Inter-relações entre o estado nutricional, fatores sociodemográficos, características de trabalho e da saúde em trabalhadores de enfermagem

Kali Siqueira Rosane Harter Griep Lúcia Rotenberg Aline Costa Enirtes Melo Maria de Jesus Fonseca Sobre os autores

Resumos

Explorou-se as relações conjuntas entre o estado nutricional, as variáveis relacionadas às condições sociodemográficas, o trabalho e os comportamentos de saúde em profissionais de enfermagem, a partir da técnica de análise de correspondência. Trata-se de um estudo seccional realizado com 917 trabalhadores de enfermagem de um hospital público do Rio de Janeiro. Os resultados apontaram a formação de quatro grupos, sendo três agrupados segundo as categorias do índice de massa corporal. O grupo que conteve os obesos incluiu condição de saúde ruim, fatores socioeconômicos atuais e pregressos desfavoráveis e ex-trabalhadores noturnos. Por outro lado, o grupo de baixo/adequado agregou as condições mais favoráveis, enquanto o grupo com sobrepeso foi composto por tabagismo, consumo de álcool e trabalho noturno atual (até cinco noites/quinzena). Dentre as relações conjuntas de categorias associadas aos níveis de estado nutricional, destacaram-se aquelas relacionadas às condições socioeconômicas atuais e pregressas avaliadas, destacando a importância dos determinantes sociais ao longo da vida.

Índice de massa corporal; Obesidade; Trabalho noturno; Enfermagem; Análise por conglomerados


Introdução

A obesidade é uma doença crônica, de origem multifatorial, caracterizada pelo excesso de gordura corporal e está associada ao desenvolvimento de doenças crônico-degenerativas11. Klaus S. Adipose tissue as a regulator of energy balance. Curr Drug Targets 2004; 5(3):241-250.44. Park SK, Park JH, Kwon YC, Kim HS, Yoon MS, Park HT. The effect of combined aerobic and resistance exercise training on abdominal fat in bese middle-aged women. J Physiol Anthropol Appl Human Sci 2003; 22(3):129-135., cujos riscos aumentam significativamente quando o índice de massa corporal (IMC) excede 25kg/m2 55. Lyznicki JM, Young DC, Riggs JA, Davis RM. Obesity: assessment and management in primary care. Am Fam Physician 2001; 63(11):2185-2196..

No Brasil, os resultados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) 2008-2009 revelaram um crescimento acelerado do excesso de peso. Em 34 anos (1974/1975 a 2008/2009), a prevalência de excesso de peso entre os homens passou de 18,5% para 50,1%. Entre as mulheres, os respectivos valores são de 28,7% e 48,0%. No mesmo período, a prevalência de obesidade aumentou mais de quatro vezes para homens e mais de duas vezes para mulheres66. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa de orçamento familiar (POF) 2008-2009: Despesas, Rendimentos e Condições de Vida. Rio de Janeiro: IBGE; 2010..

As diferenças no estilo de vida atual, comparadas a décadas anteriores, têm sido consideradas uma das principais razões para o aumento da prevalência do excesso de peso. Tais mudanças compõem o chamado “ambiente obesogênico”77. Ulijaszek SJ. Frameworks of population obesity and the use of cultural consensus modeling in the study of environments contributing to obesity. Econ Hum Biol 2007; 5(3):443-457., termo cunhado por Swinburn et al.88. Swinburn B, Egger G, Raza F. Dissecting obesogenic environments: the development and application of a framework for identifying and prioritizing environmental interventions for obesity. Prev Med 1999; 29(6 Pt 1):563-570. em referência a aspectos físicos, econômicos, sociais e culturais do ambiente que podem incentivar o equilíbrio de energia positiva, promovendo a obesidade.

Alguns autores apontam a associação inversa entre a posição socioeconômica (PSE), tanto atual como pregressa, e o ganho de peso99. Sobal J, Stunkard AJ. Socioeconomic status and obesity: a review of the literature. Psychol Bull 1989; 105(2):260-275.1212. Fonseca MJM, França RF, Faerstein E, Werneck GL, Chor D. Escolaridade e padrões de ganho de peso na vida adulta no Brasil: Estudo Pró-Saúde. Rev Panam Salud Publica 2012; 32(5):376-380.. Esta associação sugere que o ritmo diferencial de ganho de peso segundo a PSE pode, eventualmente, começar cedo na vida, influenciado pela PSE dos pais1010. Ball K, Crawford D. Socieconomic status and weight change in adults: a review. Soc Sci Med 2005; 60(9):1987-2010.,1313. Ball K, Mishra GD. Whose socioeconomic status influences a woman's obesity risk: her mother's, her father's, or her own? Int J Epidemiol 2006; 35(1):131-138..

