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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16  suppl.1 Rio de Janeiro Jan. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000700032 

ARTIGO
ATENÇÃO BÁSICA

 

Representações sociais da homeopatia: uma revisão de estudos produzidos no Estado do Espírito Santo

 

Social representations of homeopathy: revision of studies produced in Espírito Santo State, Brazil

 

 

Túlio Alberto Martins de FigueiredoI; Vera Lúcia Taqueti MachadoII

IDepartamento de Enfermagem, Centro Biomédico, Universidade Federal do Espírito Santo. Av. Marechal Campos 1.468, Maruípe. 29040-090 Vitória ES. tulioamf@nfd.ufes.br
IISecretaria Municipal de Saúde de Vitória

 

 


RESUMO

Este estudo buscou colocar em revista as investigações sobre as representações da homeopatia no cenário capixaba. Trata-se da análise de seis trabalhos até então produzidos nesse recorte, explorando tais representações entre os profissionais de saúde (gestores, médicos, cirurgiões-dentistas, farmacêuticos e enfermeiros) e a comunidade. No tocante à comunidade, um estudo reportou-se à sociedade em geral e outro a usuários. Ambos, no entanto, representaram a homeopatia com a idéia de tratamento natural ou fitoterápico, que se presta essencialmente para controlar ou curar alergias e outras doenças consideradas leves. No que diz respeito aos profissionais de saúde, todos os estudos, à exceção de um, reportaram-se aos alopatas. Entre esses alopatas, excetuando-se os farmacêuticos, as idéias circulantes sobre a homeopatia foram idênticas às da comunidade. A homeopatia enquanto especialidade , é um fenômeno social gerador de representações que circulam e se transformam em uma determinada sociedade. Nosso estudo considera que todos os equívocos a respeito das idéias circulantes sobre a homeopatia na comunidade e no meio científico capixaba são reminiscências históricas que remontam à chegada dessa especialidade no Brasil, perpetuadas pela sua ausência na maioria dos projetos político-pedagógicos locais dos cursos de formação em saúde.

Palavras-chave: Homeopatia, Representações sociais, Tendências


ABSTRACT

This study attempts to survey the investigations about the representations of homeopathy on the State of Espírito Santo scene. The point of departure was an analysis of six studies of the kind, in which the subjects were professionals acting in the area of health and community members. One of the six studies surveyed society as a whole and a second one focused on users of homeopathic medicaments. Yet both groups of respondents represented homeopathy as natural or phytotherapic treatment, essentially directed to controlling or curing allergy and other diseases which were classified as minor. As to the health professionals, all studies but one referred to the alopaths. Among the alopaths, the ideas expressed by the subjects, pharmacists apart, were identical to those expressed by the community members. Viewed as a specialized discipline, homeopathy is a social phenomenon that provokes representations which undergo changes as they circulate in society. Our study holds that all misinterpretations about the nature and role of homeopathy detected in the community's responses as well as in the scientific domain, in the State of Espírito Santo, are historical reminiscences which go back to the time when homeopathy was introduced in Brazil and,even today, the contents of homeopathy are still absent in most health courses.

Key words: Homeopathy, Social representations, Trends


 

 

Introdução

A homeopatia enquanto corpo de conhecimento , é um fenômeno social gerador de representações sociais que circulam e se transformam ao longo do tempo em nossa sociedade. O marco da criação dessa especialidade se deu na Alemanha, em 1796, quando Samuel Hahnemann publicou a obra "Ensaio sobre um novo princípio para se averiguar os poderes curativos das drogas". Tendo se difundido por todo o mundo, a homeopatia chegou ao Brasil já no início do século XIX, fortemente marcada por muitas polêmicas, visto que desqualificada, primeiramente, no meio acadêmico como terapêutica questionável e, posteriormente, até mesmo falseada e deturpada. Em termos positivos, coube ao médico francês Benoit Jules Mure mais conhecido no como Bento Mure , a primazia de divulgar efetivamente a homeopatia em nosso país1.

Constituindo-se como especialidade médica a partir de 1980, a homeopatia tem, ainda hoje, representações sociais muitas vezes destorcidas ou carregadas de preconceito, que entendemos serem reminiscências desse passado histórico que marcou a sua chegada ao Brasil. Antes, porém, de estarmos falando sobre homeopatia, julgamos por bem reportarmo-nos ao conceito do que seria uma representação e uma representação social.

