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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 n.1 Rio de Janeiro Jan. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000100008 

ARTIGO ARTICLE

 

Sobre o campo da Alimentação e Nutrição na perspectiva das teorias compreensivas

 

The field of Food and Nutrition from the perspective of comprehensive theories

 

 

Maria do Carmo Soares de FreitasI; Maria Cecília de Souza MinayoII; Gardênia Abreu Vieira FontesIII

IDepartamento de Ciência da Nutrição, Escola de Nutrição, Universidade Federal da Bahia. Rua Araújo Pinho 32, Canela. 40000-000 Salvador BA. carmofreitas@uol.com.br
IICentro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz
IIIDepartamento de Nutrição, Universidade Federal da Bahia

 

 


RESUMO

Trata-se de uma breve reflexão sobre o campo da alimentação e nutrição, aproximando o das disciplinas das ciências humanas. Toma-se como referência o pensamento de alguns teóricos e a vivência dos próprios autores. O objetivo principal é motivar a discussão sobre este tema da alimentação e nutrição considerando a complexidade das relações que envolvem o comer e a dietética, além de tentar estimular a reflexão da prática do profissional nutricionista. Justifica-se a importância metodológica de incorporar o uso da hermenêutica para a compreensão dessa temática. Reflete-se a importância de agir em relação à orientação alimentar associando o saber técnico desse campo com as perspectivas das teorias compreensivas.

Palavras-chave: Campo da alimentação e nutrição, Teorias compreensivas em nutrição, Abordagem interpretativa


ABSTRACT

The present article is a brief reflection on the field of Food and Nutrition as it interconnects with the humanities. Relevant theorists' thinking as well as the experience of the authors were used as references. The main purpose is to stimulate the discussion on the food-and-nutrition issue, taking into account the complexities involved in the relations between food consumption and dietetics. Also it is expected to motivate nutritionists to reflect upon their professional practice. Incorporating the use of hermeneutics for the comprehension of the subject is justified in terms of its methodological significance. The importance of taking action in guiding food consumption through the association of the technical knowledge of the field with various perspectives of comprehensive theories is also discussed.

Key words: Field of Food and Nutrition, Comprehensive theory in Nutrition. Interpretative approach


 

 

Introdução

O objetivo deste artigo é demonstrar a possibilidade de diálogo entre o saber técnico e outras formas de conhecimento que abordam as experiências do sujeito no campo da Alimentação e Nutrição. Apresenta-se uma alternativa de construção teórica que pode sugerir a incorporação da interdisciplinaridade na reflexão e na prática dos nutricionistas. O processo dessa construção teórica segue uma sequência reflexiva de embasamento em categorias, como nutrição, e também filosóficas, antropológicas e sociológicas, do ponto de vista compreensivo.

Em geral, os estudos na nutrição expressam a hegemonia do paradigma biomédico que, por sua vez, se manifesta nas práticas em saúde predominantes. Estas expressam uma visão de mundo, na lógica das ciências naturais, o que limita epistemologicamente o reconhecimento da totalidade da alimentação como um ato cultural e social1,2. Nesse sentido, o caminho restrito adotado pela área acaba por criar-lhe armadilhas teóricas que influenciam a prática profissional. Algumas reflexões de cunho filosófico e antropológico sobre o ato fisiológico e ao mesmo tempo cultural do comer permitiriam aprofundar os estudos no campo da nutrição humana, incorporando, na sua área de abrangência, a compreensão da linguagem e dos significados atribuídos pelos sujeitos sobre suas experiências com a alimentação, uma ação humana que é intrinsecamente marcada pela natureza e pela cultura. Dizendo de outra forma, nada é mais natural que comer e nada é mais cultural que as formas, as preferências e os sentidos da alimentação.

Numa visão técnica do tema, o corpo é pensado como um objeto natural e a nutrição como a ciência que trata de definir uma ração medida em quantidades de energia para cada tipo de alimento a ser metabolizado pelo organismo. Assim, a nutrição "naturalista" teria uma dependência das variações genéticas oriundas do crescimento demográfico, da adaptação do ser humano aos alimentos produzidos e à sua disponibilidade3.

