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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 n.1 Rio de Janeiro Jan. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000100003 

DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

Espaços (inter)disciplinares: Alimentação/Nutrição/Saúde/Saúde Coletiva

 

(Inter)disciplinary spaces: Food/Nutrition/Health/Public Health

 

 

Everardo Duarte Nunes

Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. evernunes@uol.com.br

 

 

Food is one of the "ties" in the intricate tissue of history.
Forster & Ranum1

Food not only nouriches but also signifies.
Fischler2

Maria Lúcia Bosi e Shirley Prado apresentam um texto instigante e necessário, pelos dilemas que levanta em face da questão de situar a Alimentação/Nutrição no vasto campo do conhecimento e da ciência, especialmente porque remete a relações que são caras à epistemologia e à história da ciência, tais como individual/coletivo, natural/social/cultural, objetividade/subjetividade, estrutural/relacional, estrutura/campo. Em realidade, estas relações estão presentes, há algum tempo, nos estudos sobre a Alimentação/Nutrição. Ao mesmo tempo, as autoras refletem sobre a questão, analisando um campo já constituído em sua especificidade, mas também como um campo que se projeta em várias direções, notadamente a da Saúde Coletiva, buscando um outro espaço e uma outra identidade.

Ao iniciar estes comentários, lembro-me de Fischler2, sociólogo da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales/Paris, que, ao analisar a relação do alimento na criação e sustentação da identidade individual e coletiva, oferece alguns argumentos centrais para estes comentários. Ele aponta que as relações humanas com o alimento têm um caráter multidimensional, mas que enquanto as ciências sociais, após negligencirem a área por um longo período, estavam descobrindo o alimento e a alimentação como um campo de pesquisa e reclamaram a sua posse em nome do relativismo cultural, pesquisadores em psicologia experimental, fisiologia, antropologia física e nutrição estavam ocupados em analisar o relacionamento humano e alimento em termos de comportamento, regulação metabólica e exigências nutricionais2. Este enunciado situa uma primeira questão, o paulatino interesse da sociologia para entender e explicar, pelo funcionalismo, estruturalismo ou construtivismo, os mais diversos aspectos da alimentação. Lépine3 aponta que foi somente na década de 1970 que a alimentação começou a despertar o interesse da antropologia médica, da etnomedicina, da antropologia da saúde e da doença, e que nasceu uma antropologia da alimentação, citando o pioneirismo de Lévi-Strauss e Gilberto Freyre. É interessante que, em relação aos campos de conhecimento, há dentro da antropologia duas áreas: antropologia da nutrição e antropologia da alimentação; a primeira, de forma geral, tem como foco as implicações da ingestão alimentar, alimento como portador de nutrientes, status nutricional etc., em que as teorias e os métodos procedem da biologia e das ciências sociais; a segunda tem como alvo o significado social e cultural do alimento e do comer4.

Assim, de uma forma bastante genérica, podese dizer que da formulação básica de Lévi-Strauss5 - a alimentação como uma linguagem e seu triângulo culinário (cru-cozido-podre) - a Jean-Pierre Poulain com o espaço social alimentar, verifica-se a ampliação crescente dos trabalhos que centralizam os enfoques sociais e culturais (para uma revisão que enfatiza o debate teórico, ver Mintz e Du Bois6, e para uma revisão detalhada sobre a antropologia nutricional, ver Roos4).

Como escrevem Poulain e Proença7, Pensar a alimentação a partir das Ciências Sociais supõe a superação de certos obstáculos epistemológicos que fundamentam as posições teóricas das origens dessa disciplina: o positivismo e a autonomia do social. Esses autores assumem que o espaço social alimentar deve ser visto como "um objeto social total", no sentido dado por Marcel Mauss. Assim, o conceito de espaço social designa o espaço de liberdade (dos "comedores" humanos) e a zona de imbricação entre os condicionantes fisiológicos-culturais-ecológicos. A análise da questão das dimensões sociais (que podem se referir, conforme Poulain e Proença, à ordem do comestível, ao sistema alimentar, ao espaço culinário, ao espaço dos hábitos de consumo alimentar, à temporalidade alimentar) conduz à percepção de que na Alimentação/Nutrição a interdisciplinaridade tem caminhado no sentido de análises integrativas e não somente complementares e de inter-relações entre os campos de conhecimento. Retoma-se, na minha opinião, o que a escola dos Annales propunha quando dizia: A alimentação pode servir como um indicador de fenômenos sociais mais amplos (não apenas que os hábitos alimentares refletem outras situações ou padrões de comportamento em uma dada sociedade)1.

