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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 n.10 Rio de Janeiro Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011001100018 

ARTIGO ARTICLE

 

Dialogia do riso: um novo conceito que introduz alegria para a promoção da saúde apoiando-se no diálogo, no riso, na alegria e na arte da palhaçaria

 

Dialogy of Laughter: a new concept introducing joy for health promotion based on dialogue, laughter, joy and the art of the clown

 

 

Marcus Vinicius Campos MatracaI; Gert WimmerII; Tania Cremonini de Araújo-JorgeI

ILaboratório de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos, Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). Av. Brasil 4365, Manguinhos. 21040-360 Rio de Janeiro RJ. matraca@ioc.fiocruz.br
IIGerente da Clinica Saúde da Família Cantagalo, Pavão e Pavãozinho, Secretária Municipal de Saude e Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro - SMSDC/RJ

 

 


RESUMO

Apresentamos e debatemos a Dialogia do Riso, um conceito baseado na prática da educação popular em saúde desenvolvida com alegria. Saúde entendida como um recurso para a vida e não como um objetivo de viver; promoção da saúde como uma reação positiva que leva a uma percepção ampliada, integrada, complexa e intersetorial: articula ambiente, educação, pessoas, estilo e qualidade de vida. O riso pode então ser incorporado como ferramenta de promoção da saúde, tese que defendemos. Para isso apresentamos considerações sobre o diálogo, o riso, a alegria e o palhaço, conceituando a Dialogia do Riso. O diálogo, fala entre duas ou mais pessoas para entendimento de alguma ideia mediada pela comunicação, é uma metodologia de reflexão conjunta, que visa melhorar a produção de novas ideias e compartilhar significados, essência da comunicação. O riso é um fenômeno universal, condicionado a aspectos da cultura, da filosofia, da história e da saúde; é dialógico, porque, através do humor nos deparamos com a comédia e o escárnio que existe por traz de cada riso, um código de comunicação inerente à natureza humana. Arrolamos argumentos para defender a alegria como estratégia para a promoção da saúde, e adotamos o palhaço, e usamos sua arte como ferramenta educacional que pode ser integrada como tecnologia social.

Palavras-chave: Dialogia do riso, Promoção da saúde, Alegria, Palhaço


ABSTRACT

The Dialogy of Laughter - a concept based upon the praxis of general health education performed with joy - is presented and discussed. Health is seen as a resource for life rather than a goal in life and promotion of health is a positive reaction leading to a broader, integrated and complex perception linking the environment, education, people, quality and style of life. Laughter can then be incorporated as a tool in health promotion as defended here. Considerations on dialogue, laughter, joy and the clown giving rise to the Dialogy of Laughter concept are presented. Dialogue, namely an exchange between two or more persons for the comprehension and transfer of ideas, is a methodology for joint thinking to produce new ideas and to share meaning, which is the essence of communication. Laughter is a universal phenomenon linked to aspects of culture, philosophy, history and health. It is dialogic, since through humor the comedy and the wit contained in each laugh, which is a communication code inherent to human nature, are revealed. Joy as a strategy for health promotion is highlighted and the art of the clown, using this art as an educational tool that can be integrated as a social technology, are adopted.

Key words: Dialogy of laughter, Promotion of health, Joy, Clown


 

 

Introdução

Dizia o poeta Vinicius de Moraes1: a vida é a arte do encontro, apesar de tanto desencanto e desencontro. Diversas redes sociais e movimentos virtuais promovem encontros para dialogar e compartilhar experiências no campo da saúde, construindo estratégias e articulando questões referentes à qualidade de vida. Essa prática potencializa virtudes como a solidariedade humana e supera gradualmente o modelo biomédico assistencialista e privatista, para uma efetiva promoção da saúde coletiva. Dentre estas estratégias, observam-se movimentos de valorização do riso no campo da saúde, tendo como principal referência os palhaços de hospital2,3.

O sorriso é a distância mais curta entre duas pessoas, nos afirma a frase de Borge na charge que ilustra o trabalho do Ministério da Saúde sobre Educação Popular4. Entretanto, para Valiate e Tozzi3, o riso como ferramenta dialógica é pouco difundido entre os profissionais e os usuários dos serviços de saúde. Ele é importante para a construção de vínculos com a população nos serviços de saúde, pois desarma, aproxima, quebra barreiras e estimula a capacidade de reflexão.

Temos desenvolvido trabalhos com a arte da palhaçaria, promovendo saúde por meio do riso5. Práticas realizadas pelo Palhaço Matraca foram documentadas nos curtas metragens Matraca e o Povo Invisível6 e Na Pista7, nos quais a palhaçaria subverte e promove uma divertida interação com a população de rua e com profissionais do sexo. Em nossa publicação sobre essas experiências5 relatamos que o riso é libertador, subverte e burla a ordem das coisas, para que o expectador adorne-se com a arte de rir da sua própria condição, transmutando assim sua realidade.

Desse modo, o riso ajuda a contrapor a ideia de saúde como simples ausência de doença ou um completo bem-estar, tese defendida inicialmente como conceito universal da saúde pela OMS desde 19468. Em 1986, a Carta de Ottawa9 firmou-se como um marco na construção do conceito de Promoção da Saúde. Neste documento, saúde é entendida como um recurso para a vida e não como um objetivo de viver. Desta forma, a Promoção da Saúde para Lefevre10, é uma reação "positiva" (positivo de positividade e não de positivismo), que conduz para uma percepção ampliada, integrada, complexa, intersetorial, relacionando saúde com ambiente, educação, pessoas, estilo e qualidade de vida, dentre outros. Neste sentido, o riso é um elemento que pode ser incorporado como ferramenta de Promoção da Saúde, premissa que buscamos sustentar teoricamente neste trabalho.