As representações norteiam todas as atividades humanas e são construções simbólicas, constituindo-se como imagens e esquemas antecipados dos fatos. Assim posto, Schiele et al.2 compreendem que "as representações e as ações pensam-se dialeticamente nas e pelas relações, diretas ou indiretas, que os atores sociais estabelecem entre si com o seu meio". Dessa forma, essas representações "circulam e transformam-se principalmente por meio das relações de comunicação desenvolvidas entre os atores sociais".

Representação, segundo Abbagnano3, foi um termo primeiramente utilizado por Guilherme de Ockham (1289-1349) que distinguiu três significações fundamentais para o mesmo: em um sentido mais geral, aquilo por meio de que se conhece algo; o fato de conhecer alguma coisa, conhecida a qual se conhece outra coisa, a imagem ou a possibilidade de causar o conhecimento, da maneira como o objeto causa o conhecimento (nesse sentido, o próprio objeto). Figueiredo et al.4, no entanto, referem que esse termo, cunhado na Idade Média, caiu em desuso e somente voltou a ser reeditado no início do século passado. Naquele contexto, Durkheim5, ao investigar as práticas religiosas de tribos de cultura ágrafa da Austrália, concluiu que tais representações religiosas eram representações coletivas.

O estudo das representações sociais, um termo que tanto designa um conjunto de fenômenos quanto o conceito que os engloba e a teoria surgida para explicá-los, teve a sua origem, na França, a partir do final da década de cinquenta, quando Moscovici6, tomando por objeto de estudo a psicanálise, procurou saber em que convertia uma disciplina científica e técnica quando passava do domínio dos especialistas para o domínio comum. Moscovici6 definiu as representações sociais como "uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos".

Há de se considerar, entretanto, que embora inspirado no conceito "durkheimiano" de representação, ao propor essa nova leitura representação social , Moscovici somente a cunhou partindo da compreensão de que a extensão explicativa de uma representação coletiva poderia ser suficiente no início do século passado, em virtude da relativa integridade das religiões e de outros sistemas unificadores, mas, nas sociedades contemporâneas, outra ordem de conceitos se impõe, alcançável a partir da construção teórico-conceitual de um espaço psicossociológico próprio6.

Assim posto, na contemporaneidade, as representações são sociais. Tais entidades, quase tangíveis, circulam nos gestos e falas de nosso cotidiano e, embora sejam fáceis de serem apreendidas, o seu conceito não o é6. As representações sociais são produzidas e compartilhadas nas desigualdades das condições sociais, que são resultantes da divisão do trabalho e, por isso, são heterogêneas7. Spink8 pontua que sendo as representações sociais "definidas como formas de conhecimento prático, inserem-se mais especificamente entre as correntes que estudam o conhecimento do senso comum". Entretanto, para a comunidade científica que constrói os saberes sobre representações da homeopatia no Estado do Espírito Santo, este quadro teórico não aparece explicitado como tal nos estudos em análise. No entanto, não podemos negar que o Estado do Espírito Santo detenha uma produção sobre as representações sociais da homeopatia, visto que todas as representações produzidas na contemporaneidade são sociais e que a homeopatia é um fenômeno gerador de representações.

Assim posto, este estudo foi construído no sentido de levantarmos esses saberes aqui gerados, buscando discutir as representações sobre a homeopatia circulantes em nossa sociedade.

 

Objetivo

Neste estudo, buscamos enquanto objetivo alcançar o levantamento e a discussão sobre a produção científica da homeopatia capixaba, na perspectiva das representações.

 

Metodologia

O primeiro passo desta investigação foi o levantamento dos estudos sobre as representações da homeopatia produzidos no cenário capixaba. Como critério de inclusão, estabelecemos contemplar como objeto de nossa análise apenas os trabalhos já defendidos no meio acadêmico, assim como os trabalhos apresentados em eventos científicos ou então já publicados. Nosso universo de estudo ficou, pois, constituído por seis investigações.

