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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 n.1 Rio de Janeiro Jan. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000100004 

DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

 

Não nos esqueçamos do que é singular e contingente...

 

Let us not forget what is singular and contingent...

 

 

Kenneth Rochel de Camargo Jr.

Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. kenneth@uerj.br

 

 

O texto de Bosi e Prado traz uma bem-vinda discussão sobre a constituição de dois relevantes campos científicos no Brasil, Saúde Coletiva (SC) e Alimentação e Nutrição (AN). É sempre oportuno que pesquisadores reflitam sobre as condições de produção do conhecimento, e neste tema particular poucos estarão tão bem situados como as duas autoras citadas.

Mesmo reconhecendo a relevância do artigo, há contudo alguns pontos que demandam maior discussão, como aliás é a proposta deste debate. Faço uma ressalva inicial sobre meu conhecimento limitado sobre a área de Alimentação e Nutrição, o que me leva a adotar um ponto de vista e exemplos predominantemente ligados à Saúde Coletiva.

Uma primeira divergência que traria seria com relação ao recurso à perspectiva kuhniana ao longo do texto. Tratando-se de áreas interdisciplinares, tem-se necessariamente a vigência de múltiplos paradigmas em seu interior; mais que isso, mesmo aceitando-se a divisão tradicional da SC em três subáreas (epidemiologia, ciências sociais e humanas em saúde e planejamento), a presença de múltiplos paradigmas é também característico delas, com a possível exceção da epidemiologia. Com relação à AN talvez seja possível constatar a mesma variabilidade, exceto naquilo que mais se aproxima do modelo biomédico. Por conta destas características, não me parece que seja possível invocar uma explicação sobre a constituição dos dois campos a partir de entrincheiramentos paradigmáticos, uma vez que ambos os campos e suas respectivas subdivisões estão atravessados por múltiplas vertentes eventualmente mais conflitantes internamente do que no diálogo com outras disciplinas dos respectivos campos. Isto significa que dificilmente questões propriamente epistemológico-metodológicas, que seriam centrais numa perspectiva paradigmática, poderiam explicar ou compreender os complexos arranjos designados tanto pela SC quanto pela AN. Assim, parece-me que para a discussão proposta há pouco valor heurístico a ser ganho com o recurso ao conceito de paradigma.

Antes de propor uma alternativa teórica, gostaria de chamar a atenção para alguns aspectos que poderiam ser mais bem explorados na discussão proposta. Em primeiro lugar, é importante que consideremos o papel fundamental desempenhado por agentes que poderíamos chamar de "externos" a ambos os campos, as agências de fomento à pesquisa e formação pós-graduada no país (especialmente CNPq, Capes e FAPs estaduais). A quase totalidade do financiamento para a pesquisa e formação pós-graduada em ambos os campos estudados provém do setor público (certamente na SC; o campo da AN tem uma vertente profissional-industrial que talvez tenha uma dinâmica um pouco diferente), o que significa que o Estado acaba desempenhando um papel fundamental na legitimação e institucionalização e campos científicos em nosso país (veja-se, por exemplo, a famosa taxonomia do CNPq, ou os arranjos de comitês assessores e áreas da Capes). Na vertente política, as lutas político-partidárias em torno do Sistema Único de Saúde (SUS) e de sua implementação também têm tido importantes rebatimentos (só como exemplo, veja-se a discussão sobre organizações sociais, que não surgiu do interior do campo mas motivou acalorados debates, ainda em curso). Isto limita o poder explicativo de análises internas aos campos para dar conta de sua organização e trajetória.

Outro aspecto importante a ser considerado, em linha com a ênfase que as autoras dão a uma perspectiva ética como estruturante de ambos os campos, é a contextualização histórica. Ao menos no caso da Saúde Coletiva, sua constituição ocorre num contexto de repressão política e articulação da luta pela redemocratização do país, no qual o movimento da reforma sanitária (MRS) assumiu posição estratégica nessa mobilização. O MRS, bem como o desenho e desenvolvimento do SUS, teve um papel aglutinador para o desenho do campo da SC, ajudando a entender a busca deliberada de ruptura com o "passado", tal como representado pela Saúde Pública tradicional.

