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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 n.1 Rio de Janeiro Jan. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000100015 

ARTIGO ARTICLE

 

A pesquisa sobre Alimentação no Brasil: sustentando a autonomia do campo Alimentação e Nutrição

 

Research on Food in Brazil: sustaining the autonomy of the Food and Nutrition field

 

 

Shirley Donizete PradoI; Maria Lucia Magalhães BosiII; Maria Claudia da Veiga Soares CarvalhoI; Silvia Angela GugelminI; Juliana Klotz SilvaI; Karen Levy DelmaschioI; Myriam de Lima Ramagem MartinsIII

IPrograma de Pós-Graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde, Núcleo de Estudos sobre Cultura e Alimentação, Departamento de Nutrição Social, Instituto de Nutrição, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rua São Francisco Xavier, 524, 12º andar, bloco E, sala 12.007, Maracanã. 20550-900 Rio de Janeiro RJ. shirley.prado@yahoo.com.br
IIPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Departamento de Saúde Comunitária, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceará
IIINúcleo de Estudos sobre Cultura e Alimentação, Departamento de Nutrição Social, Instituto de Nutrição, Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

 


RESUMO

Partindo dos pensamentos de Bourdieu acerca dos campos científicos, visitamos o Diretório dos Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) buscando investir em abordagem crítica e reflexiva acerca da parcela da pesquisa brasileira que se dirige à "alimentação". Identificamos um conjunto estável e crescente de grupos de pesquisa, cuja visibilidade fica comprometida uma vez que sua denominação não consta das taxonomias institucionais no âmbito das agências de fomento à pesquisa e à formação de pesquisadores. Seus fundamentos epistemológicos, suas bases teórico-metodológicas, situam-se na esfera das humanidades e incluem uma ampla gama de disciplinas em interação, conformando significativa complexidade em torno de seu objeto central: a "comida". O estudo dos fenômenos alimentares reclama a interdisciplinaridade e apresenta como desafio o enfrentamento das tensões inerentes à vida democrática na qual vislumbramos um devir em que a convivência crescente e colaborativa entre diferentes referências epistêmicas deve ter lugar institucional.

Palavras-chave: Alimentação e Nutrição, Alimentação e Cultura, Políticas de Alimentação e Nutrição, Saúde Coletiva, Ciências Humanas e Sociais, Epistemologia


ABSTRACT

Based on Bourdieu's thoughts about the scientific fields, we visited the Research Groups Directory of the National Council for Scientific and Technological Development (CNPq), seeking to invest in critical and reflective approach on the segment of Brazilian research work concerned with "food". We identified a stable and growing set of research groups whose visibility is compromised, once its name is not included in the institutional taxonomies within the agencies that support research and researchers' formation. Its epistemological foundations, its theoretical and methodological bases are located in the sphere of Humanities and include a wide range of interacting disciplines, forming a significant complexity around its central object: food. The study of feeding phenomena calls for interdisciplinarity and makes the challenge of facing the tensions inherent to democratic life in which we have a glimpse in which the growing and collaborative coexistence among different epistemic references must take institutional place.

Key words: Food and Nutrition, Food and Culture, Food and Nutrition policies, Collective Health, Human and Social Sciences, Epistemology


 

 

A Alimentação e as taxonomias oficiais do campo científico brasileiro

O objeto deste estudo é a pesquisa sobre "Alimentação" no Brasil. Para tratá-lo, assumimos os mesmos fundamentos adotados por Nunes et al.1 ao incursionar no campo científico da Saúde Coletiva, afirmando que Estudar um campo de saberes e práticas é enfrentar o caráter transformador que ele apresenta em sua trajetória. Isto que está presente, como processo histórico, em todos os campos do conhecimento e na tradição epistemológica francesa com Bachelard, Canguilhem e Foucault, e que se associa à vertente sociológica de Bourdieu, estende-se à área da Saúde Coletiva de forma exemplar. No plano empírico, tomamos como ponto de partida para nossas considerações a Tabela das Áreas do Conhecimento para classificação do campo científico, hoje utilizada pelas agências de fomento - como Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e fundações estaduais de apoio à pesquisa, para citar as principais que, no papel de juízes, vêm atuando e fazendo uso deste instrumento, entre outros, na constituição e definição dos rumos das práticas em pesquisa no Brasil.

