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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16  suppl.1 Rio de Janeiro Jan. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000700100 

ARTIGO
MEDICAMENTOS

 

A zooterapia popular no Estado da Bahia: registro de novas espécies animais utilizadas como recursos medicinais

 

The popular zootherapy in Bahia state: registration of new animal species used as medicinal resources

 

 

Eraldo Medeiros Costa Neto

Departamento de Ciências Biológicas, Universidade Estadual de Feira de Santana. Km 03, BR 116, Campus. 44031-460 Feira de Santana BA. eraldont@hotmail.com

 

 


RESUMO

Este artigo discute o uso de animais como recursos medicinais no Estado da Bahia, nordeste brasileiro. Os dados resultam de uma avaliação processual de desempenho acadêmico, uma vez que se tratou de um exercício requerido pelo professor da disciplina Etnobiologia (semestre 2007.2) aos estudantes do curso de Formação de Professores do Estado da Bahia da Universidade Estadual de Feira de Santana, quando lhes foi solicitado que fizessem um breve registro, em suas respectivas cidades, sobre o uso de animais medicinais. Participaram 41 estudantes, provenientes de 21 cidades do interior do estado. Foram registrados 95 animais (nomes comuns), dos quais dezessete são novos acréscimos à lista de animais medicinais anteriormente publicada. O registro da utilização medicinal de animais no Estado da Bahia fornece uma contribuição relevante ao fenômeno da zooterapia, abrindo espaço para debates sobre biologia da conservação, políticas de saúde pública, manejo sustentável dos recursos naturais, prospecção biológica e patente. Necessita-se desenvolver mais estudos etnozoológicos tanto para compreender a importância real da zooterapia para as comunidades tradicionais, quanto para desenvolver estratégias de manejo e uso sustentáveis das espécies animais, especialmente daquelas em risco de extinção.

Palavras-chave: Zooterapia, Etnozoologia, Medicina popular, Recurso natural, Sustentabilidade


ABSTRACT

This article deals with the use of animals as medicinal resources in Bahia state, Northeastern Brazil. The data come from a processional evaluation of academic performance, since it was an exercise requested by the professor of the discipline Ethnobiology (2007.2 semester) to the students of the course Bahia State Teachers' Undergraduation of Feira de Santana State University. They were asked to make a brief survey, in their respective cities, on the use of animals as medicines. Forty-one students, from 21 cities of the country of Bahia State, have participated with data. A total of 95 animals (common names) were recorded, from which 17 are new additions to the list of medicinal animal species already published. The recording of the use of animals as folk medicines in the state of Bahia provides a significant contribution to the phenomenon of zootherapy, because it opens a space to debate about conservation biology, health public policies, sustainable management of natural resources, bioprospection, and patent. It is necessary to carry out more ethnozoological studies both to comprehend the true importance of zootherapy to the traditional communities and to develop some strategies of sustainable management and use of animal species, especially for those under risk of extinction.

Key words: Zootherapy, Ethnozoology, Folk medicine, Natural resource, Sustainability


 

 

Introdução

O termo zooterapia remete a diferentes significados. No dicionário, ele é sinônimo de zooterapêutica e equivale à terapêutica dos animais, ou seja, ao tratamento das doenças acometidas aos animais1. Também pode ser entendido como sinônimo de terapia animal assistida, na qual animais domésticos e domesticados, como cães, gatos e cavalos, são empregados como coadjuvantes terapêuticos no tratamento e melhoramento de diversos estados patológicos, como, por exemplo, deficiências mentais2. No entanto, o termo empregado no presente artigo refere-se, strictu sensu, ao uso de remédios elaborados a partir de partes do corpo do animal, de produtos de seu metabolismo, como secreções corporais e excrementos, ou de materiais construídos por ele, como ninhos e casulos, para o tratamento e prevenção de doenças e enfermidades acometidas aos seres humanos3-5.

