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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16  suppl.1 Rio de Janeiro Jan. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000700006 

ARTIGO
ASPECTOS ÉTICOS

 

Adaptação transcultural de um instrumento de avaliação do handicap auditivo para portadores de perda auditiva induzida pelo ruído ocupacional

 

Transcultural adaptation of an instrument to evaluate hearing handicap in workers with noise-induced hearing loss

 

 

Wanessa Tenório Gonçalves HolandaI; Maria Luiza Carvalho de LimaII; José Natal FigueiroaIII

ISubcoordenadoria de Vigilância Sanitária, Secretaria Estadual de Saúde Pública do Rio Grande do Norte. Av. Junqueira Ayres 488, Centro. 59025-280 Natal RN. wanessa_@hotmail.com
IICentro de Pesquisa Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz
IIIInstituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira

 

 


RESUMO

A Perda Auditiva Induzida pelo Ruído Ocupacional (PAIRO) é uma doença crônica e irreversível resultante da exposição a elevados níveis de ruído no trabalho que, mesmo no estágio inicial, pode comprometer em vários graus a qualidade de vida do trabalhador. Não existia disponível para a língua portuguesa um instrumento específico de avaliação das implicações psicossociais para portadores de PAIRO. O objetivo desse trabalho foi realizar a adaptação transcultural de um instrumento de avaliação do handicap auditivo da língua original para o português e avaliar sua confiabilidade e validade. O instrumento selecionado passou por um processo de equivalência semântica, que envolveu as etapas de tradução, retradução, apreciação formal da equivalência, pré-teste e crítica final por uma equipe multiprofissional para a elaboração da versão final para uso corrente no Brasil. A Escala de Inabilidades e Handicap Auditivo obteve medidas psicométricas consideradas, em geral, aceitáveis, considerando o tamanho reduzido da amostra e o fato de os participantes não possuírem perdas auditivas muito acentuadas. Portanto, tal escala precisa ser testada em amostras maiores e representativas de trabalhadores brasileiros portadores de PAIRO, a fim de ser ratificada a sua utilidade para a avaliação do handicap auditivo nessa população.

Palavras-chave: Tradução, Perda auditiva induzida por ruído, Questionários


ABSTRACT

The noise-induced hearing loss (NIHL) is a chronical and irreversible disease resulting of the exposure to noise in high levels at work. Even in the beginning, this hearing loss can damage in many degrees the worker's quality of life. Before this study, there wasn't an instrument, in Portuguese, to evaluate the psychosocial disadvantages of workers with NIHL. The aim of this research was to make a transcultural adaptation of an especific instrument to evaluate the hearing handicap from the original language to Portuguese, and check the reliability and legitimacy. The selected instrument passed by a process of semantic equivalence that was conducted in five stages: translation, back translation, critical appraisal of the versions, pre-test and a final review by a multiprofessional group to develop a consensual version of the instrument for current use in Brazil. The instrument called "Inabilities Scale and Hearing Handicap" had, in general, acceptable psychometrical measures, considering the little size of the sample and the fact that workers' hearing loss weren't too significant. Therefore, the Portuguese version of this instrument needs to be further tested in a representative sample of Brazilian workers with NIHL to ratify its utility in order to evaluate hearing handicap in this population.

Key words: Translation, Noise-induced hearing loss, Questionnaires


 

 

Introdução

O ruído é um som indesejável e, mais do que isso, ele representa um real perigo à saúde das pessoas1. O ruído constitui a maior causa isolada de risco ocupacional em todo o mundo e dificilmente se verá um ambiente de trabalho totalmente desprovido desse risco2.

A Perda Auditiva Induzida pelo Ruído Ocupacional (PAIRO) é definida como uma doença crônica e irreversível resultante da agressão às células ciliadas do órgão de Corti, que decorre da exposição sistemática e prolongada a elevados níveis de ruído no ambiente de trabalho3.

