SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 issue6Saúde da Família: atenção Primária na Amazônia author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 n.6 Rio de Janeiro Jun. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000600041 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Ivani Bursztyn

Faculdade de Medicina, Instituto de Estudos em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

 

Sobo EJ. Culture and meaning in health service research: a practical field guide. Walnut Creek, California: Left Coast Press; 2009.

Encontrei o livro de Elisa J. Sobo quando fazia uma busca genérica de títulos vinculados à temática da investigação em sistemas e serviços de saúde (ISSS), com ênfase em metodologias. Digo genérica porque nos últimos anos a produção neste tema tem crescido, mas também diversificado, definindo, aos poucos subtemas específicos.

A investigação em sistemas e serviços de saúde ganha força, na década de 1970, quando alguns pesquisadores começam a se indagar: afinal, para que está servindo o cuidado de saúde? Que resultados estão sendo produzidos em quem os recebe? Que impacto estão produzindo na população? Situada a meio caminho entre a pesquisa clínica e a saúde pública, o espectro de questões envolvidas apresentava, desde então, um grande desafio metodológico, pois era necessário abarcar dimensões tão díspares como a política, a econômica, a social, a clínica, a tecnológica, a cultural e outras. A articulação, sem fraturas, de abordagens quantitativas e qualitativas é essencial para a articulação, sem fraturas, de tanta diversidade. O extraordinário desenvolvimento da tecnologia de informação veio facilitar o trabalho dos investigadores. Num cenário inundado com dados e informações de saúde atualizados e de boa qualidade, a medicina baseada em evidências prosperou, trazendo importante contribuição ao processo de tomada de decisão. Entretanto, essa fartura de dados e facilidade de acesso a programas de informática pode exercer uma sedução sobre os investigadores, levando a que muitos desistam de elucubrar para além dos limites do que já se encontra preestabelecido nos pacotes de análise, e para isto acabam abrindo mão das dimensões ou aspectos que não se encaixam nos modelos. Com esta preocupação inquietante, reagi com muita simpatia ao título do livro de Sobo: Culture and meaning in health service research: a practical field guide.

Elisa J. Sobo é antropóloga sociocultural, especializada em saúde, doença e medicina. Suas áreas de interesse incluem biomedicina e outras culturas médicas, questões organizacionais em saúde, comunicação médico-paciente, disparidades e competência cultural nos cuidados de saúde, o estigma de saúde e de identidade, a percepção de risco, saúde reprodutiva e sexual, saúde infantil, nutrição, métodos qualitativos (incluindo os métodos de avaliação etnográfica e rápida). Além de professora no Departamento de Antropologia, ela pertence ao corpo docente da Escola de Saúde Pública da Universidade Estadual de San Diego (SDSU) e da Medicina na Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), sendo membro do corpo docente do programa comum (SDSU/UCSD) de doutoramento em Saúde Global1. Tendo exercido suas atividades dividindo-se entre o ambiente acadêmico e o de prestação de assistência, mais do que apresentar métodos, Sobo nos brinda com a discussão das interfaces e possibilidades entre antropologia/saúde e antropologia/ISSS. O livro está organizado em cinco partes e 15 capítulos.

A primeira parte, intitulada "The value of meaning" ("O valor do sentido"), está dividida nos capítulos "The journey ahead" ("A jornada à frente") e "Why Focus on stories?" ("Por que focar em histórias?"). Aqui, a autora deixa claro que sua concepção de pesquisa antropológica em saúde não se restringe a estudos que advoguem os direitos, o acesso e participação de grupos vulneráveis ou minoritários no sistema de saúde. Trata-se, antes, de introduzir a abordagem etnográfica para ajudar a ver e entender os fenômenos relacionados à efetividade do cuidado, assumindo que um sistema deriva das relações dinâmicas entre suas partes, e os sistemas humanos como adaptativos e complexos, dos quais se pode esperar comportamentos criativos e surpreendentes.

A segunda parte, intitulada "The lay of the land" ("O assentamento do terreno"), está dividida nos capítluos "Medical anthropology: an agenda" ("Antropologia médica: uma agenda"), "Anthropology in and of health services" ("Antropologia nos e dos serviços de saúde"); "Health services: an insider's guide" ("Serviços de saúde: um guia de um integrante"); "The culture concept, cultural competence and the dangers of Anthro Lite" ("O conceito de cultura, competência cultural e os perigos do Anthro Lite"). Aqui, a autora recorre a um inventário da antropologia médica e da investigação em serviços de saúde (ISS), identificando, criticamente, as várias formas em que estas duas perspectivas interagem, tanto para o bem como para o mal. A proposta é criar bases para o desenvolvimento da ISS antropologicamente esclarecida (anthropologically informed), evitando armadilhas conceituais.

A terceira parte, intitulada "Methodological theory and practice" ("Teoria e prática metodológicas") está divida nos capítulos "Doing 'science' - and other systematic things" ("Fazendo 'ciência' - e outras coisas sistemáticas"), "Epistemology and evidence: how do we know what we know?" ("Epistemologia e evidência: como sabemos o que sabemos?"), "Realities of research: where and how Begin" ("Realidades da pesquisa: onde e como começar"). Aqui a autora discute as bases conceituais e epistemológicas dos métodos da antropologia. Uma grande contribuição é a rejeição da divisão quali-quanti, demonstrando que muitos dos conceitos associados com o positivismo como representado no modelo hipotético-dedutivo de ciência podem e são utilizados, hoje, na investigação antropologicamente esclarecida2.

A quarta parte, intitulada "Specific methods" ("Métodos específicos"), está dividida nos capítulos "Refocusing focus group data collection and analysis" ("Refocalizando a coleta e análise da dados por grupo focal"); "Making the most of one-time interviews" ("Tirando o máximo das entrevistas pontuais"); "Collecting data as care happens, or: the importance of being there" ("Coletando dados enquanto o cuidado se processa, ou: a importância de estar lá"); "Making rapid improvements" ("Fazendo melhoras rápidas"). As diversas técnicas utilizadas na abordagem antropológica são apresentadas, finalmente, após toda a discussão mais conceitual das possibilidades entre antropologia e ISS. A apresentação está consubstanciada na ampla experiência da autora em sua utilização, o que possibilita uma reflexão crítica de grande proveito para o leitor.

A quinta parte, intitulada "Power dynamics: the politics of research" ("Dinâmica do poder: a política de investigação"), está divida nos capítulos "Institutional and other sociocultural challenges to doing good work" ("Desafio institucional e outros socioculturais para realizar um bom trabalho") e "Framing our message: telling stories, making action" ("Enquadrando nossa mensagem: contando histórias, fazendo ação"). Aqui a autora finaliza com alguns conselhos práticos àqueles interessados em obter o necessário apoio ao desenvolvimento de suas pesquisas com base antropológica.

O livro, apesar de se apresentar como um guia prático, traz uma importante e bem urdida discussão sobre o campo da ISS e suas interações com a antropologia, que ocupa mais da metade das 318 páginas. O trabalho é contemporâneo e de extremo valor, tanto para pesquisadores da área acadêmica quanto para aqueles envolvidos com a melhoria da qualidade dos serviços.

 

Referências

1. San Diego State University. About Elisa (E.J.) Sobo. [acessado 2011 fev. 4]. Disponível em: www-rohan.sdsu.edu/~esobo        [ Links ]

2. Sobo EJ. Culture and meaning in health service research: a practical field guide. Walnut Creek, California: Left Coast Press; 2009.         [ Links ]