Além desses fatores, aspectos relacionados ao ambiente de trabalho também têm sido associados ao aumento do risco para o excesso de peso. Dentre estes, destacam-se trabalho em turnos, sobretudo o noturno1414. Pan A, Schernhammer ES, Sun Q, Hu FB. Rotating night shift work and risk of type 2 diabetes: two prospective cohort studies in women. Plos Medicine 2011; 8(12):1-8.1717. Di Lorenzo L, De Pergola G, Zocchetti C, L’Abbate N, Basso A, Pannacciulli N, Cignarelli M, Giorgino R, Soleo L. Effect of shift work on body mass index: results of a study performed in 319 glucose-tolerant men working in a Southern Italian industry. Int J Obes Relat Metab Disord 2003; 27(11):1353-1358., a carga excessiva de trabalho1818. Han K, Trinkoff AM, Storr CL, Geiger-Brown J. Job stress and work schedules in relation to nurse obesity. J Nurs Adm 2011; 41(11):488-495. e o estresse psicossocial no trabalho1919. Kouvonen A, Kivimäki M, Cox SJ, Cox T, Vahtera J. Relationship between work stress and body mass index among 45,810 female and male employees. Psychosom Med 2005; 67(4):577-583..

Essas características são típicas do trabalho da enfermagem no Brasil, cujas jornadas de trabalho prolongadas (12 horas) se somam aos plantões noturnos2020. Teixeira RC, Mantovani MF. Enfermeiros com doença crônica: as relações com o adoecimento, a prevenção e o processo de trabalho. Rev Esc Enferm USP 2009; 43(2):415-421.. Além disso, no contexto brasileiro, os múltiplos vínculos de trabalho são frequentes entre os profissionais de enfermagem2121. Portela LF, Rotenberg L, Waissmann W. Health, sleep and lack of time: relations to domestic and paid work in nurses. Rev Saude Publica 2005; 39(5):802-808.. A interação desses fatores pode afetar negativamente esses trabalhadores, tanto fisiologicamente como psicologicamente2222. Admi H, Tzischinsky O, Epstein R, Herer P, Lavie P. Shift work in nursing: is it really a risk factor for nurses’ health and patients’ safety? Nurs Econ 2008; 26(4):250-257.,2323. Schluter PJ, Turner C, Benefer C. Long working hours and alcohol risk among Australian and New Zealand nurses and midwives: a cross-sectional study. Int J Nurs Stud 2012; 49(6):701-709., com possíveis repercussões no ganho de peso.

Embora diversos estudos analisem os determinantes da obesidade e sobrepeso, na busca bibliográfica realizada, não identificamos artigos usando a técnica de análise de correspondência, com o objetivo de visualizar a distribuição do IMC e sua relação com as diversas variáveis que influenciam o ganho de peso. Esta abordagem ganha relevância no estudo de desfechos de caráter multifatorial, como descrito por Carvalho e Struchiner2424. Carvalho MS, Struchiner CJ. Análise de correspondência: uma aplicação do método à avaliação de serviços de vacinação. Cad Saude Publica 1992; 8(3):287-301., pela possibilidade de estudar simultaneamente as relações existentes entre um grande conjunto de variáveis.

O objetivo desse estudo é explorar as inter-relações entre o estado nutricional, variáveis relacionadas às condições sociodemográficas, trabalho e comportamentos de saúde em profissionais de enfermagem de um hospital público do Rio de Janeiro, utilizando a técnica de análise de correspondência.

Métodos

População e fonte de informação

Trata-se de um estudo seccional realizado com 1.182 trabalhadores de enfermagem (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem) de um hospital público do Rio de Janeiro, que preencheram um questionário em 2006, quando participaram da pesquisa intitulada: “Gênero, trabalho e saúde em profissionais da enfermagem: morbidade e sua associação com o trabalho noturno, as longas jornadas e o trabalho doméstico”.

Definição das variáveis

As variáveis utilizadas neste estudo refletem aspectos do estado nutricional, condições sociodemográficas, variáveis relacionadas ao trabalho, e comportamentos de saúde.

