Estresse ocupacional e engajamento no trabalho entre policiais militares

Fernando Braga dos Santos Luciano Garcia Lourenção Evellym Vieira Francisco Rosemiro Guimarães Ximenes Neto Adriane Maria Netto de Oliveira Jacqueline Flores de Oliveira Márcio Andrade Borges Thiago Roberto Arroyo Sobre os autores

Resumo

Este artigo investiga os níveis de estresse ocupacional e engajamento no trabalho entre policiais militares. Estudo transversal, descritivo e analítico, com 268 policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar do estado do Paraná. Observou-se níveis importantes de estresse ocupacional em 125 (46,7%) policiais. Os principais estressores foram: falta de perspectivas de crescimento na carreira (3,7; ±1,3); deficiência nos treinamentos (3,4; ±1,2); presença de discriminação/favoritismo no ambiente de trabalho (3,1; ±1,4); longas jornadas de trabalho (3,0; ±1,4); forma de distribuição das tarefas (2,7; ±1,1); tipo de controle (2,7; ±1,1); deficiência na divulgação de informações sobre decisões organizacionais (2,7; ±1,2); baixa valorização (2,7;±1,2). Os níveis de engajamento no trabalho variaram de 3,8 [médio] a 4,1 [alto]. A correlação entre estresse ocupacional e engajamento no trabalho foi baixa para as dimensões ‘Absorção’ (r: -0,284; p<0,001) e ‘Escore geral’ (r: -0,393; p<0,001) e moderada para as dimensões ‘Vigor’ (r: -0,422; p<0,001) e ‘Dedicação’ (r: -0,414; p<0,001). Concluiu-se que há um importante número de policiais com estresse ocupacional que, no entanto, apresentam bons níveis de engajamento no trabalho e mostram-se entusiasmados, inspirados e orgulhosos com o seu trabalho.

Palavras-chave:
Estresse Ocupacional; Engajamento no trabalho; Polícia; Militares

Introdução

O fornecimento de um serviço de segurança apropriado à população é aspecto crucial na execução do trabalho da polícia, sobretudo por conta do avanço da criminalidade e violência, em âmbito social e comunitário, que se institucionaliza e se aperfeiçoa na sociedade contemporânea brasileira. No entanto, as atividades laborais dos policiais militares são amplamente associadas ao adoecimento e comprometimento da sua capacidade de trabalho. Logo, a saúde física e psicológica destes possuem estrita relação com o exercício da atividade laborativa, tornando-se problema relevante para a saúde do trabalhador na atualidade11 Van Gelderen B, Bik LW. Affective organizational commitment, work engagement and service performance among police officers. Policing: An Intern J 2015; 39(1):206-221.

2 Pires LAA, Vasconcellos LCF, Bonfatti RJ. Military firefighters of Rio de Janeiro: na analysis of the impacts of their activities on their health. Saude Debate 2017; 41(113):577-590.

3 Godinho MR, Ferreira AP, Fayer VA, Bonfatti RJ, Greco RM. Capacidade para o trabalho e fatores associados em profissionais no Brasil. Rev Bras Med Trab 2017; 15(1):88-100.
-44 Eberhardt LD, Carvalho M, Murofuse NT. Vínculos de trabalho no setor saúde: o cenário da precarização na macrorregião Oeste do Paraná. Saude Debate 2015; 39(104):18-29..

A demanda de respostas do serviço de segurança prestado à sociedade tem impactos organizacionais e políticos, visto que o ambiente e o processo de trabalho dos policiais militares trazem implicações importantes para a saúde, o bem-estar e a produtividade destes profissionais, refletindo diretamente na qualidade e resolutividade do serviço de segurança. Nesse contexto, a violação do direito dos policiais a condições dignas de trabalho representa uma forma de violência no ambiente laboral, que pode prejudicar o comprometimento e o desempenho profissional destes trabalhadores11 Van Gelderen B, Bik LW. Affective organizational commitment, work engagement and service performance among police officers. Policing: An Intern J 2015; 39(1):206-221.