Busca-se, neste artigo, introduzir algumas notas de filosofia, em particular da "hermenêutica", para fundamentar um método compreensivo e interpretativo das práticas alimentares. Por "hermenêutica" se entende a corrente filosófica que dá ênfase à compreensão da linguagem em seu contexto no tempo e no espaço, levando-se em conta o papel dos sujeitos nas práticas histórico-sociais4. Nessa perspectiva, entende-se que a expressão alimentação e nutrição significa mais que o processo de fisiologia dos alimentos no corpo, sendo, portanto, mais ampla do que o saber técnico de caráter biológico. Esta expressão inclui um campo semântico no qual vários conceitos se entrecruzam como o de "comer", o de "dieta", o de "fome" e o de "política de segurança alimentar", dentre outros. "Comida" é o alimento na expressão da cultura; "dieta" quer dizer terapia nutricional, disciplina ou restrição do desejo de comer em consonância com as demandas do contexto social; "fome" é a grande questão social que precisa sempre ser politizada, pois tem a ver com a miséria, a pobreza e as desigualdades sociais.

A noção de "campo" aqui utilizada se inspira em Bourdieu5 e corresponde à produção de um processo social e de conhecimento integrado por saberes, práticas e relações de poder. Nesse sentido, o campo da alimentação e nutrição é necessariamente interdisciplinar, pois inclui não apenas o saber técnico, mas a cultura e todas as relações que permeiam o sentido e as práticas alimentares.

 

Breve introdução aos pensamentos que influenciaram os estudos da alimentação e nutrição no Brasil

Com o tecnicismo dominante na área da nutrição, observa-se um distanciamento dos temas da alimentação, da história, da cultura e dos costumes de cada época que sempre influenciaram os hábitos e as referências alimentares dos povos no mundo e no Brasil. Ao relembrar a Idade Média, por exemplo, Le Goff6 ressalta que o comportamento alimentar na Europa refletia a posição do indivíduo na sociedade. Comer em abundância representava status e força. E os corpos musculosos simbolizavam o poder de intimidação dos homens que, dessa forma, assemelhavam-se aos animais ferozes e carnívoros.

Logo no início da industrialização, os padrões de alimentação foram modificados para atender a uma nova estética do comer, necessária a assegurar a subsistência dos trabalhadores e cujas limitações de quantidades eram fixadas pela visão disciplinar civilizadora, típica das sociedades ocidentais modernas7. Em meados do século XIX, na Europa, os estudos de fisiologia se limitavam a explicar a nutrição a partir do atendimento das necessidades orgânicas. O controle do prazer de comer era representado por uma dietética discursiva e moralizadora com intercessão religiosa. As ideias que cercavam a necessidade de uma alimentação ideal estavam relacionadas ao tipo de atividade física (trabalho) e ao comportamento social religioso8.

Nessa racionalidade, a nutrição se desenvolve na mesma lógica da medicina, e esta numa história que vem desde o século XVII, segundo Luz9. No final do século XIX, explicitamente a nutrição passou a fazer parte do pensamento médico, com o cuidado dietético e a alimentação "ideal" relacionada à prevenção ou ao tratamento de enfermidades crônicas tais como obesidade, desnutrição, diabetes, hipertensão, hipovitaminoses e outras. O alimento ficou restrito a ser coadjuvante do tratamento médico e as práticas técnico-científicas foram submetidas ao discurso clínico sobre enfermidades, sem levar em conta a experiência do sujeito. A dietética hospitalar - que se desenvolveu com os cuidados das enfermeiras e das religiosas dos hospitais e das Santas Casas de Misericórdia - foi fortemente influenciada pela teoria miasmático-bacteriológica e apoiada por ideias positivistas, a propósito da determinação das doenças por sentidos exteriores. Como exemplo, se poderia engordar com os cheiros10.