Os elementos dessa classificação, se observados com rigor, seguem um ordenamento fundado na sistemática de observação da natureza. Trata-se, portanto, de uma perspectiva anacronicamente referenciada2,3, concebendo a ciência como uma taxonomia, um continuum, no qual as áreas são alocadas lado a lado, mais próximas ou mais afastadas, supostamente conforme semelhanças e diferenças entre si. Além disso, inspira-se em uma visão linear e finita na qual uma determinada "área do conhecimento" só se inscreve em um determinado ponto da parte da linha correspondente ao CNPq denominada "grande área".

A sede institucional desse ordenamento vigente nas áreas de conhecimento é o CNPq4, ao qual várias instituições se reportam para proceder a adequações que atendam às suas rotinas, operando com fins diversos, entre os quais preponderam interesses avaliativos, com repercussões das mais impactantes sobre as práticas científicas. Observemos que essa tabela, ao expressar a própria constituição dos campos da ciência, é eminentemente marcada por interesses vários que atravessam toda a sociedade. Contudo, curiosamente, se faz conhecer por meio da metáfora naturalizada da "Árvore do Conhecimento", por coerência, apresentada como coisa dada, desacompanhada de qualquer explanação sobre os princípios que norteiam sua construção. Neste sentido e em contraponto à perspectiva naturalizante que marca essa taxonomia, assumimos, consoante as proposições de Bourdieu5, que estamos nos referindo a um espaço "social" muito específico onde são gerados e circulam conhecimentos e saberes cujos produtores disputam entre si capital financeiro e simbólico em processos de mútua avaliação; enfim, um mundo dinâmico de disputas políticas que o autor conceitua como campo científico.

A atual dinâmica da produção de conhecimentos e saberes, como se sabe, é bastante complexa, o que se faz acompanhar por intenso surgimento de disciplinas e núcleos de saberes6 e, por conseguinte, novos campos científicos. As palavras de Luz2 são bastante esclarecedoras a esse respeito: A multiplicação de disciplinas, de objetividades discursivas especializadas, é uma das características mais importantes da racionalidade moderna. Praticamente desdobráveis ao infinito, as disciplinas podem tematizar, sejam conjuntos de relações teóricas entre sistemas de proposições, seja a matéria desde sua mais ínfima partícula até o gigantesco astronômico, seja a totalidade dos seres vivos, vegetais, animais, humanos. E, entre os seres humanos, sejam suas relações sociais, seja a privacidade cotidiana de seus afetos e hábitos individuais, seja a materialização orgânica de seu corpo.

Portanto, no que concerne à herança taxonômica, a aludida classificação está caracterizada por elementos insuficientes em face da complexidade científica atual, fenômeno que se evidencia na interdisciplinaridade presente nas estratégias metodológicas, bem como nos resultados de muitas pesquisas. A ciência é, assim, fenômeno da esfera "social"; tratá-la com base em modelos inspirados na esfera da "natureza" expõe uma inadequação que, longe de se circunscrever a um embate entre "idealidades", encontra derivação em tensões e conflitos vários entre grupos sociais na consolidação e institucionalização de saberes científicos7. Ilustramos, apenas com um exemplo, o fato de essa classificação não expressar, necessariamente, os interesses e objetos dos grupos de pesquisa: o caso da pesquisa no campo da "Alimentação e Nutrição" (A&N) no Brasil, mais especificamente do seu componente alimentar.

Neste ponto, julgamos oportuno mencionar, embora sem a pretensão de recensear, que trajetórias distintas para abordagens científicas do fenômeno alimentar-nutricional8, com constituição hegemônica do segundo componente sobre o primeiro, implicaram, entre outros fenômenos, institucionalizações diferenciadas. Tal fato se expressa na clara inserção da "nutrição" na Tabela das Áreas do Conhecimento destituída de seu par indissociável, a "alimentação". Esse procedimento institucional, ao separar a "nutrição" da "alimentação", atua no sentido da fragmentação do campo - e da vida -, uma vez que colabora para obscurecer uma parte essencial da produção de saberes: aquela que se dirige às relações humanas mediadas pela "comida", concebida como "alimento simbolizado" e, portanto, situado na ordem da cultura, da vida social9,10,11.