Para a classificação do estado nutricional utilizou-se o peso e a estatura autorreferidos. O IMC foi categorizado em baixo/adequado (IMC1 ≤ 24,9), sobrepeso (IMC2 = 25,0 −29,9) e obesidade (IMC 3 ≥ 30,0)33. World Health Organization (WHO). Obesity and Overweight. Geneva: WHO; 2012..

As variáveis relacionadas às condições sociodemográficas foram: o sexo (feminino/masculino); a idade dicotomizada na mediana (16 a 44 anos, 45 a 70 anos); cor da pele autorreferida (branca, parda, preta); a escolaridade (fundamental completo, médio completo, superior completo); a renda familiar per capita em dólar (USD), considerando a taxa de conversão no período da coleta de dados (29/12/2006) - classificada segundo o piso salarial dos auxiliares de enfermagem no período da coleta (> US$ 421,00 até US$ 421,00); a situação conjugal (casado, solteiro, divorciados, separados e viúvos); filhos (sim, não); situação econômica pregressa baseada na percepção do entrevistado de sua situação familiar aos 12 anos de idade em relação a situação atual (rica-média, pobre, muito pobre); e escolaridade materna (não frequentou escola, até o fundamental, médio ou mais).

Em relação ao trabalho, foram analisadas as seguintes variáveis: categoria profissional (enfermeiro, auxiliar e técnico de enfermagem); o vínculo empregatício (permanente, não permanente); o trabalho noturno (nunca noturno, exnoturnos, noturno com até 5 noites de trabalho por quinzena, noturno com 6 noites ou mais de trabalho por quinzena); a carga de trabalho profissional (até 40 horas por semana, > 40 horas por semana); e horas de trabalho doméstico, categorizada na mediana (até 11 horas por semana, > 11horas por semana).

As variáveis relacionadas à saúde foram: a autopercepção de saúde (boa, ruim); o diagnóstico de hipertensão autorreferido (sim, não); insônia (sim, não); tabagismo (fumante, ex-fumante, nunca fumante); consumo álcool (sim, não); pratica de atividade física (sim, não); o consumo de alimentos fritos (pelo menos 1 vez por semana, menos de 3 vezes por mês); consumo de frutas (pelo menos 1 vez por semana, menos de 3 vezes por mês); e consumo de hortaliças (pelo menos 1 vez por semana, menos de 3 vezes por mês).

Análise estatística

Na análise descritiva da idade, utilizou-se a média, o desvio padrão e percentuais para as variáveis categóricas. Foi aplicado o teste Qui-Quadrado, considerando o nível de significância de 20%, para testar a associações entre as variáveis categóricas.

Para explorar as relações conjuntas entre o estado nutricional e condições sociodemográficas, variáveis relacionadas ao trabalho e comportamentos de saúde, utilizou-se a análise de correspondência e análise de cluster.

A análise de correspondência é uma técnica estatística multivariada de caráter exploratório e descritivo, utilizada para a análise de dados categóricos2525. Greenacre MJ. Practical correspondence analysis. In: Looking at Multivariate Data. New York: J. Wiley&Sons; 1981. Cap. III. Este método permite a visualização das relações mais importantes de um grande conjunto de variáveis entre si.

O tratamento dos dados seguiu as etapas descritas a seguir. Inicialmente, a representação gráfica obtida na análise de correspondência possibilitou visualizar a distribuição das categorias na sua relação com todas as outras. Cada categoria foi representada por um ponto, e as distâncias entre os pontos representaram as relações entre as categorias.

Considerou-se que cada autovalor corresponde a um dos eixos que define o espaço multidimensional, respondendo por uma percentagem da variância total. Esse percentual permitiu avaliar a capacidade de cada eixo de representar a nuvem de pontos. Quanto maior o percentual, melhor a representação da distribuição dos pontos no espaço e, consequentemente, das relações existentes entre as categorias2424. Carvalho MS, Struchiner CJ. Análise de correspondência: uma aplicação do método à avaliação de serviços de vacinação. Cad Saude Publica 1992; 8(3):287-301..

A importância de cada categoria de variável na construção dos eixos foi avaliada por meio da contribuição absoluta. A análise da contribuição absoluta das categorias, juntamente com a observação da posição dos pontos no gráfico em relação aos eixos, auxiliou a interpretação dos fatores e contribuiu para caracterizar os eixos conceitualmente.