Nesse ambiente de explicações e de usos, a alimentação ficou subordinada às questões biológicas, o que em essência coloca-se num primeiro plano da condição animal do ser humano11. Em consequência, as análises sobre os sentidos da alimentação e do comer foram sendo deslocadas para outras disciplinas, como a história7 e a antropologia12, e para as artes, como a pintura e o cinema. São ainda raros os estudos que se envolveram na compreensão dos significados dos problemas da alimentação, da fome e do cuidado alimentar dos indivíduos13.

Menendéz14 entende que o modelo biomédico assinala a evolução da enfermidade e não a história do padecimento. A nutrição reproduz este modelo quando não valoriza as condições sócio-históricas e culturais que envolvem os temas da alimentação, os processos simbólicos e emocionais que medeiam tanto a doença como o tratamento dietético.

Do ponto de vista teórico filosófico, a nutrição aderiu ao modo positivista de pensar, de pesquisar e de atuar. O positivismo como método explicativo da realidade trabalha com o controle e a verificação de dados que possam ser comprovados e ignora (porque não lhe interessa) vozes e nomes, como muito bem enuncia Habermas15: O olhar objetivante e examinador que tudo controla e penetra adquire uma força estruturante; é o olhar do sujeito racional, que perdeu todos os vínculos meramente intuitivos com seu mundo circundante, que demoliu todas as pontes do entendimento intersubjetivo, e para o qual, em seu isolamento monológico, todos os outros sujeitos só podem ser alcançados na qualidade de objetos de uma observação impassível.

As ideias positivistas na nutrição reproduzem a ilusão objetivista da ciência e concebem um modelo teórico-prático centrado na atenção à doença (nem é ao sujeito doente!). Reduzem a alimentação humana a uma necessidade física da ingestão de elementos bioquímicos (como se tratasse de uma ração animal). No campo teórico da alimentação e nutrição, em conclusão, existe um ponto cego que distancia os nutricionistas (desde sua formação) das questões alimentares reais das pessoas e do ato humano de se alimentar, ato este saturado de sentido e que vai muito além da proposta de prevenção de doenças.

Para compreender os discursos normativos da área, Vasconcelos16 analisou os Arquivos Brasileiros de Nutrição no período de 1944 a 1968. O autor observou que o enfoque científico tradicional da nutrição repousa, desde sua origem, sobre a composição química, o valor nutricional de alimentos, o consumo e o estado nutricional da população brasileira16.

Na produção do conhecimento, por mais de cinquenta anos o campo teórico da alimentação e nutrição, em consonância com o pensamento positivista, influenciou a prática de nutricionistas e ainda o faz. Hegemonicamente foi inspirado por pesquisas clínicas de ordem experimental, laboratorial, epidemiológica e por investigações de tecnologia de alimentos, ou seja, um campo visivelmente na área das ciências naturais.

Bosi17 dá uma bela contribuição sobre o assunto ao trazer a importância da construção da identidade e a profissionalização dos nutricionistas, em que conhecimento e prática implicamse como um processo do exercício concreto e da percepção desses profissionais no campo da alimentação e nutrição.

Conclui-se que há poucas linhas de pesquisas sobre o campo da alimentação e cultura no Brasil. Isto demonstra escassas construções teóricas sobre os vínculos entre alimentação, nutrição e os contextos históricos, culturais e socioeconômicos. Por exemplo, não têm sido priorizados estudos históricos nacionais sobre as condições de saúde e alimentação dos escravos no Brasil Colônia, sobre a influência da religião afro-brasileira na nutrição e as tradições alimentares dos povos indígenas. Aliás, é a antropologia que tem ensaiado alguns movimentos nesse sentido, sobretudo a partir do final dos anos 7018-20. Em meio aos antropólogos, destaca-se Lévi-Strauss21, que ao estudar a alimentação observou uma estreita relação entre natureza e cultura, elementos estes mediados pela cozinha. O comestível ou não comestível são interpretações de mitos que envolvem o comer como parte de um sistema de relações sobre os conceitos de "bem" e "mal" na alimentação. Em geral, as pesquisas de antropologia da alimentação no Brasil têm pouco a ver com a nutrição propriamente dita, ainda que sejam relevantes para uma correspondência social e antropológica com o campo teórico e a práxis do nutricionista. A exemplo será, então, conforme Gadamer4 e Geertz22, que a sensibilidade e o esforço intelectual dos sujeitos (nutricionistas) produzirão conteúdos aprofundados como requer a hermenêutica.

