/64) dos entrevistados consideraram a vacinação,76,6% (49/64), a dosificação anti-helmíntica; 82,8% (53/64), a consulta ao médico veterinário; 46,8% (30/64), a higienização do local; 42,2% (27/64), o controle de ectoparasitos; 39,1% (25/64), o destino correto dos dejetos, apesar de 6,3% não se importarem com o risco da contaminação desses locais públicos com as fezes de cães e gatos.

Na Tabela 2, observa-se a percepção dos entrevistados sobre que tipos de doenças eles consideram de caráter zoonótico, a partir de uma lista de doenças previamente ofertada.

Ainda com respeito às zoonoses, quando os entrevistados foram questionados sobre a ocorrência de zoonoses a alguém da residência ou conhecido, 29,6% (19/64) responderam conhecer alguém infectado, sendo as zoonoses larva migrans cutânea 47,4% (9/19); sarna 36,8% (7/19); leptospirose 21,1% (4/19) e tungíase 15,8% (3/19) as mais referenciadas.

Entre as doenças não zoonóticas listadas, algumas também foram assinaladas como sendo zoonoses, como a lepra (6,3%), o sarampo (4,7%), a dengue (12,5%), a filariose (12,5%), o cólera (7,8%), a catapora (6,3%), a rubéola (4,7%), a meningite (6,3%).

Na Tabela 3, observa-se que existe um desconhecimento significativo em relação ao significado do termo zoonoses tanto entre os pais de alunos da escola municipal, como entre os pais de alunos da escola particular (p>0,05).

Entre as medidas higiênico-sanitárias importantes na profilaxia de enfermidades como as parasitoses em relação aos humanos, listadas pelos entrevistados, as principais citadas foram hábitos higiênicos sanitários 93,8% (60/64); andar calçado 53% (34/64); lavar frutas e verduras 50% (32/64); dosificação anti-helmíntica 25% (16/64); beber água filtrada 18,7% (12/64); atividades de lazer em ambientes públicos 17,2% (11/64).

Com relação ao veículo utilizado como forma de educação continuada na prevenção de zoonoses, 93,7% (56/64) referiram as escolas e universidades; 89,4% (54/64), os postos de saúde da família (PSF); 73,4% (47/64), a televisão; 56,3% (36/64), a associação de moradores; 46,8% (30/64), a rádio comunitária; 28,2% (18/64), as estações de rádio; 25% (16/64), os jornais e revistas e 20,3% (13/64), a internet.

 

Discussão

Segundo Capuano e Rocha16, a crescente aquisição de cães como animais de companhia tem aumentado o número de pessoas expostas ao risco de contrair zoonoses e a população infantil corresponde ao grupo mais exposto devido ao hábito de brincar em contato com o solo e aos hábitos de geofagia, de andar descalço, de se deixar abraçar, lamber e morder por seus animais de companhia.

De acordo com Lima Júnior et al.17, o recifense cria cães principalmente por questões afetivas. A maioria é animais de estimação e/ou companhia. A segunda principal finalidade de cães é a proteção do domicílio e grande parte dos cães tem dupla função.

Provavelmente, a relação tão próxima do homem com seu animal de estimação seja um fator relevante para preocupação, com formas de evitar que esse convívio não se torne um fator de risco.

Infelizmente, é comum o hábito dos proprietários levarem ou soltarem os seus animais principalmente no período noturno, para passear ou muitas vezes para que estes defequem fora de seus quintais, promovendo o acesso dos mesmos a esses locais, resultando em contaminação do solo16.

O estado final desencadeador de doença resulta da interação de uma multiplicidade de fatores, como econômicos, políticos, sociais, culturais, entre outros. Determinantes culturais como os comportamentais contribuem para a determinação, difusão e manutenção de doenças, como o hábito de levar animais para que façam suas necessidades fisiológicas em vias públicas, jogar lixo nas ruas ou em canaletas, o acúmulo de entulhos em quintais e a utilização de terrenos baldios como depósitos de lixo, exemplos de hábitos culturais comuns em comunidades pobres de países em desenvolvimento18.

Zoonoses como a raiva e a leptospirose, que foram as mais citadas pelos pais entrevistados, são as que estão sob constante vigilância por parte dos serviços de saúde do Estado de Pernambuco e da cidade do Recife; campanhas de vacinação antirrábica animal são realizadas anualmente em todos os distritos sanitários, atingindo cerca de 142.284 cães19, e as campanhas de prevenção à leptospirose são realizadas através da mídia e em locais públicos, como transportes coletivos, hospitais, postos de saúde e escolas.

Entre as dermatopatias zoonóticas mais citadas, a larva migrans cutânea, a sarna e a tungíase são dermatopatias comuns na população, principalmente em crianças em idade pré-escolar, atingindo também o adulto19.

Vale salientar que, entre as doenças não zoonóticas listadas, algumas também foram assinaladas como sendo zoonoses, como a lepra, o sarampo, a dengue, a filariose, o cólera, a catapora, a rubéola e a meningite, o que demonstra que a população ainda desconhece a cadeia de transmissão de enfermidades comuns nos centros urbanos, embora haja a informação, através da mídia, do agente comunitário de saúde (ACS) e de campanhas de vacinação, infantil e para adultos. Contudo, talvez a informação de serem essas enfermidades citadas zoonoses ou não não fica bem esclarecida, possivelmente, por se achar que esse conhecimento exista, ou a dúvida também possa existir entre os divulgadores de educação continuada.