2 Pires LAA, Vasconcellos LCF, Bonfatti RJ. Military firefighters of Rio de Janeiro: na analysis of the impacts of their activities on their health. Saude Debate 2017; 41(113):577-590.
-33 Godinho MR, Ferreira AP, Fayer VA, Bonfatti RJ, Greco RM. Capacidade para o trabalho e fatores associados em profissionais no Brasil. Rev Bras Med Trab 2017; 15(1):88-100.,55 Mata NT, Pires LAA, Bonfatti RJ. Bombeiros militares: um olhar sobre a saúde e violência relacionados com o trabalho. Saude Debate 2017; 41(112):133-141..

Quando satisfeitos e realizados profissionalmente, os policiais apoiam mais os colegas de trabalho e aos superiores, que pode resultar em níveis ainda mais altos de bem-estar e motivação. Esse sentimento de satisfação com o trabalho compreende o engajamento no trabalho, um estado cognitivo afetivo positivo, relacionado à profissão, que envolve comprometimento e alinhamento do profissional com o ambiente e a atividade laboral66 Hu Q, Schaufeli WB, Taris TW. How are changes in exposure to job demands and job resources related to burnout and engagement? A longitudinal study among Chinese nurses and police officers. Stress Health 2017; 33(5):631-644.

7 Porto-Martins PC, Basso-Machado PG, Benevides-Pereira AMT. Engagement no trabalho: uma discussão teórica. Fractal Rev Psicol 2013; 25(3):629-644.
-88 Schaufeli WB. Work engagement: What do we know and where do we go. Rom J Appl Psychol 2012; 14(1):3-10..

De acordo com a literatura, os recursos de trabalho, como oportunidades de aprendizado, boa ambiência e apoio, exercem um papel fundamental no bem-estar motivacional dos trabalhadores, satisfazendo suas necessidades psicológicas de competência e autonomia. Contudo, se profissionais satisfeitos e envolvidos com o trabalho tendem a encarar a atividade laboral como desafiadora e divertida, com energia, disposição e motivação, quando frustrados psicologicamente, estes podem apresentar esgotamento, desânimo e falta de motivação, que geram perda de recursos energéticos e afetam a produção laboral, culminando com o desenvolvimento de patologias associadas ao esgotamento mental66 Hu Q, Schaufeli WB, Taris TW. How are changes in exposure to job demands and job resources related to burnout and engagement? A longitudinal study among Chinese nurses and police officers. Stress Health 2017; 33(5):631-644..

Nesse caso, o desgaste do trabalhador advindo do desequilíbrio em sua relação com o ambiente laboral é classificado como estresse ocupacional. Entre as causas do estresse ocupacional destaca-se a sobrecarga qualitativa e quantitativa de funções, que tornam o ambiente laboral ameaçador, comprometendo a produtividade do trabalhador e impedindo-o de realizar-se pessoal e profissionalmente99 Sousa I, Mendonça H, Zanini D, Nazareno E. Estresse Ocupacional, Coping e Burnout. Revista EVS - Rev Ciências Ambientais Saúde 2010; 36(1):57-74..

No estado de São Paulo, estudo com 506 policiais militares evidenciou que, embora os profissionais afirmem estar satisfeitos com a saúde, sofrem comprometimento da qualidade de vida em aspectos relacionados ao ambiente. Os dados auxiliam no entendimento de que existe uma associação significante entre elevados níveis de estresse e má qualidade de vida, revelando a necessidade de políticas que promovam mecanismos de enfrentamento, para melhorar a qualidade de vida deste público, refletindo diretamente no serviço de segurança pública1010 Arroyo TR, Borges MA, Lourenção LG. Health and quality of life of military police officers. Rev Bras Promoç Saude 2019; 32:7738..

Portanto, diante da relevância do trabalho do policial militar para a sociedade, é notória a importância de se identificar fatores de estresse ocupacional relacionados ao processo de trabalho e sua implicação com a saúde, o bem-estar e a satisfação laboral destes profissionais. Ante o exposto, este estudo objetiva investigar os níveis de estresse ocupacional e engajamento no trabalho em policiais militares.