Há séculos que os seres humanos vêm utilizando as mais diversas espécies animais com finalidades terapêuticas6-10. Esta interação etnozoológica tem sido registrada nas mais diversas culturas ao todo o mundo11-20. A ampla distribuição geográfica e o registro etnográfico do fenômeno da zooterapia resultaram no estabelecimento da hipótese da universalidade zooterápica, segundo a qual toda cultura que apresenta sistema médico desenvolvido utiliza animais como remédios17.

No Brasil, os registros sobre utilização de animais como recursos medicinais datam do século XVII, com as obras de Guilherme Piso, Georg Marcgrave e Johannes de Laet21,22. Provavelmente, devido à extensão territorial do país, à alta diversidade biológica encontrada nos ecossistemas nacionais e ao significativo patrimônio sociocultural representado por povos indígenas e populações tradicionais, uma grande variedade de espécies animais (mais de trezentas já foram registradas!) pode ser encontrada como possuindo alegadas propriedades medicinais e, por isso, comercializada como produtos da medicina popular por erveiros e ambulantes nas feiras livres de todo o país23.

Apenas no Estado da Bahia, um total de 180 animais (tendo como base seus nomes comuns) foi registrado como recursos medicinais recomendados para a cura de uma grande quantidade de condições patológicas culturalmente diagnosticadas24. Estes recursos zooterapêuticos estão representados por doze categorias taxonômicas: milípedes (0,5%), anelídeos (1,0%), anfí bios (1,0%), aracnídeos (1,0%), equinodermos (1,5%), crustáceos (4,0%), moluscos (6,0%), répteis (12,0%), aves (13,0%), peixes (17,0%), mamíferos (20,0%) e insetos (23,0%). Uma das principais razões para o alto número de animais na farmacopéia baiana se deve provavelmente ao fato de que as pessoas acreditam no poder de cura dos remédios preparados à base de matérias-primas animais4,5,25.

Infelizmente, muitos dos animais usados como recursos zooterapêuticos estão listados como espécies ameaçadas26. A diminuição do número de espécies, especialmente de regiões neotropicais, por meio da caça, enfraquecimento de ecossistemas e usos culturais variados tem sido enorme, ao ponto de que muitas se tornam extintas antes mesmo que a ciência tenha tido chance de estudá-las. Daí que os estudos sobre zooterapia e seu significado para as comunidades humanas devem ser realizados a fim de conseguir o melhor modo de explorar os recursos naturais, levando ao almejado uso sustentável dos animais culturalmente utilizados para tal fim27.

Considerando a importância do uso de animais medicinais no Estado da Bahia, este artigo discute a ampliação do registro do fenômeno em termos de localidades inventariadas e acrescenta novas espécies.

 

Material e métodos

Os dados resultam de uma avaliação processual de desempenho acadêmico, uma vez que se tratou de um exercício requerido pelo professor da disciplina Etnobiologia aos estudantes do curso de Formação de Professores do Estado da Bahia do semestre 2007.2. A turma é formada por 45 professores de ciências que atuam em escolas da rede estadual de ensino, nos níveis fundamental e médio, sendo composta por 38 mulheres e sete homens. Foi-lhes solicitado que fizessem um breve registro, em suas respectivas cidades, sobre o uso de animais como recursos medicinais.

O modo como cada estudante buscou as informações foi variado, pois enquanto alguns, em sua prática docente, pediram aos seus próprios alunos que registrassem o que sabiam sobre animais usados na medicina popular, outros fizeram curtas entrevistas com diferentes atores sociais, como moradores idosos, curandeiras, serventes das escolas, parentes e vizinhos.

A palavra "doença" é aqui utilizada em um sentido amplo, referindo-se tanto às enfermidades de origem personalística (provocadas por um agente humano ou sobrenatural) quanto àquelas de origem naturalística (provocadas pela intervenção de causas ou forças naturais), incluindo-se desde estados dolorosos a perturbações de ordem psíquica28. Neste trabalho, as doenças foram registradas segundo a terminologia utilizada pelos informantes ou como foram encontradas na literatura.

As espécies estão listadas, quanto aos grandes grupos, seguindo-se ordenação taxonômica de Brusca e Brusca29 para os invertebrados e de Pough et al.30 para os vertebrados.

