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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15  suppl.1 Rio de Janeiro Jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000700101 

ARTIGO ARTICLE

 

Estudo da prevalência de fluorose dentária em Aracaju

 

Study of the prevalence of dental fluorosis in Aracaju

 

 

Ricardo Wathson Feitosa de CarvalhoI; Roberta Barreto Vieira ValoisII; Cléa Núbia Albuquerque SantosIII; Paulo Sérgio MarcelliniIV; Leonardo Rigoldi BonjardimV; Cristiane Costa da Cunha OliveiraII; Sandra Regina BarrettoII; Suzane Rodrigues Jacinto GonçalvesI

IFaculdade de Odontologia, Universidade de Pernambuco. Avenida General Newton Cavalcanti 1650, Tabatinga. 54753-220 Camaragibe PE watshon@ig.com.br
IIUniversidade Tiradentes
IIIUSF Edivaldo Correia Barbosa
IVUniversidade Federal de Sergipe
VDepartamento de Fisiologia, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Sergipe

 

 


RESUMO

Com o objetivo de determinar a prevalência de fluorose dentária em Aracaju (SE), 196 escolares foram submetidos a exame clínico bucal, utilizando o índice de Dean. Pôde ser concluído que a prevalência de fluorose dentária em escolares de cinco a quinze anos do município de Aracaju (SE) foi de 8,16%, não implicando risco à saúde pública. Porém, estudos semelhantes devem ser realizados com periodicidade regular, além de orientação aos órgãos responsáveis pela fluoretação da água, para que os níveis considerados ótimos para essa região sejam respeitados, prevenindo assim o surgimento de tal ocorrência.

Palavras-chave: Fluorose dentária, Prevalência, Saúde bucal


ABSTRACT

With the aims of determining the prevalence dental fluorosis in the city of Aracaju, Sergipe State, 196 students were submitted to an oral exam, utilizing the Dean's index. It was concluded that the prevalence of dental fluorosis in students ranging from 5 to 15 years old in the city of Aracaju, Sergipe State was of 8.16%, not implying in a risk to public health. However, similar studies must be done regularly, besides orientation to governmental departments responsible for water fluoridation, so that the level considered excellent for this area can be respected, avoiding such problem to occur.

Key words: Dental fluorosis, Prevalence, Oral health


 

 

Introdução

Um dos marcos mais importantes da história da odontologia foi a descoberta das propriedades anticariogênicas dos fluoretos, pois possibilitou o desenvolvimento de medidas eficazes de prevenção e controle da cárie dentária1. O maior responsável pelo declínio da cárie dentária nas últimas décadas foi o flúor, aplicado à população através da água fluoretada, esquema terapêutico coadjuvado por outras técnicas de aplicação, como os dentifrícios fluoretados2.

Porém, o uso de fluoretos, sistêmico ou tópico, no tratamento ou prevenção de cárie dentária pode resultar na ingestão e absorção do mesmo para a circulação sanguínea. Assim, a mineralização dos dentes em formação pode ser afetada, acarretando fluorose dentária3.

Os sinais clínicos da fluorose dentária são caracterizados por linhas brancas finas que seguem as periquimáticas do esmalte ou até um aspecto totalmente opaco e calcário. Após a erupção, nas formas mais graves, pode ocorrer o desprendimento de porções do esmalte, levando ao aparecimento de depressões da superfície do dente. Outra característica dessa patologia é a existência de certa simetria no grau em que os dentes homólogos são afetados4.

Entretanto, o aumento de fluorose não deve trazer consigo um desestímulo ao uso deste elemento em programas de prevenção e controle da cárie dentária, uma vez que seu uso é comprovadamente um dos responsáveis pelo declínio do índice de cárie amplamente observado nas últimas décadas5. Medidas de vigilância sanitária devem ser recomendadas às autoridades responsáveis, pois a manutenção das bases de sistemas de prevenção assegura o máximo de benefício, com redução do índice de cárie e o mínimo de risco de fluorose dentária6.

No município de Aracaju (SE), 88,18% da população é abastecida pela Companhia de Saneamento Básico de Sergipe, na qual a fluoretação das águas teve início em 19807.