Da mesma forma, nesta perspectiva (integrativa) deve-se pensar a Alimentação/Nutrição epidemiologicamente, sem reduzi-la a relações de variáveis sociodemográfico-econômicas, procurando, como Lévi-Strauss, articular categorias (no seu caso, natureza e cultura) que possam ampliar os estudos, por exemplo, sobre riscos por problemas nutricionais, ou a interação entre a deficiência de micronutrientes e fatores socioeconômicos e culturais e outras relações.

Sem dúvida, a Alimentação/Nutrição prestase totalmente para o estabelecimento de pontes entre os mais diversos conhecimentos; as autoras do artigo situam com propriedade esta questão e não há discordância com este ponto, e ao retomá-lo aqui, ilustramos ser uma reflexão presente, inicialmente, nas ciências sociais e humanas e na epidemiologia, que se estendeu às ciências políticas, mas atravessada por sérias tensões. Veja-se, por exemplo, o caso dos Estados Unidos, que durante a Segunda Guerra criou dois comitês, o Committe on Food and Nutrition (mais tarde Food and Nutrition Board) e o Committee on Food Habits. Segundo Wilson8, ambos tinham a mesma importância, mas com objetivos distintos: um tratando com o lado bioquímico e fisiológico da nutrição, o outro com o padrão psicológico e cultural. Guthe9 relata a história do Committee on Food Habits, que começou seus trabalhos em janeiro de 1941. Durante a reorganização do comitê em 1942, foram formados dois grupos: o não governamental e o que tinha relações com o governo federal. A importância dada a este trabalho do governo pode ser vista ao terem sido chamados para fazer parte do primeiro grupo destacados cientistas sociais, como os antropólogos Ruth Benedict (1887-1948) e Allison Davis (1902-1983), o sociólogo e antropólogo William Lloyd Warner (1898-1970), a nutricionista Helen S. Mitchell (1895-1984) e o psicólogo e educador George D. Stoddart (1897-1981). Destaque-se que a secretaria executiva (em Washington) foi exercida por Margaret Mead (1901-1978). Dois pontos ficam claros na proposta do programa: o primeiro seria o de alcançar um adequado nível nacional nutricional assegurando informação científica sobre o que são dietas apropriadas; o segundo exige igualmente uma abordagem científica, a de encontrar os caminhos e meios mais efetivos de ajustar os hábitos às necessidades, levando as pessoas a desejarem o que necessitam9. Mead10 avançou o programa em direção a uma série de pesquisas, inclusive de cunho qualitativo e utilização de fontes secundárias; data dessa época o trabalho feito pela antropóloga sobre o problema de mudar hábitos alimentares.

Como pode ser visto, até oficialmente criamse mundos separados. Hoje, como já dito, criam-se pontes, mas transpor as barreiras entre as ciências naturais e as sociais tem sido tarefa contínua dos estudiosos, docentes e gestores nesse campo. Mesmo o amplo conhecimento acumulado não foi suficiente para ultrapassar as barreiras, buscando o que as autoras do artigo denominam "mútua fertilização". Certamente, sempre existirá a possibilidade de novas descobertas, especialmente na interface do conhecimento. Para Fischler2, ainda há muitas perguntas, que ele chama de naive (mas, necessárias, eu diria), ainda não respondidas: como interagem os organismos, as representações, os indivíduos biológicos, a cultura entre si e com o ambiente? Como as normas e as representações socialmente construídas tornam-se internalizadas ou, de outra forma, são inscritas no paladar e metabolismo? Têm essas normas e representações um lado biológico? Como interagem com o ambiente em que os indivíduos vivem as suas experiências? Como reproduzem e/ou modificam as normas e representações? Enfim, como são constituídas?

Em resumo, existem um objeto e um método para estudá-lo e assim pode-se construir o que chamo "campo disciplinar" Alimentação/Nutrição e Saúde (Coletiva), e que Poulain e Proença7 denominam de "espaço social alimentar".