O Sistema Único de Saúde (SUS) nasce em meados dos anos 70, em meio à consciência revolucionária dos pesquisadores, militantes sociais, políticos, artistas e representantes comunitários. Seus preceitos demonstram a preocupação com uma ética social traduzida pela universalidade, equidade, integralidade, descentralização - municipalização, regionalização - hierarquização e participação popular. Segundo Rodrigues e Santos11, o SUS, em menos de duas décadas, transformou-se no maior projeto público de inclusão social do mundo, no qual 110 milhões de pessoas são atendidas por agentes comunitários de saúde em 95% dos municípios do Brasil, e 87 milhões são atendidos por 27 mil equipes de saúde da família por todo o país. A concepção de saúde como direito social encontra-se na Constituição Federal de 198812, Art. 196: "A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação".

O processo dialógico - ou simplesmente o diá­logo - entre o indivíduo e as coletividades é indispensável nos espaços de atuação do SUS, potencializando uma práxis em saúde que não valoriza apenas a manutenção ou a recuperação do estado de saúde, posto que este é dinâmico: ao envelhecer não se tem mais nem menos saúde, mas uma saúde diferente. A saúde, portanto, não é ausência de doença e, deste modo, amplia-se o olhar da saúde sobre as condições de vida da população, quando se deseja ir além da prestação de serviços clínico-assistenciais. Neste contexto, nos unimos a Sicoli e Nascimento13 na proposição de ações inter-setoriais que envolvam tecnologias educativas e sociais, construídas dialogicamente.

As dimensões éticas e culturais são essenciais para o cuidado da saúde dos indivíduos e dos grupos populacionais. A adoção do universo lúdico como instrumental para a promoção da saúde é uma tecnologia inovadora que está sendo investigada no meio acadêmico, tal como vem ocorrendo com o projeto Saúde e Brincar14, um programa de atenção integral à criança hospitalizada que, desde 1994, desenvolve atividades lúdicas nas enfermarias e ambulatórios do Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz. O programa tem caráter interdisciplinar e funciona nas áreas de assistência, ensino e pesquisa, atuando nas enfermarias e nos ambulatórios. Crianças e seus acompanhantes são convidados a brincar, favorecendo as relações entre os usuários e a equipe de saúde.

Dentre centenas de exemplos, encontram-se trabalhos sobre o "capital social" das crianças15, a prescrição de música para tratamento de ansiedade crônica16, brincar e aprender17, saúde de pessoas em situação de rua18, e o projeto Saúde e Alegria19 . Visto que o campo da saúde é muito mais amplo do que o da doença, propomos e defendemos neste trabalho o conceito de Dialogia do Riso como ferramenta de interação e geração de conhecimento, entendendo que a prática da saúde pode acontecer em qualquer espaço social. Promover saúde com alegria fortalece o exercício da cidadania: compartilhando conhecimento, brincando e harmonizando-se com seu semelhante, pois na "na saúde ou na doença" somos todos um.

Interlude

De inicio cabe esclarecer que não é a proposta deste artigo - e nem temos a pretensão de - discorrer longamente sobre o surgimento dos conceitos que serão apresentados. Queremos apresentar pontos importantes sobre o diálogo, o riso, a alegria e o palhaço, que consideramos essenciais para a reflexão conceitual da Dialogia do Riso.

O diálogo

Segundo o dicionário Houaiss20, a palavra "diálogo" do grego dialogos, significa fala entre duas ou mais pessoas na busca do entendimento de alguma ideia mediada pela comunicação, objetivando a solução de problemas e sua harmonia. O diálogo é a essência da comunicação humana, sempre com um locutor, que apresenta um tema discursivo, e um interlocutor, que percebe, reage, responde e constrói sentidos com o discurso emitido.

O diálogo também pode ser uma atividade de reflexão e observação da experiência vivida. Imaginemos que a práxis dialógica seja um jogo com normas iniciais e sua continuidade dependa apenas dos participantes. Mariotti21 ressalta que não devemos confundir normas operacionais com receitas, bem como o uso exagerado de técnicas e métodos com normas operacionais. A temperança que o autor nos apresenta para a prática dialógica é: a) ouvir para aprender algo de novo e não para conferir com crenças prévias; b) respeitar as diferenças e a diversidade; c) refletir sem julgar; d) ter sempre em mente que o objetivo é criar e aprender, e não "ter razão" e sair vencedor. O diálogo é uma metodologia de reflexão conjunta, que visa melhorar a produção de novas ideias e compartilhar significados.

Nesta perspectiva ao afirmarem que "o caminho se faz caminhando" Myles Horton e Paulo Freire22, defendem a construção da práxis dialógica usando como ponto de partida a realidade observada. Esta práxis deve ser híbrida, agregando diversos olhares e saberes, tendo como bússola metodológica a promoção de encontros e diálogos. Horton afirmou que custou a compreender que não precisava saber, mas sim ter visão, ou apenas deixar as situações se desenvolverem utilizando sempre o conhecimento acumulado e disponível na construção coletiva do saber. Caminhando é possível acreditar na realização de encontros e na construção de uma práxis dialógica em prol da vida humana. Segundo Deleuze23, o imaginário humano jamais seria capaz de contabilizar as possibilidades geradas pelo encontro.