Métodos

Estudo transversal, descritivo e analítico, realizado com policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar do Paraná (3º BPM/PR), no ano de 2018.

O 3º BPM/PR pertence ao 5º Comando Regional de Polícia Militar do Estado e atende uma população de aproximadamente 260 mil habitantes, distribuída em 16 municípios da microrregião do sudoeste do Paraná1111 Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária, Polícia Militar do Paraná. 5º Comando Regional de Polícia Militar: 3º BPM - Histórico. Curitiba; 2017. [acessado 2020 maio 23]. Disponível em: http://www.pmpr.pr.gov.br/Pagina/Historico.
http://www.pmpr.pr.gov.br/Pagina/Histori...
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Sediado na Cidade de Pato Branco, o 3º BPM/PR conta com 312 policiais, que realizam o policiamento nas áreas urbana e rural, fiscalização de trânsito, condução de cães farejadores, presença em shows e eventos, e contam com uma estrutura para intervenção em distúrbios civis e rebeliões1111 Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária, Polícia Militar do Paraná. 5º Comando Regional de Polícia Militar: 3º BPM - Histórico. Curitiba; 2017. [acessado 2020 maio 23]. Disponível em: http://www.pmpr.pr.gov.br/Pagina/Historico.
http://www.pmpr.pr.gov.br/Pagina/Histori...
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A população do estudo foi constituída pelos policiais militares integrantes do 3º BPM/PR que, depois de convidados, aceitaram participar do estudo. Foram excluídos os profissionais que estavam de férias ou afastados das atividades laborais, por problemas de saúde, licença ou qualquer outro motivo, no período da coleta dos dados.

Para a coleta dos dados foram utilizados três instrumentos, sendo um com informações sobre o perfil sociodemográfico e profissional dos policiais (sexo, faixa etária, estado civil, escolaridade, cargo, tempo de serviço, jornada de trabalho, turno de trabalho, prática de atividade física e se respondeu por transgressões disciplinares); a Escala de Estresse no Trabalho (EET), validada por Paschoal e Tamayo1212 Paschoal TE, Tamayo A. Validação da Escala de Estresse no Trabalho. Estud Psicol 2004; 9(1):45-52. e a versão brasileira da Utrecht Work Engagement Scale (UWES), validada por Vazquez e colaboradores1313 Vasquez ACS, Magnan ES, Pacico JC, Hutz CS, Schaufeli WB. Adaptation and Validation of the Brazilian Version of the Utrecht Work Engagement Scale. Psico-USF 2015; 20(2):207-217..

A EET é composta por dados sociodemográficos e 23 afirmativas negativas, com uma escala de cinco pontos, variando desde “discordo totalmente” a “concordo totalmente”. Seus indicadores foram elaborados a partir da análise da literatura sobre estressores organizacionais de natureza psicossocial e sobre reações psicológicas ao estresse ocupacional. A escala possui características psicométricas satisfatórias e pode contribuir, tanto para pesquisas sobre o tema, quanto para o diagnóstico do ambiente organizacional. É uma ferramenta para diagnóstico organizacional que foi submetida a testes e requisitos psicométricos1212 Paschoal TE, Tamayo A. Validação da Escala de Estresse no Trabalho. Estud Psicol 2004; 9(1):45-52..

A UWES é composta por 17 itens que avaliam o nível de satisfação do indivíduo com o trabalho. A escala avalia os três aspectos constituintes do engajamento no trabalho (dedicação, absorção e vigor) e foi validada em diversos países1313 Vasquez ACS, Magnan ES, Pacico JC, Hutz CS, Schaufeli WB. Adaptation and Validation of the Brazilian Version of the Utrecht Work Engagement Scale. Psico-USF 2015; 20(2):207-217..

Os dados obtidos foram armazenados em um banco de dados utilizando-se uma planilha do programa Microsoft Excel® e analisados com o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 23.0. As variáveis sociodemográficas e profissionais foram utilizadas para descrever o perfil dos policiais militares.