Pelo fato de a audição ter importante função social, a privação auditiva causa danos no comportamento individual, social e psíquico, influenciando na qualidade de vida dos seres humanos, podendo interferir na autoestima, na motivação e na eficácia no desenvolvimento do trabalho4.

Nesse sentido, a PAIRO deve ser encarada como uma potencial fonte de transtornos ao indivíduo acometido5, pois mesmo no seu estágio inicial, ela pode ser sentida e interferir na comunicação oral de seu portador, comprometendo em vários graus a qualidade de vida do mesmo6.

A PAIRO acomete inicial e predominantemente as frequências agudas e, por isso, os indivíduos portadores dessa perda de audição não vivem, necessariamente, num mundo silencioso. Muitos sons permanecem audíveis, mas são percebidos de forma distorcida e isso pode gerar uma inabilidade de conversar normalmente, tornando difícil a participação do trabalhador em encontros, reuniões, festas e outras manifestações públicas; além disso, atividades como ouvir televisão, rádio e telefone tornam-se difíceis ou impossíveis1.

A importância de se valorizar a limitação psicossocial imposta pela PAIRO reside não somente na intenção de avaliar a saúde do trabalhador dentro do seu contexto global, mas também porque as repercussões psicossociais dessa doença podem se refletir a médio ou longo prazo no próprio desempenho profissional, originando ou agravando a incapacidade para o trabalho3.

A Organização Mundial de Saúde7 define handicap como sendo a desvantagem consequente de uma deficiência ou incapacidade que limitaria ou impediria o indivíduo de desempenhar atividades consideradas normais para a idade, sexo, fatores culturais e sociais.

O handicap auditivo poderia então ser considerado como a percepção, pelo indivíduo, de uma limitação na sua função psicossocial resultante da deficiência ou da incapacidade auditiva, que afetaria o seu estilo de vida, sua família, sua situação social e seu trabalho8.

Embora alguns autores afirmem que nem sempre a constatação de uma perda auditiva implica autopercepção do handicap auditivo ou que, pelo menos, as medidas audiométricas seriam insuficientes para descrever a reação do paciente em relação à sua perda auditiva e determinação da sua habilidade de comunicação na vida diária e na função psicossocial9-12, a associação entre a PAIRO e o handicap auditivo precisa ser melhor pesquisada através de estudos epidemiológicos que utilizem instrumentos de mensuração válidos e que permitam a comparabilidade dos resultados encontrados.

No âmbito internacional, para quantificar as consequências psicossociais específicas da PAIRO, foram desenvolvidos alguns questionários, como por exemplo o Hearing Measurement Scale (HMS)13, Hearing Handicap Scale (HHS)14, Hearing Handicap and Support Scale (HHSS)15 e o Hearing Disability and Handicap Scale (HDHS)16-18.

No Brasil, duas versões em português de instrumentos para avaliação do handicap auditivo são comumente utilizadas em pesquisas, sendo uma para idosos (Hearing Handicap Inventory for Elderly HHIE)19 e outra para adultos (Hearing Handicap Inventory for Adults HHIA)10, não existindo nenhuma versão adaptada para o português de questionários específicos para trabalhadores portadores de PAIRO.

Nesse sentido, se faz urgente o desenvolvimento de métodos de avaliação dos impactos dessa perda auditiva, cuja prevalência na população de trabalhadores pode identificá-la como um dos mais importantes problemas ocupacionais em todo o mundo, especialmente nos países industrializados.

Esse estudo apresenta os resultados da adaptação transcultural de um instrumento de medida para avaliação do handicap auditivo em portadores de PAIRO para a língua portuguesa, com o objetivo de possibilitar e incentivar os pesquisadores brasileiros a estudar esse fenômeno no âmbito nacional, além de ampliar o conhecimento sobre métodos passíveis de serem adotados na área.

 

Métodos

A seleção do instrumento se deu a partir de uma pesquisa, utilizando como termos-chave "perda auditiva provocada por ruído", "handicap" e "questionários" nas bases de dados nacionais e internacionais para, a partir da análise de cada instrumento utilizado, selecionar aquele que seria traduzido e adaptado para a língua portuguesa.