Não é nosso interesse, neste momento, propor uma nova classificação para todos os campos da ciência, tampouco colocar na Tabela em discussão a responsabilidade por todas as mazelas do campo A&N, mas tentar dar visibilidade a esta parcela obscurecida do campo científico: a "alimentação". Nesse sentido, acreditamos que um exercício de exploração de natureza empírica poderia contribuir para a identificação de problemas operacionais nos instrumentos atuais de classificação, indicando o que eles deixam de representar, bem como os desfechos advindos. E, ao trazer à luz esse espaço social e seus atores, buscamos evidenciar restrições no que diz respeito às suas possibilidades de acúmulo de capital científico e enfatizar que a "alimentação" encontra-se entre as muitas atividades de pesquisa que, conforme problematiza Guimarães12, ainda permanecem estranhas às instituições de apoio à pesquisa, ainda que já se constituam em investimento de porte respeitável.

Organizado também a partir da "Árvore do Conhecimento", o Diretório dos Grupos de Pesquisa (DGP)13 - que aqui tomamos como base empírica neste exercício de descrição da pesquisa sobre "alimentação" no Brasil - disponibiliza um importante conjunto de dados secundários sobre a ciência brasileira. Um primeiro nível de ordenamento constitui-se de três grandes categorias com suas especificações: ciências da natureza, ciências da vida e humanidades. É necessário registrar que não são apresentados fundamentos para essa sistemática, cabendo destacar que essa terminologia não corresponde ao que Georges Canguilhem14, em sua epistemologia, denomina "ciências da vida", nem ao que, visto pelo olhar arqueológico de Michel Foucault15, recebe nome de "ciências do homem".

A Tabela 1 apresenta um panorama da ciência nacional com base nessas referências, em que se destaca a participação com crescimento regular dos grupos de pesquisa nas humanidades e certa estabilidade ao longo dos anos daqueles predominantemente identificados com as ciências da vida.

Nesse ordenamento institucionalizado, conforme já assinalado, campos científicos encontram-se reduzidos a pontos numa linha, aparecendo uma única vez nas descrições disponíveis, por meio do artifício denominado "área predominante". Se consideramos campos científicos como multidimensionais, implicando ocupações equivalentes a "volumes" em interação ao longo da história3, o que, evidentemente, ultrapassa, em muito, a lógica linear, "alimentação e nutrição" não seria apenas o que vem sendo denominado "área de nutrição" no interior das ciências da vida, mas ocuparia um espaço em permanente transformação, situado tanto aí como nas humanidades e nas ciências agrárias... Essa questão da representação corresponde a limite importante na utilização dessa taxonomia - herança do naturalismo - para a compreensão de fenômenos que são da esfera social, das relações humanas. Observemos que o crescimento da interdisciplinaridade nos trabalhos científicos é hoje tal que podemos pensar numa certa "normalidade" para o que antes seria a exceção.

Assim, no que tange à pesquisa que se dirige ao complexo, dinâmico e interdisciplinar fenômeno alimentar-nutricional, o DGP13 pode apenas nos informar sobre os grupos de pesquisa cujos líderes informaram que sua "área predominante" é "nutrição", situada no interior das ciências da saúde ou, o mais próximo disto, a "ciência e tecnologia de alimentos", que está inserida nas ciências agrárias. Nessas tabelas construídas a partir das "áreas predominantes" - cujos objetos de estudo são, respectivamente, o "nutriente" e o 'alimento" - não há como identificar os grupos de pesquisa que se voltam para as relações sociais que se estabelecem quando mediadas pela "comida"; além disso, não é possível identificar estudos cujo foco esteja dirigido a "alimento", "comida" ou "nutriente" em efetivo andamento em "áreas" como saúde coletiva, medicina, enfermagem ou antropologia, para citar apenas alguns exemplos. Mesmo assim, não podemos deixar de reconhecer a relevância das informações disponíveis que, em suas significativas limitações, permitem-nos visualizar que esses grupos de pesquisa que têm "nutrição" e "ciências dos alimentos" como "área predominante" vêm mantendo ao longo de décadas, proporcionalmente, as mesmas dimensões, ou seja, algo ligeiramente acima de 2,0% do conjunto da ciência nacional (Tabela 2).