A pouca referência sobre alimentação e cultura na formação do nutricionista pode lembrar um episódio ocorrido recentemente na cidade do Salvador (BA), quando uma nutricionista retirou o feijão do almoço dos pacientes de um hospital público, numa terça feira, dia de Ogum. Esse ato deixou a comunidade de mais de mil pessoas indignada pela ausência do "alimento do Orixá Ogum", santidade de cura e de vigília do corpo no Candomblé, reverenciado neste dia da semana. O resultado dessa ação chama a atenção para a desinformação da nutricionista sobre a herança afro-descendente na dietética baiana23.

Corpo e alimento estão na ideia religiosa da purificação em várias religiões, com o propósito de prevenir enfermidades e curas. Na idealidade dos sentidos, há símbolos que se referem à qualidade de uma dietética cultural, fora do campo biomédico, que mantém restrições tradicionais como as "quizilas' - interdições alimentares do Candomblé para prevenir enfermidades do corpo e da mente24, a carne de porco pelo judaísmo, entre outros exemplos.

 

Dificuldades para a aproximação entre Alimentação e Nutrição

Pensar o campo da Alimentação e Nutrição como interdisciplinar é esbarrar num conjunto de obstáculos semelhantes aos descritos por vários autores em outras situações em se que se busca a inter-relação entre ciências sociais e biomedicina25-28. Não são obstáculos triviais aqueles que se encontram em tentativas de fazer convergir fragmentos de disciplinas, mudar a mentalidade unidirecional dos professores, pesquisadores e profissionais e provocar um diálogo entre conceitos que, frequentemente, têm significados diferentes e precisam ser consensualizados, a depender da área em que foram desenvolvidos e da história de sua constituição25,26,28-31.

Para se compreenderem os significados relacionados a enfermidades originárias a excessos ou deficiências de nutrientes, por exemplo, atribuídos pelos sujeitos, é imprescindível se observar a diversidade sociocultural alimentar, a oferta de alimentos, a influência da mídia sobre as dietas e a política de segurança alimentar, além das abordagens técnico-científicas sobre o valor nutricional dos alimentos. No entanto, no meio acadêmico existe uma tensão permanente entre a valorização do saber da área de nutrição e o menosprezo pelas práticas alimentares do povo, quase sempre tidas como pouco racionais ou frutos da ignorância. Tal tensão se mostra pelo receio, em geral, que os estudiosos têm em se aproximarem do senso comum, um receio que faz parte da lógica racionalista em que o campo da alimentação e nutrição tem seus pilares fundados. Por sua vez, dadas as dificuldades da práxis interdisciplinar, sobretudo em comunidades étnicas, seria necessária a realização de mais estudos qualitativos ou antropológicos da alimentação, nutrição e cultura, e se obter um nível mínimo de compreensão sobre o empírico.

 

Para uma abordagem "compreensiva"

No início dos anos 2000, cresce o interesse dos nutricionistas pelos conteúdos de antropologia da alimentação, observados em encontros científicos com esses profissionais. Assim, novos currículos passam a incorporar aspectos culturais da alimentação em uma abordagem interdisciplinar com as ciências humanas. Além de ser um fenômeno complexo, é possível que esse interesse se fundamente, teoricamente, no fato de a conduta alimentar ser interpretada como um texto. Ou seja: o acesso aos alimentos, as práticas alimentares, as crenças e os habitus são textualizáveis como inscrições significativas da cultura e podem ser interpretados22, pois o indivíduo necessita de símbolos para entender sua realidade social, seu sustento material, sentir-se num mundo comum e se reconhecer como sujeito na construção de sua própria realidade. Ainda que se preservem características individuais num tempo e num espaço dado, o hábito alimentar terá sempre um sentido. O habitus5 alimentar corresponde à adoção de um tipo de prática que tem a ver com costumes estabelecidos tradicionalmente e que atravessam gerações, com as possibilidades reais de aquisição dos alimentos e com uma sociabilidade construída tanto no âmbito familiar e comunitário como compartilhada e atualizada pelas outras dimensões da vida social. Ao alimentar-se de pratos preparados de forma típica, o indivíduo não só dá conta da própria sobrevivência, mas se sente seguro em suas tradições e reconhece sua identidade social. Desta forma, o habitus alimentar é um texto sobre a cultura que se inscreve nos signos do cotidiano.