Assim, é importante que a concentração de flúor utilizada em águas de abastecimento público seja cautelosamente monitorada, minimizando riscos decorrentes do uso abusivo desse halogênio. O município de Aracaju (SE) carece de informações oficiais acerca de fluorose dentária; portanto, o objetivo do presente trabalho foi obter dados de prevalência dessa patologia em escolares das EMEIS, de cinco a quinze anos, buscando subsídios para divulgar a importância do uso racional do flúor como instrumento nos programas preventivos de cárie dentária.

 

Metodologia

Para este trabalho, foi utilizada uma amostra probabilística em múltiplo estágio, com unidades amostrais primárias de escolas públicas e particulares da cidade de Aracaju (SE). Para cada distrito territorial, foi realizado um sorteio para escolha do estabelecimento de ensino, perfazendo assim quinze escolas a serem visitadas. Foram selecionados aleatoriamente e examinados 196 escolares (cinco a quinze anos) de ambos os gêneros, matriculados em escolas da rede municipal de ensino de Aracaju (SE).

O treinamento e a calibração do examinador se deram por meio de um estudo de diapositivos de indivíduos com graus variados de fluorose e por exames visuais das arcadas dentárias de crianças portadoras dessa alteração.

Ao primeiro contato com os pais das crianças, estes leram e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Tiradentes. Em seguida, as crianças foram submetidas ao exame clínico, realizado em cadeira comum sob luz natural e campo seco obtido com o auxílio de gaze. A presença e o grau de fluorose em cada unidade dentária presente na cavidade oral de cada criança foram pesquisados através da utilização do índice de Dean, proposto pela OMS, no qual o grau de fluorose varia de zero (normal) a cinco (severo), conforme abaixo (Tabela 1).

Os dados de cada criança foram anotados em ficha clínica, especialmente desenvolvida para essa pesquisa, sendo tabulados e analisados através do programa Microsoft Office Excel 2007, desenvolvido pela Microsoft Corporation.

 

Resultados

Após tabulação e análise estatística dos dados, os seguintes resultados foram observados:

. a prevalência de fluorose dentária no município de Aracaju (SE), ou seja, de crianças que apresentaram fluorose dentária do grau 2 (muito leve) ao 5 (severo), foi de 8,16% (16 casos) (Figura 1);

 

 

O grau de zero (normal) de fluorose foi encontrado em 141 (71,94%) crianças, o grau 1 (questionável) em 39 (19,9%), o grau 2 (muito leve) em 14 (7,14%), o grau 3 (leve) em 1 (0,51%), o grau 4 (moderado) em 0 (0,0%) e o 5 (severo) em 01 (0,51%) (Figura 1).

. A faixa etária variou de cinco a quinze anos, com maior número, 73 crianças (37,24%), entre cinco e seis anos e menor de catorze a quinze anos, com 0% (Figura 2);

 

 

. Na faixa etária de cinco a seis anos, a prevalência de fluorose na faixa de muito leve a severa foi de 5,48%, sendo 4,11% muito leve (n=3) e 1,37% leve (n=1) (Figura 3);

 

 

. Na faixa etária de seis a doze anos, a prevalência encontrada foi de 10,08%, sendo 9,24% muito leve (n=11) e 0,84% severo (n=1) (Figura 4).

 

 

Discussão

Quando se fala em fluorose dentária, a maioria dos estudos é realizada nas regiões sul, sudeste e centro-oeste do país. Embora exista fonte de água para consumo humano com teor elevado de flúor nas regiões norte e nordeste, poucos estudos foram realizados4.

A cárie dentária ainda é o principal problema de saúde bucal a ser solucionado, sendo o uso do flúor uma medida eficaz na sua prevenção8. À medida que se observa a redução do índice de cárie, também se verifica aumento da prevalência de fluorose9,10.

Quando utilizado em níveis racionais ideais, o flúor tem efeito benéfico na prevenção e controle da cárie dentária11. Porém, quando utilizado de forma crônica e excessiva, durante o período de formação dos dentes, pode causar manchas no esmalte, conhecidas como fluorose3.

A fluoretação das águas de abastecimento entre as regiões do Brasil é muito discrepante. No nordeste, estima-se que apenas 12,36% da população seja coberta; no sul, 93,09%, norte, centro-oeste e sudeste, 12,98%, 49,11% e 91,92%, respectivamente12. No Estado de Sergipe, a fluoretação da água de abastecimento público teve início em 19807.