O instrumento selecionado foi o Hearing Disability and Handicap Scale (HDHS)16, que possui vinte questões e se apresenta como uma versão resumida do Hearing Measurement Scale13, primeiro instrumento de avaliação do handicap auditivo criado especificamente para a população de portadores de PAIRO.

Para a adaptação transcultural do instrumento, foi tomado como base o estudo de Reichenhein e Moraes20, com as etapas de equivalência conceitual, de itens, semântica, operacional e de mensuração.

A equivalência conceitual foi realizada a partir de uma extensa pesquisa bibliográfica e análise de especialistas a respeito do conceito de handicap auditivo para a cultura brasileira e esse mesmo conceito em outras culturas.

A equivalência de itens teve como base a análise de especialistas para verificar se os itens constantes no instrumento deveriam ser substituídos por não terem a mesma conotação da língua original.

A análise da equivalência semântica incluiu cinco etapas consecutivas: (1) tradução do instrumento original, (2) retradução, (3) apreciação formal de equivalência, (4) pré-teste com amostra de conveniência e (5) crítica final por especialistas na área, com elaboração da versão final. Cada uma dessas etapas será descrita a seguir.

Na etapa 1, foram realizadas duas traduções independentes do instrumento original (em inglês) para o português e ambas as traduções foram realizadas por fonoaudiólogos pós-graduados, fluentes na língua inglesa e conhecedores do objetivo da pesquisa. Ambos os tradutores possuíam certificado internacional de aprovação para as etapas de leitura e escrita na língua inglesa.

Buscou-se, no processo de tradução, respeitar a equivalência operacional, mantendo as características do instrumento original quanto ao número de itens, enunciado e opções de resposta.

A etapa 2 consistiu na retradução das duas versões em português por outros dois tradutores bilíngues independentes, sendo um fonoaudiólogo e outro profissional de outra área de conhecimento. Ambos possuíam certificado internacional de aprovação nas habilidades de leitura e escrita e não conheciam os objetivos do estudo. As retraduções foram cegas em relação ao perfil dos profissionais da primeira etapa.

A terceira etapa teve como objetivo a apreciação formal de equivalência semântica a partir do julgamento dos itens quanto ao significado refe rencial e geral dos termos e das expressões constantes nos mesmos.

O significado referencial diz respeito à correspondência literal que existe entre as palavras do instrumento original e das retraduções21. Nessa fase da equivalência semântica, procurou-se comparar em cada questão retraduzida a sua equivalência com a mesma questão constante no instrumento original, buscando classificar essa equivalência em porcentagens de 0 a 100%, sendo 0% a completa discrepância literal dos termos e 100% a completa equivalência dos mesmos. Essa etapa foi denominada de A1.

Foram realizadas duas avaliações para o significado referencial das questões, sendo ambas feitas por professores de inglês (língua original do questionário), um tendo como língua nativa o inglês e o outro, o português. Vale ressaltar que ambos apresentavam domínio completo da língua portuguesa e as avaliações foram realizadas de forma independente.

O significado geral leva em conta aspectos mais sutis que a simples correspondência literal dos termos, objetivando verificar a representação das ideias (conceitos) a que uma única palavra ou conjunto de palavras aludem21.

Para o significado geral, optou-se por selecionar indivíduos bilíngues com amplo conhecimento teórico e prático na área de fonoaudiologia para a apreciação dos pares de itens. Três profissionais realizaram de forma independente cada avaliação e, a partir dessas análises, foram selecionadas as questões para compor a versão em português do Hearing Disability and Handicap Scale.

Foram usados formulários específicos para cada aspecto de equivalência semântica. Para o significado referencial, foi utilizado um formulário que continha pares de itens do questionário original em inglês com as duas retraduções realizadas, de forma que seriam comparados os seguintes pares: original com retradução 1, original com retradução 2 e retradução 1 com retradução 2. Esta última comparação não foi avaliada formalmente e foi incluída apenas com o objetivo de evitar que os avaliadores identificassem a origem das questões.