A análise de cluster complementou a análise de correspondência na identificação e divisão dos grupos.

Para as análises foi utilizado o programa R versão 2.15.0 (www.r-project.org).

Aspectos éticos

Este estudo foi submetido e aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Fiocruz e do Hospital participante do estudo.

Resultados

Dos 1.182 trabalhadores da enfermagem investigados, foram excluídos os dados de 265 (22,4%), por apresentarem informações incompletas em alguma variável do questionário. O grupo analisado (N = 917) não diferiu da amostra excluída do estudo quanto à idade, sexo, escolaridade, IMC e categoria profissional (teste qui-quadrado, p > 0,05).

Do grupo estudado, 85,9% eram do sexo feminino. A idade média foi de 40,9 (DP = 13,3) anos. Observou-se a predominância de brancos; nível de escolaridade superior; renda familiar per capita até US$ 421,00; casados; e sem filhos. A distribuição do IMC na população estudada foi de 30,1% de sobrepeso e 16% de obeso.

A Tabela 1 descreve os dados obtidos segundo o IMC. As maiores prevalências de sobrepeso e obesidade foram observadas entre os homens (35,7% e 18,6, respectivamente), na faixa etária de 45 a 70 anos (37,6% e 21,8%, respectivamente), com escolaridade até o ensino fundamental (40,5% e 27,8%, respectivamente), com filhos (35,4% e 20,4%, respectivamente), da raça negra (37,4% e 17,8%, respectivamente), com renda per capita até US$ 421,00 (31,4% e 17,2%, respectivamente), e com diagnóstico de hipertensão autorreferido (37,2% e 30,2%, respectivamente).

Tabela 1
Distribuição da população do estudo segundo o estado nutricional e Contribuição Absoluta nos dois eixos de maior autovalor.

A contribuição absoluta de cada categoria das variáveis pode ser interpretada como a parte da variação do eixo explicada pela respectiva categoria (Tabela 1). Assim, quanto maior a contribuição absoluta, maior a importância da categoria no eixo. Nesse caso, as categorias que mais contribuíram no primeiro eixo foram a faixa etária de 45 a 70 anos e ‘vínculo não permanente’; a variável que menos contribuiu foi o ‘consumo de álcool’. No segundo eixo as categorias que mais contribuíram foram ‘escolaridade até ensino médio’ e ‘enfermeiros’, e a que menos contribuiu foi a ‘autopercepção de saúde’.

A Tabela 2 apresenta os autovalores e percentuais de variância explicada por cada eixo, que define o espaço multidimensional. As duas primeiras dimensões explicaram 18,88% da variação global dos dados, a primeira contribuindo com 12,95%, e a segunda com 5,93%. Essas duas dimensões foram utilizadas para as análises subsequentes, já que do segundo eixo em diante, a percentagem de explicação diminuiu, tornandose homogênea e sem maior significado.

Tabela 2
Dimensôes, autovalores, percentual de variação e percentual acumulado.

A análise gráfica dos dois primeiros eixos (Figura 1) permitiu a visualização da distribuição das categorias de cada variável, configurando uma nuvem de pontos em um espaço multidimensional e mostrando a proximidade entre as categorias das variáveis. Grupamentos foram definidos de acordo com a distribuição das variáveis e relações entre as mesmas. Desta forma, verificou-se a formação de quatro grupos, heterogêneos entre si, selecionados a partir da inspeção visual do gráfico gerado pela análise de correspondência e confirmados pelo dendrograma (Figura 2). Esta figura indica a formação de quatro grupos quando utilizamos um ponto de corte na altura de 2,5, confirmando o mesmo grupamento identificado na representação gráfica obtida através da análise de correspondência.

figura 1
Representação gráfica dos dois primeiros eixos da análise de correspondência.
figura 2
Dendrograma das coordenadas dos dois primeiros eixos.

No grupo que contém a categoria obesidade (IMC3) predomina as seguintes características: autopercepção de saúde ruim; insônia; diagnóstico de hipertensão autorreferido; separados, divorciados e viúvos; aqueles que se autorreferiram como pretos; vínculo de trabalho permanente; mais velhos (idade entre 45 e 70 anos); ex-trabalhadores noturno; baixo consumo de fritura; mãe que não frequentou escola; situação econômica pregressa muito pobre, e menor grau de instrução.