Segundo Paulo Freire24, o diálogo não impõe, não maneja e não domestica. Portanto, através do diálogo cria-se uma importante ferramenta de vínculo, fluxos, sentidos e informações necessárias que colaboram nas ações de promoção da saúde. Esta tarefa não se limita à esfera de poder do Estado, centros de pesquisa, empresas médicas e organizações comunitárias. A práxis da promoção da saúde depende da participação coletiva e de estratégias que envolvam micro-políticas locais, sem perder de vista a necessidade de se manter em rede25. E a geração de encontros facilita a construção compartilhada de conhecimentos no trabalho em saúde26.

Na pedagogia de Paulo Freire o diálogo é abordado como uma ação essencialmente humana, um ato de amor, coragem, liberdade e confiança no próximo. Freire define que o pensamento crítico se constitui a partir do diálogo e molda o conceito de "dialogia". Na pedagogia do oprimido24, o diálogo apresenta-se como a horizontalização da relação entre A e B, gerando uma matriz crítica e comunicativa. Na relação inversa encontramos a antidialogia, onde a relação entre A e B ocorre de forma vertical, gerando o comunicado e não a comunicação. Freire nos afirma que a sustentabilidade da teoria antidialógica se alimenta da conquista e dominação do outro, da manutenção e divisão das classes sociais, onde o oprimido é imerso em uma realidade de manipulação e padrões sociais que freiam sua criatividade inibindo a sua expansão. Ele acentuou a necessidade de uma revolução no processo pedagógico para efetivamente rompermos com a educação bancária que forma os seres em série, para pactuarmos com a pedagogia da liberdade, que potencializa a prática da autonomia do ser e do diálogo.

Mikhail Bakhtin27,28 defende que a comunicação só existe na reciprocidade do diálogo, sendo fator fundamental na produção comunicativa, ou seja, só é possível com prática. O pensador russo afirma que em primeiro lugar está a linguagem direta, a linguagem patética, a linguagem no sentido próprio, aquela que é utilizada sem distanciamento, sem refração, sem consciência linguística explícita, utilizada por figuras sólidas como os bufões27. Para Bakhtin, a dialogia ocorre quando a interação entre os sujeitos favorece a construção coletiva do saber, construindo uma relação horizontal. Em suas palavras: "O diálogo inconcluso é a única forma adequada de expressão verbal de uma vida autêntica"28. O indivíduo é percebido como sujeito coletivo que, por intermédio do diálogo, atua no mundo, relacionando suas informações anteriores com suas experiências, dialogando e contextualizando sua realidade com seus pares. Para este artigo adotamos o conceito de dialogia, que para o autor russo é tratado enquanto diálogo entre interlocutores através da interação comunicativa.

Neste sentido, a criação de mecanismos de diálogo e encontros favorece a mediação de saberes entre agentes de promoção da saúde e a população. Trabalhados em diálogos coletivos, os saberes científicos e populares sobre saúde e doença se hibridizam e poderão embasar a construção de políticas públicas comprometidas com os direitos sociais e humanos.

O riso

O riso, é um fenômeno universal que desperta interesse por ser transversal e dialógico. Transversal por ser condicionado a aspectos da cultura, da filosofia, da história, da saúde, entre outros. Dialógico porque, ao trilharmos os sentidos do humor, nos deparamos com a comédia e o escárnio que existe por traz de cada riso, um código de comunicação inerente à natureza humana. O riso e o humor são mutantes, assim como os costumes e as correntes de pensamento.

Todos sabem que o ser humano nasce chorando, mas algumas horas após o rito de passagem do nascimento, depois de adormecer e descansar, logo começa a sorrir. Talvez por um instinto natural, ou um código de defesa, que desde a infância o acompanhará na construção da sua história de vida. Mas o que é o riso? Para Alberti29 é um enigma no pensamento ocidental. Encontrar a essência do que nos faz rir despertou o interesse do filósofo Platão, defensor da tese de que quando rimos experimentamos um falso prazer nos afastando da verdade e do bem.

No clássico "O nome da rosa", Umberto Eco30 ilustra o riso como o oposto da verdade, um signo da loucura, um ato irracional, segundo a lógica de vigiar e punir. Nesta trama o monge Jorge é o protagonista principal na ocultação do conhecimento e, na sua cegueira e fanatismo, envenena as páginas da segunda parte da poética de Aristóteles, que é justamente dedicada à comédia. Ironicamente todos os que entram em contato com os segredos do cômico falecem. As estórias e as ficções são caricaturas das histórias do cotidiano humano, permeado pela manipulação ideológica. Na compreensão deste processo dialético o riso aparece como uma ferramenta que desarticula o poder, a autoridade e o intocável, pois toda forma de rigidez possui comicidade.

Frequentemente na sua construção histórica, o riso é provocado por pessoas que apresentam algum estigma ou posição de inferioridade frente ao seu grupo social. Esta teoria é defendida por Tomas Hobbes, tal como descrito em Skinner31, destacando que o riso se assemelha ao sarcástico, à soberba, à honra, à uma efêmera sensação de superioridade (sudden glory). Quem ri sempre vê o objeto do riso de cima e, por algum padrão, julga o outro inferior. Uma das causas deste tipo de comportamento é o que chamaremos aqui de ideologia da seriedade.

