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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16  suppl.1 Rio de Janeiro Jan. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000700099 

ARTIGO
MEDICAMENTOS

 

Consumo de medicamentos entre adultos na área de abrangência de uma Unidade de Saúde da Família

 

Consumption of medicines by adults within an area covered by a family health unit

 

 

Milene Zanoni da Silva VosgerauI; Darli Antonio SoaresII (in memoriam); Regina Kazue Tanno de SouzaII; Tiemi MatsuoII; Gisele dos Santos CarvalhoII

IUniversidade Federal do Paraná Setor Litoral. Rua Jaguariaíva 512, Caiobá. 83620-111 Matinhos PR. milenezanoni@gmail.com
IIUniversidade Estadual de Londrina

 

 


RESUMO

No Brasil, são poucos os estudos sobre consumo de medicamentos em adultos. Assim, o objetivo de pesquisa foi verificar o perfil de consumo de medicamentos e identificar fatores associados ao uso entre adultos de vinte a 59 anos. O delineamento da pesquisa foi transversal. A amostra foi composta por 374 indivíduos da área de abrangência de uma unidade saúde da família de Ponta Grossa (PR). As entrevistas ocorreram entre dezembro de 2006 e janeiro de 2007. O período recordatório foi de sete dias. Os medicamentos foram classificados segundo a Anatomical Therapeutic Chemical Classification. Testes de qui quadrado e de regressão logística foram utilizados para análise estatística. A prevalência de consumo de medicamentos foi de 67,1%. A utilização variou entre um e dezessete medicamentos. O analgésico foi a classe terapêutica mais consumida. Após análise multivariada, as variáveis que permaneceram associadas significativamente foram sexo, autopercepção de saúde, presença de doenças crônicas e filiação a plano de saúde. A farmácia comercial foi o principal local de acesso aos medicamentos (63,6%). A prevalência de consumo de medicamentos foi semelhante à encontrada em estudo nacional e internacional. Os achados desta pesquisa poderão nortear as ações das equipes saúde da família.

Palavras-chave: Uso de medicamentos, Farmacoepidemiologia, Prevalência, Programa Saúde da Família


ABSTRACT

There are few studies about the consumption of medication by adults in Brazil. Therefore, the purpose of this research was to identify the profile of medication consumption and associated factors among adults aged 29 to 59 years old. This is a cross-sectional study. The sample included 374 individuals from the area of a family health unit in the city of Ponta Grossa, State of Paraná. The interviews were conducted from December 2006 to January 2007, with a 7-day recall. The medications were classified according to the Anatomical Therapeutic Chemical Classification. Qui-square test and logistic regression were used for statistical analysis. The prevalence of medication consumption was 67.1%. The use varied from 1 to 17 drugs. Analgesics were the therapeutic class most consumed. After multivariate analysis, the variables which remained significantly associated to use were: gender, self-perception of health, presence of chronic diseases, and access to a health plan. Commercial pharmacy was the main place for obtaining medicines (63.6%). The prevalence of medication consumption was similar to that found in national and international studies. The findings in this research may be a guide for the actions of family health teams.

Key words: Drug utilization, Pharmacoepidemiology, Prevalence, Family Health Program


 

 

Introdução

Das ferramentas terapêuticas disponíveis à equipe de saúde, a utilização de medicamentos é a mais empregada para a manutenção ou recuperação das condições de saúde da população1.

O consumo de medicamentos é condicionado tanto por fatores farmacológicos como também por aspectos socioantropológicos, comportamentais e econômicos. A vasta oferta de produtos farmacêuticos, o marketing da indústria farmacêutica, o grande número de medicamentos prescritos por médicos e as atitudes culturais colaboram para a efetivação de práticas irracionais por indivíduos e populações2.

A utilização inadequada de medicamentos tem como consequências o crescimento de morbidades e mortalidade, além do aumento dos gastos na área da saúde3. Segundo Soyama4, os hospitais utilizam de 15 a 20 % de seus orçamentos para enfrentar as complicações causadas pelo uso indevido de produtos farmacêuticos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), conforme Laporte et al.5, define estudos de utilização de medicamentos (EUM) como pesquisas que abrangem "a comercialização, distribuição, prescrição e uso de medicamentos em uma sociedade, com ênfase especial sobre as consequências médicas, sociais e econômicas resultantes".