Como visto, faz parte da história da alimentação/nutrição/saúde a tensão entre diferentes campos disciplinares, o que não tem impedido as aproximações. Nesse sentido, a Saúde Coletiva é porta aberta para os estudos nutricionais (enfoque epidemiológico) e alimentares (enfoque das ciências humanas e sociais), porém já existe suficiente arcabouço teórico e metodológico nas ciências da nutrição para a sua autonomia institucional, o que se comprova pelas publicações científicas, cursos de graduação, especialização e pós-graduação, revistas especializadas, associações de classe, congressos. Constata-se entre nós que a Saúde Coletiva tem incorporado a temática, sendo que 32% dos profissionais da nutrição estão em Nutrição Coletiva, logo abaixo da Nutrição Clínica, com 41,7%, num total de 41.228 profissionais - existindo nessa data 309 cursos superiores de Nutrição11. Os números evidenciam o crescimento de uma área com história relativamente recente; suas origens no Brasil datam da década de 1930 do século XX, sendo que o primeiro curso é de 1939, mas que se firmou e se diferenciou ao longo dessas décadas.

Sem descartar as inúmeras possibilidades de aproximações e interações, como foi mostrado nestes comentários, acredito que o campo disciplinar tem a sua autonomia garantida, embora do ponto de vista institucional verifique-se que no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) a Saúde Coletiva e a Nutrição participam de um mesmo comitê. A sugestão é que deveriam existir comitês separados. Em um trabalho que sintetiza muitas de suas ideias - os usos sociais da ciência -, Bourdieu12 lembra-nos que Quanto mais um campo é heterônomo, mais a concorrência é imperfeita e é mais lícito para os agentes fazer intervir forças não-científicas nas lutas científicas. Ao contrário, quanto mais um campo é autônomo e próximo de uma concorrência pura e perfeita, mais a censura é puramente científica e exclui a intervenção puramente social (argumento de autoridade, sanções de carreira, etc.) e as pressões sociais assumem a forma de pressões lógicas, e reciprocamente: para se fazer valer aí, é preciso fazer valer razões; para aí triunfar, é preciso fazer triunfar argumentos, demonstrações refutações.

 

Referências

1. Forster R, Ranum O. Food and drink history: selections from the Annales Economies, Societés, Civilizations. Baltimore: The Johns Hopkins University Press; 1979.         [ Links ]

2. Fischler C. Food, self and identity. Social Science Information 1988; 27(2):275-292.         [ Links ]

3. Lépine C. Cozinha e dieta alimentar na obra de Gilberto Freyre. In: Kosminsky EW, Lépine C, Peixoto FA, organizadores. Gilberto Freyre em quatro tempos. São Paulo: Fapesp/Editora Unesp/Edusc; 2003. p. 287-302.         [ Links ]

4. Roos G. Nutrition and health. In: Ember CR, Ember M. Encyclopedia of medical anthropology: health and illness in world's cultures. New York: Kluwer Academic/Plenum Publishers; 2004. p. 178-183.         [ Links ]

5. Lévi-Strauss C. O triângulo culinário. In: Cordier S, organizador. Lévi-Strauss. São Paulo: [s.n.]; 1968.         [ Links ]

6. Mintz SW, Du Bois CM. The anthropology of food and eating. Annual Review of Anthropology 2002; 31:99-119.         [ Links ]

7. Poulain JP, Proença RPC. O espaço social alimentar: um instrumento para o estudo dos modelos alimentares. Rev Nutr 2003; 16(3):245-256.         [ Links ]

8. Wilson ML. Preface. Bulletin of the National Research Council 1943; 108 [acessado 2010 jul 19]. Disponível em: http://books.nap.edu/openbook.php?record_id=9566& page=1        [ Links ]

9. Guthe CE. The history of Committee on Food Habits. Bulletin of the National Research Council 1943; 108 [acessado 2010 jul 19]. Disponível em: http://books.nap.edu/openbook.php?record_id=9566&page=1        [ Links ]

10. Mead M. The problem of changing food habits. Bulletin of the National Research Council 1943; 108 [acessado 2010 jul 19]. Disponível em: http://books.nap.edu/openbook.php?record_id=9566&page=1        [ Links ]

11. Conselho Federal de Nutricionistas. [acessado 2010 jul 19]. Disponível em: http://www.cfn.org.br/novosite/conteudo.aspx?IdMenu=96        [ Links ]

12. Bourdieu P. Os usos sociais da ciência. São Paulo: Editora Unesp; 2004.         [ Links ]