O estresse ocupacional foi avaliado a partir do cálculo de um escore médio obtido pelos policiais, identificando os estressores mais presentes, segundo a percepção dos policiais. Em seguida, realizou-se análise descritiva das variáveis sociodemográficas e profissionais, segundo a presença ou não de estresse ocupacional.

Os indicadores da EET variam de um a cinco e, quanto maior a média, maior o estresse. Consideram-se indicadores de níveis importantes de estresse os valores médios iguais ou superiores a 2,5.

Os cálculos dos escores das dimensões do engajamento no trabalho foram realizados conforme modelo estatístico proposto no Manual Preliminar UWES - Utrecht Work Engagement Scale, apresentando-se média e desvio padrão para cada dimensão da UWES. O cálculo do vigor corresponde à média aritmética das respostas às questões 1, 4, 8, 12, 15 e 17 da UWES; a dedicação, à média aritmética das respostas das questões 2,5,7,10 e 13; e a absorção consiste na média aritmética das respostas das questões 3, 6, 9, 11, 14 e 16. O escore geral corresponde à média aritmética das respostas de todas as questões da escala1414 Agnst R, Benevides-Pereira AMT, Porto-Martins PC. Utrecht Work Engagement Scale. Curitiba: GEPEB; 2009..

Após o cálculo dos escores foi realizada a interpretação dos valores obtidos, conforme decodificação do Manual Preliminar UWES, sendo: 0 a 0,99 = Muito Baixo; 1 a 1,99 = Baixo; 2 a 3,99 = Médio; 4 a 4,99 = Alto; 5 a 6 = Muito Alto1414 Agnst R, Benevides-Pereira AMT, Porto-Martins PC. Utrecht Work Engagement Scale. Curitiba: GEPEB; 2009..

O indicador de consistência interna Alpha de Cronbach foi utilizado para verificar a confiabilidade das medidas dos construtos. Para verificar diferença entre os escores médios das dimensões da UWES e as características sociodemográficas e profissionais dos policiais militares, utilizou-se teste t para duas médias e ANOVA para três ou mais médias.

Por fim, realizou-se análise de correlação entre estresse ocupacional e as dimensões da UWES (Dedicação, Absorção, Vigor e Escore geral), utilizando-se o teste de correlação de Pearson (r) e considerando correlação fraca para valores de r até 0,30, moderada para valores entre 0,40 e 0,60, e forte para valores maiores que 0,70. Para todos os cálculos adotou-se nível de significância de 95% (p≤0,05).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa.

Os autores declaram não haver conflitos de interesses e que o trabalho não foi subvencionado.

Resultados

Participaram 268 policiais militares, sendo 84,7% homens, faixa etária de 31 a 40 anos (46,6%), com ensino superior incompleto (45,1%) e casados (67,6%). A maioria era soldado (82,8%), exercia funções operacionais (70,1%) e trabalhava em turnos de escalas (72,4%), sendo que 51,1% faziam escalas de 24 x 48 horas. Em relação ao tempo de atuação na polícia, 54,5% policiais atuavam entre três e dez anos. 90,6% não exerciam outra atividade remunerada, 25,5% não praticavam atividade física, 48,5% já havia cometido transgressão disciplinar e 33,6% referiu a existência de problemas que comprometem a qualidade de vida (Tabela 1).

Tabela 1
Características sociodemográficas e profissionais dos policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar do estado do Paraná, Brasil, 2018.

Os policiais apresentaram níveis importantes de estresse ocupacional (46,7%), sendo 86,4% do sexo masculino, 46,4% entre 31 e 40 anos, 39,2% com ensino superior incompleto, 66,4% casados, 83,9% soldados, 71,2% exerciam funções operacionais, 74,4% trabalhavam em turno de escalas, 49,6% em jornadas de 12x24 ou 12x48 horas, 55,2% atuavam na PM entre três e 10 anos, 89,6% não tinham outra atividade remunerada, 5,2% praticavam atividade física e 53,6% já cometeram transgressão disciplinar (Tabela 1).