Esses estudos geram informações sobre os medicamentos consumidos, quem os consome, como e para qual finalidade. Permitem identificar os grupos populacionais mais vulneráveis ao uso irracional e as classes terapêuticas empregadas de modo inadequado6, além de contribuir decisivamente para a formação de uma consciência crítica entre os profissionais que os prescrevem, os que dispensam os medicamentos e os consumidores7.

Entretanto, nos países em desenvolvimento, os EUM são relativamente escassos8,9. As pesquisas realizadas nas últimas duas décadas indicam que grande parcela da população utiliza medicamentos e este uso se dá em todas as faixas etárias. Mesmo assim, poucos são os estudos brasileiros de base populacional sobre o consumo de medicamentos10, 11 e pesquisas que tenham investigado o uso em adultos de uma forma global são menos frequentes ainda7.

Dentro deste contexto, a Estratégia Saúde da Família (ESF) tem grande potencial em garantir o uso racional dos medicamentos a partir da reorientação da assistência farmacêutica. Por constituir um modelo de atenção primária, a ESF se compromete com a integralidade da assistência à saúde, com foco na unidade familiar na comu nidade em que está inserida12. Considerando-se, assim, a assistência farmacêutica fator preponderante da assistência integral, espera-se que as equipes de saúde da família contribuam para minimizar o uso irracional de produtos farmacêuticos, pois se sabe que 50% dos usuários não usam corretamente os medicamentos13.

O objetivo deste estudo foi verificar o perfil de consumo de medicamentos e identificar fatores associados entre adultos de vinte a 59 anos residentes na área de abrangência de uma Unidade de Saúde da Família.

 

Metodologia

Realizou-se um estudo transversal de base populacional em área de abrangência de uma Unidade de Saúde da Família de Ponta Grossa (PR). A estimativa populacional do município, para 2006, foi de 300.196 habitantes14.

Os serviços de saúde de Ponta Grossa, na atenção primária, são formados por 46 unidades básicas de saúde. Destas, quarenta estão na região urbana e contam com 28 equipes de Saúde da Família. A Estratégia Saúde da Família está implantada desde 2001 e inicialmente contava com um farmacêutico como membro integrante da equipe mínima. Atualmente, somente a Unidade de Saúde da Família em estudo manteve a presença do farmacêutico.

A população-alvo de estudo se constituiu por moradores com idades entre vinte e 59 anos completos. Os dados para a seleção da amostra da pesquisa foram coletados da ficha de cadastramento das famílias (Ficha A) do Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB), que contempla toda a população residente na área de abrangência. Desta fonte, foram coletados os seguintes dados: nome completo, sexo, endereço, idade e telefone. Foram excluídas as pessoas impossibilitadas de responder ao formulário por problemas de saúde e substituídas pelo próximo indivíduo dentro da faixa etária estipulada.

Para o cálculo do tamanho da amostra, utilizou-se a estimativa de 50% de prevalência de consumo de medicamentos, baseada em estudo realizado por Arrais et al.3. O tamanho da amostra, para uma margem de erro de 5% e um nível de confiança de 95%, foi de 361 indivíduos. A este número, foram adicionados 20% para eventuais perdas, totalizando, assim, 434 pessoas a serem entrevistadas.

A seleção dos sujeitos realizou-se por processo de amostragem sistemática, que partiu de listagem que continha a relação dos indivíduos por sexo, a fim de assegurar proporcionalidade nesta variável. A unidade de observação foi o indivíduo. Para o cálculo do intervalo amostral, dividiu-se o número total de indivíduos dentro da faixa etária estipulada pelo tamanho da amostra. A fração foi igual a 14.

O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um formulário estruturado, composto por 58 questões referentes ao aspecto sociodemográfico, à condição de saúde, ao uso de serviços de saúde e, especificamente, ao consumo de medicamentos. Pré-teste, com trinta entrevistas, foi realizado em dezembro de 2006 com moradores da área não incluídos na amostra da pesquisa para ajustes no instrumento.

As entrevistas foram realizadas no domicílio entre dezembro de 2006 e janeiro de 2007. Dúvidas, inconsistências e itens não preenchidos foram devidamente averiguados. Consideraram-se como perdas as pessoas não encontradas em até oito tentativas de contato, em horários e dias da semana diferentes.

