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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.17 n.4 Rio de Janeiro Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000400030 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Eronildo Felisberto

Programa de Pós-Graduação em Avaliação em Saúde, Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP)

 

 

 

Brousselle A, Champagne F, Contandriopoulos A-P, Hartz Z, organizadores. Avaliação: conceitos e métodos. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2011.

A obra Avaliação: conceitos e métodos apresenta, de forma sistematizada e didática, o resultado de um trabalho que originou o modelo de avaliação de intervenções desenvolvido pelos pesquisadores do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Saúde da Universidade de Montreal (Groupe de Recherche Interdisciplinaire en Santé - Gris). Seus autores e organizadores são renomados e reconhecidos pesquisadores do campo da avaliação, com experiência consolidada na docência e na pesquisa, bem como em trabalhos de assessoria dirigidos a gestores e profissionais de variados campos do conhecimento, a exemplo das áreas da saúde, educação e administração.

Criado e aprimorado ao longo das últimas duas décadas, o modelo foi testado em pesquisas avaliativas realizadas no Canadá, mais precisamente no Quebèc, mas, também, em países da Europa, África e América do Sul, e vem ocupando espaço privilegiado no atual processo de crescimento e aprimoramento do campo da avaliação no Brasil. Interdisciplinar e integrador, articula diferentes concepções teóricas e metodológicas da avaliação, contemplando, com a necessária prudência, suas raízes históricas e filosóficas, permitindo, dessa forma, uma melhor apreensão das dimensões sociais, políticas, econômicas e institucionais que permeiam esse campo da produção de conhecimento e, tornando-se um 'ponto de referência' para o exercício e o aprimoramento das práticas avaliativas.

A abrangência e a amplitude do quadro conceitual adotado resultam em suficiente flexibilidade para a complementariedade de variados métodos, consoantes com a área de atuação de diferentes correntes de avaliadores, com o contexto das intervenções avaliáveis e com a natureza destas últimas, especialmente na área da saúde onde se observa sistemas e organizações de complexas e diversificadas conformações.

O livro apresenta três grandes seções. A primeira, "Os Fundamentos da Avaliação", sistematiza de forma concisa, porém com densidade suficiente e articulação precisa, a contribuição de cada período que marca o desenvolvimento histórico da avaliação (capítulo 1). Destaca-se, a clareza e a simplicidade com as quais se pontuam momentos e fatos decisivos para o campo da avaliação nas décadas de 70 e 80 do século XX, citando autores e suas contribuições para a profissionalização da avaliação, a disseminação da produção do campo por intermédio da criação e consequente atuação de várias associações profissionais e o início de um processo crescente de institucionalização. Passos estes permeados por uma forte influência do contexto social, político e econômico. Da mesma forma, é importante ressaltar o destaque dado pelos autores à decisiva contribuição que nos traz a década seguinte, especialmente com a publicação da obra Fourth Generation Evaluation de Egon G. Guba e Yvonna S. Lincoln, de 1989, marco indiscutível para o entendimento da avaliação enquanto instrumento de negociação e de fortalecimento de poder, que proporcionou forte expansão da produção no campo da avaliação, tanto no que diz respeito ao paradigma construtivista quanto ao positivista.

Também nessa primeira seção, os autores expõem as bases conceituais e teóricas sobre as quais se apóia o conjunto da obra (capítulo 2). Não obstante a rápida passagem ao discutir diferentes conceitos de avaliação, é apresentada uma definição que reúne elementos consensuais na literatura especializada, favorecendo ao leitor conhecer a resultante de um permanente processo de articulação dos autores entre teoria e experimentação. Este capítulo proporciona, por outro lado, um debate mais atualizado sobre as concepções que estabelecem diferenças nas relações entre o campo da avaliação e o da pesquisa, quando está em jogo a 'tomada de decisão'. Ao tomar como referência a concepção de 'Sistema Organizado de Ação' os autores facilitam a identificação, a compreensão dos diversos componentes e as inter-relações que se estabelecem entre estes e que compõem e caracterizam as intervenções. Favorecem, ainda, a elaboração de questões avaliativas, na medida em que sistematizam uma tipologia das intervenções e delineiam propriedades inerentes à natureza e às finalidades da avaliação.