Na Tabela 2 observa-se que os aspectos estressores, segundo a percepção dos policiais militares foram: [Q16] falta de perspectivas de crescimento na carreira (3,7;±1,3); [Q13] deficiência nos treinamentos profissionais (3,4;±1,2); [Q12] presença de discriminação/favoritismo no ambiente de trabalho (3,1;±1,4); [Q10] longas jornadas de trabalho (3,0;±1,4); [Q1] forma de distribuição das tarefas (2,7;±1,1); [Q2] tipo de controle (2,7;±1,1); [Q5] deficiência na divulgação de informações sobre decisões organizacionais (2,7;±1,2); [Q15] baixa valorização por superiores (2,7;±1,2); [Q3] falta de autonomia na execução do trabalho (2,6;±1,1).

Tabela 2
Avaliação dos itens da EET, segundo a percepção dos policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar do estado do Paraná, Brasil, 2018.

Os níveis de engajamento no trabalhovariaram de 3,8 [médio] a 4,1 [alto]. Os valores do Coeficiente Alfa de Cronbach variaram de 0,790 a 0,940, apontando confiabilidade dos resultados, conforme mostra a Tabela 3.

Tabela 3
Níveis de engajamento no trabalho dos policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar do estado do Paraná, Brasil, 2018.

Não houve diferenças estatisticamente significativas entre os escores médios das dimensões da UWES e as variáveis sociodemográficas e profissionais dos policiais militares.

A correlação entre engajamento no trabalho e estresse ocupacional foi negativa e estatisticamente significante, pois o aumento do estresse ocupacional diminui os níveis de engajamento no trabalho (Tabela 4). Observou-se correlação fraca entre estresse ocupacional e as dimensões Absorção (r:-0,284; p<0,001) e Escore geral (r:-0,393; p<0,001) e moderada com as dimensões Vigor (r:-0,422; p<0,001) e Dedicação (r:-0,414; p<0,001).

Tabela 4
Correlações entre engajamento no trabalho e estresse ocupacional dos policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar do estado do Paraná, Brasil, 2018.

Discussão

Os policiais militares do 3º BPM/PR apresentam perfil sociodemográfico e profissional semelhante ao relatado por outros estudos com policiais brasileiros1010 Arroyo TR, Borges MA, Lourenção LG. Health and quality of life of military police officers. Rev Bras Promoç Saude 2019; 32:7738.,1515 Almeida DM, Lopes LFD, Costa VMF, Santos RCT, Corrêa JS. Satisfação no Trabalho dos Policiais Militares do Rio Grande do Sul: um Estudo Quantitativo. Psicol Cienc Prof 2016; 36(4):801-815.. O predomínio do trabalho em escalas é comum entre os policiais e corrobora a literatura1010 Arroyo TR, Borges MA, Lourenção LG. Health and quality of life of military police officers. Rev Bras Promoç Saude 2019; 32:7738.,1616 Brasil VP, Lourenção LG. Qualidade de vida de policiais militares do interior do estado de São Paulo. Arq Cienc Saude 2017; 24(1):81-5.-1717 Knapik JJ, Graham B, Cobbs J, Thompson D, Steelman R, Jones BH. A prospective investigation of injury incidence and risk factors among army recruits in combat engineer training. J Occup Med Toxicol 2013; 8(1):5..

A intensa e arriscada atividade do policial militar atrelada às longas jornadas de trabalho em escalas, proporciona uma predisposição natural a dores corporais, como lombalgias, devido ao longo tempo de permanência na posição ereta, uso de equipamentos, como colete balístico e cinto de guarnição, e ao estresse físico e emocional. Nesse sentido, as excessivas jornadas de trabalho podem intensificar o quadro de estresse e levar ao desenvolvimento de problemas de saúde que se cronificam e comprometem a qualidade de vida destes profissionais1010 Arroyo TR, Borges MA, Lourenção LG. Health and quality of life of military police officers. Rev Bras Promoç Saude 2019; 32:7738.,1616 Brasil VP, Lourenção LG. Qualidade de vida de policiais militares do interior do estado de São Paulo. Arq Cienc Saude 2017; 24(1):81-5.

