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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15  suppl.2 Rio de Janeiro Oct. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000800005 

DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

(Re)conhecendo  o território escolar e mapeando o sentido do ser-jovem: contribuições dos programas e projetos intersetoriais para superação das vulnerabilidades do escolar

 

Recognizing the school territory and mapping out the meaning of being-young: contributions of intersectoral programs and projects for overcoming the scholar vulnerabilities

 

 

Jaqueline MollI; Marta Klumb Oliveira RabeloII

IMinistério da Educação. jaqueline.moll@mec.gov.br
IIPrograma Saúde na Escola, Ministério da Educação

 

 

O artigo de Déborah Malta e colaboradores guarda o mérito de fomentar o debate sobre os principais fatores de risco e proteção à saúde dos escolares e o ineditismo de ser o primeiro estudo nacional com mostra representativa de escolares nas capitais brasileiras a estimar a prevalência de risco e proteção para a saúde. Os autores partem da identificação da adolescência como período crítico de desenvolvimento  humano e veem na escola o lugar onde se "encontra a grande maioria dos jovens do país", além de ser "um locus privilegiado para ações de promoção  à saúde". Após a descrição do método, é realizada  discussão dos resultados apontando para a prevalência de alguns fatores de risco e a possibilidade de monitorá-los.

Nossa contribuição para o debate foca-se nas seguintes discussões: a compreensão do ser-jovem, a escola como fator de risco e proteção social e o diálogo dos resultados obtidos com as políticas públicas voltadas para educação e saúde.

Ser-jovem

Optamos por um entendimento fenomenológico sobre o mundo vivido (Lebenswelt) do adolescente por entender ser possível revelar aspectos peculiares do ser-jovem com maior clareza e nos permitir não confundir determinismos com escolhas. Sem desmerecer a necessidade dos autores em demarcar a faixa etária pesquisada para garantir o acompanhamento longitudinal e comparativo com dados obtidos em inventários de outros países, não nos furtamos propor o debate pelo viés qualitativo. Não se trata mais de pensar a adolescência como faixa etária sujeita per se a mudanças (salvo as de ordem biológica, que podem ou não ser indutoras de experiências existenciais significativas), e sim como forma de lidar com os acontecimentos subjetivos de sua existência que se instituem, via de regra, a partir da relação com o mundo da vida. Assim, utilizaremos  doravante o termo ser-jovem  a fim de evidenciá-lo sempre em relação ao contexto e não como sujeito objetificado. Para entendê-lo, é preciso entender o contexto.

As experiências juvenis estão em diálogo mudo com as provocações da mídia e com a sedução do consumo – o que pode provocar, não só no jovem mas também no adulto e no idoso, um sentimento de insegurança e de incerteza quanto às suas reais necessidades, verdades e vontades. Isto suscita um mal-estar que, em alguns casos, gera escolhas não saudáveis, mas engendradas pelo desejo capturado de um imaginário social que, perversamente, alimenta a população com "guloseimas" da era do consumo, com o sedentarismo que aniquila a experiência da grupalidade entre os pares no mundo da rua, com a experimentação do cigarro que traga, aos poucos, a vida, e com o consumo de bebidas alcoólicas que amplia o risco de um mergulho em águas rasas. É preciso compreender que o ser-jovem mantém íntima relação com essa "terra de gigantes onde trocam vidas por diamantes"1. Esse ponto nos impele a discutir o papel da escola ou, em termos mais amplos, da educação nesse contexto, para que se possa (re)conhecer os fatores de risco à saúde no território escolar e perceber sua responsabilidade ante as questões socioculturais dessa "terra de gigantes".

Escola como fator de risco e proteção social

Dado o pressuposto apresentado de que em cada época o jovem estabelece um diálogo com o mundo, derivamos que todas as nossas relações contemporâneas têm uma constituição intersubjetiva cuja ênfase é colocada nos valores imediatos e da forma como aponta Harvey2: são descartados hábitos saudáveis, relacionamentos longos e valores que "se desmancham no ar" ao sabor do mercado. Aqui, parece-nos própria a compreensão do termo "mercado de consumo" a partir da metáfora da figura da Medusa da mitologia grega, cujo olhar, próximo ou distante, paralisa quem a fita. Nesse sentido, cabe à escola educar "Perseu(s)" para que consigam driblar o "gigante" que enlaça e tenta dominar nossas escolhas.