 

As representações da homeopatia capixaba em questão

Conforme já foi referido anteriormente, ao longo do tempo, foram produzidos seis estudos sobre representações da homeopatia no cenário capixaba. Tais estudos sobre a representação da homeopatia no Estado do Espírito Santo foram inaugurados por Micali et al.9, no ano de 1995, quando abordaram como tema as imagens dessa especialidade na comunidade de Vitória (ES). A partir do material de uma investigação apreendida entre oitenta sujeitos de ambos os sexos, escolhidos aleatoriamente, em cinco pontos diferentes da cidade, os referidos autores elaboraram um estudo qualiquantitativo sobre as representações que circulavam naquela comunidade sobre a homeopatia; o estudo evidenciou que a maioria absoluta daqueles sujeitos (81,25%) afirmou ter algum conhecimento sobre a homeopatia. As imagens que circulavam na comunidade sobre a homeopatia foram avaliadas como de grande diversidade, predominando, no entanto, as menções de homeopatia enquanto tratamento natural e tratamento com plantas ou raízes. De maneira interessante, os autores constataram que a noção de homeopatia enquanto tratamento natural associou-se à idéia de remédio não beneficiado e não agressivo.

No tocante à associação da homeopatia com a fitoterapia, circulante entre os moradores da cidade de Vitória, reminiscências com a infância ou então com uma dada região do país nor deste, por exemplo , foram muito marcantes. Homeopatia foi associada às "bolinhas doces" ingeridas na infância ou a remédios muito comuns na Região Nordeste do país9.

As principais fontes com as quais aqueles sujeitos que vivem no município de Vitória aprenderam a conhecer a homeopatia foram, nessa ordem, a mídia, os familiares e os vizinhos9. A esse respeito, Schiele et al.2 consideram que a mídia, de fato, toma o lugar das relações diretas e que a vulgarização científica de um dado fenômeno social em nosso caso de análise, a homeopatia , situa-se na articulação do campo de comunicação de massa e do campo científico.

De maneira surpreendente, Micali et al.9 consideraram que, para aquela comunidade, a homeopatia apresentava-se como uma especialidade de múltiplas possibilidades terapêuticas, apontada para o tratamento de quase todas as patologias, à exceção de aids, câncer e doenças graves que necessitavam de tratamento urgente.

O segundo estudo dando conta das representações da homeopatia circulantes no cenário capixaba foi elaborado por Mageste et al.10, no ano de 1998, e investigou médicos alopatas do município de Vitória. Tratou-se de um estudo de abordagem qualitativa elaborado entre doze médicos de diversas especialidades e que utilizou como artifício para composição da referida amostra a técnica de bola de neve. O ponto de redundância definiu o tamanho da amostra.

O estudo de Mageste et al.10 evidenciou que maioria daqueles médicos entrevistados (75%) deu mostras de aceitar a homeopatia enquanto especialidade médica; no entanto, os autores consideraram que esses médicos alopatas, à exceção de um único sujeito, detiveram representações de senso comum a respeito da homeopatia. Tais representações foram múltiplas, permeando principalmente as idéias de misticismo, tratamento natural e tratamento fitoterápico. Para esses sujeitos, a homeopatia seria um tratamento coadjuvante no tratamento de doenças crônicas de fundo emocional, doenças alérgicas e doenças respiratórias. Nessa ordem, a homeopatia não teria indicação em traumatologia, quadros infecciosos, qualquer doença orgânica e quadros agudos.

A terceira investigação sobre as representações da homeopatia no cenário capixaba teve como objeto de estudo a sua interface com a odontologia. A amostragem, aleatória e estratificada por sexo, foi constituída por 150 cirurgiões-dentistas previamente selecionados dentre o universo de profissionais constantes no catálogo telefônico. Vieira et al.11, no ano de 1999, explorando tais representações entre 51 desses profissionais que concordaram em participar do estudo, cuja coleta de dados foi feita por telefone, constataram que entre os mesmos circulavam menções que foram classificadas como positivas, negativas ou neutras.

Dentre as menções circulantes consideradas como positivas, destacaram-se as idéias de tratamento natural, pureza e a eficácia do tratamento. No entanto, para um quarto daquela amostra, a homeopatia foi qualificada negativamente como tratamento de longa duração ou terapêutica obsoleta. As menções qualificadas como neutras, embora afeitas a um conjunto de 25% daquela amostra, foram bastante dispersas e não significantes, prevalecendo, no entanto, a idéia de remédio homeopático11.

A maioria daqueles cirurgiões-dentistas investigados considerou o seu grau de conhecimento sobre a homeopatia como insuficiente ou sofrível. Sobre a fonte de seus conhecimentos, há de se considerar que apenas ¼ dos entrevistados apreenderam os seus saberes sobre a homeopatia em livros ou revistas. De maneira surpreendente, a maioria dos cirurgiões-dentistas alopatas entrevistados revelou que seu conhecimento sobre a homeopatia tinha como fonte a orientação dada por médicos, quando do acompanhamento de seus filhos às consultas (31,4%) ou mesmo através de conversas informais com amigos (25,5%)11.

