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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.17 n.3 Rio de Janeiro Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000300001 

EDITORIAL EDITORIAL

 

Pesquisa qualitativa em saúde coletiva: aportes aos sistemas de saúde

 

 

A abordagem qualitativa apresenta-se como uma orientação cada vez mais difundida no âmbito da atividade científica na atualidade. Nos últimos anos, estudos orientados por esse enfoque vêm participando ativamente na produção de evidências para as reformas no setor saúde, em diferentes países e contextos sociais. Tal aporte é hoje reconhecido como de alta relevância para os sistemas de Saúde na região, a exemplo do Sistema Único de Saúde brasileiro, com inegável impacto na formulação, a implantação, o monitoramento e a avaliação de Políticas Públicas em saúde.

Não obstante seu crescente reconhecimento, sabemos também que, no campo da saúde (coletiva), ainda há forte hegemonia de investigações quantitativas ou daquelas fundadas na biomedicina, gerando certa exclusão de outras formas de produção de conhecimento e a consequente lacuna no que tange à informação para tomada de decisão em importantes setores, em especial aqueles vinculados à inovação e ao desenvolvimento de tecnologias de gestão em saúde para os quais se torna essencial o estudo da dimensão subjetiva envolvida nos processos sociosanitários. Acrescente-se a falta de oportunidades de formação e os raros eventos de natureza técnico-científica específicos nessa tradição de pesquisa.

Contudo, os complexos desafios que nos ameaçam na contemporaneidade, a despeito dos avanços tecnológicos quase ilimitados, clamam por uma nova racionalidade e uma nova ética; e isto inclui a produção de conhecimento. Mais do que nunca sabemos que o desenvolvimento de tecnologias sem uma reflexão sobre seus impactos e sem esforços paralelos nas esferas ética, política, cultural e simbólica, compromete a sobrevivência humana e relativiza o alcance de qualquer progresso meramente técnico. Neste sentido, o investimento na investigação do humano - domínio da pesquisa qualitativa - deve ser ponto prioritário na agenda de qualquer projeto social, seja na área da saúde ou em qualquer outro setor, aspecto que justifica oportunidades de debate acerca da formação e pesquisa inovadoras, nesse âmbito específico.

Com base no exposto e visando a fomentar alguns avanços nessa direção, contando com uma extensa rede de instituições nos planos nacional e internacional, aceitamos o desafio de sediar pela primeira vez no Brasil e na América do Sul, mas já em sua quarta edição, o Congresso Ibero-Americano de Pesquisa Qualitativa em Saúde (2010), evento internacionalmente reconhecido como o mais importante nesse tema na região Ibero-americana. Este número temático divulga um conjunto de trabalhos de pesquisadores partícipes na organização do referido evento, cujos objetos constituíram alguns dentre os vários temas e eixos do debate desenvolvido naquele espaço. Sua estrutura mescla artigos de cunho conceitual voltados a aportar reflexões sobre formação e aspectos éticos, bem como subsídios metodológicos que ainda se revelam como desafios, ao que se soma um conjunto de pesquisas empíricas acerca de temas prioritários em Saúde Coletiva - saúde mental; atenção neonatal; alimentação, dentre outros.

Em síntese, este número se origina do desejo de oferecermos mais uma contribuição à discussão visando à capacitação, aprofundamento e atualização nesse enfoque, evidenciando, em mais uma oportunidade, as potencialidades da pesquisa qualitativa no âmbito dos serviços, programas e sistemas de saúde.

Maria Lúcia Magalhães Bosi

Editora Convidada