 

Resultados e discussão

Do total de 45 estudantes matriculados na disciplina Etnobiologia, 43 retornaram com o exercício solicitado. Destes, dois foram invalidados porque traziam informações sobre uso de plantas medicinais ao invés de animais medicinais. A distribuição dos indivíduos quanto ao gênero e a localidade onde atuam como professores e/ou residem é mostrada na Tabela 1. Um total de 21 cidades do interior do Estado da Bahia está representado, destacando-se três: São Gonçalo dos Campos (17% dos participantes), Riachão do Jacuípe (14%) e Feira de Santana (12%).

 

 

Foram registrados 95 animais utilizados como recursos zooterapêuticos, segundo os nomes comuns. Deles, são extraídas diversas matérias-primas empregadas na elaboração de remédios populares visando à cura de um grande número de enfermidades e doenças (Tabela 2). Saliente-se, contudo, que muitas das doenças e enfermidades registradas pelos estudantes fazem parte do contexto cultural onde as informações foram obtidas. Sua interpretação e possíveis paralelismos com patologias conhecidas pela ciência médica ocidental requerem estudos mais aprofundados 23.

À lista de animais medicinais conhecidos para o Estado da Bahia, foram acrescentados dezessete novos registros de recursos zooterapêuticos, mesmo que alguns destes façam parte da fauna exótica, como o elefante e o tigre. Os novos registros estão indicados na Tabela 2 com o sinal de asterisco (*), sendo eles: um anfíbio (rã), dois insetos (lagarta-de-fogo e morotó-de-coqueiro), dois peixes (moréia-preta e tubarão), dois moluscos (ostra e caracol-vermelho), cinco aves (araponga, coruja, ganso, garrincha e pica-pau) e cinco mamíferos (elefante, jegue, ovelha, preá, tigre).

O número de recursos zooterapêuticos (animais) citados por estudante variou de três a 21. Se considerado o número de recursos zootera pêuticos registrados por localidade, observa-se que cinco deles são os mais bem representados nos 21 municípios inventariados: carneiro (76%), lagartixa (71%), galinha (66%), sapo (57%) e urubu (52%). Há ocorrência de recursos de múltiplo uso, uma vez que deles são obtidas mais de três matérias-primas que se recomendam para elaborar remédios populares: a galinha (Gallus domesticus) e o urubu (Coragyps atratus e Cathartes aura), que fornecem seis matérias-primas cada, e o boi (Bos taurus), do qual se utilizam cinco recursos. A aplicação dos remédios varia de acordo com a natureza da enfermidade, do objetivo de uso e dos ingredientes utilizados. A maior parte dos remédios populares é administrada na forma de chás, seguindo-se os defumadores e o uso tópico. Beber a água na qual os animais inteiros ou suas partes (por exemplo, o preá, Cavia sp., cujo caldo se recomenda para casos de tuberculose) foram cozidos é procedimento recomendado para a cura de determinadas doenças. Poucas são as receitas que prescrevem o consumo do animal (por exemplo, a carne cozida do urubu, que é indicada para o tratamento da tuberculose e da epilepsia). Alguns modos de preparo e de administração são exemplificados a seguir:

. Geléia de mocó (Kerodon rupestris) cozinhar o mocó até sua carne soltar-se dos ossos. Depois, passar numa peneira para que não fique nem uma ponta de osso. A seguir, bater no liquidificador e levar ao fogo com açúcar até o ponto de geléia. Coloca-se em uma compoteira e todos os dias se deve comer um pouco. Recomendado para casos de úlcera e gastrite;

. Fezes de elefante (Loxodonta sp. ou Elephas sp.) secar as fezes e fazer um xarope para tratamento de derrame. Também são usadas como defumador. "É tão bom que quando aparece circo por aqui as pessoas vão recolher as fezes para fazer o remédio";

. Caldo de lagartixa (Gekkonidae) escaldar uma lagartixa e tomar o líquido em casos de sarampo;

. Fígado da raposa (Dusicyon sp.) comer o fígado, cozido sem sal, para tratar diabetes.