No entanto, consideramos importante ressaltar que a maioria daqueles sujeitos investigados foi de opinião favorável à idéia da homeopatia constituir-se como uma especialidade odontológica e compreenderam que a tal especialidade pode ser eficaz no tratamento de doenças infectocontagiosas e problemas periodontais e, obviamente, a cárie dental foi citada como uma patologia que não pode ser tratada com terapêutica homeopática. A esse respeito, os autores consideraram que, apesar dos resultados mostrarem pouco ou nenhum conhecimento (daqueles profissionais) sobre a homeopatia, as respostas sobre as doenças tratáveis e não tratáveis com medicamentos homeopáticos foram corretas em sua maioria. Na odontologia, a maior parte das doenças pode ser tratada por ações mecânicas locais, o que justificaria tais acertos11.

A respeito do estudo que deu conta de explorar a interface da homeopatia com a enfermagem nosso quarto estudo em análise , podemos registrar que se tratou de uma investigação descritiva exploratória combinada de abordagem qualitativa e que, a princípio, constituiu um trabalho de conclusão de curso de graduação12.

Tal estudo objetivou conhecer as representações que os enfermeiros das unidades de saúde da Rede Municipal de Vitória, que no ano de 2004 já ofereciam tal especialidade médica homeopática na atenção básica em saúde, tinham sobre aquela especialidade médica e explorar de que forma tais saberes orientavam a prática daqueles enfermeiros na atenção aos clientes em tratamento médico homeopático. O universo do estudo foi constituído pelos dez enfermeiros atuantes naquelas unidades de saúde e a amostra foi igual a oito sujeitos, tendo em vista que dois deles se recusaram a participar do estudo, alegando total falta de conhecimento sobre o tema12.

Nesse estudo12, ficou evidenciado que o enfermeiro desconhece as possibilidades e os limites da homeopatia e julga que tal terapêutica presta-se, comumente, para o tratamento de alergias e doenças consideradas "light". Dessa forma, "a representação da homeopatia pelos enfermeiros corresponde às imagens mentais de bolinhas, gotinhas, tratamento natural e tratamento auxiliar".

Compreendendo que a homeopatia constitui uma especialidade presente no cotidiano dos usuários dos serviços de saúde de Vitória, Souza13 avaliou que seria natural que o enfermeiro "buscasse apreender saberes sobre tal especialidade, uma vez que os mesmos são importantes na abordagem a clientes usuários". Nesse sentido, buscou investigar quais seriam as fontes de conhecimento a respeito da homeopatia para aqueles profissionais. Assim posto, o autor13 evidenciou que "a televisão, livros e revistas foram citados como fontes consideráveis para a apreensão de conhecimentos por parte dos entrevistados (49%). Trata-se de fontes acessíveis à sociedade em geral".

Nesse estudo, Souza13 também constatou que a veiculação de saberes a partir de informações obtidas através de usuários da homeopatia amigos e parentes , é uma importante fonte de informação para o enfermeiro.

No mesmo ano, 2004, Machado et al.14 comunicam as representações da homeopatia entre os farmacêuticos não homeopatas de Vitória, no XXVII Congresso Brasileiro de Homeopatia. Em um estudo de abordagem qualiquantitativa, realizado com tais profissionais, ficou evidenciado que os mesmos associaram a homeopatia com maior frequência, às imagens mentais de tratamento natural, tratamento com plantas medicinais, tratamento alternativo e à figura de Hahnemann.

Nesse estudo14, tais sujeitos consideraram os seus conhecimentos sobre homeopatia como bom ou razoável, mas, na prática, o que se verificou foi que "tais saberes apreendidos na formação básica careciam muitas vezes de fundamentação". No entanto, os autores inferiram que os farmacêuticos "mesmo assim, ainda detêm saberes um pouco mais consistentes que os demais profissionais de saúde do município".

Por fim, o estudo elaborado por Novais15, no ano de 2007, deu conta de analisar os serviços e a prática homeopática inserida na Rede Pública de Saúde em Vitória. Nesse estudo, a autora buscou conhecer o serviço homeopático, os médicos homeopatas, os gestores e os usuários, assim como examinar as suas interpelações.

Novais15 considerou que os gestores, "em sua maioria, não conhecem o perfil da clientela atendida. A falta de instrumentos de registro e de avaliação na unidade impede a realização de estudo na área. Também não há troca de informações diretas com os homeopatas e os usuários".