Para Neves32, a "ideologia da seriedade", como qualquer ideologia, não é ingênua nem seus efeitos são benéficos a todos; impõe um antagonismo absoluto entre seriedade e comicidade, à medida que qualifica positivamente a primeira e desqualifica a segunda, colocando-a em oposição ao saber. Esta mesma ideologia evoca para si o status de teoria científica e, portanto, genérica e verdadeira. Enuncia: "O saber sou eu", mas não nos revela as condições que tornaram possível tal afirmação, não denunciando o controle social do saber, nem seus laços institucionais e políticos. Tal saber atende aos interesses de quais forças sociais? Confunde arrogância e sisudez com seriedade e responsabilidade para melhor recalcar o poder libertador e corrosivo que a comicidade traz. Neste contexto o riso e o cômico são manipulados e distribuídos em conceitos como a inconsequência, a irresponsabilidade, a irrelevância, o revés da seriedade. Mas para o Palhaço russo Karandash33: "O riso não é um objetivo, é um meio que leva a ideia até o entendimento".

Em sua obra "História do Riso e Escárnio", Georges Minois34 nos diz que o riso é um caso muito sério para ser deixado apenas nas mãos dos cômicos. A ideologia da seriedade, que por meio da coação permite que riamos do que é inofensivo ou descontraído, sem mensagem ou negação, elege o humor da moda, apresentado nas mais variadas mídias, para que em seguida nos esqueçamos de quem somos, exercendo de fato, uma opressão sobre as formas mais ou menos veladas de análise e de crítica social.

Vamos destacar também a "ironia", presente na obra de Reali35 sobre a história da filosofia. No pensamento de Friedrich Schlegel, a ironia é central para a indagação do infinito, no qual se chega com a filosofia ou com a arte. Em ambos os campos lidamos com meios finitos e o desafio é encontrar o canal para o infinito com os meios finitos. A "ironia", para o autor, indica uma atitude espiritual que tende a superar e a dissolver progressivamente a inadequação em relação à infinitude de todo ato ou fato do espírito humano, e nele tem um papel decisivo como elemento "espirituoso" ou brincalhão do humor35. Assim, a ironia se coloca como possibilidade dialética de lidar com a limitação de recursos e capacidades humanas de forma leve, estimulando o riso sobre si mesmo.

A partir da segunda metade do século XIX e inicio do XX o conceito do riso ganhou forte projeção na produção acadêmica, principalmente no campo da psicologia, com investigações voltadas para a descrição e a fisiologia do riso. No mesmo período Henri Bérgson36 lança um dos mais completos estudos sobre o riso. Para ele o riso é um fenômeno puramente social e os grupos que partilham este fenômeno necessitam de afeto e celebração, sendo que qualquer movimento de controle social rígido, age negativamente para a sociedade gerando uma reação coercitiva. O riso opera de forma dialética na superação do opressor, atuando no íntimo de cada sujeito coletivo. O autor nos deixa claro que o riso é uma fonte de prazer inesgotável; entretanto, é também uma prática de poder, sendo utilizado inclusive para manipulação de pessoas enquanto marionetes, processo este consagrado pela expressão "pão e circo"36.

Quase um século depois o conceito volta ao cenário científico e intelectual. Grupos multidisciplinares publicam revistas especializadas, tais como o Corhum na França, que edita semestralmente o Humoresques37. O periódico International Journal of Humor Research38 é publicado trimestralmente nos Estados Unidos, com índice de impacto já apurado em 0,41 e com conteúdo "on line" há oito anos. Todos buscam a compreensão deste fenômeno natural que, apesar de tanta investigação, vive um antagonismo em relação ao assunto. O riso está em todos os lugares, nos programas humorísticos, livros de autoajuda, blogs virtuais, bem como na vida cotidiana; porém, rimos cada vez menos apesar da chancela científica sobre as vantagens de uma boa gargalhada. Para ilustrar este paradoxo, de acordo com a pesquisa elaborada pela Organização Mundial de Saúde39, diariamente três mil pessoas cometem suicídio no mundo, somando 1,1 milhão de suicidas a cada ano, sendo a depressão um dos fatores predisponentes (com o cuidado para não confundir depressão com tristeza: a primeira é um estado patológico que provoca sintomas como desânimo e falta de interesse por qualquer atividade; a segunda é um fenômeno normal que faz parte da vida psicológica de todos, e que não nos impede de reagir com alegria se algum estímulo agradável surgir). Esta pesquisa concluiu que o suicídio não pode continuar sendo um fenômeno-tabu, ou um resultado aceitável de crises pessoais ou sociais, mas sim uma questão de saúde pública. O suicídio é um reflexo de uma sociedade tolhida de sonhos, uma sociedade rígida, onde assumimos o papel de engrenagem na máquina do capital, os tempos modernos anunciados por Charles Chaplin.

Na comédia A Vida é Bela40, Roberto Benigni protagoniza o personagem judeu italiano Guido, que na segunda guerra mundial é encaminhado para um campo de concentração junto com seu pequeno filho Josué. Guido é um homem brincalhão, afetuoso, inteligente e com suas brincadeiras consegue burlar a rigidez da ideologia da seriedade. Para proteger e poupar Josué do holocausto nazista Guido cria uma realidade paralela, uma gincana no campo de concentração onde ambos participavam. As regras do jogo para os judeus eram as seguintes: esconder-se, manter-se em silêncio e não pedir por comida, somando assim, um determinado número de pontos para ganhar o prêmio - um tanque de guerra. Em confluência com a poesia desta estória, o psicólogo Viktor FrankI41 relata que sabia de antemão quem conseguiria sobreviver no campo de concentração, pela simples observação da capacidade de cada um de rir diante daquele horror. Frankl defendia o riso como sinônimo da arte de viver. Nas charges da Bienal Internacional de Humor42, que expõem trabalhos produzidos para provocar o riso, também há um claro convite à reflexão e à tomada de atitude em relação à AIDS e a outras doenças sexualmente transmissíveis e a políticas públicas.