A experiência cotidiana força o ser-jovem a uma adaptação à transitoriedade da vida, percebendo- a como ligeira, passageira ou, até mesmo, descartável. É preciso ultrapassar a película do exaurível e auxiliar o jovem na busca de um significado que dê sustentação à vida. A escola, para além da obrigatoriedade que a caracteriza, tem o desafio de reconhecer, cobrar de si mesma e efetivar o cuidado de introduzir em seu texto/contexto a letra "h", afirmado assim sua possibilidade como o lugar de escol(h)a mediante a participação da comunidade escolar nos processos decisórios e, consequentemente, nos seus destinos: escola/escolha. Uma escolha sustentada pelo autocuidado, pela autonomia e pela criticidade, pilares da promoção de relações vinculares saudáveis na escola.

Historicamente, já nos alertava Heidegger3, a ameaça da insignificância espreita esse espaço, com o perigo da perda de sentido, da coisificação das relações, da escola e do mundo. A ausência de sentido não autoriza a existência do ser-relacional. Institui-se na banalidade e no vazio. Entendemos que essas referências podem nos alertar para o risco de um diálogo acrítico com o contexto que cerca o jovem e com as definições que insistem em"caracterizá-lo". Propomos, assim, delineamentos de caminhos possíveis de proteção social firmados a partir do reconhecimento do papel da escola-escolha em auxiliar o desenvolvimento da autonomia do cidadão jovem.

Diálogo dos resultados obtidos com as políticas públicas voltadas para educação e saúde

O primeiro ponto importante merecedor de destaque é o fato de que mais de 97% dos jovens entre 10 e 14 anos estavam matriculados em escolas3. Este dado revela um avanço louvável no âmbito da democratização da escola brasileira. Uma leitura realista nos possibilita manter a consciência aberta à realidade e perceber, ainda que haja muito por fazer, os significativos avanços relativos à qualidade da educação pública que toma para si a responsabilidade de, junto com as demais instituições sociais, fazer convergir políticas públicas intersetoriais e articulá-las no território escolar. Assim, a compreensão  do território escolar como locus de promoção da saúde está atrelada ao desenho intersetorial convergente. A Educação, no contexto das ações da Diretoria de Educação Integral, Direitos Humanos e Cidadania/Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade/MEC, ciente de sua responsabilidade em ampliar a  prevalência de fatores de proteção para a saúde do escolar, desenvolve programas e projetos indutores de políticas públicas, tais como: Mais Educação, Programa Saúde na Escola, Escola que Protege, Saúde e Prevenção nas Escolas, Com-Vidas, Escola Aberta e outros. Cada um e todos comprometidos com o ser-jovem, com as circunstâncias socioeconômicas e culturais das famílias dos escolares, com o desenvolvimento de espaços e tempos educativos balizados pela autonomia e pelo compromisso consigo mesmo e com as gerações futuras, herdeiras do que realizamos hoje. Só assim, e assumindo o risco de sermos acusados de românticos, cremos nessa escola que, como a água (que "dá à planta o milagre da flor"), deve ser límpida,  translúcida e salutar para que o milagre da beleza humana se produza. Por isso, recorremos ao poeta Thiago de Melo para o fechamento desses apontamentos que, embora balizados pelos limites do texto, são inquietantes.

Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.4

 

Referências

1. Gessinger H. Terra de gigantes: alívio imediato. São Paulo; 1998. Disco compacto (47min), digital, estéreo. DL: M 23472-98.         [ Links ]

2. Harvey D. Justiça, natureza e a geografia da diferença. São Paulo: Loyola; 1997.         [ Links ]

3. Heidegger M. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes; 1976.         [ Links ]

4. Mello T. Estatutos do homem. Manaus: Valer; 1998.         [ Links ]