Um exemplo dessa especificidade se encontra num estudo realizado num bairro da periferia de Salvador por Freitas27 sobre crenças a respeito da dieta das crianças. Nessa comunidade, o aleitamento materno por mais de três meses denota uma condição animal. No imaginário dessa população investigada, a ingestão de alimentos crus é responsável por sintomas de mal-estar por não ser considerada própria para o ser humano. Há ainda um silêncio sobre determinado alimento considerado necessário, mas ausente pela falta de condições de comprá-lo. Esse silêncio está ligado à necessidade de comer insatisfeita, pois a palavra é assemelhada à própria materialidade do alimento que não se tem. Já a cocção com associação de sal e alho representa a harmonia do alimento com o corpo e o espírito.

A partir do exemplo citado, pode-se concluir que o habitus alimentar pode ser compreendido através da linguagem, das atitudes e práticas e se traduz em ritos, valores, mitos, crenças e tabus. Toda cultura tem sua comida, sua cozinha e base (staple foods); tem ritos de encontro para comer em que se dá a sociabilidade; valoriza mais uns produtos alimentares que outros; toda cultura desenvolve crenças a respeito do valor dos alimentos - inclusive a área de nutrição contribui para isso, variando sua própria opinião sobre determinados produtos a partir das novas informações de pesquisas; e toda cultura tem tabus alimentares.

Historicamente, no Brasil, a mistura de feijão com arroz constitui o alimento básico, uma combinação reconhecidamente rica em nutrientes e cujo consumo atinge ainda grande parte da população. No entanto, observa-se que nas camadas populares o feijão com arroz, por restrições econômicas e pelas propagandas da indústria alimentícia (que anuncia e vende outros produtos mais baratos), não tem a mesma frequência de consumo que antes. O Estudo Nacional de Despesa Familiar (Endef)32 e a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF)33 mostraram que entre os 28 anos da realização destas duas pesquisas observou-se uma expressiva redução de produtos da cesta básica no início dos anos 2000, como: arroz (menos 45,6%), feijão (menos 37,3%) e farinha de mandioca (menos 36,3%). Também mostraram o aumento do consumo de refrigerantes em 492% nesse mesmo período33. Apesar dessas cifras, vale citar as mudanças alimentares para os trabalhadores, propiciadas por unidades de alimentação em empresas, ao oferecerem cardápios variados de verduras, legumes e frutas.

O habitus alimentar trata de uma necessidade que sempre se renova e aceita novas propostas, mas sempre mantém suas bases históricoculturais. Os novos gostos e as novas estéticas são criados pelas necessidades de adaptação do corpo ao mundo moderno e são sugeridos pela indústria alimentícia que não cessa de lançar produtos que tentam facilitar a vida doméstica ou substituí-la.

Além dos exemplos citados neste texto há, sem dúvida, diferentes receituários regionais de uma dietética cultural que produz explicações sobre o regime de práticas alimentares. Na análise das subjetividades dos objetos do campo da alimentação e nutrição, é importante adotar a perspectiva compreensiva que enfatiza o processo interpretativo das próprias populações humanas em relação à comida. Nesse sentido, a dieta do ponto de vista biomédico é um texto clínico que representa a ordenação de nutrientes, um receituário cerrado que precisa ser completado com os valores culturais do comer34. Com a inclusão do conteúdo sociocultural pode-se compreender o cuidado na nutrição na perspectiva da promoção da saúde, pois o sujeito elege e seleciona o alimento a partir de um conjunto de sensações como o gosto e o prazer e as regras de sociabilidade. Desta forma, pode-se entender a nutrição como um modo pragmático de atenção à sobrevivência, em que o comer aparece como necessidade e desejo, a depender das percepções dos sentidos dados pela sociabilidade de um dado grupo social e em uma perspectiva temporal35.