O fenômeno zooterápico faz parte de um sistema médico tradicional bastante complexo, no qual estão incluídas, entre outras práticas populares de cura e prevenção de doenças, as simpatias e as profilaxias mágicas, tais como patuás, bentinhos, amuletos, talismãs, gestos e transferências31. Os conhecimentos sobre utilização medicinal de animais são transmitidos de geração a geração, especialmente por meio da tradição oral, e estão bem integrados com outros aspectos da cultura da qual fazem parte32. Desse modo, o uso de substâncias animais deve ser compreendido segundo uma perspectiva cultural, uma vez que sistemas médicos são organizados enquanto sistemas culturais. Por outro lado, deve-se considerar a possibilidade de que determinado zooterápico, recomendado para tratar alguma enfermidade específica, não surta efeito terapêutico porque simplesmente não possui princípio ativo capaz de produzir tal efeito ou, existindo, não estar em concentração eficaz após o preparo, acarretando prejuízos e riscos à saúde de quem acredita na eficácia do produto.

A literatura registra que a investigação etnobiológica sobre remédios tradicionais provenientes de recursos naturais é um recurso valioso na crescente arte da bioprospecção para compostos com potencial farmacológico23. No entanto, os recursos faunísticos extraídos da natureza e comercializados como produtos da medicina popular podem produzir reações adversas sérias devido às más condições de preparo e conservação das matérias-primas de interesse zooterápico. Desse modo, é primordial que os naturoterápicos à base de partes corpóreas dos animais (pena, osso, couro, bico, etc.), materiais fabricados por eles (ninhos, casulos) ou produtos de seu metabolismo (peçonha, fezes, urina) sejam submetidos a uma análise de risco/benefício.

Várias doenças infecciosas podem ser transmitidas dos animais aos seres humanos (zoonoses). Alves e Rosa27,33 chamam a atenção para a possibilidade de transmissão de infecções ou enfermidades das preparações animais aos usuários de zooterápicos, devendo-se este fato ser seriamente considerado. Por exemplo, vários órgãos e tecidos, incluindo ossos e bílis, podem ser uma fonte de infecção por salmonella, causando diarréia crônica e choque endotóxico33. Estes autores enfatizam que a possibilidade de transmissão de outras infecções e zoonoses sérias e amplamente distribuídas, como a tuberculose e a raiva, devem ser consideradas se os tecidos do animal de origem desconhecida forem manuseados e usados como remédios tradicionais. Além disso, existe a possibilidade de haver reações tóxicas ou alérgicas aos produtos animais.

Por outro lado, os produtos medicinais de origem animal (zooterápicos) geralmente são comercializados sem levar em conta as condições sanitárias dos mesmos. Tal fato pode, muitas vezes, acarretar o agravamento dos sintomas que aquele mesmo "medicamento" deveria combater, ou então provocar danos em outros órgãos e sistemas do usuário (paciente), podendo levá-lo a óbito. É importante, pois, realizar estudos microbiológicos para se detectar o nível de patogenicidade microbiana do uso medicinal de produtos e/ou remédios tradicionais à base de matéria-prima animal.

Os animais, tanto quanto as plantas, demonstram possuir princípios ativos de interesse para a medicina. Descobrir novas fontes de drogas a partir de informações populares requer dos pesquisadores formados nas técnicas e métodos da ciência ocidental que se despojem de seu etnocentrismo e encarem o fenômeno da zooterapia sem preconceitos, investigando laboratorialmente as espécies indicadas como medicinais para comprovar se compostos de valor farmacológico estariam, de fato, presentes5, 4,23,24. O fenômeno da zooterapia vem despertando o interesse de pesquisadores de diferentes domínios da ciência, que tanto registram essa prática cultural quanto procuram compostos que tenham ação farmacológica5,23,24. Esse interesse vai mais além quando se leva em consideração os benefícios que compostos derivados de animais oferecem em termos de valor monetário e bem-estar humano. Por exemplo, a angiotensina, um anti-hipertensivo, traz para a companhia Squibb cerca de 1,3 bilhão de dólares por ano em vendas, além de contribuir para o bem-estar e longevidade de milhares de pessoas23.