A variável dependente da pesquisa foi uso de medicamentos. As variáveis independentes relacionadas aos entrevistados foram sexo, idade, situação conjugal, número de residentes no domicílio, escolaridade, situação de trabalho, nível econômico (conforme poder de compra da família segundo a Associação Brasileira de Empresas e Pesquisa - ABEP)15, autopercepção de saúde, presença autorreferida de enfermidades crônicas, filiação a plano de saúde, consulta com médico nos últimos três meses e internação hospitalar nos últimos doze meses.

Os fatores analisados a partir dos medicamentos consumidos foram indicação, orientação sobre medicamento (qualquer informação referida pelo entrevistado), profissional que forneceu a orientação e local de acesso.

O nível econômico foi categorizado de acordo com os critérios estabelecidos pela ABEP, que envolve posse de bens e o nível de escolaridade do chefe da família, que permite a classificação em cinco estratos, sendo que o estrato A representa a melhor condição e o estrato E, os piores níveis econômicos.

Os participantes do estudo foram questionados acerca de todos os medicamentos em uso, definidos previamente como aqueles utilizados pelo entrevistado nos últimos sete dias que antecederam a entrevista.

Para a validação do uso de medicamentos, foi utilizada a metodologia padrão instituída por Landry et al.16. Tal técnica consiste em solicitar aos entrevistados a embalagem, receita, bula e blister de produtos farmacêuticos utilizados, visando evitar omissão, em geral por esquecimento, de medicamentos em uso, e, além disso, para assegurar a veracidade das especialidades farmacêuticas informadas6. Os nomes e laboratórios fabricantes foram devidamente registrados para posterior classificação em grupos farmacológicos.

Os princípios ativos presentes em cada especialidade foram listados e organizados de acordo com a classificação ATC (Anatomical Therapeutical Chemical), elaborada pelo Nordic Council on Medicines e recomendada pela Drug Utilization Research Group (DURG) da OMS para os estudos de utilização de medicamentos. Os medicamentos com mais de um princípio ativo foram classificados na classe terapêutica do principal componente; produtos com diferentes ações farmacológicas foram enquadrados levando-se em conta sua indicação terapêutica.

As informações anotadas nos formulários foram duplamente digitadas. Para o procedimento de validação, os bancos foram comparados e, após correção, obteve-se o banco de dados definitivo. O programa Epi Info, versão 3.3.2 para Windows, foi utilizado tanto na entrada, como na análise dos dados. Para a análise de associação das variáveis independentes com o consumo de medicamento, utilizou-se o teste de qui quadrado. Incluíram-se as variáveis que apresentaram valor de p<0,20 na análise multivariada por regressão logística, sendo calculadas as razões de chance e seus respectivos intervalos de confiança de 95%. Consideraram-se significativos os fatores que apresentaram valores correspondentes a p<0,05.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Londrina e cumpre os critérios estabelecidos na Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

 

Resultados

Dos 434 indivíduos selecionados, foram entrevistados 374 (86,2%) após a realização de 992 tentativas, obtendo-se a média de 2,3 contatos domiciliares por indivíduo. Registraram-se sessenta perdas (13,8%) em decorrência de uma hospitalização, cinco recusas, dezoito ausências e 36 mudanças de endereço.

Da população estudada, 251 pessoas (67,1% - IC 95% 62,1 a 71,8) referiram ter consumido pelo menos um medicamento nos últimos sete dias, com maior utilização entre as mulheres (77,5%). A prevalência de consumo no dia da entrevista foi igual a 49,5%. A utilização de medicamentos nos últimos sete dias variou entre uma e dezessete especialidades farmacêuticas. O total de medicamentos encontrados foi 603, sendo que 533 (88,4%) puderam ser averiguados por meio da bula, blister ou embalagem.

A Tabela 1 descreve a distribuição por sexo dos indivíduos segundo as variáveis demográficas, socioeconômicas e condição de saúde. Como pode ser observado, 45,7% dos entrevistados não concluíram o primeiro grau (dos quais apenas oito eram analfabetos), quase metade está no estrato C da classificação da ABEP e 24,3% trabalham no mercado informal. Com relação à saúde, a maioria (63,6%) a refere como boa. A taxa de internação nos últimos doze meses, excluídas as decorrentes do parto, foi de 11,2%. Entre as características analisadas, apenas a situação de trabalho e presença de doenças crônicas apresentaram diferenças significativas entre os sexos.