No entanto, Novais15 considerou que tais gestores avaliaram que o atendimento homeopático na Unidade de Saúde devia ser satisfatório, pois os mesmos inferiram que "[...] a clientela daqui é tão exigente que se tivesse alguma falha sairiam de lá (consultório) e viriam aqui (na Diretoria Local) se queixar, por isso deve ser muito bom, pois sempre falam muito bem do médico e do tratamento".

Sobre os médicos homeopatas entrevistados, Novais15 também considerou que os mesmos pareciam conhecer a sua clientela e que julgavam serem aqueles usuários bem favorecidos com o tratamento homeopático no serviço público, visto tratar-se de sujeitos de baixo poder aquisitivo: "[...] Os mais humildes não estariam aqui representados, por não possuírem informações suficientes para chegarem até ao serviço". Na opinião dos sujeitos entrevistados, aquela clientela era tão humilde que até "[...] Tem gente que pede até desculpas porque não comprou o remédio".

Em relação aos usuários da homeopatia no serviço público de Vitória, Novais15 apontou que os mesmos reconheciam diversas vantagens nesse tipo de tratamento, considerado como "cômodo, barato, fácil de tomar" e que viam no mesmo a possibilidade de "expectativa de melhoria na saúde trazendo perspectivas de melhora na qualidade de vida".

No entanto, o tratamento homeopático era visto, por aqueles usuários investigados por Novais15, como lento. A este respeito, a mesma avaliou que "essa imagem de lentidão vem sendo propagada entre os usuários e segundo eles com contribuições dos próprios homeopatas. Tais equívocos são frutos da desinformação, pois, quando bem orientados, podem ampliar a visão e mudar de opinião".

No tocante à sua indicação terapêutica, ficou evidenciado que os usuários geralmente buscam a homeopatia para o tratamento de quadros de menor gravidade15. O estudo considera que a procura pelo tratamento homeopático na rede pública de Vitória tem como diferencial (do tratamento alopático) o atendimento oferecido, "vinculado à imagem de aconselhamento, confiança e apoio" e que estabelece "um estreito vínculo afetivo, e a intimidade é consequência direta desse modelo de atendimento que, na maioria das vezes, percorre toda a vida daquela pessoa ou do seu núcleo familiar". Assim posto, Novais15 avaliou que "em geral, a técnica homeopática preenche algumas carências afetivas e sociais do ser humano", o que nem sempre acontece na maioria da atenção alopática.

 

Considerações finais

No cenário capixaba, conseguimos evidenciar seis estudos dando conta de representar a homeopatia. Desses, dois foram produções acadêmicas que atenderam às exigências de um trabalho de conclusão de curso de graduação em Enfermagem e uma dissertação de mestrado em Saúde Coletiva, respectivamente.

Quanto aos sujeitos desses estudos, um deles tratou especificamente de cirurgiões-dentistas, outro de farmacêuticos e um terceiro abordou as representações de enfermeiros. Todos esses sujeitos eram alopatas.

A comunidade foi investigada em dois estudos; porém, um deles investigou representações da homeopatia na comunidade em geral, enquanto outro estudou usuários dessa especialidade.

Da mesma forma, os médicos também foram objeto de dois estudos. Em um deles, todos eram alopatas e, em outro, especialistas em homeopatia, exercendo tal prática no serviço público. Esse último estudo aqui referido envolveu, ainda, os gestores locais de saúde.

Quanto aos profissionais de formação alopática, aqui investigados médicos, enfermeiros, cirurgiões-dentistas e farmacêuticos , à exceção destes últimos (notadamente os de formação igual ou inferior a cinco anos), que tiveram em seu currículo a disciplina homeopatia (55%), os alopatas de Vitória têm representações sobre essa especialidade muito semelhantes à comunidade, geralmente associando-a à idéia de tratamento natural ou tratamento fitoterápico, quando não às imagens mentais de gotinhas e bolinhas. Tais qualificadores, no diminutivo, nunca constituem referência ao medicamento alopático e, em nossa opinião, refletem certo descrédito historicamente construído aqui no Brasil , com relação a essa especialidade. Consideramos oportuno ressaltar, conforme avalia Luz1, que os maiores focos de resistência à homeopatia se mantêm no meio acadêmico com argumentos de pelo menos 150 anos atrás.