O grupo que engloba a categoria ‘sobrepeso’ (IMC 2) apresentou relação com ‘fumantes’, ‘consumo de bebida alcoólica’, ‘profissionais que trabalham até cinco noites por quinzena’ e ‘homens’.

Já o grupo com a categoria ‘baixo/adequado’ (IMC 1) foi composto por enfermeiros, profissionais com ‘nível superior completo’, ‘maior renda familiar per capita’ (maior que US$ 421,00), ‘situação econômica pregressa rica/média’, ‘cor da pele autorreferida como branca’, escolaridade materna ensino médio ou mais, vínculo de trabalho não permanente, mais jovens ‘(idade entre 16 e 44 anos)’, ‘menor carga de trabalho doméstico (até 11 horas por semana)’, ‘maior carga de trabalho profissional (maior que 40 horas semanais)’, ‘maior exposição ao trabalho noturno’ (mais de 6 noites por quinzena), ‘solteiros’, ‘sem filhos’, ‘baixo consumo de frutas e hortaliças’.

Um quarto grupo se caracteriza, principalmente por técnicos e auxiliares, ‘renda familiar per capita de até US$ 421,00’, ‘situação econômica pregressa pobre’, ‘cor da pele autorreferida como parda’, ‘ensino médio completo’, ‘autopercepção de saúde boa’, ‘sem insônia’, ‘sem autorreferir diagnóstico de hipertensão’, ‘maior consumo de alimentos fritos’, ‘escolaridade materna’ ‘até o fundamental’, ‘maior consumo de frutas e hortaliças’, ‘não fumantes’, ‘não consomem bebida alcoólica’, ‘mulheres’, ‘prática de atividade física (sim e não)’, ‘nunca noturnos’, ‘trabalho doméstico maior que 11 horas por semana’, ‘menor carga de trabalho profissional (até 40 horas por semana)’, ‘ex-fumantes’, casados e aqueles com filhos.

Discussão

Dentre as relações conjuntas de categorias associadas aos níveis de estado nutricional, destacaram-se aquelas relacionadas às condições socioeconômicas atuais e pregressas avaliadas, confirmando a importância dos determinantes sociais ao longo da vida. Se por um lado, as condições socioeconômicas atuais e pregressas mais desfavoráveis se mantiveram no grupo da obesidade, por outro, o grupo de ‘baixo/adequado’ agregou as condições mais favoráveis. De fato, nas últimas décadas tem-se observado o acúmulo de evidências indicando que a incidência e a progressão das doenças e incapacidades envolvem a relação complexa de determinantes socioeconômicos, comportamentais, demográficos e psicossociais. Como observa Kaplan et al.2626. Kaplan GA, Baltrus PT, Raghunathan TE. The shape of health to come: prospective study of the determinants of 30-year health trajectories in the Alameda County Study. Int J Epidemiol 2007; 36(3):542-548., esses fatores estariam associados à ocorrência das doenças, como também às trajetórias de saúde ao longo de um período substancial de vida. Assim, os modelos epidemiológicos que exploram a trajetória de vida e saúde consideram os efeitos de exposições ao longo da vida, especialmente durante períodos vulneráveis do ponto de vista biológico e social, e que poderiam influenciar a saúde em idades mais avançadas2727. Lynch J, Smith GD. A life course approach to chronic disease epidemiology. Annu Rev Public Health 2005; 26:1-35.. No caso das doenças crônicas, como a obesidade, além de fatores genéticos, diversos aspectos de determinação social ao longo da vida poderiam favorecer ou não o ganho de peso, inclusive a influência da fase intrauterina2828. Rhee KE. Phelan S, McCaffery J. Early determinants of obesity: genetic, epigenetic, and in utero influences. Int J Pediatrics 2012; 2012: 463850.. Modelos que investigam exposições relacionadas ao curso de vida apontam que o impacto de uma exposição pode depender da idade ou do período de desenvolvimento em que a pessoa foi exposta2929. Osypuk TL. Integrating a life-course perspective and social theory to advance research on residential segregation and health. Am J Epidemiol 2013; 177(4):310-315.. Assim, as estratégias preventivas da obesidade deveriam se iniciar em fases precoces da vida.