Para a avaliação do significado geral, optou-se por uma classificação qualitativa em quatro categorias: inalterado (IN), pouco alterado (PA), muito alterado (MA) e completamente alterado (CA). Eram apresentados no formulário os seguintes pares de itens: original com tradução 1 e original com tradução 2. Dessa forma, o avaliador tinha conhecimento da pergunta original, avaliando o seu significado geral e o impacto produzido na população de origem e comparava com cada tradução realizada, sendo orientado a enquadrar os pares de questões dentre as quatro possibilidades de classificação. Essa etapa foi denominada de A2.

Para a versão final, alguns termos foram incorporados de uma ou das duas versões e, em alguns casos, optou-se por certas modificações no intuito de tornar as perguntas mais fáceis de serem compreendidas por indivíduos numa faixa ampla de escolaridade, sempre com o cuidado de preservar o sentido de cada questão.

A etapa 4 consistiu na aplicação da versão-síntese em uma amostra de conveniência composta de dez trabalhadores expostos ao ruído ocupacional. Os participantes do pré-teste trabalhavam em uma indústria de bebidas da cidade do Recife e no setor de lavanderia de um hospital universitário localizado na mesma cidade.

A aplicação da versão-síntese teve como finalidade principal analisar a compreensão dos termos utilizados com o propósito de verificar possíveis ajustes e, por isso, justifica-se o critério de seleção de uma amostra por conveniência, visto que o objetivo não era a representatividade da amostra, mas o aprimoramento do questionário.

Nessa etapa, solicitava-se do entrevistado que classificasse a pergunta como de fácil ou de difícil entendimento e que desse um exemplo de sua vida diária correspondente ao item que acabara de responder. O entrevistador, então, julgava a compreensão do entrevistado com base na pertinência do exemplo, registrando os comentários para cada item. A aplicação do questionário foi realizada pela pesquisadora responsável e durou, em média, trinta minutos.

A compreensão do entrevistado era classificada em entendimento correto ou entendimento incorreto/duvidoso. As questões que não alcançassem entendimento correto ou fossem classificadas como de difícil entendimento por mais de 10% dos entrevistados deveriam ser reajustadas. Nesses casos, era solicitado do entrevistado que sugerisse uma melhor forma de formular a questão para que essa elaboração da pergunta sugerida fosse avaliada posteriormente.

A etapa 5 objetivou discutir e analisar os comentários registrados sobre os itens com uma equipe multiprofissional, a fim de adequar a versão-síntese e orientar a elaboração da versão final.

A equipe multiprofissional foi composta por dois fonoaudiólogos com experiência na área de saúde ocupacional; um médico do trabalho, epidemiologista; uma professora de português, com 23 anos de experiência; e um voluntário de nível médio.

A equivalência operacional foi mantida através do mesmo número de questões da versão original, mesmas opções de resposta e método de aplicação do questionário (autoadministrado) e a equivalência de mensuração foi realizada a partir da avaliação da confiabilidade e validade da versão final.

A versão final foi elaborada e aplicada, juntamente com um questionário de caracterização da amostra, por um único entrevistador (pesquisadora responsável) em trabalhadores portadores de PAIRO de uma indústria de bebidas da cidade do Recife. Essa indústria possuía um total de 175 trabalhadores expostos ao ruído ocupacional; dentre estes, um total de 48 trabalhadores portadores de PAIRO em algum grau. Todos os trabalhadores com PAIRO foram convidados a participar desta pesquisa, porém cinco deles não puderam ser incluídos, pois dois encontravam-se de férias e três estavam afastados do trabalho por motivos de saúde no período de coleta de dados.

Os trabalhadores portadores de PAIRO participantes da pesquisa (n=43) responderam individualmente à Escala de Inabilidades e Handicap Auditivo e foram retiradas, de seu prontuário, informações a respeito do último exame audiométrico realizado.

Todos os dados referentes ao exame audiométrico e ao preenchimento da escala foram armazenados e analisados através dos programas Epi Info versão 3.3.2 e SPSS versão 13.