A propósito, a historiografia da introdução desta terapêutica no Brasil encerra muitas polêmicas. As primeiras informações que se têm da homeopatia no Brasil datam do ano de 1811, ocasião em que o professor Dr. Antonio Ferreira França teria feito considerações descabidas e maliciosas nas aulas que ministrava na Faculdade de Medicina e Cirurgia da Bahia, desestimulando os seus alunos a respeito do conhecimento homeopático. Por volta de 1836, surgem os primeiros fatos oficiais sobre a homeopatia no Brasil, ocasião em que a Academia Imperial de Medicina publicou artigos falseando e deturpando a doutrina homeopática1.

De fato, observa Luz1, a negação da dimensão científica da homeopatia é um fenômeno que emerge na teoria e na terapêutica dos alopatas. No plano teórico, a homeopatia é negada pelos alopatas "porque os seus conceitos (da especialidade) não acompanham o progresso científico da medicina" e na terapêutica, "por ser inócua ou prejudicial, por não ter embasamento científico".

No que diz respeito às possibilidades terapêuticas da homeopatia, pudemos evidenciar que, em geral, os profissionais de saúde alopatas tendem a considerar tal especialidade como indicada no tratamento de doenças alérgicas e de fundo psicossomático, representação essa também compartilhada com a população, até mesmo entre aqueles que são usuários.

Consideramos, entretanto, que a partir do final da década de setenta e especialmente durante toda a década de oitenta, no século passado, o mundo ingressou num movimento de globalização conceituado como pós-modernidade ou modernidade reflexiva16. Essa nova ordem social implicou, inclusive, no campo da saúde, a aquisição de novos valores ou mesmo mudanças radicais que abriram espaço para as abordagens que garantem a integralidade na atenção à saúde.

A década de oitenta foi decisiva para a afirmação da homeopatia no Brasil: pela Resolução CFM nº 1.000/198017, a mesma passa a ser incluída na relação de especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina e alguns municípios brasileiros, a partir daí, começaram a oferecer o atendimento homeopático aos usuários dos serviços públicos de saúde. A homeopatia, sendo uma especialidade médica integral por excelência, encontrou nesse contexto histórico, que vem sendo construído a partir da década de setenta, e se fortaleceu na década de oitenta e seguintes, um excelente espaço para sua consolidação. O advento do Sistema Único de Saúde (SUS), no entanto, foi decisivo na ampliação da oferta de atendimento homeopático e o Estado do Espírito Santo, nesse contexto, não constituiu exceção: aqui a homeopatia passou a ser uma possibilidade terapêutica cada vez mais em expansão.

No entanto, não obstante todos os avanços, o que se observa é que a formação dos profissionais de saúde, nas instituições capixabas de ensino superior, continua em descompasso com essa nova realidade, visto que, à exceção da graduação em Farmácia e Bioquímica, tal especialidade (assim como outras abordagens terapêuticas integrativas ou complementares) continua ausente dos projetos político-pedagógicos dos cursos de graduação. Em consequência, os saberes que os profissionais de saúde capixaba têm sobre a homeopatia são perpetuados como conhecimentos de senso comum e na maioria das vezes muito equivocados, de forma que as representações desses profissionais sobre tal especialidade nem mesmo se diferenciam das representações circulantes na sociedade em geral. Este diagnóstico aqui evidenciado reflete uma lacuna na formação desses profissionais de saúde.

À guisa de finalização, resta-nos evidenciar que, em decorrência da falta de diretrizes políticas específicas, ao longo dos tempos, as experiências de implantação da homeopatia como possibilidade terapêutica no sistema de saúde brasileiro aconteceram de modo descontinuado e sem impacto social. Há de se considerar, também, que muitas representações equivocadas a respeito da especialidade, e historicamente perpetuadas, emergiram no próprio seio de uma corporação médica hegemonicamente alopática. Entretanto, os avanços e retrocessos foram decisivos para a definição da atual Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no SUS18, espaço político no qual a homeopatia se insere, enquanto possibilidade de prevenção de agravos e da promoção e recuperação da saúde baseada na integralidade, juntamente com a medicina tradicional chinesa acupuntura, a fitoterapia, a medicina antroposófica e o termalismo-crenoterapia.

 

Colaboradores

TAM Figueiredo e VLT Machado participaram igualmente de todas as etapas da elaboração do artigo.

 

Referências

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Artigo apresentado em 01/12/2008
Aprovado em 25/06/2009
Versão final apresentada em 27/08/2009