 

A "hermenêutica filosófica" aplicada ao campo da alimentação e nutrição

A compreensão e a interpretação interagem para uma análise dos significados atribuídos pelos atores a um dado fenômeno. Analisam-se sentidos conferidos a ações sociais dentro de sua realidade, pela valorização da linguagem que expressa a relação entre os significados do mundo real e a subjetividade dos atores. A hermenêutica filosófica18 "aplicada à alimentação e nutrição" constituiria um exercício compreensivo que não desprezasse a dietética preconizada pela biomedicina, mas fizesse dela uma análise intertextual em que alimentação e comida entrassem como um ato não apenas da natureza, mas da cultura, que inclui intersubjetividade, representações dos fenômenos e compreensão de seus significados compartilhados pelos que vivem em semelhantes contextos.

O que é a hermenêutica e como ela pode ajudar os nutricionistas numa análise que ultrapasse o reducionismo biomédico? Segundo Gadamer4, hermenêutica é a arte e a ciência da compreensão. Compreender é exercer a capacidade de colocarse a si mesmo no lugar do outro, indagando algo além do que já foi dito. E um texto é compreendido quando se alcança "o horizonte do perguntar", este com respostas possíveis4. Interpretar (explanar, aclarar) o sentido é realizar a compreensão, propriamente. O resultado de uma interpretação de um texto demonstra que houve uma compreensão prévia. Por isso, compreender e interpretar estão completamente "imbricados de modo indissolúvel"4. E como nem sempre se consegue expressar completamente o que se sente, o recurso da hermenêutica vem revelar, iluminar o significado mais profundo da linguagem sobre o que se compreende para interpretar. Envolvem-se o contexto e a biografia do intérprete, para aproximarse da realidade dos sujeitos.

A hermenêutica contemporânea combinada aos estudos de Heidegger36 e Gadamer4 entende a compreensão como parte do contexto e a linguagem como a comunicação com o mundo e as coisas. A hermenêutica exige intersubjetividade, reflexão e contextualização sobre a ação humana, suas necessidades, sua história; elos em que se relacionam o tempo presente, passado e futuro de algo que se examina.

O sentido é o tema central da comida. Um objeto empírico relacionado ao comer, como uma dieta, uma comida de domingo, os tabus alimentares, o que engorda e o que emagrece, o que fortalece e o que enfraquece o corpo etc. são símbolos que compõem uma estrutura de significados. Da pluralidade textual sobre a comida, a compreensão, em primeiro lugar, e a interpretação logo a seguir implicam uma imersão no mundo do ator e no mundo que o transcende, para dar sentido ao comer e à linguagem que textualiza esse ato. Interpretar é um vínculo para compreender e vice- versa. Parte-se, segundo Schutz35, da versão dos entrevistados sobre os fatos que narram, o que em si institui um construto. O ato interpretante é tenso, com idas e vindas às narrativas dos sujeitos, para esclarecer lacunas, uma palavra interdita, um gesto de silêncio ao falar de si. Um ato cujas respostas serão sempre insuficientes para a compreensão dos significados que o sujeito pode fazer sobre sua alimentação e nutrição. A interpretação da dieta, por exemplo, adquire semelhanças e diferenças referentes à vida cotidiana de um mesmo grupo social. Na tentativa de aprofundar uma fala, há fendas que geram a possibilidade de novas leituras textuais. A fenda é um lugar de entrada de interpretação entre as linhas narradas37.