 

O Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq16 como base empírica para estudos sobre alimentação no campo científico

Prosseguimos, aqui, na linha de outros trabalhos17-19 que, a partir do DGP, abordam a constituição de campos científicos, incluindo o projeto denominado "A pesquisa sobre alimentos, alimentação e nutrição no Brasil"20, que, desde 2005, vem sendo desenvolvido no interior do Núcleo de Estudos sobre Cultura e Alimentação (Nectar) do Instituto de Nutrição da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), integrando a linha de pesquisa "Políticas, saberes e práticas em alimentação, nutrição e saúde" do Programa de Pós-Graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde. Trata-se de amplo estudo que se volta para questões relacionadas aos processos de produção, distribuição e comercialização de "alimentos", às relações humanas mediadas pela "comida" e aos processos biológicos que envolvem "nutrientes" no interior do corpo humano normal ou patológico.

O DGP disponibiliza informações já tabuladas referentes a oito censos (1993, 1995, 1997, 2000, 2002, 2004, 2006 e 2008). Também aí é possível proceder a buscas relativas aos últimos cinco levantamentos e na base corrente de dados, que é atualizada continuamente a partir do último censo realizado. Buscando ir além dos dados secundários disponíveis e da sistematização de informações a partir da "área predominante", lançamos mão de um recurso disponível no DGP: a "Busca textual" nos campos "Repercussões do grupo", "Palavras-chave da linha de pesquisa", "Nome do grupo", "Nome da linha de pesquisa", realizada diretamente na sua página eletrônica. Percorremos todos os cinco censos disponíveis para consulta (2000 a 2008) utilizando as palavras "alimento", "alimentar", "alimentação", "nutrição" e "comida". Foram analisadas as informações registradas em cada grupo de pesquisa e excluídos os "falsos positivos", como por exemplo aqueles voltados para estudos sobre "alimentação de sistemas elétricos" ou "nutrição de peixes ornamentais", portanto, não referidos à alimentação e nutrição humanas. O que encontramos a partir destes procedimentos nos permite visualizar um universo bem mais amplo, bastante distinto daquele informado pelos dados secundários do DGP construídos com base na concepção taxonômica de "área predominante": a pesquisa que se dirige aos alimentos, à alimentação e à nutrição alcança mais que o dobro do volume, chegando a 1.003 grupos em 2008, o que corresponde a 4,4% da ciência nacional (Tabela 3).

A análise das informações registradas para cada um desses 1.003 grupos de pesquisa possibilitou a identificação de vários investimentos aí estabelecidos. Em outros termos, encontramos grupos de pesquisa cujos interesses estavam dirigidos para: (1) aspectos específicos do "alimento" em si (produção, processamento para o consumo, qualidade sanitária, composição química); (2) processos fisiológicos ou bioquímicos relativos à "nutrição" do corpo normal ou patológico; (3) questões relativas à comida, atinentes à "alimentação" como fenômeno socialmente construído; (4) combinações várias entre as três possibilidades anteriores. Esse exercício nos permitiu uma visualização de arranjos em andamento, de dinâmicas possíveis, de complexidades efetivamente existentes no ordenamento das atividades de pesquisa nesses campos. A Tabela 4 nos informa sobre um universo a partir do qual é possível trazer à luz informações relativas à parcela do campo científico que lida com alimentação, evidenciando uma importante contribuição da ordem de cem grupos de pesquisa no país.

Devemos registrar que estamos lidando com uma aproximação a esse universo21,22 marcada por limitações metodológicas específicas17 que podem ser indicadas a partir de distintas perspectivas.

No que se refere às buscas realizadas com base nas palavras indicadas anteriormente, as informações registradas pelos líderes dos grupos de pesquisa nem sempre são suficientes para que possamos afirmar com segurança plena sobre as atividades aí desenvolvidas porque: (1) com frequência, as mesmas palavras-chave são utilizadas para todas as linhas de pesquisa - numa espécie de "cópia-e-cola" -, embora percebamos distinções importantes entre elas quando nos reportamos aos seus enunciados; (2) os registros englobam informações sobre estudos já concluídos, em andamento ou intenções de estudos futuros, que poderão ou não se concretizar, não havendo como distinguir uns dos outros; (3) é possível que haja grupos de pesquisa cujas atividades estejam dentro do escopo de nossos interesses, mas em cujos registros não há nenhuma das palavras que tomamos no processo de busca de dados, portanto estão fora do alcance deste levantamento.

Já com relação aos dados secundários disponibilizados no DGP, em muitos casos eles apresentam múltiplas contagens, resultando mais em indicações de tendências do que na fiel descrição da parcela da ciência abordada. Exemplo disso são os resultados de produção científica dos grupos de pesquisa, em que cada "produto" é contabilizado tantas vezes quantos forem seus autores e coautores.