A fluoretação da água de abastecimento público, ainda que seja considerada uma medida necessária para o controle da cárie, tem se somado à difusão maciça de outras formas de flúor, contribuindo para o aumento da prevalência de fluorose11.

As pesquisas quanto ao nível ideal de flúor na água de abastecimento tiveram início com Dean, em 1931, que afirmou que o mesmo deveria ser entre 1,0 e 1,5 ppmF13. A concentração de flúor na água de abastecimento considerada ótima é 0,7ppmF. O teor de flúor varia de acordo com a temperatura da região14. No Estado de São Paulo, o teor ideal é de 0,7 mg/L, podendo variar entre 0,6 a 0,8 mg/L15. Em Sergipe, a faixa de valor considerada aceitável é de 0,6 a 1,0ppmF7.

A fluorose dentária é caracterizada pelo surgimento de manchas opacas, sendo o diagnóstico diferencial fundamental para o estabelecimento do plano de tratamento, que vai desde uma microabrasão do esmalte à confecção de facetas de resina composta16. O diagnóstico diferencial deve ser feito com opacidades não induzidas pelo flúor; lesão de mancha branca incipiente da cárie; esmalte hipoplásico, dentinogênese imperfeita e manchas por tetraciclina13. A realização de tratamento somente é necessária nos casos mais graves, nos quais a fluorose se torna um problema cosmético17.

Na atualidade, no Brasil, o único método sistêmico preventivo de doença cárie é a fluoretação da água de abastecimento público18. Esse é considerado o mais econômico e abrangente método de prevenção de cárie19. No município de Aracaju (SE), 88,18% da população é abastecida pela Companhia de Saneamento Básico de Sergipe7.

No estudo realizado por Trendley Dean nas décadas de trinta e quarenta, em regiões naturalmente fluoretadas, demonstra-se que o máximo de benefício na prevenção da cárie é alcançado com a presença de sinais de fluorose muito leve em uma pequena proporção (10 a 15%) da comunidade6.

Apesar dos diferentes índices utilizados para registrar fluorose dentária, recentes estudos observaram que a prevalência de fluorose em diversas zonas urbanizadas do país está abaixo de 30% para cidades com 0,8 ppmF na água de consumo19-22. Uma prevalência acima deste percentual tem sido atribuída ao efeito combinado de produtos dentários e fluoretos em águas de abastecimento23. A fluorose dentária na Paraíba varia em torno de 31% em áreas com 0,4 a 0,7ppm, 61% em áreas com 0,8 a 1,0ppm e 71% em áreas com fluoreto em águas de consumo acima de 1,0 ppm24.

Dentre os estudos de prevalência de fluorose dentária publicados no Brasil, utilizando o índice de Dean, é destacado o de Barros et al.25, que examinaram 159 escolares de doze anos de idade em Ouro Preto (MG) e relataram prevalência de 11,4%, sendo composta pela condição muito leve (10,1%) e leve (1,3%). Em nosso estudo, em crianças com doze anos de idade, o índice de fluorose foi de 0%; porém, a representatividade dessa idade foi muito pequena, sendo representada por apenas dois sujeitos, ou seja, 1,02% do total.

No município de Santa Tereza, Rio Grande do Sul, Toassi e Abegg11 analisaram 259 escolares de quatro a dezoito anos de idade, encontrando prevalência de 63,7% de fluorose dentária, sendo o grau muito leve predominante (43,6%), seguido pelo grau leve (12,0%), moderado (7,7%), questionável (7,3%) e severo (0,4%). Na faixa etária de quatro a dezoito anos de idade, a presente pesquisa avaliou 260 menores (70,46% do total) e a distribuição de fluorose foi 47,43% grau 0 (sem fluorose), 15,45% grau 1 (questionável), 6,23 grau 2 (muito leve), 0,81% grau 3 (leve), 0,27% graus 4 e 5 (moderado e severo, respectivamente).

Cangussu et al.26, em Salvador, estudaram 3.313 adolescentes de doze e quinze anos de idade, tendo como resultado prevalência de 31,4% nos escolares de doze anos e 27,6% aos quinze anos, predominando a categoria "muito leve". Na presente pesquisa, na referida faixa etária, foi encontrado 1,53% grau 0 e 0,51% grau 1, porém com apenas quatro representantes (2,04% do total).