Aliado a isto, devido ao fato de saber que animais transmitem doenças ao homem e a preocupação em se proteger delas, muitos não conseguem distinguir ou não obtiveram a informação de forma correta de quais doenças os animais não adquirem, nem podem transmitir.

O fato de observar enfermidades junto aos familiares, nos vizinhos e de saber da existência de uma determinada enfermidade na localidade onde se vive também é um fator importante na identificação de doenças. Acaba-se adquirindo noções mesmo que básicas de seus vetores, reservatórios, transmissão e profilaxia10.

Gomes dos Santos et al.20, em pesquisa realizada com estudantes do ensino fundamental e pessoas com nível superior completo, como professores, observaram um desconhecimento sobre transmissão de zoonoses parasitárias, apesar de um conhecimento satisfatório sobre as medidas de higiene para combater as parasitoses. Por outro lado, Tome et al.21, em trabalho de percepção sobre zoonoses com educadoras do ensino infantil, observaram que, do total de entrevistadas, 44,71% ignoravam os danos ocasionados por infecções helmínticas.

A conscientização de que animais transmitem doenças aos seres humanos, independente do termo usualmente aplicado a essa condição, fica bem estabelecida por parte dos entrevistados. O que se constitui um fator importante, pois o fato de saber da possibilidade de adquirir doenças leva à preocupação em evitá-las.

Entre as consequências da ausência de um sistema eficiente de monitoramento e de informações, e que também produza soluções viáveis e eficazes, destaca-se a limitada capacidade de diagnóstico dos principais problemas de saúde pública de uma certa localidade e a impossibilidade de predição de riscos. A capacidade de prevenção e solução desses problemas será então limitada22.

Observando-se que 29,7% e 32,8% dos entrevistados possuíam o primeiro grau e o ensino médio concluídos, respectivamente, os resultados aqui obtidos corroboram com as observações realizadas por Lima-Costa23, que assegura que o nível de escolaridade exerce influência na qualidade de vida e promoção de saúde da população pelo acesso à informação2 . E isso pode explicar o fato de que, apesar do desconhecimento do termo zoonoses, existe entre os pais entrevistados uma preocupação em manter seus animais saudáveis através da vacinação antirrábica e da dosificação anti-helmíntica, além do conhecimento sobre a existência de doenças que podem ser transmitidas por animais, as formas de contraí-las e medidas profiláticas para evitar doenças como as verminoses.

Esteso24, em estudo realizado na província de Córdoba, na Argentina, demonstrou a interferência do nível de conhecimento da comunidade na incidência da doença de Chagas. Da mesma forma, em trabalho de percepção sobre zoonoses com educadoras do ensino fundamental, Tome et al.21 observaram que 95,29% das entrevistadas concebiam a idéia de que animais de estimação são reservatórios de zoonoses.

As informações profiláticas de parasitoses dentro de comunidades carentes reduzem sua prevalência, melhorando assim a saúde e a qualidade de vida da população18.

A falta de estudos acerca da percepção de populações carentes sobre doenças parasitárias e a escassez de dados sobre a prevalência dessas enfermidades no Brasil levam a uma preocupação e a uma necessidade de preencher essa lacuna, a fim de determinar a real importância dessas doenças na saúde pública25.

Dessa forma, o ambiente e o nível socioeconômico e cultural englobam variáveis que influenciam na frequência das doenças parasitárias em humanos e seus animais domésticos: os fatores ambientais promoveriam o desenvolvimento e a propagação das formas infectantes e os fatores socioeconômicos seriam responsáveis pela contaminação do ambiente com esses parasitas e a disseminação de enfermidades como as zoonoses26.

O envolvimento da comunidade com seus próprios recursos, como PSF, a associação de moradores e a rádio comunitária, demonstra o papel importante que estes têm na sua vida social diária, em detrimento do conhecimento e da convi-vência com outras realidades, como jornais e revistas, emissoras de rádio e a própria televisão tão presentes, e ainda percebe-se que, apesar dos esforços para a inclusão social, a internet ainda tem uma importância menor na vida comunitária.

Quando o empenho em subsidiar pesquisas que venham de alguma forma detectar riscos ou até mesmo sanar problemas de saúde ambiental produz resultados satisfatórios, essa resposta positiva é aclamada pela sociedade, que tem o seu papel não só como causadora desses problemas, mas de cobradora de ações em busca de soluções23.

 

Conclusão

A conscientização dos pais não apenas sobre doenças transmitidas por animais, mas sobre posse responsável, constitui-se um instrumento importante para reduzir os riscos de transmissão de zoonoses.

 

Colaboradores

LC Alves e MAG Faustino participaram como orientador e co-orientadora, assim como da revisão e correção do artigo. NMS Lira participou da elaboração do artigo, assim como da etapa de aplicação dos questionários de percepção.

 

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Artigo apresentado em 23/07/2007
Aprovado em 14/12/2007
Versão final apresentada em 15/01/2008