Para comprovar fisiologicamente que o riso faz bem para a saúde, Berk43 investigou as modulações neuroimunológicas durante e depois dos pacientes terem sido submetidos a programas associados ao riso. Experiências hilárias foram monitoradas para entender o que acontece no corpo, no coração, na musculatura e no cérebro de uma pessoa que ri. Conclui-se que o riso e o bom humor têm efeitos benéficos para a saúde, e no final das contas uma coisa é certa: promove saúde com alegria. Defendemos o riso como ferramenta dialógica, numa postura de pactuação cotidiana frente à vida. A saúde que desejamos trabalha com a ideia de alegria.

A alegria

Para muitos filósofos a alegria foi considerada uma das paixões da alma, podendo levar qualquer mortal para o "céu e inferno". Como disse o compositor Caetano Veloso44: "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Ferrater Mora45 abre sua argumentação sobre esse conceito na seguinte lógica: a alegria se contrapõe à tristeza, porém, não necessariamente à dor, como a tristeza se contrapõe à alegria, mas não necessariamente ao prazer. Muitos pensadores relacionaram a alegria como a posse de alguma coisa, um bem material ou sua representação; outros como um êxtase, um relaxamento, um estado ético, o nirvana. Sabemos que a alegria pode ser concebida de maneiras muito distintas e, sendo assim, ficamos com a do poeta1 que recita: é melhor ser alegre que ser triste.

Na obra "As Paixões da Alma", René Descartes investiga os sentidos das paixões, incluindo a alegria e a tristeza, considerando que há um bem presente que excita em nós a alegria, e o mal a tristeza, quando é um bem ou um mal que nos é representado como nosso46. Apesar de estarmos condenados a sentir as memórias e as fraquezas da pele, o filósofo alerta que podemos ter controle e domínio, sendo tudo uma questão de método, pois o que é para alma uma paixão, para o corpo é uma ação. Em suas reflexões Descartes define a tristeza como "um langor desagradável no qual consiste a incomodidade que a alma recebe do mal, ou do defeito que as impressões do cérebro lhe apresenta como lhe pertencendo"46. E no corpo age da seguinte forma: 'o pulso é fraco e lento, e sentimos em torno do coração como laços, que apertam, e pedaços de gelo que o gelam e comunica a fragilidade do corpo"46. No caso da alegria o autor define como: "uma agradável emoção da alma, na qual consiste o gozo que ela frui do bem que as impressões do cérebro lhe representam como seu [...]; a alegria é uma paixão que chega a alma pela exclusiva ação da alma"46. E para a carne: "o que excitou na alma a paixão da alegria e fez, ao mesmo tempo, com que os orifícios do coração se abrissem mais do que de costume e que os espíritos corressem, abundantemente"46. No art. 104 diz: na alegria não são tantos os nervos do baço, do fígado, do estômago ou dos intestinos que atuam, mas os que existem em todo o corpo, e particularmente aquele que fica em torno do coração46. As reflexões que Descartes realizou no sec. XVI não se distanciam daquelas, apresentadas anteriormente sobre os benefícios do riso e alegria no corpo humano agora já no sec. XXI. No último artigo46 (art. 121) da sua tese, Descartes relata que a sabedoria é a senhora de todas as paixões, e que saber manejá-las com destreza é uma arte para suportar a existência; ele conclui que no final o que vale mesmo é tirar uma certa alegria de todas as situações.

Por outro ângulo, a alegria foi também um tema do trabalho do filósofo holandês Baruch de Espinosa47, um jovem de origem judaica, que desde cedo chamava atenção por seus dotes intelectuais e intuitivos, sendo iniciado precocemente no universo da cabala e filosofia. Seu momento mais difícil na vida, excomungado pela sinagoga, abandonado pela família, polindo e fabricando lentes para obter sua renda, é o marco da sua generosa produção intelectual. Para o filósofo, o ser humano se relaciona com três formas centrais de paixões que não são boas nem más, são naturais e originais: a alegria, a tristeza e o desejo; as demais derivam desta matriz. Da alegria nascem: o amor, a esperança, a ética, o contentamento; da tristeza: o ódio, a inveja, o orgulho, o medo; no caso do desejo podemos ter as paixões tristes que geram a crueldade, a ambição e a avareza, ou a alegria promovendo a gratidão, a pacificação e a ética48. Na proposição XXI da Ética - III, o autor afirma que aquele que imagina que ama afetado de alegria ou de tristeza será igualmente afetado de alegria ou de tristeza; e ambas essas afeições serão maiores ou menores naquele que ama, conforme o forem na coisa amada48 e, a alegria não é diretamente má, mas sim boa; a tristeza, pelo contrario é diretamente má48. Espinosa pontua que uma paixão triste nos enfraquece e nos deixa cada vez mais passivos, diferente da paixão alegre que potencializa e fortalece nossa capacidade de agir e ser.