Ressaltamos que mesmo considerando essas limitações e que o aprimoramento do DGP é desafio que necessita ser enfrentado, entendemos que esta base de dados corresponde a uma das mais relevantes iniciativas de organização de informações sobre a ciência brasileira e espaço singular para que se possa investir em necessárias aproximações empíricas nesse campo.

Enfim, em nossas tentativas de iluminar um pouco mais esse objeto - a pesquisa sobre alimentação no Brasil -, como era de se esperar deparamo-nos com novas sombras. Passemos a apresentar o que está sob nossas luzes.

 

O espaço da pesquisa sobre Alimentação: crescimento, interdisciplinaridade e presença no cenário nacional

Dentro da perspectiva de descrever a pesquisa sobre alimentação no Brasil, a melhor aproximação que nos foi possível realizar (Tabela 5) revel a existência de importante parque científico composto por quase uma centena de grupos de pesquisa em 2008. No que tange especificamente aos números de linhas de pesquisa, pesquisadores e estudantes, essa tabela nos dá ideia sobre sua ordem de grandeza, uma vez que, certamente, tais elementos estão superestimados e não há meios de identificar quais exatamente estão dedicados à alimentação nos grupos que trabalham simultaneamente com alimentos e/ou nutrição e/ou outras temáticas.

 

 

Num cenário de forte crescimento da ciência brasileira no plano internacional23, observamos que, a partir de 2000, dobrou o número total dos grupos de pesquisa brasileiros. Acompanhando essa tendência e com um pouco mais de intensidade, o conjunto dos grupos dedicado aos estudos relativos a alimentos e nutrição triplicou entre 2000 e 2008. Destaca-se, neste cenário, o fato de que a pesquisa sobre alimentação aumentou mais de dez vezes no mesmo período (Gráfico 1). Trata-se de indicação importante que nos leva a pensar que algum fenômeno inovador está se passando no campo científico em questão e que nos desafia a compreensão. Estarão os pesquisadores buscando novas referências conceituais para seus estudos? Estariam se questionando sobre seu próprio fazer científico e buscando novas matrizes disciplinares para fundamentar seus investimentos? Haveria políticas de indução em curso mediante editais e outras estratégias?

Consideramos a possibilidade de atribuir, ao menos em parte, esse particular e intenso crescimento do número de grupos de pesquisa que dirigem seus interesses para a alimentação, ainda que parcialmente, a uma certa percepção crescente - particularmente entre nutricionistas - de que levar informações quanto às recomendações nutricionais à população, embora muito importante, não é suficiente para que se possa dar conta de questões como fome e desnutrição, e mais recentemente, obesidade ou transtornos alimentares24. Parece-nos razoável pensar na existência de movimentos de busca por outras abordagens fundadas em patamares distintos daqueles que identificam o hegemônico modelo biomédico na formação e nas práticas em saúde25,26. Consideramos bastante pertinente pensar que a proximidade e as interações com o campo da saúde coletiva, especialmente naquilo que diz respeito ao núcleo de saberes identificado como ciências humanas e sociais em saúde, estejam propiciando a construção de caminhos balizados pela incorporação de críticas reflexivas à produção de conhecimentos e às práticas no campo da alimentação, nutrição e saúde. Poderíamos, ainda, registrar o crescente número (ainda que, a nosso ver, insuficiente) de editais de financiamento de pesquisas voltados para políticas de alimentação e nutrição, segurança alimentar e cultura alimentar em anos recentes, com eventual repercussão em favor desse aumento do número de grupos de pesquisa. Trata-se, contudo, de questões complexas, cujo necessário e adequado enfrentamento fica para futuras análises.

Ao conceber a alimentação e nutrição como espaços eminentemente interdisciplinares, buscamos identificar, a posteriori, quais as "áreas predominantes" dos grupos de pesquisa que compõem o universo do nosso estudo. Em outras palavras, procedemos de modo inverso àquele estabelecido na construção dos dados secundários do DGP, que partem das áreas predominantes para realizar os agrupamentos e organizar as informações disponibilizadas (como as Tabelas 1 e 2 deste artigo).