Para avaliar a confiabilidade e validade da versão final obtida após o processo de adaptação transcultural, inicialmente foi realizada a estatística descritiva das respostas aos itens do questionário, seguida de análise fatorial, correlações item-total e análise da consistência interna do instrumento (pelo alfa de Cronbach).

A confiabilidade é definida como o grau de precisão ou de coerência com que o instrumento mede o atributo que se propõe a medir e o coeficiente alfa mede a intercorrelação dos itens e proporciona uma estimativa do erro de medida22.

Para a análise fatorial, foi realizada uma análise de componente principal (ACP) seguida de rotação varimax nos vinte itens da versão adaptada para a língua portuguesa. O "Cattel scree test" foi utilizado como critério para extração dos fatores. Não foi realizada uma análise confirmatória, tendo em vista que o tamanho amostral não era suficientemente grande para produzir estimativas estáveis dos parâmetros do modelo.

Todos os trabalhadores assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, no qual ficaram cientes dos objetivos da pesquisa e de sua importância. Os nomes dos participantes não foram divulgados e essa pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco.

 

Resultados

A análise da equivalência conceitual demonstrou que o conceito de handicap auditivo para a cultura brasileira e para outras culturas foi considerado equivalente. Além disso, não foram identificados itens que deveriam ser substituídos por não terem a mesma conotação do termo original, seguindo-se então para a etapa de equivalência semântica.

Na avaliação da versão com maior correspondência literal, identificou-se que os avaliadores apresentaram uma concordância de 85% e isso demonstra que, de forma geral, o julgamento dos avaliadores foi semelhante. Os percentuais médios de avaliação da correspondência literal (A1) variaram de 65 a 100%.

Na fase de análise do significado geral (A2), os examinadores foram solicitados a comparar os itens traduzidos e a versão original, verificando a equivalência de forma qualitativa em quatro categorias: inalterado (IN), pouco alterado (PA), muito alterado (MA) e completamente alterado (CA).

Para a grande maioria das avaliações realizadas, os profissionais consideraram os itens traduzidos como estando inalterados, comparados à versão original em inglês.

Alguns termos foram incorporados de uma ou das duas versões e, em alguns casos, optou-se por certas modificações com o objetivo de tornar as perguntas mais fáceis de serem compreendidas por indivíduos numa faixa ampla de escolaridade, sempre com o cuidado de preservar o sentido de cada questão. A sinopse do processo de decisão para a criação da versão-síntese encontra-se disposta na Tabela 1.

 

 

No pré-teste, as perguntas foram julgadas como de fácil entendimento pelos entrevistados e todas elas foram compreendidas corretamente por 90% ou mais dos entrevistados. Apenas três perguntas necessitaram de modificações por terem sido julgadas por 20% da população como de difícil entendimento (questões 4, 8 e 20).

Outra dúvida bastante frequente dos participantes do pré-teste estava relacionada às opções de resposta. Muitos tiveram dificuldades na marcação das respostas e sugeriram a colocação da palavra "sim" ou "não" antes de cada alternativa, ficando as opções com a seguinte composição: "Não, nunca"; "Sim, algumas vezes"; "Sim, frequentemente"; e "Sim, sempre". Essas modificações foram aceitas, visto que não modificam as alternativas no seu sentido principal, apenas incluem palavras que facilitam o entendimento e marcação da resposta correta.

Na Tabela 2, são apresentados os resultados das etapas de tradução, retradução e avaliação dos significados referencial (A1) e geral (A2).

 

 

O Gráfico 1 apresenta os limiares auditivos médios de cada frequência (de 500 a 8000 Hz) para as orelhas direita e esquerda. Percebe-se que os trabalhadores participantes da pesquisa possuíram, em média, limiares auditivos dentro do padrão de normalidade (até 25dB NA) para as baixas frequências e limiares auditivos alterados para a grande maioria das altas frequências (grau leve), para ambas as orelhas.