Descartes estava interessado no desenvolvimento ou descoberta de um método racional para o domínio das paixões, ao contrário de Espinosa, que direcionava suas investigações para a compreensão de como viver bem, dando alegria e sentido à existência humana. Apesar de analisarem o mesmo conceito de formas e vivências distintas, ambos concordam que a promoção da alegria melhora a qualidade de vida humana - portanto, a saúde, e suas relações sociais. Segundo Boff49, na oração de São Francisco de Assis há a seguinte afirmação: Onde houver tristeza, que eu leve alegria. Não estamos falando da alegria fetichista, fruto de uma sociedade individualista que vende a mercadoria da moda, o produto sintético, o botox envolto por vícios e paixões que iludem o ser humano na roda do consumo e do descarte, mas da alegria criativa, do compartilhamento, da construção coletiva, dos esportes, da cultura, das artes, das relações, enfim, das paixões alegres.

Uma das marcas da alegria é seu caráter totalitário, do tudo ou nada onde, não há alegria senão total ou nula, pois o seu êxtase é geral permitindo o ser humano ficar alegre pelo simples fato de ser. Clemente Rosset50, fala da "alegria com todas as alegrias" que não se distingue, de modo algum, da alegria de viver, do simples prazer de existir50. Para ele, a alegria de viver consiste em uma comoção à vida, pela qual ela renuncia a qualquer pretensão de duração, em contrapartida das alegrias efêmeras que se pode obter da existência50. Mesma alegria que Paulo Freire relata a Moacir Gadotti51, quando nos seus 67 anos de idade, de que continuava engajado numa pedagogia boêmia, tropical, uma pedagogia do riso, da pergunta, da curiosidade, uma pedagogia da alegria, do amanhã pelo hoje, focada na promoção de encontros e diálogos.

Um exemplo prático do que falamos é o projeto Saúde e Alegria19, que atua no baixo Amazonas desde 1987, em comunidades extrativistas dos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, localizadas na zona rural do município de Santarém e agregados. Sua equipe interdisciplinar pesquisa e aplica tecnologias sociais52. Partindo da realidade local, das necessidades mais prementes, e da contrapartida dos "mocorongos", buscam-se soluções simples e adaptadas que tragam benefícios à população e que sirvam como referências de tecnologias sociais apropriadas, demonstrativas e replicáveis, sobretudo através das políticas públicas. Quem nasce em Santarém é "mocorongo", palavra indígena que significa gente humilde e receptiva, bem diferente do sentido pejorativo que toma em outras regiões do país. A escolha do nome foi proposital, valorizando seu sentido original, sendo sinônimo de desenvolvimento, educação e participação comunitária. O projeto utiliza a linguagem circense para envolver todos os segmentos e faixas etárias, lideranças comunitárias, produtores rurais, agentes de saúde, parteiras tradicionais, mulheres, professores, jovens e crianças, capacitando-os como multiplicadores e estimulando a autogestão.

Partindo desta discussão, propomos mais ações promotoras de saúde, que trabalhem com a arte, ciência e cultura para o exercício do diálogo. Desejamos compartilhar com nossos interlocutores saberes e novas experiências para a construção de uma agenda política propositiva, embasada na ética da alegria, na participação autônoma, crítica e coletiva para o fortalecendo o Sistema Único de Saúde. Nesta lógica, acreditando que não há saúde sem celebração e manifestação de identidades culturais, o Coletivo Humaniza SUS/MS53 promoveu o espaço cultural na 13ª Conferência Nacional de Saúde em 2007, com objetivo de promover momentos de reflexão, diálogo e alegria. Portanto, a Dialogia do Riso é um conceito plenamente aplicável à Política de Humanização do SUS53, assim como as tecnologias educacionais e sociais associadas a esse conceito.

E o palhaço o que é? 

Para Lecoc54 é uma profissão de fé, uma tomada de posição perante a sociedade, um estado de aceitação, é mostrar-se tal como realmente é. Sentimos um vivo interesse naquilo que o Palhaço não sabe fazer ou não faz direito, lá onde seus estigmas são ridicularizados. Sua indumentária potencializa o imaginário coletivo sobre o que tenta esconder. Quem nunca riu dos seus sapatos? São grandes por que não teve dinheiro para comprar o seu número; Quem nunca riu do nariz? É vermelho por que toda hora se esfrega para esquentar do frio, da cachaça ou da poeira. Quem nunca riu dos seus adereços? Chapéu furado, calça remendada ou cueca rasgada. E quem nunca chorou quando o Palhaço é maltratado, segregado ou perde sua bailarina? Estamos falando do nariz vermelho, um código de libertação do espírito.

Na sua longa tradição, os trabalhadores da milenar arte da palhaçaria são conhecidos em diversos grupos sociais do planeta, tais como Hotxuá (índios Krahô/ Brasil), Vidusaka (India), Bufão (Itália), Danga (Egito), dentre tantos nomes e projeções personificados ao longo da sua construção histórica. No ocidente este profissional é conhecido também como "clown" (palavra inglesa) que quer dizer rústico, rude, torpe, quem com artificiosa torpeza faz o público rir. Palhaço vem do italiano paglia (palha), material usado no revestimento de colchões e sua indumentária era um tecido listrado e grosso, afofado com palha nas partes mais salientes do corpo, fazendo do cômico um verdadeiro colchão ambulante55. Existem grupos como o Lume56 e o Grupo Tempo57, que realizam pesquisas sobre a diferença prática e conceitual entre o clown e o palhaço. Em nossas investigações optamos por trabalhar com o Palhaço, tão popular na cultura brasileira5-7.