Este procedimento evidencia a complexidade disciplinar que marca a alimentação no campo científico, cujos estudos estão presentes nos mais diversos espaços da pesquisa brasileira (Tabela 6). Destacamos sua inserção nas ciências da vida - em particular na "área nutrição" e na saúde coletiva - assim como nas humanidades. Reafirmase, assim, o papel da saúde coletiva operando como ponte entre a "área nutrição" e as ciências humanas e sociais no que tange aos estudos sobre alimentação e cultura. Observamos distribuição bastante rarefeita desses grupos de pesquisa nas outras "áreas", inclusive com aparente encerramento das atividades concernentes à alimentação. Se, de um lado, parcela desses grupos não se tenha mantido em atividade, de outro reforça a intensidade com que se criam novos grupos nesse espaço e fica registrado o potencial de interação com os mais diferentes campos disciplinares.

A distribuição desses grupos de pesquisa acompanha o padrão de concentração da pesquisa com cerca de dois terços nas regiões Sudeste e Sul do país (Tabela 7), lembrando que as escolas de formação em nutrição surgem nessas regiões, dando origem a grupos consolidados em pesquisa e pós-graduação. Importante notar que, mesmo em números pequenos, esses grupos encontram-se estabelecidos em outras regiões, até mesmo na região Norte, mostrando sua capilarização pelo interior do Brasil. Permanece ainda o desafio de incrementar de modo mais equitativo esta pesquisa no território nacional, ressaltando que tal desafio se apresenta para o conjunto do campo científico.

A distribuição institucional desses grupos é rarefeita, predominado a existência de um ou dois grupos por universidade, preponderando essa atividade em instituições públicas, tal como se dá no conjunto a pesquisa brasileira (Tabela 8).

Em que pesem as limitações para identificação de pesquisadores e estudantes que efetivamente estão atuando na pesquisa sobre alimentação, conforme registramos ao apresentar o percurso metodológico aqui adotado, algumas relações podem ser estabelecidas entre eles, considerando seu caráter aproximado27. Se doutorandos tornam-se novos pesquisadores em um determinado campo do conhecimento, podemos assumir, como Guimarães et al.17, que a relação entre o número de doutorandos e pesquisadores doutores pode expressar a "intensidade de reprodução da força de trabalho em pesquisa", indicando seu "dinamismo". No ano de 2008, a ciência brasileira apresenta indicador de dinamismo correspondente a 0,3528, enquanto para os grupos de pesquisa em alimentação esse valor corresponde a 0,21. Isso nos leva a pensar na necessidade de investimentos na intensificação de formação de novos doutores para atuação nesse campo científico, o que fica mais evidenciado se tomarmos os estudos sobre a pesquisa em epidemiologia8, considerada bastante dinâmica em 2000, quando apresentava indicador correspondente a 0,40. Trata-se de indicação a ser considerada para mostrar a necessidade de investimentos, de apoio, de fomento à pesquisa e aos programas de pós-graduação stricto sensu na formação de doutores orientados para o desenvolvimento de estudos no campo da alimentação.

 

A pesquisa sobre alimentação no Brasil: a vitalidade das interfaces com a cultura e com as políticas de alimentação e nutrição

Buscando identificar os temas de interesse para esses pesquisadores e estudantes que destinam seus esforços para estudos no campo alimentar, percorremos os dados registrados nos grupos e linhas de pesquisa e da sua produção de artigos nacionais e internacionais, livros, capítulos de livros e orientações concluídas de dissertações e teses no DGP. Excluídas as limitações do DGP, no que tange à duplicidade de informações relativas à produção científica, identificamos dois grandes eixos de interesse: (1) alimentação e cultura; e (2) políticas de alimentação e nutrição no Brasil.

Em afinidade com a literatura26,29,30, parcela importante encontra-se dirigida para estudos de cunho socioantropológico voltados para a alimentação e cultura que exploram aspectos relacionados com a saúde; são investigações empreendidas principalmente por pesquisadores com formação em cursos de mestrado e doutorado em saúde coletiva e, mais recentemente, em programas situados no campo da alimentação e nutrição. Outras abordagens culturais também estão presentes, sem que haja, necessariamente, relação com questões atinentes à saúde ou a doenças, como é o caso de investigações dirigidas à comida e à religião, ao consumo alimentar e à comunicação, além de temas como: cozinhas regionais, alimentação de migrantes, tradições alimentares e modernidade, comida e estilos de vida, comida e identidade, entre outros.