A presença do nutricionista que quer compreender e interpretar oferece um sentido intersubjetivo incontestável e necessário ao campo da alimentação e nutrição, diferente das práticas tradicionais. Ao contrário destas, cria-se um saber compartilhado na relação entre profissional e paciente (sujeito implicado). Isto significa que a introdução de uma orientação dietética intersubjetiva não se exaure no dualismo entre o bom e o mau comportamento alimentar, ultrapassando as relações de poder do modelo biomédico tradicional, conforme denunciou Foucault38. Como exemplo, nesta reflexão, citam-se os casos de retirada do sal de uma dieta para determinado paciente, em que é preciso ouvir e dialogar com ele sobre o que sente, o que pensa e como interpreta essa mudança de gosto alimentar, pois o consumo de sal tem a ver com crenças religiosas e com sabores que foram cuidadosamente domesticados durante uma vida inteira.

Assim, a propósito da hermenêutica, as práticas e as narrativas culturais sobre alimentação devem considerar o sentido histórico da questão que se indaga. Esta espécie de circuito parte da linguagem, da compreensão de seu contexto, para a interpretação elaborada pelo próprio sujeito. O nutricionista ou o pesquisador enriquece sua práxis social, no processo hermenêutico, ao decifrar e analisar a comunicação com os sujeitos.

Em meio às muitas vozes que se expressam na intersubjetividade inscrevem-se também silêncios que precisam ser reconhecidos, pois ampliam os textos para além da fala. Observou-se, por exemplo, o pavor do termo fome por parte de muitas famílias num bairro popular de Salvador27. Este tabu linguístico é justificado para evitar com a palavra a presença do sofrimento que essa sensação provoca. Palavras que sugerem uma externalidade ou um ente fora do eu, ao substituírem a noção de fome, fazem relação com outras expressões que mostram o mal-estar corporal pela ausência permanente de alimentos. O corpo se arrepia ao ouvir falar fome, produz insônia por medo de ser tomado por esse fenômeno que cheira mal, e ameaça a vida. Será, então, na conversação que se esconde o termo preciso na obscuridade da linguagem em que entendimentos mútuos entre pesquisadores, profissionais e a população se produzirão.

 

Considerações finais

Neste texto, não se quis desprezar ou colocar em segundo plano todo o conhecimento técnico-científico que compõe hegemonicamente o repertório da nutrição. Mas buscou-se ressaltar uma proposta de proximidade entre teorias e práticas acadêmicas com o mundo concreto e cotidiano das pessoas a quem a nutrição pretende servir, considerando que é preciso ir além do que se fez até o momento. É preciso ter métodos para compreender e interpretar as relações que fazem interagir dieta alimentar e cultura, possibilidades socioeconômicas e dietas socialmente possíveis e ricas, e mudanças que ao mesmo tempo preservem o contexto cultural da comensalidade e acrescentem a ele propostas novas e substanciais. Muitos dos fracassos das práticas agenciadas pela clínica poderiam ser explicados, pelo menos em parte, pela falta do diálogo e de disposição de praticar uma comunicação intersubjetiva.

A nutrição normativa é, de fato, uma região fechada aos significados atribuídos pelo sujeito que, independentemente e em sua própria autonomia, quer explicar sua comida e interpretar as relações com a nutrição em seu corpo.

Atualmente, existem alguns estudos significativos sobre a cultura alimentar do país, assim como grupos e linhas de pesquisa sobre o assunto. No entanto, a maioria deles acontece fora do campo da nutrição e pertencem ao campo da história e da antropologia. A área de nutrição não os conhece e não se apropria deles.

A proposta deste texto é mostrar a possibilidade de aproximar alimentação e nutrição numa abordagem interdisciplinar capaz de não separar o técnico e atualmente consagrado cientificamente do contexto humano, subjetivo, cultural e histórico. Uma abordagem hermenêutica poderia oferecer suporte à produção de um conhecimento mais complexo - não alheio à área e sim incorporado a ela - em que se permitisse ver e criticar assuntos da técnica, dialogar com estes vis-à-vis temas da tradição alimentar das comunidades e da população brasileira.

 

Colaboradores

MCS Freitas trabalhou na concepção teórica, elaboração e redação final do texto; MCS Minayo e e GAV Fontes participaram na organização e execução das oficinas e na revisão bibliográfica do artigo.

 

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Artigo apresentado em 10/02/2010
Aprovado em 20/05/2010
Versão final apresentada em 12/07/2010