Os palhaços estão em todos os lugares denunciando os mandos e desmandos de qualquer regime totalitário, como o Bobo da Corte, um paradoxo no contexto social, pois se trata de um ser grotesco, muitas vezes com deformações físicas, mas alguém que fala verdades como falou o Zaratrustra de Nietzche58: uma luz se acendeu para mim, não é ao povo que deve falar Zaratrusta, mas a companheiros! Não deve Zaratrusta tornar-se pastor e cão de um rebanho. Verdades que não podem ser ditas por qualquer mortal, mas por alguém que possua uma subjetividade descentrada, que não tenha pátria, seja digno de riso e repulsa, alguém estranho à corte.

O Bobo da Corte, como não faz parte da aristocracia e nem mais do seu grupo de origem social, vive como um coringa dentro da estrutura. No baralho o coringa pode entrar em quase todos os jogos, pode ocupar quase todas as posições desde que não rompa a hierarquia, na qual não se situa, mas faz parte. Pode ser descartado do jogo a qualquer momento sem impedir sua continuidade; porém, é de extrema importância quando se faz presente. Para Neves32 o Bobo da corte é um louco guerreiro lúcido palhaço, inesperado e alegre, amoral porque exibe a moralidade, integrado e outsider, crítico e bajulador, subversivo e enquadrado, irônico e reformador, sem estirpe e vivendo em palácios. Como está solto, o Palhaço não porta o sectarismo social podendo denunciar antagonismos e rivalidades mais ou menos veladas, mas latentes, na vida dos palácios. Apesar de muitos Palhaços terem sido decapitados neste jogo, o ofício sempre teve adeptos, talvez por proporcionar ser ator e co-diretor de um espetáculo que denuncia a cristalização repressiva de qualquer época ou reino.

O Palhaço é um agente secreto social pronto para a revolução, tendo como estratégias o riso e a alegria. Sua história é a de um herói às avessas que, de forma criativa, encontra sempre soluções para sua arte, indo onde o povo está, de vila em vila, de cidade em cidade, de reino em reino, estando disponível ao encontro e aprendizado da cultura com a qual entra em contato. Sua matéria básica para criar são os costumes locais, o idioma, como os principais traços folclóricos e culturais, construindo o maior espetáculo da terra, que geralmente denuncia as diferenças e desigualdades do local visitado. Esta é a visão de palhaçaria adotada para este trabalho, identificada por nós também em trabalhos como os de Palhaços Patch Adams (EUA), Hugo Possolo (Brasil) e Léo Bassi (Espanha), dentre outros.

O Palhaço tem a capacidade de inverter o sentido das representações. O cômico ri das suas fraquezas. Transculturando sua realidade, ultrapassa os limites da sua condição social por um instinto de sobrevivência e tira sabiamente proveito da tragédia. Com seu porte atlético invisível, num topete conversível, ele prepara o sermão, pra tratar do mundo cão, colocando a vida em perigo, por amor à profissão59. O Palhaço é este ser que estremece as barreiras entre sonhos e realidades, desmascarando assim o opressor por meio do riso.

No jogo da palhaçaria temos duas figuras clássicas: o Branco e o Augusto. Para Burnier60 o Branco é a elegância, a inteligência, a lucidez, a moral, as divindades indiscutíveis. Eis que em seguida surge o aspecto negativo da questão: o Augusto, a criança que faz sujeira, se revolta ante tanta perfeição, se embebeda, rola no chão e na alma, numa rebeldia perpétua. Esta dupla pode ser o gordo e o magro, o professor e o aluno, o santo e o demônio, o rico e o pobre, o médico e o paciente, o homem e a mulher, o normal e o patológico, Apolo e Dionísio, como um jogo em que quanto mais autoritária for a intenção, mais o outro se mostrará reticente e desajeitado. Um jogo de verdades e mentiras como disse Nietzsche58: como aceitar uma verdade cuja enunciação (Palhaço Branco) não se fez acompanhar de nenhuma risada (Palhaço Augusto)?

No filme Clowns, Fellini61 exalta o Palhaço como uma criatura fantástica, sem pudor, o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós. No documentário, enquanto entrevista e filma os melhores palhaços da Europa, apresenta também um jogo cênico entre o Branco, sempre com o traje mais luxuoso na luta dos figurinos e o Augusto, um tipo único que não muda nem pode mudar de roupa, como o mendigo, o menino de rua ou o esfarrapado. Sua beleza está na total falta de seriedade, incluindo o próprio Diretor, no papel de um pretensioso diretor que com sua equipe, tenta fazer um documentário sobre a relação dos palhaços Branco e Augusto com personagens da vida cotidiana. Questionado se era palhaço, Fellini61 responde: ...creio que sou um Augusto. Mas também um clown Branco ou, talvez, o diretor do circo. O médico de loucos que, por sua vez, enlouqueceu.

Larrosa62 afirma que o Palhaço é um absurdo, um personagem irreal, claramente fora do lugar. Mas às vezes, por um momento, é a própria estabilidade da situação dialógica, a solidez e seriedade do real cenário que ele denuncia, como o coringa que pode assumir diversas personificações. Um exemplo é o próprio Patch Adams, que em entrevista concedida ao programa Roda Viva63 revelou que seu Palhaço é um adulto com Síndrome de Down. Adams relata que ao envelhecer o portador desta síndrome potencializa o amor incondicional e seu estado brincante. Quem dera se a humanidade vivesse uma fração da inteligência emocional de um Down.