Outro conjunto de grupos de pesquisa investe em questões relativas a políticas de alimentação e nutrição, segurança alimentar e nutricional, direito humano à alimentação. Uma parcela desse conjunto pode ser identificada como afiliada a núcleos de saberes constituintes do campo da saúde - em especial, da saúde coletiva e da alimentação e nutrição - que estudam políticas, planejamento e gestão em saúde, dedicando-se, em particular, a discutir percursos históricos de construção social dessas iniciativas governamentais, bem como suas relações com a sociedade civil, seus fundamentos conceituais, avaliação de suas repercussões sobre a saúde e o estado nutricional da população, percepções sobre esses programas por parte de técnicos ou usuários. Há também grupos de pesquisa que se fixam mais fortemente no debate sobre questões ligadas à distribuição da terra, à produção, distribuição e consumo de alimentos, bem como às desigualdades sociais associadas a essas temáticas; ainda que, eventualmente, passem por discussões sobre a saúde, esta não corresponde ao centro de seus interesses.

Em proporções bem menores, há grupos que enveredam pelas abordagens de cunho histórico acerca da alimentação em períodos como a era medieval ou clássica ou do Brasil colonial. No âmbito da psicologia, registram-se grupos que tomam para estudo as subjetividades em suas relações com a alimentação. Nas artes - em especial, literatura e cinema - também são identificadas algumas iniciativas. Nas práticas discursivas que visitamos evidenciam-se devires, potencialidades, fronteiras no estudo da dimensão humana, ultrapassando objetos tradicionais e revelando outros saberes inusitados, incidindo e insinuando-se no campo da alimentação e nutrição31.

 

Novos devires e lugares institucionais: acerca da convivência crescente e colaborativa entre diferentes epistemologias

Após essa visita crítica e reflexiva aos grupos de pesquisa que se dedicam aos estudos dos fenômenos alimentares, retornamos considerando que já é passada a hora de se materializar o reconhecimento institucional da autonomia do campo científico da alimentação e nutrição, de sua complexidade e de seu caráter interdisciplinar.

Identificamos um conjunto estável e crescente de grupos de pesquisa que conformam o campo científico da alimentação no Brasil, cuja visibilidade fica comprometida, uma vez que ele não consta das taxonomias institucionais no âmbito das agências de fomento à pesquisa e à formação de pesquisadores. Uma primeira medida necessária corresponde à indicação clara da denominação que hoje identifica o campo na Tabela das Áreas do Conhecimento: "alimentação e nutrição". Ainda em relação a este instrumento, suas subdivisões deveriam contemplar ao menos dois espaços: (1) alimentação e cultura; e (2) políticas de alimentação e nutrição. Outros ajustes também se fazem urgentes, mas esse é tema para outro exercício. Dessa forma, ferramentas utilizadas para apoiar a tomada de decisões seriam mais adequadas possibilitando visualização daquilo que efetivamente está em curso no mundo da ciência. A tabela em si não avalia a atividade científica, nem distribui recursos aos atores sociais que aí operam, mas indica os loci de destino desse capital material e simbólico. Não constar dela significa estar em franca desvantagem no jogo, nas disputas concorrenciais que aí se dão.

Mais que reconhecer a existência da alimentação como constituinte do campo científico, é essencial conhecer suas características. Seus fundamentos epistemológicos, suas bases teóricometodológicas, situam-se no âmbito das humanidades e incluem uma ampla gama de disciplinas em interação. História, sociologia, antropologia, filosofia, psicologia, economia, política, artes conformam significativa complexidade em torno da "comida", constituindo possibilidade de diálogo com a biologia, a medicina, a nutrição, entre outras, ampliando-as. O estudo dos fenômenos alimentares reclama a interdisciplinaridade e apresenta como desafio o enfrentamento das tensões inerentes à vida democrática na qual vislumbramos um devir em que a convivência crescente e colaborativa entre diferentes referências epistêmicas deve ter lugar institucional.

 

Colaboradores

SD Prado e SA Gugelmin participaram na concepção do estudo; MLM Bosi, MCVS Carvalho, JK Silva, KL Delmaschio e MLR Martins participaram no desenvolvimento e elaboração da versão final do artigo.

 

Agradecimentos

Nossos agradecimentos pelo apoio financeiro recebido do CNPq e da Faperj.

 

Referências

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Artigo apresentado em 10/02/2010
Aprovado em 20/05/2010
Versão final apresentada em 12/07/2010