 

 

O alfa de Cronbach estimado para os quatro fatores da versão em português do HDHS foram: 0,70 para o fator 1 (percepção da fala); 0,78 para o fator 2 (sons não verbais); e 0,56 para o fator 3 (sofrimento interpessoal); e 0,47 para o fator 4 (ameaça à autoimagem), todos apresentados na Tabela 3.

 

 

Esta tabela também apresenta a análise fatorial exploratória que foi realizada com os vinte itens da escala de inabilidades e handicap auditivo utilizando a análise de componente principal seguida pela rotação varimax. Uma solução de quatro fatores emergiu, com o auxílio do Cattel's scree test. Essa solução explicou 57% da variância total.

Após a realização dessa análise fatorial, observou-se que especialmente dois itens tiveram correlações muito baixas com as suas dimensões: os itens 1 (dificuldade de acompanhar uma conversa normalmente) e 15 (as pessoas lhe evitam por causa da sua dificuldade de ouvir).

A correlação item-total variou de 0,12 a 0,60 para este estudo. As médias de correlação item-total mais fortes foram encontradas entre os fatores 1 (0,46) e 2 (0,57) e as mais fracas foram para os fatores 3 (0,38) e 4 (0,22).

 

Discussão

O método de análise da equivalência semântica utilizada nesta pesquisa baseou-se no proposto por Reichenheim, Moraes e Hasselman23 e Moraes, Hasselmann e Reichenheim24, que inclui cinco etapas consecutivas: (1) tradução do instrumento original, (2) retradução, (3) apreciação formal de equivalência, (4) pré-teste com amostra de conveniência e (5) crítica final por especialistas na área com elaboração da versão final.

Observa-se que a disposição dos limiares auditivos no Gráfico 1 está compatível com a descrição da PAIRO segundo a Portaria nº 19 do Ministério do Trabalho e Emprego25, que informa que a PAIRO é geralmente bilateral, não produz perdas maiores que 40dB NA nas frequências baixas e que 75dB NA nas altas, tem início e predomina nas frequências de 3000, 4000 ou 6000 Hz, progredindo para 8000, 2000, 1000, 500 e 250 Hz.

Uma particularidade em relação à análise da consistência interna dos itens deve ser levada em consideração: o tamanho da amostra. Prieto e Muñiz26, ao citarem os padrões de avaliação de testes na Espanha, consideram que as amostras pequenas (n<100) não são altamente recomendáveis para a avaliação dos dados psicométricos.

O estudo de validação interna de um instrumento de qualidade de vida realizado por McHorney et al.27 utilizou o valor de 0,4 como ponto de corte para descarte de medidas. Já Pestana e Gagueiro28 consideram o índice de 0,6 como o mínimo aceitável para a confiabilidade do estudo.

Não há um ponto de corte ideal para a concepção de qualquer indicador; sendo assim, o nível de tolerância aceitável para o alfa de Cronbach deve ser definido pelo investigador, levando em conta o valor obtido e a complexidade do fenômeno que se pretende medir29.

Foi considerado para este estudo o critério de Bowling30, que afirma que podem ser considerados como aceitáveis os valores do coeficiente alfa de Cronbach iguais ou superiores a 0,5.

Como a análise da consistência interna do questionário teve, neste estudo, um caráter exploratório, pode-se considerar que a Escala de Inabilidades e Handicap Auditivo exibiu, de forma geral, uma consistência interna aceitável para a maioria dos fatores, excetuando-se o fator 4, com valor inferior a 0,5 (0,47).

O estudo de Hétu et al.16 (n=232) identificou um coeficiente alfa no valor de 0,81 para o fator 1 (percepção de fala), 0,84 para o fator 2 (sons não verbais) e 0,84 para o fator 3 e 4 juntos (handicap). Já a pesquisa de Hallberg17 (n=101) en controu os valores de alfa para os fatores 1, 2, 3 e 4, respectivamente de 0,89; 0,85; 0,79 e 0,84.