 

 

As variáveis independentes que mostraram associação na análise univariada com o consumo de medicamentos (p< 0,05) foram sexo, autopercepção de saúde, presença de doenças crônicas, plano de saúde e consulta com médico nos últimos três meses.

Após controle dos fatores de confusão por regressão logística, as variáveis que permaneceram associadas significativamente foram sexo, filiação a plano de saúde, autopercepção de saúde e presença de doenças crônicas (Tabela 2). As pessoas que declararam ter alguma doença crônica consumiram mais medicamentos do que as que relataram não ter (OR = 2,40, IC 95%: 1,35 4,3). A chance de uso de medicamentos aumentou também para os entrevistados que consideravam sua saúde ruim (OR = 2,85, IC 95%: 1,48 5,48).

 

 

A associação positiva existente entre consulta médica nos últimos três meses e consumo de medicamentos (p<0,001) desapareceu após os ajustes pelas demais variáveis (p = 0,0506), ao passo que a filiação a plano de saúde se manteve estatisticamente significativa após a análise multivariada (p<0,05) (Tabela 2).

Como pode ser evidenciado na Tabela 3, houve diferenças significativas entre sexos com rela ção ao número de medicamentos consumidos. Entre as mulheres de vinte a 49 anos, 42,2% utilizaram pelo menos dois medicamentos, ao passo que, entre os homens, este índice foi de 25,2% (p= 0,0002). Além disso, constata-se que, com o aumento da idade, ocorre um acréscimo no número de especialidades farmacêuticas usadas por ambos os sexos.

 

 

A Tabela 4 mostra os medicamentos segundo grupos anatômicos mais usados: medicamentos com ação no sistema nervoso (29,5%), no aparelho cardiovascular (20,4%), no aparelho digestivo e metabolismo (12,8%), aparelho geniturinário e hormônios sexuais (9,6%) e no sistema musculoesquelético (9,1%). Em menor frequência, estiveram os medicamentos que atuam no sangue e orgãos hematopoéticos, anti-infecciosos de uso sistêmico e do aparelho respiratório.

 

 

Entre as classes terapêuticas mais utilizadas estão os analgésicos, os hormônios sexuais e os anti-inflamatórios. Dentre esses, a dipirona sódica foi o princípio ativo mais consumido. A quantidade de princípios ativos por medicamento variou de um a 23, sendo a média de 2,2 por medicamento.

A prevalência de utilização de medicamentos em mulheres foi superior em todas as faixas etárias quando comparada a dos homens, mesmo após excluir o consumo de anticoncepcionais.

Observa-se na Tabela 5 que, dos 533 medicamentos identificados, 411 (77,1%) foram prescritos por médicos e 428 (80,3%) tiveram orientação para o seu uso. Quanto à fonte de orientação, o médico contribuiu com o maior índice (76,2%). Entretanto, poucos (6,5%) referiram ter recebido a orientação do médico e farmacêutico concomitantemente. Nenhum dentista foi citado como prescritor de medicamentos no estudo. A farmácia comercial foi o principal local de acesso aos medicamentos, com 63,6% (339), seguido pelas unidades básicas de saúde com 27,4% (146).

 

 

Discussão

No campo de estudos quantitativos de utilização de medicamentos, as diferenças entre as metodologias adotadas nas pesquisas, principalmente com relação às faixas etárias e períodos recordatórios, dificultam possíveis generalizações e comparações. Para orientar futuros trabalhos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o Guia de Investigação de Uso de Medicamentos, que recomenda um período de sete dias, por quantificar facilmente os dados e possibilitar comparação com outros estudos, além de garantir informações mais fidedignas sobre as enfermidades e seus respectivos tratamentos medicamentosos17.

No Brasil, existem poucos trabalhos publicados de utilização de medicamentos em adultos. Bertoldi et al.7, em Pelotas, encontraram a prevalência de consumo de medicamentos de 65,9% em adultos, índice semelhante ao encontrado neste estudo (67,1%). Da mesma maneira, Sans et al.18, na Cataluña (Espanha), obtiveram resultados semelhantes a esta investigação (67%). No entanto, vale ressaltar que ambos consideraram um período recordatório de quinze dias. Até a realização do presente estudo, nenhuma publicação no Brasil havia utilizado período recordatório preconizado pela OMS na faixa etária de vinte a 59 anos.