17 Knapik JJ, Graham B, Cobbs J, Thompson D, Steelman R, Jones BH. A prospective investigation of injury incidence and risk factors among army recruits in combat engineer training. J Occup Med Toxicol 2013; 8(1):5.
-1818 Neto A, Faleiro T, Moreira F, Jambeiro J, Schulz R. Lombalgia na atividade policial militar: análise da prevalência, repercussões laborativas e custo indireto. Rev Baiana Saude Publ 2013; 37(2):365-374..

O percentual de policiais militares com níveis importantes de estresse ocupacional é consoante a outros estudos e, possivelmente, consequência do ambiente laboral cercado de conflitos, que levam à exposição física e mental do policial, diante das mais diversas ocorrências. Durante a jornada de trabalho, é comum que o policial se depare com riscos iminentes, que contribuem para o surgimento do estresse, impactando na saúde do militar, como: jornada de trabalho excessiva, baixa remuneração, apoio logístico precário e falta de motivação. Nesse contexto, o processo de trabalho do policial militar pode desencadear sentimento de frustração, insegurança, conflitos e insatisfação, fatores relacionados diretamente ao estresse ocupacional1919 Aguiar FLS. Estresse ocupacional: contribuições das pirâmides coloridas de Pfister no contexto policial militar [dissertação]. Belém: Universidade Federal do Pará; 2007. [acessado 2020 maio 23]. Disponível em: http://repositorio.ufpa.br/jspui/handle/2011/1890.-2020 Santos MJ, Jesus SS, Tupinambá MRP, Brito WF. Percepção de policiais militares em relação ao estresse ocupacional. Revista humanidades 2018; 7(2):42-54..

Nesse interim, as consequências do estresse ocupacional atingem níveis individual, grupal e organizacional. No individual, há queda da eficiência, sobrecarga voluntária de trabalho, explosão emocional, grande nível de tensão, sentimento de frustração, sentimentos de onipotência e agravamento de doenças. No nível grupal, surgem comportamentos hostis, discussões inúteis, pouca contribuição no trabalho, não compartilhamento de problemas e alto nível de insegurança. Já no nível organizacional ocorrem prejuízos como atrasos constantes no cumprimento de prazos, absenteísmo, alta rotatividade de funcionários, baixo nível de esforço e vínculos empobrecidos1919 Aguiar FLS. Estresse ocupacional: contribuições das pirâmides coloridas de Pfister no contexto policial militar [dissertação]. Belém: Universidade Federal do Pará; 2007. [acessado 2020 maio 23]. Disponível em: http://repositorio.ufpa.br/jspui/handle/2011/1890.,2121 Almeida DM, Lopes LFD, Costa VMF, Santos RCT, Corrêa JS. Avaliação do estresse ocupacional no cotidiano de policiais militares do Rio Grande do Sul. Organizações em Contexto 2017; 13(26):215-238..

O predomínio de estresse ocupacional entre soldados, que exerciam a função operacional evidencia que a natureza das demandas de serviços operacionais é mais intensa e desgastante, sobretudo para os profissionais de baixa patente. A literatura aponta que os policiais que atuam em funções administrativas cumprem escalas de serviços diurnos e, esporadicamente, cumprem escalas extras. Já os policiais que atuam no serviço operacional cumprem funções externas, atuam diretamente com a sociedade, em funções de ostensividade e na manutenção da ordem pública, onde há exposição física e mental elevada. Os riscos inerentes à atuação operacional dos policiais se materializam, sobretudo, nos confrontos armados, em que há elevada exposição e eventos fatais podem acontecer1010 Arroyo TR, Borges MA, Lourenção LG. Health and quality of life of military police officers. Rev Bras Promoç Saude 2019; 32:7738.,2222 Bernardo VM, Silva FC, Ferreira EG, Bento GG, Zilch MC, Sousa BA, Silva R. Atividade física e qualidade de sono em policiais militares. Rev Bras Ciênc Esporte 2018; 40(2):131-137.-2323 Silveira RA, Medeiros CR. O herói-envergonhado: tensões e contradições no cotidiano do trabalho policial. Rev Bras Segur Publica 2016; 10(2):134-153..