No município de Aracaju (SE), a prevalência de fluorose, considerando a faixa etária de cinco a quinze anos foi de 8,16%, ou seja, de crianças que apresentaram fluorose dentária do grau 2 (muito leve) ao 5 (severo). Porém, como se pode ver pelas considerações acima, foi considerada a importância de se estratificar as faixas etárias para pode obter dados que fornecessem parâmetros consistentes de comparação. Assim, a prevalência de fluorose foi avaliada considerando tal estratificação, ou seja, pré-escolares (5 a 6 anos; n=73) e escolares (6 a 12 anos; n=119). A faixa etária acima de doze anos foi descartada por possuir pequena representatividade na amostra total (n=4).

Mesmo assim, a prevalência de fluorose foi baixa, ou seja, a faixa etária de cinco a seis anos foi de 5,48%, sendo 4,11% muito leve (n=3) e 1,37% leve (n=1). Na faixa etária de seis a doze anos, a prevalência encontrada foi de 10,08%, sendo 9,24% muito leve (n=11) e 0,84% severo (n=1).

O levantamento epidemiológico possui relevante importância em nível de planejamento e execução dos serviços odontológicos27. As medidas de saúde pública de impacto populacional são efetivas, porém, existe uma parcela da população que necessita de cuidados adicionais17. O reconhecimento da realidade epidemiológica é de fundamental importância para o planejamento dos programas de saúde bucal28. Estudos devem ser feitos periodicamente para monitorar os níveis e os padrões da alteração6. As capacitações dos cirurgiões-dentistas no serviço público devem incluir o assunto fluorose dentária e vigilância.

Em 25 de agosto de 2005, foi proposto o projeto de lei nº 29729, em substituição à atual normatização legal30, na qual consta, in verbis, [...] art. 1º, parágrafo único. A utilização de flúor na profilaxia da cárie dentária só pode ser realizada pela aplicação tópica do elemento, ficando proibida a adição de flúor ou qualquer de seus compostos a água, bebidas ou alimentos. Portanto, constituindo a tese de que a ação profilática na prevenção à cárie ocasiona o surgimento de fluorose, efeitos neurológicos colaterais, infertilidade e hipotireoidismo. Porém, a lei que é regulamentada no Brasil ainda é a que dispõe a fluoretação da água de abastecimento público.

Não é a proibição da fluoretação das águas de abastecimento públicos a solução para a prevenção dos efeitos deletérios do flúor e, sim, medidas de vigilância sanitária sobre produtos fluoretados6. A proibição da fluoretação de água sob a alegação de que essa medida é a causa de problema e a não produção de conhecimentos mais consistentes pode significar prejuízo para a saúde coletiva. Estudos revelam que, em locais onde houve tal proibição, a taxa de cárie se elevou31,32. Tais decisões não se justificam, sendo juridicamente ilegais, cientificamente insustentáveis e socialmente injustas33.

 

Conclusão

Podemos concluir, pelo exposto, que a prevalência de fluorose dentária em crianças de cinco a quinze anos de idade do município de Aracaju (SE), ou seja, que apresentaram fluorose dentária do grau 2 (muito leve) ao 5 (severo), foi de 8,16%, não implicando risco à saúde pública. Porém, estudos semelhantes devem ser realizados com periodicidade regular, buscando determinar se existem outros fatores de risco associados, além de orientação aos órgãos responsáveis pela fluoretação da água, para que os níveis considerados ótimos para essa região sejam respeitados, prevenindo assim o surgimento de tal ocorrência.

 

Colaboradores

RWF Carvalho, RBV Valois, CNA Santos e SRJ Gonçalves trabalharam na pesquisa de campo, metodologia e redação do artigo. CCC Oliveira, PS Marcellini, LR Bonjardim, SR Barretto e SRJ Gonçalves trabalharam na concepção, delineamento e análise e interpretação dos dados, bem como na revisão crítica do artigo. Todos participaram igualmente da aprovação da redação final do artigo.

 

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

 

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Artigo apresentado em 06/07/2007
Aprovado em 14/01/2008
Versão final apresentada em 23/12/2008