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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.17 n.9 Rio de Janeiro Sep. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000900035 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Minayo MSC, Assis SG, Njaine K. Amor e Violência: um paradoxo das relações de namoro e do 'ficar' entre jovens brasileiros. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2011.

 

 

Luciana Mangas de Araújo

Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde (Claves), Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

 

 

 

A consciência sobre a violência social nos últimos anos trouxe à luz um dos mais importantes desafios para a saúde pública do século XXI. Vários tipos e formas deste fenômeno têm sido objetos de estudo. Mas, apesar de ter grande relevância social, a violência nos relacionamentos íntimos dos jovens é um tema ainda recente na literatura científica.

O livro Amor e Violência: um paradoxo das relações de namoro e do 'ficar' entre jovens brasileiros se destaca por sua grande abrangência nacional. Organizado por Maria Cecília de Souza Minayo, Simone Gonçalves de Assis e Kathie Njaine, é fruto de uma colaboração de vários pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) e apresenta os resultados de uma pesquisa realizada com adolescentes de 15 a 19 anos, de escolas públicas e particulares em dez capitais brasileiras. O principal objetivo deste estudo foi gerar conhecimento estratégico sobre o tema da violência no namoro e no 'ficar' dos adolescentes brasileiros, visando à democratização das relações de gênero.

Segundo os autores, o tema é considerado hoje de grande importância nos estudos internacionais com dois intuitos principais: para melhorar as experiências afetivo-sexuais entre os jovens e para prevenir a violência conjugal. O livro apresenta um panorama da realidade dos adolescentes brasileiros quando se trata de suas relações afetivo-sexuais e todos os aspectos relacionados ao tema e traz um interessante mosaico de diversos pontos de vista de jovens com experiências e contextos sociais diferentes.

Dividido em sete capítulos, Amor e Violência introduz o tema com um breve perfil da condição juvenil no mundo ocidental e no Brasil, mostrando as grandes mudanças socioculturais, econômicas e demográficas que afetam os jovens atualmente. Temas como virgindade, aborto, violência e sexo são apresentados na visão dos adolescentes, uma vez que, segundo os autores, existe uma reflexão mais amadurecida sobre a sexualidade por parte dos próprios jovens, na medida em que gozam de maior liberdade de comportamento e se sentem também mais responsáveis por seus atos.

A prática do 'ficar' - tão comum hoje entre os jovens brasileiros - é discutida abertamente entre eles e representa uma nova configuração de relacionamentos, onde o amor não é pré-requisito. De acordo com os autores o 'ficar' "constitui o resultado de um jogo social e cultural que implica uma aprendizagem amorosa, podendo ser vista como um tipo de teste para o namoro com o (a) parceiro (a) com quem se fica, ou não". Foi observado também que as meninas expõem mais seus sentimentos, enquanto os meninos - que levam a fama de terem uma posição mais dura com relação aos relacionamentos amorosos - sentem maior dificuldade em se abrir por pressão de hábitos culturais que prevalecem ainda hoje.

O estudo foi realizado por triangulação e método quantitativo e qualitativo. Na abordagem qualitativa os estudantes foram ouvidos em entrevistas e grupos focais femininos, masculinos e mistos e com alunos de escolas públicas e particulares. As falas dos adolescentes é bem marcada durante todo o livro, o que traz uma visão mais próxima da realidade que eles vivem. Foi observado pelos pesquisadores que não há grandes diferenças entre meninos e meninas provenientes de escolas públicas ou particulares quando se trata de violência no namoro ou no 'ficar'. Ambos são vítimas e perpetradores na maioria das vezes.

Os capítulos quatro, cinco e seis discutem bastante como a violência em relacionamentos afetivo-sexuais afeta a vida dos adolescentes. Os autores apresentam os tipos de violência e os classificam em: psicológica, que se subdivide em violência verbal, ameaças e relacional; violência física, culturalmente dirigida pelos homens contras as mulheres, embora haja exceções; violência sexual; e violência autoinfligida, que normalmente acontece após o término de um relacionamento ou por causa um amor não-correspondido. O ciúme também é destacado como um fator importante que leva os jovens a serem vítimas ou perpetradores de algum tipo de violência.

O contexto em que surge algum tipo de violência entre jovens que estão em relacionamento íntimo também é discutido. Existem vários fatores que contribuem para que um adolescente tenha um comportamento violento para com seus parceiros. Terem testemunhado algum tipo de violência na família, na escola ou na comunidade em que vivem são alguns dos destaques apresentados no livro.

Por fim, no capítulo 8 são discutidas alternativas para a prevenção da violência nas relações afetivo-sexuais entre jovens. Os autores destacam que não existem experiências consolidadas de prevenção à violência no namoro ou no 'ficar' entre adolescentes e o tema não é destaque nos estudos sobre a adolescência de modo geral. Uma possível razão para esta falta de investigações e de atuação sobre o assunto é que a adolescência ainda é considerada uma etapa transitória e efêmera da vida. Os adolescentes entrevistados falam que as referências de suas vidas são os pais, professores, profissionais de comunicação, de saúde e religiosos, eleitos como pessoas mais experientes que os ajudam "a compreender e a superar os conflitos inter-relacionais e a estimular relacionamentos afetivos que lhes tragam alegria e confiança".

Os resultados da pesquisa mostram que os adolescentes, independente de estrato social e de região do país, raramente procuram ajuda para resolver situações de violência no namoro ou no 'ficar'. Os autores consideram que "a inclusão dos adolescentes no planejamento e na execução de intervenção juntamente com os profissionais de saúde é um passo a mais para o mudanças nesse cenário". Hoje existem conhecimentos - ainda que incompletos - suficientes para que sejam construídos planos de ação educativa, nas mais diversas esferas e com informações e estratégias assertivas. Os pesquisadores concluem o livro dizendo que não pretendem cruzar os braços, uma vez que a realidade vivida pelos jovens brasileiros precisa de uma atuação mais concreta e direta para a prevenção da violência e a promoção da vida.