No que se refere aos aspectos do trabalho, o grupo dos obesos foi composto pelos ex-trabalhadores noturnos, ou seja, pessoas que trabalham de dia, mas que já fizeram plantões noturnos no passado. Este resultado remete ao efeito do trabalho em turnos, em especial ao trabalho noturno, sobre o ganho de peso3030. Suwazono Y, Dochi M, Sakata K, Okubo Y, Oishi M, Tanaka K, Kobayashi E, Kido T, Nogawa K. A longitudinal study on the effect of shift work on weight gain in male Japanese workers. Obesity 2008; 6(8):1887-1893.. Estudos que avaliaram os ex-trabalhadores noturnos observaram maior ganho de peso neste grupo, quando comparado aos que nunca trabalharam à noite3131. Wang X-S, Travis RC, Reeves G, Green J, Allen NE, Key TJ, Roddam AW, Beral V. Characteristics of the Milion Women Study participants who have and have not worked at night. Scand J Work Environ Health 2012; 38(6):590-599.,3232. Griep RH, Fonseca MJM, Melo ECP, Portela LF, Rotenberg L. Enfermeiros dos grandes hospitais públicos no Rio de Janeiro: características sociodemográficas e relacionadas ao trabalho. Rev Bras Enferm 2013; 66:151-157.. Além disso, os trabalhadores que deixam o trabalho noturno apresentam maiores chances de persistirem com dificuldade de manter o sono3131. Wang X-S, Travis RC, Reeves G, Green J, Allen NE, Key TJ, Roddam AW, Beral V. Characteristics of the Milion Women Study participants who have and have not worked at night. Scand J Work Environ Health 2012; 38(6):590-599.,3333. Rotenberg L, Costa AS, Diniz TB, Griep RH. Long-term deleterious effects of night work on sleep. Sleep Science 2011; 4:13-20.. Os distúrbios de sono têm se mostrado associados a obesidade e a outros problemas de saúde1616. Antunes LC, Levandovski R, Dantas G, Caumo W, Hidalgo MP. Obesity and shift work: chronobiological aspects. Nutr Res Rev 2010; 23(1):155-168..

De fato, a categoria de indivíduos sem experiência no trabalho noturno se agrupou com as categorias que refletem melhor condição de saúde, como a ausência de diagnóstico de hipertensão autorreferido, a boa autopercepção de saúde e a ausência de insônia, enquanto os aspectos de saúde desfavoráveis analisados (autopercepção de saúde ruim, insônia e o diagnóstico de hipertensão autorreferido) se agruparam à obesidade.

O sobrepeso, por sua vez, agrupou-se com aqueles que realizam até cinco plantões noturnos/quinzena. Diversos fatores explicam o maior ganho de peso entre trabalhadores noturnos, dentre os quais se destacam o desajuste circadiano e alterações nos padrões de comportamentos de saúde1515. Morikawa Y, Nakagawa H, Miura K, Soyama Y, Ishizaki M, Kido T, Naruse Y, Suwazono Y, Nogawa K. Effect of shift work on body mass index and metabolic parameters. Scand J Work Environ Health 2007; 33(1):45-50.,3434. Parkes KR. Shift work and age as interactive predictors of body mass index among offshore workers. Scand J Work Environ Health 2002; 28(1):64-71.3636. Atkinson G, Fullick S, Grindey C, Maclaren D, Waterhouse J. Exercise, Energy Balance and the Shift Worker. Sports Med 2008; 38(8):671-685.. Esses trabalhadores são cronicamente privados do sono noturno, alterando, assim, eventos bioquímicos sucessivos que podem alterar a liberação de hormônios durante o sono, tais como o hormônio de crescimento, a leptina, a grelina e o cortisol3737. Scheer FAJL, Hiltona MF, Mantzorosb CS, Shea SA. Adverse metabolic and cardiovascular consequences of circadian misalignment. PNAS 2009; 106(11):4453-4458.. A privação de sono e a fadiga a ela associada estimulam a alimentação e reduzem o gasto de energia para aumentar as reservas de energia, levando a um aumento no ganho de peso3838. Geliebter A, Tanowitz M, Aronoff NJ, Zammit GK. Work-shift period and weight change. Nutrition 2000; 16(1):27-29.. Aliado a estes fatores, há dificuldades na absorção do alimento durante a noite, em função da organização circadiana, que é adaptada para a atividade diurna3939. Lowden A, Moreno C, Holmback U, Lennernas M, Tucker P. Eating and shift work-effects on habits, metabolism and performance. Scand J Work Environ Health 2010; 36(2):150-162..