Apesar de os valores de alfa de Cronbach terem sido menores que os encontrados no instrumento original em inglês, isso pode ter ocorrido devido ao número reduzido da amostra de trabalhadores participantes da pesquisa e ao fato de as perdas auditivas dos trabalhadores participantes não terem sido muito significativas, como demonstrado no audiograma médio dos trabalhadores (Gráfico 1).

As qualidades psicométricas dos testes devem ser avaliadas constantemente; sendo assim, quanto mais informações sobre tais propriedades, maior será a credibilidade do teste31. Essa afirmação só reitera a importância de se realizar novos estudos com populações representativas de portadores de PAIRO para avaliar a adequação do instrumento proposto para a cultura brasileira.

O item 15 obteve uma correlação muito baixa com os demais itens do fator 3 (0,001), o que resultou na sua retirada da análise. Porém, vale salientar que, em pesquisas futuras, sugere-se que o item seja mantido para verificar se este fato se reproduz em amostras maiores e significativas da população para então ser pensada na sua exclusão da versão em português do HDHS.

Optou-se por não retirar o item 1 da análise, apesar de ter tido uma correlação fraca (0,12) quando comparado com os demais itens do fator 1, já que a questão 1 (dificuldade de acompanhar uma conversa) relaciona-se a uma pergunta que provavelmente teria uma correlação maior caso a população apresentasse uma perda auditiva mais acentuada.

Em relação à população de estudo, em quase todos os casos, excetuando-se apenas um, os trabalhadores possuíam a área de fala (frequências de 500, 1000 e 2000 Hz) preservada, o que provavelmente fez com que essa população não identificasse nenhuma dificuldade em acompanhar conversas.

As correlações dos itens para o fator 4 também se apresentaram fracas. Mais uma vez, uma possível justificativa para este fato seria o tamanho reduzido da amostra e as perdas auditivas que não eram tão acentuadas nesta população.

 

Considerações finais

A versão em português do instrumento Hearing Disability and Handicap Scale (HDHS) para avaliação do handicap auditivo em portadores de PAIRO seguiu uma metodologia específica para adaptação transcultural de instrumentos e mostrou-se apropriada para aplicação na população de trabalhadores portadores de Perda Auditiva Induzida pelo Ruído Ocupacional.

O instrumento foi considerado de fácil compreensão e aplicação e obteve, de forma geral, confiabilidade e validade aceitáveis, considerando-se o tamanho reduzido da amostra e o fato de as perdas auditivas na população não terem sido muito acentuadas.

No entanto, a Escala de Inabilidades e Handicap Auditivo precisa ser testada em amostras maiores e representativas da população de trabalhadores brasileiros com PAIRO, a fim de ser ratificada a sua utilidade para a avaliação do handicap auditivo nessa população.

A disponibilização de um instrumento específico para portadores de PAIRO para o contexto brasileiro é de grande importância para incentivar e estimular a pesquisa nesse campo ainda pouco estudado no Brasil. Vale salientar que este instrumento pode ser utilizado ainda para populações expostas ao ruído em geral, no intuito de analisar as implicações psicossociais advindas dessa exposição.

Sendo assim, a versão em português do HDHS, denominada de Escala de Inabilidades e Handicap Auditivo, soma-se aos outros instrumentos de avaliação do handicap auditivo já existentes para possibilitar comparações de estudos realizados no Brasil com outros feitos em outros países.

Apenas com a disseminação do conhecimento sobre o tema e com a adesão de novos pesquisadores que se poderá chegar a uma escala de handicap auditivo mais adequada, contribuindo principalmente para o conhecimento e divulgação das implicações psicossociais advindas da PAIRO, a fim de conscientizar empregados e empregadores da importância de se evitar a instalação e progressão dessa doença silenciosa e irreversível.

 

Colaboradores

WTG Holanda e OB Coutinho-Neto participaram igualmente de todas as etapas da elaboração do artigo.

 

Referências

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Artigo apresentado em 30/10/2008
Aprovado em 27/07/2009
Versão final apresentada em 28/09/2009