Ainda, esta seção traz, no capítulo 3, uma abordagem sobre os princípios e a utilidade da modelização das intervenções, etapa fundamental em qualquer projeto de avaliação. Apresenta, de forma resumida, elementos da falta de consenso, existente na literatura sobre a avaliação, no que diz respeito à terminologia da modelização e, sugere uma tipologia de modelos, apontando elementos com vistas a apoiar a construção dos mesmos, ressaltando a atenção que o avaliador deve ter sobre a possibilidade da aplicação de várias teorias sobre um mesmo fenômeno e da necessidade de se trabalhar em estreita interação com os envolvidos, cujas práticas têm influência decisiva nas intervenções, se estabelecendo um permanente diálogo entre o empírico e o teórico, para que se obtenha uma representação justa da intervenção. Isto, em face do reconhecimento da complexidade das intervenções, especialmente na área da saúde, o que leva à necessidade do adequado delineamento e distinção do(s) problema(s) e de seus objetivos.

A segunda grande seção, "Os Tipos de Avaliação", trata em sete capítulos dos aspectos teóricos e metodológicos da avaliação. Vários tipos de avaliações são possíveis para qualquer intervenção, e diferentes questões podem ser elencadas. Nesta direção, os autores exemplificam com a descrição de avaliações reais, cada modalidade de avaliação tipificada (apreciação normativa, análise estratégica, análise lógica, análise da produção, análise dos efeitos, avaliação econômica e análise de implantação), facilitando a apreensão dos conceitos e métodos de cada uma, apresentando, porém, suas fundamentações teóricas em densidade variável nos diversos capítulos.

A última seção, "Maximizar o Impacto", apresenta dois capítulos essenciais para a reflexão do leitor sobre a pertinência e a aplicabilidade de todo o conteúdo exposto nos capítulos anteriores. O capítulo 11 discute a Utilização da Avaliação, partindo do debate sobre dois estudos que se destacam na abordagem desta temática e que localizam no tempo diferentes constatações a respeito: o primeiro, publicado em 1966 por Carol Weiss - Utilization of evaluation: toward comparative study - abre o caminho, segundo os próprios autores, para um amplo espectro de pesquisas que têm como objeto a natureza, as causas, os determinantes e as consequências da utilização das avaliações; e o segundo, publicado mais de três décadas depois - Utilization-Focused Evaluation de Michel Q. Patton, de 1997, que põe em evidência a concepção restritiva do conceito de utilização até então compreendido e contribui para a concepção e a realização de estudos e trabalhos que trazem à tona um novo conceito, o de "Influência da Avaliação", ligado à compreensão dos programas por parte dos tomadores de decisão. Fortemente fundamentados na extensa produção científica apresentada na literatura específica nas últimas quatro décadas e considerando os diferentes paradigmas que dão suporte aos diversos modelos de avaliação, os autores propõem uma nova tipologia dos grandes modelos de avaliação em função do seu potencial de utilização e explicitam com riqueza pedagógica, as 'quatro funções do processo de avaliação', trazendo aos avaliadores elementos mais sistematizados sobre cada uma e sobre as relações dinâmicas que se estabelecem entre elas, apontando, por um lado, para a necessidade de um maior aprofundamento teórico e para a densidade dos processos avaliativos, mas, por outro, facilitando a compreensão das intervenções avaliadas, na medida em que propicia uma abordagem mais precisa de sua natureza.

O último capítulo do livro (capítulo 12) reflete sobre a institucionalização da avaliação e propõe marcos que possibilitem 'avaliar a avaliação', a partir do entendimento de que a avaliação consiste, também, em uma intervenção e, dessa forma, é passível de ser avaliada. Neste sentido, os autores abordam três características que entendem essenciais para refletir as relações existentes entre a avaliação, as pessoas nela envolvidas e os problemas a serem resolvidos: a Pertinência, o Mérito e a Credibilidade das avaliações. Esse entendimento parte da concepção de que uma das funções primordiais da avaliação é o favorecimento dos processos de aprendizagem individuais e coletivos e, por conseguinte, fomentador de uma cultura democrática nas relações entre avaliadores e decisores.

Finalmente, faz-se necessário registrar que a tradução para o português de L'Évaluation: concepts et méthodes, premiada como a melhor obra didática da Universidade de Montreal no ano de seu lançamento (Prix du Recteur de l'Université de Montréal pour un Ouvrage Didactique 2009), constitui-se em uma contribuição essencial para o campo da avaliação em saúde, e propicia mais uma alternativa de acesso a esses referenciais teóricos de forma detalhada e atualizada. Para os profissionais que atuam nos diversos campos do conhecimento, em especial no da saúde pública e da avaliação na área da saúde, este livro apresenta referências úteis e oportunas ao desenvolvimento de processos avaliativos consistentes e valiosa colaboração para a prática e a institucionalização da avaliação nos serviços.