O fato de mais da metade dos policiais com três a dez anos de atuação na corporação apresentarem níveis importantes de estresse ocupacional pode estar associado ao elevado rigor imposto na formação e conduta militar. A literatura sustenta que o policial militar deve cumprir com seu dever, denotando um comportamento moral e profissional irrepreensíveis, além de manter uma vida social, fora do regimento disciplinar, com comportamento ilibado2323 Silveira RA, Medeiros CR. O herói-envergonhado: tensões e contradições no cotidiano do trabalho policial. Rev Bras Segur Publica 2016; 10(2):134-153..

Da mesma forma, a pressão pelo cumprimento dos valores e dos deveres éticos dos militares, cuja insubordinação configura crime, sujeito a punições severas, é fator que gera desgaste e estresse nos policiais e pode explicar a relação do alto percentual de profissionais que já responderam por transgressões disciplinares com estresse ocupacional3030 Sales LJM, Sá LD. A condição do policial militar em atendimento clínico: uma análise das narrativas sobre adoecimento, sofrimento e medo no contexto profissional. Repocs 2016; 13(25):181-206..

A percepção dos policiais militares quanto à falta de perspectivas de crescimento na carreira como fator desencadeante de estresse ocupacional é corroborada por uma pesquisa geral sobre o trabalho policial no Brasil, que demonstrou que a carreira policial não tem tantos atrativos, devido à falta de perspectiva de crescimento dentro das corporações, além da perda de identidade da carreira, riscos de morte, sensação de exploração e abandono pela instituição. Tais significados assumiram referenciais negativos e associados a noções de mal-estar no trabalho, que podem favorecer o estresse ocupacional2323 Silveira RA, Medeiros CR. O herói-envergonhado: tensões e contradições no cotidiano do trabalho policial. Rev Bras Segur Publica 2016; 10(2):134-153..

Outro aspecto estressor referido foi a deficiência na qualificação profissional, cuja implementação é imprescindível para a atuação policial. Para ter ciência do momento exato de entrar em ação e garantir a segurança da sociedade, é necessário que os policiais militares sejam constantemente qualificados, a fim de garantir excelência na atuação profissional, sobretudo para que os direitos individuais e coletivos possam ser respeitados2424 Venez HSC, Soares MF. A capacitação profissional continuada em tiro policial na polícia militar do tocantins. Aturá - Rev Pan-Amazônica Comunicação 2018; 2(3):284-305..

Os problemas de discriminação e favoritismo no ambiente de trabalho estão associados ao comportamento antissocial dos indivíduos nas organizações, com o escopo de prejudicar os colegas e a própria instituição. O que ratifica tal aspecto ser considerado estressor pelos policiais militares, indicando a necessidade de se intervir nessa situação2121 Almeida DM, Lopes LFD, Costa VMF, Santos RCT, Corrêa JS. Avaliação do estresse ocupacional no cotidiano de policiais militares do Rio Grande do Sul. Organizações em Contexto 2017; 13(26):215-238..

Outro aspecto apontado como estressante foram as longas jornadas de trabalho a que os policiais militares são submetidos. O trabalho por turnos pode afetar a qualidade do sono e sua privação pode acarretar danos à saúde dos profissionais. Portanto, longas jornadas e trabalho por turnos trazem complicações no ciclo biológico e circadiano. Além disso, o alto nível de atenção e alerta exigido do policial, especialmente durante o trabalho noturno ou em longas jornadas, acrescem as chances de acidentes automobilísticos provocados por acompanhamentos táticos em ambientes sem luminosidade e confronto armado, que podem ceifar vidas2525 Bernardo VM, Cascaes SF, Gonçalves E, Soleman HSS, Valdivia ABA, Silva R. Efeitos do Trabalho em Turnos na Qualidade do Sono de Policiais: Uma Revisão Sistemática. Rev Cub Med Mil 2015; 44(3):334-345.-2626 Waggoner LB, Grant DA, Van Dongen HP, Belenky G, Vila B. A combined field and laboratory design for assessing the impact of night shift work on police officer operational performance. Sleep 2012; 35(11):1575-1577..

