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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 n.4 Rio de Janeiro Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000400034 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Alessandra Rodrigues Fiuz; Nelson Filice de Barros

Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas

 

 

 

Pope C, Mays N, organizadores. 3ª ed. Pesquisa qualitativa na atenção à saúde. Porto Alegre: Artmed; 2009

O livro Pesquisa qualitativa na atenção à saúde, organizado por Catherine Pope e Nicholas Mays e publicado no Brasil pela editora Artmed, em 2009, apresenta 13 capítulos escritos por diferentes colaboradores, que abordam técnicas e métodos da pesquisa qualitativa utilizada no campo da saúde. Ao término de cada capítulo há referências de leituras adicionais sobre o tema, tornando-os muito interessantes para uma primeira abordagem sobre a pesquisa qualitativa.

De acordo com os organizadores do livro, a pesquisa qualitativa lida com palavras e falas em vez de números, o que não significa que ela seja destituída de mensuração ou que não possa ser utilizada para explicar fenômenos sociais. Sua mensuração está relacionada com a busca dos significados que as pessoas atribuem às suas experiências do mundo social e à maneira como compreendem o mundo. Além disso, eles lembram que a pesquisa qualitativa estuda as pessoas em seus ambientes naturais e emprega metodologias como observação direta e participante, entrevistas, grupos focais, conversas informais, análises de textos ou documentos e análise de discurso. Pode ser empregada na forma de: (1) abordagem complementar à pesquisa quantitativa; (2) validação da pesquisa quantitativa; e (3) método independente para desvelar processos sociais que não são abordados em metodologias quantitativas. Dessa forma, a pesquisa qualitativa desenvolve as percepções e interpretações subjetivas, que surgem da experiência; comportamentos objetivos, que surgem das ações; e o contexto, que envolve os aspectos sociais, culturais, políticos e físicos que rodeiam os sujeitos da pesquisa.

É destacado no livro o fato de que a entrevista é a técnica qualitativa mais comumente utilizada e que possui três tipos principais: (1) entrevista estruturada: questionário estruturado e entrevistadores treinados para fazer perguntas de maneira padronizada; (2) entrevista semiestruturada: estrutura flexível com questões abertas que definem a área a ser explorada; e (3) entrevista em profundidade: menos estruturada para abranger poucos aspectos com detalhamento.

Outra técnica também analisada no livro é a dos grupos focais, que valorizam a comunicação entre os participantes da pesquisa. Eles costumam ser usados para: (1) avaliar mensagens de educação em saúde; (2) examinar a compreensão do público sobre doenças e sobre comportamentos em saúde; (3) examinar as experiências das pessoas a respeito de doenças e serviços de saúde; (4) explorar as atitudes e necessidades pessoais; (5) avaliar a atitude das pessoas em relação a vícios, a minorias étnicas, a doenças; (6) explorar assuntos, como as respostas dos profissionais às mudanças administrativas; (7) descobrir maneiras de aperfeiçoar a educação médica e o desenvolvimento profissional; (8) estudar valores culturais dominantes; (9) examinar culturas nos locais de trabalho; (10) realizar pesquisa-ação; (11) garantir poder aos participantes da pesquisa, os quais podem se tornar uma parte ativa do desenvolvimento desta; e (12) gerar comentários mais críticos do que as entrevistas.

Os autores enfatizam que a pesquisa qualitativa possui muitos dados a serem analisados, já que a transcrição das entrevistas, somada à anotação de campo e à observação direta, gera uma extensa quantidade de informação. Além disso, o processo analítico da pesquisa qualitativa pode acontecer concomitantemente à coleta de dados, o que pode levar a novos pressupostos e dados anteriormente não previstos.

A análise dos dados qualitativos pode ser feita com técnicas estatísticas padronizadas, embora seja mais recorrente o tratamento dedutivo e/ou indutivo cumprindo as seguintes etapas: (1) identificação de temas ou categorias para gerenciamento dos dados; (2) etiquetação ou codificação desses temas ou categorias que devem incluir conexões entre eles; e (3) agrupamento das categorias: seleção de temas ou categorias-chave para selecionar temas semelhantes ou relacionados e organizar a sobreposição e repetição anteriores das categorias. Essas três etapas estão presentes em diferentes abordagens: (1) análise temática: agrupamento dos dados por temas e avaliação de todos os casos para verificar se eles foram incluídos corretamente; (2) grounded theory: a análise leva a hipóteses anteriormente não definidas e modifica a amostragem e a coleta de dados, que cessa no ponto de saturação, quando nenhum dado adicional pode ser identificado; e (3) abordagem da estrutura: forma dedutiva de análise que visa conectar a análise qualitativa com a quantitativa.

Diante da complexidade dessa análise, percebe-se que não há uma forma mecânica de avaliar esse método, porém existem algumas maneiras de melhorar sua validade, como: (1) triangulação: comparação dos resultados entre dois ou mais métodos de coleta de dados ou entre duas ou mais fontes de dados; (2) validação do respondente ou checagem do membro do grupo: comparação entre o relato do entrevistador e o do entrevistado; (3) exposição clara dos métodos, da coleta e da análise dos dados; (4) reflexividade: transparência no processo de coleta de dados e de experiências anteriores que levaram às conclusões; (5) atenção aos casos negativos: procurar dados que contradigam a explicação dos fenômenos; e (6) conduta justa: garantir que o ponto de vista de determinado grupo não seja apresentado como uma única verdade.

Vale ressaltar que os aspectos éticos na realização da pesquisa qualitativa são mais delicados de serem avaliados, destacando-se: (1) anonimato: o que pode ser difícil de ser alcançado, já que somente a alteração dos nomes dos participantes e do local de pesquisa não o garantem, e algumas informações relevantes ao estudo podem identificar o entrevistado; (2) confidenciabilidade: pode não garantir a não invasão de privacidade, já que nem sempre ela é totalmente seguida, porque os diálogos e até mesmo confissões levam o pesquisador a conclusões importantes para a pesquisa; (3) consentimento informado: na pesquisa qualitativa, em que temas emergem no decorrer do estudo, a especificação com antecedência da coleta e análise dos dados pode ser inviável. Diante disso, os pesquisadores devem entender que o consentimento pode não ser simplesmente uma "produção mecanicista de formulário", mas a informação aos participantes da pesquisa.

Pode-se afirmar que o livro é uma boa referência para aqueles interessados em pesquisa qualitativa, já que não só explora seus principais aspectos, mas também fornece subsídios para os leitores buscarem mais aprofundamento sobre o tema. No entanto, ao fragmentar os capítulos em temas bem delimitados e dividi-los em numerosos subtemas, há algumas partes repetitivas e pouca clareza nas ligações e integrações entre conceitos. Todavia, o livro não é indicado apenas para iniciantes em pesquisa qualitativa, mas também para pesquisadores e professores, uma vez que foi escrito por experientes estudiosos no assunto e é bastante atualizado.

Vale ressaltar, por fim, que ao explorar diversas formas de pesquisa qualitativa e as diferentes abordagens possíveis no campo da saúde o livro discute, por um lado, a dificuldade de desenvolvimento desse tipo de pesquisa em um campo que tem a maior parte dos profissionais mais familiarizados com métodos quantitativos e experimentais; e, por outro, a importância da maior inserção da metodologia qualitativa no campo da saúde, na medida em que seus princípios configuram o enfoque holístico da perspectiva interpretativa e compreensiva.