Interagindo com os aspectos biológicos, os comportamentos dos trabalhadores noturnos também afetam o ganho de peso, já que eles tendem a apresentar padrões alimentares mais irregulares que os trabalhadores diurnos, além de fazer maior número de refeições, com lanches, em geral, de fácil preparo durante o turno noturno de trabalho4040. Waterhouse J, Buckley P, Edwards B, Reilly T. Measurement of, and some reasons for, differences in eating habits between night and day workers. Chronobiol Int 2003; 20(6):1075-1092.. Por fim, o ganho ponderal pode ser consequência da falta ou redução da atividade física, especialmente no dia posterior ao plantão noturno4141. Silva AA, Rotenberg L, Fischer FM. Nursing work hours: individual needs versus working conditions. Rev Saude Publica 2011; 45(6):1117-1126., em função do sono e desgaste físico e mental.

As relações entre o horário de trabalho e a idade podem explicar o agrupamento dos indivíduos baixo/adequado com o trabalho noturno frequente (seis ou mais noites por quinzena) e os mais jovens. Outros estudos com esta população mostram que o trabalho noturno mais frequente é mais comum entre os mais jovens4242. Diniz TB, Costa AS, Griep RH, Rotenberg L. Minor psychiatric disorders among nursing workers – is there an association with current or former night work? Work 2012; 41:2887-2892., que por sua vez podem ter sido expostos ao trabalho noturno por menos tempo. Neste sentido, as evidências de aumento do IMC, com o aumento do tempo de exposição ao trabalho noturno3232. Griep RH, Fonseca MJM, Melo ECP, Portela LF, Rotenberg L. Enfermeiros dos grandes hospitais públicos no Rio de Janeiro: características sociodemográficas e relacionadas ao trabalho. Rev Bras Enferm 2013; 66:151-157.,4343. Marqueze EC, Lemos LC, Soares N, Lorenzi-Filho G, Moreno CRC. Weight gain relation to night work among nurses. Work 2012; 41:2043-2048. e de menor IMC entre os mais jovens, explicam este agrupamento de variáveis, já que tanto a menor idade como o menor tempo de exposição ao trabalho noturno contribuem para aumentar as chances de eutrofia. Entretanto, o tempo de exposição ao trabalho noturno não foi analisado, sendo essa uma das limitações deste estudo.

Outra característica observada no agrupamento dos indivíduos com baixo/adequado estado nutricional foi o baixo consumo de frutas e hortaliças. No entanto, essa categoria também é composta por indivíduos mais jovem. Estudos apontam associação positiva entre o consumo de frutas e hortaliças e a idade, já que as pessoas mais velhas parecem reconhecer e valorizar a relação entre alimentação e saúde4444. Jaime PC, Monteiro CA. Fruit and vegetable intake by Brazilian adults, 2003. Cad Saude Publica 2005; 21(Supl. 1):S19-24.. Além disso, a população brasileira apresenta baixa prevalência de consumo regular de frutas e hortaliças4444. Jaime PC, Monteiro CA. Fruit and vegetable intake by Brazilian adults, 2003. Cad Saude Publica 2005; 21(Supl. 1):S19-24.4646. Castanho GKF, Marsola FC, Mclellan KCP, Nicola M, Moreto F, Burini RC. Consumo de frutas, verduras e legumes associado à Síndrome Metabólica e seus componentes em amostra populacional adulta. Cien Saude Colet 2013; 18(2):3985-3992..

A categoria sobrepeso também se agrupou com o tabagismo, o consumo de álcool e o sexo masculino. O tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas são padrões do estilo de vida relacionados às mudanças sociais, culturais, ambientais e comportamentais que têm contribuído para o ganho de peso4747. World Health Organization (WHO). Food and Agriculture Organization. Expert consultation. Diet, nutrition and the prevention of chronic diseases. Geneva: WHO; 2003.4949. Berto SJP, Carvalhaes MABL, Moura ECD. Tabagismo associado a outros fatores comportamentais de risco de doenças e agravos crônicos não transmissíveis. Cad Saude Publica 2010; 26(8):1573-1582.. Nossos achados corroboram com o que vem sendo observado nos últimos anos sobre a prevalência de sobrepeso no Brasil, ou seja, prevalência maior no sexo masculino66. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa de orçamento familiar (POF) 2008-2009: Despesas, Rendimentos e Condições de Vida. Rio de Janeiro: IBGE; 2010.,5050. São Paulo. Secretaria Municipal da Saúde (SMS). Coordenação de Epidemiologia e Informação. Estado nutricional, insatisfação em relação ao peso atual e comportamento relacionado ao desejo de emagrecer na cidade de São Paulo. São Paulo: SMS; 2010.,5151. Block KV, Klein CH, Silva NAS, Nogueira AR, Campos LHS. Hipertensão arterial e obesidade na Ilha do Governador – Rio de Janeiro. Arq Bras Cardiol 1994; 62(1):17-22.. A comparação entre as pesquisas realizadas pelo IBGE no período de 1974 a 2009, o Estudo Nacional de Despesa Familiar (1974-1975), a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (1989) e as Pesquisas de Orçamento Familiar (2002-2003 e 2008-2009), destaca que nos últimos anos, a prevalência de excesso de peso em adultos aumenta mais no sexo masculino.