A perspectiva cultural deve ser levada em consideração em todo debate sobre uso sustentável de recursos naturais23,25,34. Uma vez que os indivíduos constituem componentes essenciais da paisagem e suas atividades são fundamentais para o uso compatível em longo prazo, as políticas de conservação biológica devem ser guiadas por um viés sociocultural, o qual inclui o modo como os povos percebem, utilizam, alocam, transferem e manejam seus recursos naturais35. Desse modo, recomenda-se discutir os conhecimentos e práticas tradicionais relacionados com a zooterapia dentro de um contexto multidimensional do desenvolvimento sustentável, uma vez que o uso de animais devido ao seu valor medicinal é uma das formas de utilização da diversidade biológica36.

Sob o ponto de vista ambiental, o uso de medicamentos tradicionais à base de animais pode ameaçar a biodiversidade. Desse modo, a prática da zooterapia é relevante porque implica pressão adicional sobre populações animais críticas. Na maior parte das vezes, usuários e compradores de recursos zooterápicos não sabem que determinados animais estão ameaçados e em risco de extinção. Um exemplo tipifica a questão: dos 55 recursos zooterápicos medicinalmente utilizados pelos pescadores do povoado de Siribinha, em Conde, sete encontram-se listados pelo IBAMA26 como animais ameaçados de extinção. São eles: jacarés (Caiman cf. latirostris), tartarugas marinhas (Chelonia mydas, Caretta caretta, Lepidochelys olivacea e Eretmochelys imbricata), lontra (Lutra longicaudis) e preguiça (Bradypus sp.). Embora tenham sua caça, perseguição e abate proibidos pela Lei Federal nº 5.197, de 3 de janeiro de 1967, estes animais continuam a ser usados, de forma clandestina, tanto trófica quanto medicinalmente. Jacarés e lontras, por exemplo, fornecem duas matérias-primas cada, enquanto que a preguiça fornece apenas uma. Das tartarugas, animais de uso múltiplo, extraem-se quatro matérias-primas, que são empregadas na elaboração de seis remédios prescritos para a cura de doze enfermidades5.

O registro da utilização medicinal de animais no Estado da Bahia fornece uma contribuição relevante ao fenômeno da zooterapia, abrindo espaço para debates sobre biologia da conservação, políticas de saúde pública, manejo sustentável dos recursos naturais, prospecção biológica e lei de patentes. Sugere-se a realização tanto de estudos bioquímicos quanto farmacológicos para descobrir se de fato princípios ativos estão presentes nos corpos destes animais, e que possam promover o desenvolvimento de novas drogas para a indústria. Necessita-se, também, desenvolver mais estudos etnozoológicos tanto para compreender a importância real da zooterapia para as comunidades tradicionais, quanto para desenvolver estratégias de manejo e uso sustentáveis das espécies animais, especialmente daquelas em risco de extinção24. Uma alternativa para diminuir a demanda por produtos naturais de uso medicinal deveria ser o de buscar nos laboratórios a forma sintética de determinado composto ao invés de coletar populações inteiras na natureza, levando-as à exaustão.

Ainda considerando a sustentabilidade da prática zooterápica, governo e órgãos de saúde e ambientais devem garantir a coparticipação dos usuários e pessoas interessadas no uso de recursos animais com fins medicinais em todo o processo de discussão, que envolve desde a obtenção da matéria-prima e modos de preparação e administração do zooterápico, passando pelos sistemas populares de cura de uma dada doença diagnosticada conjuntamente por médicos e curandeiros. Aqui, deve-se pensar em programas de educação ambiental e de saúde pública culturalmente embasados, respeitando o conhecimento tradicional e tornando os praticantes da zooterapia coautores e corresponsáveis pelo tratamento.

 

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Artigo apresentado em 08/08/2008
Aprovado em 17/03/2008
Versão final apresentada em 20/05/2008