Nesta pesquisa, a prevalência de utilização de medicamentos no dia da entrevista foi de 49,5%, inferior ao índice encontrado em investigação desenvolvida com toda a população, pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS)19, em que o consumo na Região Sul foi de 62,3%. A média brasileira foi de 56,9%. Pelicio ni20 encontrou entre crianças e adultos de quatro áreas de São Paulo a prevalência de 33,9% referente ao consumo de três dias anteriores ao da entrevista, portanto, com grupo etário e período recordatório diferente deste estudo.

O consumo de medicamentos verificado neste trabalho foi superior quando comparado aos valores verificados em outros países como Noruega21, Espanha22 e Suécia23, cuja prevalência em populações diversas variou de 27,4% a 44,8%, com períodos recordatórios de um a catorze dias.

Ao considerar questões relativas ao gênero, as mulheres estão mais sujeitas à medicalização por histórica e culturalmente tenderem a se preocupar mais com sua saúde e da família. Diversos estudos têm descrito o uso mais frequente de medicamentos entre mulheres do que em homens7,24.

Conforme demonstra a Tabela 3, as mulheres utilizam uma quantidade maior de produtos farmacêuticos, o que, em parte, pode ser justificado por tenderem a referir mais a presença de problemas de saúde do que os homens no momento da consulta médica. Um aspecto importante com relação ao consumo de medicamentos por mulheres é a utilização de contraceptivos18. A maioria das pesquisas que inclui mulheres em idade fértil não se preocupa em excluir os anticoncepcionais quando se estratifica por sexo7.

Nesta pesquisa, mesmo após a exclusão destes fármacos e ajuste com outras variáveis, o índice de uso de medicamentos no sexo feminino (66,5%) foi superior ao dos homens (55,2%) (p<0,03). Estes resultados indicam que outros fatores, não considerados neste estudo, podem influenciar o diferencial na prevalência de utilização de medicamentos entre os sexos.

Nesta investigação, as pessoas que afirmaram ser filiadas a plano de saúde têm quase três vezes mais chance de utilizar medicamentos quando comparadas com as que não são. Pesquisa realizada em Fortaleza3 também identificou associação significativa dessa variável com a utilização de medicamentos, mesmo após ajuste pela análise multivariada. Na análise, os autores destacam que o aumento da cobertura por planos de saúde está vinculado à renda familiar mensal mais alta, o que favoreceria o acesso a um número maior de consultas médicas e, por conseguinte, aquisição de um número maior de medicamentos por parte do entrevistado.

Considerar a própria saúde como ruim foi o maior preditor para o consumo de medicamentos (razão de chances [OR] = 2,85). Esses dados corroboraram resultados de outros estudos. Bardel et al.23, na Suécia, verificaram que as mulheres que classificaram sua saúde como ruim tiveram dezessete vezes mais chance de consumir medicamentos do que as que se autopercebem com saúde excelente.

Bardel et al.23 indicam que o uso de medicamentos se acentua a partir da quarta década de vida, o que também se observou nesta pesquisa, pois foi crescente o consumo de produtos farmacêuticos com o aumento da idade. Dos indivíduos que usaram medicamentos e se encontravam na faixa etária de vinte a 29 anos, o consumo foi em média 1,48 (dp 0,6) medicamento, ao passo que os que estavam entre cinquenta e 59 anos utilizaram em média 3,8 (dp 2,8) especialidades farmacêuticas.

Os medicamentos que agem nos sistemas nervoso, cardiovascular e aparelho digestivo e metabólico foram os grupos anatômicos mais utilizados na comunidade pesquisada, sendo os analgésicos, hormônios sexuais e anti-inflamatórios as classes mais consumidas. Este resultado é semelhante a outros estudos realizados no Brasil7,25, em outros países em desenvolvimento26,27 e desenvolvidos18,21.

Com relação à indicação das especialidades farmacêuticas, constatou-se que o profissional médico prescreveu grande parte dos produtos farmacêuticos (77,1%) e foi apontado como orientador do uso de 83,9% dos medicamentos consumidos pela população pesquisada. Dados similares foram observados nos estudos realizados nos municípios de São Paulo (SP)28 e Humaitá (AM)29. Entretanto, deve-se ressaltar que nenhum destes estudos (inclusive este) aborda a qualidade da orientação referida pelo entrevistado.