Patch Adams2 riu e questionou os métodos utilizados pela comunidade médica, assim como o Zaratrusta de Nietzsche ante a sociedade. Adams o fez adotando a Arte da Palhaçaria na promoção da alegria com saúde. Usou a arte para questionar a estrutura normativa das escolas de medicina norte-americanas, num momento impulsionado pela contracultura, movimento de mobilização e contestação política e social dos anos 60. Sua indagação gerou um sonho chamado Instituto Gesundheit onde a práxis é baseada na lógica da Humorização (grifo nosso): sua equipe promove saúde na direção da integralidade humana, usando ferramentas como a gentileza, a brincadeira, o encontro, o diálogo, o riso rumo à alegria.

Como Nietzsche58 disse que não há fatos eternos e nem verdades absolutas, o Palhaço pode sair das ruas, circos e cortes para ocupar alguns campos da estrutura social como as ciências, a saúde e as artes. Atualmente no Brasil temos diver­sas redes que promovem fóruns virtuais sobre o tema, como o site Pindorama Circus64 e encontros internacionais de palhaços como os Anjos do Picadeiro65, sendo possível constatar como a arte ocupa diversos espaços e gêneros. No entanto, no campo da saúde os palhaços têm sua predominância nos hospitais, como a trupe baiana Terapêutas do Riso66 no complexo das Obras Sociais Irmã Dulce, atingindo mais de mil leitos, levando arte e humanização com alegria, ou a Enfermaria do Riso67, na qual palhaços atuam em hospitais universitários e de ensino a partir do trabalho de uma escola de teatro.

Estamos falando de uma arte que vai para a rua, para o hospital, para o circo, cooperando pró-ativamente nas mudanças de realidades, como uma pedagogia profana. Não ao contrário de sagrado, mas uma pedagogia do humor que questiona o caráter moral e moralista do discurso pedagógico. Segundo Larrosa62, a austeridade dos museus impede o riso contrapondo-se ao que pretende enquanto uma "Cultura" com "C" maiúsculo. O palhaço polemiza e, entra em contato com o sério, a partir do riso. O riso desmascara uma linguagem canonizada e aceita, que não duvida de si mesma, retira-a de seu lugar, de seus esconderijos, a expõe enquanto ideia cristalizada e não universal, uma casca vazia62. Nossa percepção e a boa receptividade das pessoas a essa arte, nos faz constatar de que se trata de uma "linguagem patética", com forte poten­cial pedagógico para a construção de tecnologias sociais, que promove encanto, encontro, alegria e, portanto, saúde.

Últimas gargalhadas

Em nossa investigação, tanto prática como teórica, concluímos que a Arte da Palhaçaria é uma ferramenta para a Dialogia do Riso. Na nobre arte temos o diálogo, o riso, a alegria, e como foi dito, este é apenas um exemplo dos muitos que o conceito de Dialogia do Riso pode agregar. O saber sobre saúde e alegria evocado e apresentado pelo Palhaço, mobiliza a emoção positiva e sua potencia de transformação, sempre presente na sua figura milenar. Entendendo que saúde é um conceito que se aproxima da alegria, dependendo do contexto em que é reconhecido, este texto tem a intenção de provocar a defesa da construção de mais ações que dialoguem com a população e com os próprios trabalhadores no sentido de gerar as "paixões alegres" de Espinosa. Defendemos aqui que o conceito de saúde hegemônico, centrado na técnica, não só contribuiu para a medicalização da vida como distanciou os profissionais de saúde do conhecimento popular e da alegria.

A partir destas percepções, propomos a construção de um novo paradigma embasado na ideia de que saúde não pode ser vista como algo cristalizado, que é nocivo à saúde por gerar a angústia por nunca ser atingido. Vivemos todos no planeta Terra e seu futuro está totalmente interligado à preservação e à sustentabilidade da vida. Compartilhamos a tese de Guattari68: não se trata mais de fazer funcionar uma ideologia unívoca, mas sim promover o debate e o encontro para decisões contextualizadas e mutáveis, pois como dizia Chico Science69, dando um passo à frente já não estamos mais no mesmo lugar.

Propomos, portanto, a Dialogia do Riso enquanto ferramenta para a formação de vínculos, ao invés da lógica de restrições e obrigações. Como foi descrito no presente artigo, mudanças na prática de vários profissionais estão ocorrendo no Brasil e no mundo. Desejamos Saúde, Alegria e Prosperidade para o SUS, com profissionais disponíveis ao encontro, para efetivamente juntos construirmos uma saúde pública e coletiva, promotora da VIDA com ALEGRIA.

 

Colaboradores

Todos os autores trabalharam na concepção e na redação final do artigo. MVC Matraca foi o autor e TC Araújo-Jorge foi a orientadora da Tese de Doutorado que originou este artigo: Alegria para Saúde: A Arte da Palhaçaria como Proposta de Tecnologia Social Para o Sistema Único de Saúde (15/5/2009).

 

Agradecimentos

Os autores agradecem aos Palhaços do mundo, e a Francisco Romão Ferreira, Eduardo Stotz, Dário Pasche e Rosa Mitre, que atuaram como avaliadores na banca de Doutorado de MVCM, por diversas sugestões incorporadas no texto. A pesquisa foi financiada pela Fiocruz/Instituto Oswaldo Cruz e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior- Capes/MEC

 

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Artigo apresentado em 13/10/2009
Aprovado em 08/01/2010
Versão final apresentada em 30/01/2010