Há um grupo definido por um padrão misto, que apresentou relação com as condições sociodemográficas intermediárias, melhores condições de saúde (autopercepção de saúde boa, sem insônia e sem hipertensão autorreferida), hábitos de vida mais saudáveis (maior consumo de frutas e hortaliças, não fumantes, não consomem álcool) e algumas categorias desfavoráveis (menor renda, mais trabalho doméstico e maior consumo de fritura). Esse grupo, no entanto, não se agrupou com categorias relativas ao estado nutricional. Esse perfil pode ser explicado, em parte, pelo fato de que nesse tipo de modelagem não se realiza uma seleção a priori de variáveis que vão compor o modelo final, analisando de forma simultânea todas as variáveis. Os agrupamentos formados por características medidas (categorias das variáveis) são homogêneos entre si e heterogêneos em relação aos outros grupos5252. Mingoti SA. Análise de dados através de métodos de estatística multivariada: uma abordagem aplicada. Belo Horizonte: Editora UFMG; 2005..

A complexidade da etiologia da obesidade está dentro de um entendimento de vários níveis. Existem inúmeros fatores em diferentes níveis de influência (biológicos, comportamentais, de grupo e níveis macrossocial)5353. Wanderley EN, Ferreira VA. Obesidade: uma perspectiva plural. Cien Saude Colet 2010; 15(1):185-194., todos têm implicações para o desenvolvimento da doença, esses fatores influenciam uns aos outros e, além disso, são, por vezes, influenciados pela própria doença5454. Galea S, Riddle M, Kaplan GA. Causal thinking and complex system approaches in epidemiology. Int J Epidemiol 2010; 39(1):97-106..

Além dos pontos apresentados no presente estudo, algumas limitações devem ser destacadas. Salienta-se a utilização do IMC para a análise do estado nutricional das pessoas, haja visto que o mesmo não permite avaliar a composição corporal. Em contrapartida, a facilidade de obtenção de dados de massa corporal e de estatura em estudos de base populacional, bem como a sua boa correlação com a mortalidade e a morbidade justificam o seu emprego em estudos epidemiológicos como marcador de adiposidade5555. World Health Organization (WHO). Physical status: the use and interpretation of anthropometry. Report of a WHO expert committee. World Health Organ Tech Rep Ser 1995. 1-452.5757. Seidell JC, Kahn HS, Williamson DF, Lissner L, Valdez R. Report from a Centers for Disease Control and Prevention Workshop on use of adult anthropometry for public health and primary health care. Am J Clin Nutr 2001; 73(1):123-126..

Com a análise de correspondência foi possível explorar as inter-relações existentes entre o estado nutricional e características de trabalho, saúde e sociodemográficas, extraindo o máximo possível de informações e servindo como uma ferramenta útil e que se revelou adequada para identificar grupos bem definidos com relação ao estado nutricional. Se por um lado a análise de correspondência mostra-se muito útil na identificação de perfis relacionados ao estado nutricional, dado a natureza multifacetada do problema e sua relação com sistemas complexos articulados, por outro a conformação de grupos não permite que sejam feitas inferências a respeito dos achados. Desta forma os resultados descritos estão circunscritos à população que foi estudada.

Espera-se que os resultados deste estudo possam contribuir para subsidiar estratégias preventivas de saúde pública, podendo assim auxiliar o planejamento de ações direcionadas à prevenção e ao manejo do sobrepeso e da obesidade, bem como o incentivo ao acompanhamento periódico da saúde no contexto do trabalho.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jun 2015

Histórico

  • Recebido
    06 Mar 2014
  • Revisado
    31 Out 2014
  • Aceito
    02 Nov 2014
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