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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.17 n.8 Rio de Janeiro Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000800031 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Roger Flores Ceccon; Stela Nazareth Meneghel; Lilian Zielke Hesler

Escola de Enfermagem, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Dejours C, Bègue F. Suicídio e trabalho: o que fazer? Sobradinho (DF): Paralelo 15; 2010.

 

 

Os suicídios e as tentativas de suicídio no local de trabalho começaram a ser visibilizados nos países ocidentais nos anos 1990, e atualmente ocorrem nos meios socioprofissionais mais diversos: homens e mulheres que trabalham em hospitais, instituições de ensino, construção civil, indústrias eletroeletrônicas, serviços bancários, comércio, empresas multinacionais, entre outros. Trata-se, pois, de um importante problema social e de magnitude elevada e ascendente. O livro Suicídio e Trabalho, obra inédita de Christophe Dejours e Florence Bègue, problematiza, de maneira inquietante e sensível, dramas sociais que decorrem no entorno dos processos de trabalho e que acarretam graves consequências físicas, mentais e sociais, entre elas o suicídio. O livro discorre sobre como as formas organizacionais do trabalho podem suscitar o gesto suicida e como esse ato, considerado tema tabu e silenciado entre os demais, pode servir como expressão de sofrimento no cenário do trabalho.

O primeiro autor, Christophe Dejours, é psiquiatra e psicanalista francês, professor titular do Centre National des Arts et Métiers, em Paris, e estudioso de grande reconhecimento da Psicodinâmica do Trabalho, uma das derivações da Psicopatologia do Trabalho, que teve sua origem na metade do século XX. Florence Bègue, a segunda autora, é psicóloga do trabalho e consultora de empresas.

O livro compreende três partes: a primeira estritamente teórica-conceitual; a segunda oriunda de uma experiência prática; e a terceira metodológica. Essa organização possibilita o entendimento e a ideia do fenômeno em sua integralidade.

O conteúdo abordado no texto parte de inúmeras questões, simples, cotidianas e que auxiliam o leitor a situar-se no direcionamento da leitura: Por que o trabalho leva alguns de nós ao suicídio? O que significam esses atos, que mensagem é endereçada aos que ficam? O que está acontecendo no mundo do trabalho para que suicídios sejam perpetrados nesses locais? Essas são algumas questões que, entre outras, os autores propõem-se a problematizar no limiar da obra.

Na primeira parte, O suicídio no trabalho, sua freqüência, suas consequências, os autores invocam aspectos importantes no que tange as incógnitas sobre a frequência do suicídio relacionado ao trabalho, mostrando o quanto este problema é invisibilizado. Trazem à tona questões relativas ao pequeno número de investigações realizadas no contexto laboral e que possam elucidar e denunciar as múltiplas formas de degradação nesse ambiente. Abordam a relação entre suicídio e trabalho, apontando três concepções que normalmente são utilizadas para explicar tal fato: (a) estresse; (b) análise estrutural, que culpabiliza a vulnerabilidade do indivíduo ao suicídio; e (c) sociogenética, que estipula que o trabalho e seus decorrentes constrangimentos são decisivos para o desenlace fatal.

Neste capítulo, apontam ainda para a desestruturação dos coletivos no trabalho, a solidão do trabalhador contemporâneo, os privilégios aferidos pela gestão, a psicodinâmica do reconhecimento no trabalho, a noção de qualidade total do trabalho e o quanto isso impacta no modo de viver dos trabalhadores. Enfim, apontam que a ação a ser empreendida após o suicídio no local de trabalho passa pela etapa de reestruturar os outros trabalhadores a (re)pensarem o trabalho, a partir da sua própria experiência.

A segunda parte, intitulada "Uma intervenção em uma indústria após vários suicídios", é um relato narrado em primeira pessoa de uma experiência bem sucedida na indústria Mermort, na França, após a ocorrência de suicídios em série entre trabalhadores. O capítulo ressalta todas as fases de desenvolvimento da empresa, desde os meados de 1884, e a degradação e reorganização do processo de trabalho, alavancado por novos gestores, novas dinâmicas e crises instaladas, impulsionado pela necessidade de produção em série, nessa nova etapa do capitalismo. Após o desgaste no corpo de trabalho, oriundo desta reestruturação produtiva, foi realizada uma intervenção, com duração de 18 meses, objetivando romper o silêncio e o tabu que circundava o tema suicídio.

Na terceira parte, denominada Comentário metodológico, os autores esboçam um relatório sucinto da intervenção prática, não como uma seção de "material e métodos", mas de forma flexível e didática. Objetivam, a partir disso, abrir caminhos, ainda insipientes, para a transformação da organização do trabalho e a redução dos casos de suicídios nesse ambiente. Apontam ainda, para a consolidação das intervenções, nove princípios: (i) a solidez das referências teóricas; (ii) a independência do clínico na ação; (iii) o primado do trabalho da demanda; (iv) a formação de uma equipe de intervenção; (v) a equipe externa de apoio; (vi) o coletivismo de pilotagem interno; (vii) as entrevistas individuais; (viii) as entrevistas coletivas; e (ix) a enquete como ação.

Esta obra se debruça sobre aportes teóricos e práticos, tanto do ponto de vista conceitual do tema suicídio e trabalho quanto do ponto de vista metodológico de uma experiência original e bem sucedida. Acreditamos que a leitura deste livro possa motivar o leitor a aproximar-se dos estudos sobre suicídio e trabalho no Brasil, instrumentalizando a tomada de decisões e implementação de ações no sentido de prevenir o autoaniquilamento.

O livro, enfim, apesar de pautar-se em uma experiência que ocorreu na França, em 1998, aponta aspectos importantes e reflete o quão é urgente a abordagem do suicídio e sua relação com o trabalho, na tentativa de superar esse grave problema da esfera social, que também está ocorrendo no Brasil. Além disso, a obra subsidia pensar o campo da saúde como um todo, em uma estreita relação das condições de trabalho e saúde, propondo estratégias que podem ser adotadas como políticas de saúde na prevenção do suicídio. É, sem duvida, uma importante contribuição para os estudos no campo do suicídio e trabalho.