O acesso aos medicamentos em farmácia comercial foi alto (63,6%). Os homens (67,9%) procuraram mais estes estabelecimentos do que as mulheres (61,2%). Pesquisa realizada por Sawyer et al.30 traçou perfis de utilização dos serviços de saúde no Brasil e notou que homens jovens, cuja autopercepção de saúde é boa, têm o comportamento habitual de procurar inicialmente farmácias e prontos-socorros ao detectar alguma enfermidade. Todavia, este fato, por si só, não explica a elevada taxa de procura pelas farmácias comerciais.

Apesar dessa pesquisa não objetivar a identificação das causas de baixo acesso a medicamentos em UBS, pode-se supor que talvez esse evento também se relacione à oferta restrita de medicamentos essenciais, estimulando seu acesso em outros estabelecimentos de saúde.

No que se refere aos aspectos metodológicos, foram adotadas medidas para evitar a presença de vieses como seleção aleatória dos entrevistados, padronização dos procedimentos e exclusão dos anticoncepcionais para a análise do consumo de medicamentos por sexo. A proporção de perdas, possivelmente, não invalida o estudo, uma vez que no planejamento da pesquisa o percentual de perdas foi previsto e por precaução foi acrescentado 20% à amostra inicialmente calculada. A fidedignidade das informações na coleta de dados foi assegurada pela verificação da embalagem, bula ou blister dos medicamentos usados. Além disso, utilizou-se um checklist de fármacos para evitar que esquecimentos pudessem distorcer a avaliação do perfil de consumo de medicamentos, pois frequentemente os consumidores desconsideram analgésicos, anticoncepcionais ou produtos de uso local como medicamentos6. No presente estudo, optou-se pelo período recordatório de uma semana, como recomendado pela OMS, que minimiza o viés de memória passível de acontecer com espaços de tempo superiores.

 

Considerações finais

Em resumo, pode-se afirmar que o consumo de medicamentos na população estudada foi semelhante ao encontrado em outras pesquisas com adultos. Dentre as variáveis analisadas, ser mulher, estar filiado a plano de saúde, ter doença crônica e autoconsiderar a saúde como ruim foram fatores que estiveram associados a um maior consumo de medicamentos.

Embora o fato de grande parte dos medicamentos ter sido prescrita apresentar-se como aspecto relevante, a baixa frequência de orientação, bem como a reduzida proporção de medicamentos obtidos na UBS sugerem que a universalização da assistência farmacêutica ainda está distante da sua efetivação. Aponta, deste modo, que a implantação da Estratégia Saúde da Família não foi suficiente para induzir o acesso universal a esta assistência. Uma possibilidade que se apresenta com vistas a fortalecer a atividade farmacêutica e do farmacêutico de forma integrada às equipes de saúde da família pode ser a implantação dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família31, conforme divulgação no início de 2008, por meio de portaria ministerial. Estes núcleos de atuação multiprofissional, face às ações que se propõem desenvolver, se bem-sucedidos, podem contribuir ao efetivo acesso e promoção do uso racional de medicamentos pela população.

Assim, salienta-se a necessidade de continuidade do estudo sobre o tema, por meio de novas pesquisas, a fim de monitorar os avanços no uso dos medicamentos pela população. Reitera-se a importância da análise do perfil de utilização de medicamentos como área de estudo no contexto do Programa Saúde da Família, que necessita de dados e informações para conhecer a realidade desta prática e nortear as ações das equipes de saúde da família, para que esta estratégia possa reafirmar os princípios e diretrizes do SUS e reorientar o modelo de atenção na busca da integralidade da assistência, incluindo a farmacêutica.

 

Colaboradores

MZS Vosgerau foi responsável pela coleta, análise dos dados e redação do artigo. DA Soares orientou e coordenou o trabalho, participou da estruturação do artigo, discussão dos resultados e revisão crítica final do texto. RKT Souza participou da estruturação do artigo, discussão dos resultados e revisão crítica do texto. T Matsuo auxiliou na análise estatística e revisão crítica do texto. GS Carvalho participou da discussão dos resultados e revisão crítica do texto. Vosgerau MZS et al.

 

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Artigo apresentado em 02/09/2008
Aprovado em 24/04/2009
Versão final apresentada em 20/05/2009