Por fim, e em razão deste último aspecto, há as questões de contingência e singularidade. Eventos-chave por vezes decorrem de conjunções improváveis, quando um agente específico opera importantes deslocamentos, tomando de empréstimo algo da terminologia latouriana - por exemplo, é inegável a relevância da participação de uma importante intelectual do campo da SC, a professora Maria Andrea Loyolla, à frente da Capes quando se estabeleceu a sua autonomia como campo específico. Do ponto de vista da AN, creio ser igualmente relevante que o primeiro curso de formação de profissionais da área tenha surgido exatamente numa das mais antigas e relevantes escolas de Saúde Pública do país, a Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)1.

Como colaboração para possíveis desenvolvimentos futuros deste trabalho, gostaria de sugerir algumas alternativas teórico-metodológicas para a exploração das questões que apontei anteriormente. Em primeiro lugar, no âmbito da filosofia da ciência, há autores que têm enfatizado as limitações das grandes narrativas para dar conta de um conjunto tão variado e diverso como aquilo que abrangemos pela rubrica "ciência". Entre estes, destacaria o trabalho de Arthur Fine, que propõe como estratégia de pesquisa o que denomina "atitude ontológica natural" (NOA, no original), por ele descrita da seguinte forma:

1. Colocar entre parênteses a verdade como um conceito explanatório.

2. Reconhecer a abertura da ciência em todos os níveis, especialmente nas atividades pervasivas de escolha e julgamento.

3. Concentrar nas práticas locais sem nenhum pressuposto sobre como elas se ajustam globalmente, ou mesmo se elas de fato se ajustam.

4. Lembrar que a ciência é uma atividade humana, logo seu entendimento envolve quadros referenciais e modalidades para a ação social.

5. Finalmente, baseado em todos os itens acima, tentar entender os fenômenos de formação e dissolução de opinião na ciência em toda sua particularidade2.

Chamo a atenção para os itens 3 e 4, que me parecem particularmente relevantes para a discussão proposta. A ênfase na prática e na contingência remete a uma segunda autora relevante, Karin Knorr-Cetina, que descreve os cientistas como socially situated reasoners (algo como "raciocinadores socialmente situados")3, isto é, operadores racionais que integram várias avaliações de várias ordens (políticas, econômicas, epistemológicas, institucionais) na sua tomada de decisão. Nesta perspectiva, seria importante contemplar esta multiplicidade de determinantes que leva, por exemplo, um expert de uma determinada área a migrar para a Saúde Coletiva num determinado momento de sua carreira, ou o que leva outro a optar por uma determinada linha de pesquisa, isto é, como percebem "oportunidades" e tomam decisões nestes contextos. Estas microoperações certamente se refletirão nos arranjos institucionais e nas práticas de pesquisa.

A mesma autora propôs ainda um segundo conceito que me parece fundamental: o de arena transepistêmica4. Tais arenas abrangem cientistas e não cientistas e, portanto, argumentos e "coisas" que podem ser "científicas" ou não; ou seja, o resultado final da produção científica será fortemente dependente de contextos e das decisões de diversos agentes, nem todos necessariamente parte do que se chamaria de "comunidade científica". Este ângulo é ainda mais relevante ao abordarmos campos em que a multidisciplinaridade e a coexistência de diferentes práticas, não apenas de pesquisa e formação profissional, mas também de intervenção e ação política (em seu sentido estrito), são componentes estruturais.

Nesta perspectiva, pode-se até mesmo questionar se de fato a SC ou a AN constituiriam campos organicamente coesos, o que seria ainda menos aplicável à sua área de intersecção. Mas não resta a menor dúvida de que importantes (e estáveis) arenas transepistêmicas se formaram em seu interior, e também na sua interface.

 

Referências

1. Gil MF. Recursos humanos em nutrição no Brasil: nutricionistas. Cad Saude Publica 1986; 2(4):561-569.

2. Fine A. Science made up: constructivist sociology of scientific knowledge. In: Gallison P, Stump DJ. The disunity of science. Stanford: Stanford University Press; 1996.         [ Links ]

3. Knorr-Cetina K. The manufacture of knowledge. Oxford: Pergamon Press; 1981.         [ Links ]

4. Knorr-Cetina K. Scientific communities or transepistemic arenas of research? A critique of quasi-economical models of science. Social Studies of Science 1982; 12(1):101-130.         [ Links ]