Com relação à forma de distribuição das tarefas, apontada como fator estressor importante, ressalta-se que muitas destas causam tensão e contradições na labuta policial, gerando desmotivação para prosseguir na carreira, em decorrência de intervenções que não representam a função pública da polícia e, muitas vezes, servem apenas para atender interesses particulares de superiores hierárquicos2323 Silveira RA, Medeiros CR. O herói-envergonhado: tensões e contradições no cotidiano do trabalho policial. Rev Bras Segur Publica 2016; 10(2):134-153.. Essa compreensão contempla outro aspecto estressor apontado pelos policiais paranaenses, que é o tipo de controle existente em seu trabalho, pois o excessivo controle no desempenho das funções leva a alienação e, consequente irritabilidade e acentua o estresse ocupacional2727 Cruz ER, Silva MJ, Menegassi C. A comunicação interna nas organizações na perspectiva da gestão do conhecimento. In: Anais da IX Mostra Interna de Trabalhos de Iniciação Científica e II Mostra Interna de Trabalhos de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação; 2018; Maringá. [acessado 2020 maio 23]. Disponível em: http://rdu.unicesumar.edu.br//handle/123456789/2299.
http://rdu.unicesumar.edu.br//handle/123...
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A deficiência na divulgação das informações relacionadas às decisões organizacionais é um fator que gera irritabilidade nos policiais, evidenciando que o problema de comunicação se faz presente entre os profissionais estudados e a corporação. A comunicação interna nas instituições é um importante elemento para a gestão do conhecimento nas organizações, sobretudo de forma estratégica, visto que, quando existe boa comunicação, o ambiente corporativo torna-se melhor e gera reflexos positivos no ambiente externo2828 Bellenzani R, Paro DM, Oliveira MC. Trabalho em saúde mental e estresse na equipe: questões para a política nacional de humanização/SUS. Rev Psicol Saude 2016; 8(1):32-43..

Além disso, a baixa valorização por superiores relacionada à falta de divulgação das informações, sobretudo decisões organizacionais, implica diretamente no cotidiano de trabalho, gerando estresse e desgaste profissional2929 Tabosa MPO, Cordeiro AT. Estresse ocupacional: análise do ambiente laboral de uma cooperativa de médicos de Pernambuco. ReCaPe 2018; 8(2):282-303..

Embora seja rotina dos policiais militares lidar com essas relações assimétricas de poder, o modelo rígido de patentes torna-se prejudicial na medida em que contribui para a humilhação e a desvalorização do profissional, como o uso da patente para constranger e oprimir subordinados, fato que fortalece estados de baixa autoestima e desvalorização profissional3030 Sales LJM, Sá LD. A condição do policial militar em atendimento clínico: uma análise das narrativas sobre adoecimento, sofrimento e medo no contexto profissional. Repocs 2016; 13(25):181-206..

Contrapondo os aspectos estressores analisados, a relação positiva dos policiais militares com o trabalho (engajamento no trabalho) foi muito boa, demonstrando que estes profissionais apresentam altos níveis de energia e se identificam com o trabalho. Os resultados observados corroboram estudos nacionais realizados com outros profissionais, como enfermeiros e trabalhadores da Atenção Primária à Saúde, residentes multiprofissionais em saúde, profissionais da saúde matriculados em programas de aprimoramento e aperfeiçoamento profissional3131 Lourenção LG, Silva AG, Borges MA. Levels of engagement in primary health care professionals: a comparative study in two Brazilian municipalities. Esc Anna Nery 2019; 23(3):e20190005.

32 Silva AG, Cabrera EMS, Gazetta CE, Sodre PC, Castro JR, Cordioli Junior JR, Cordioli DFC, Lourenção LG. Engagement in primary health care nurses: A cross-sectional study in a Brazilian city. Public Health Nurs 2020; 37(2):169-177.

33 Cordioli DFC, Cordioli Junior JR, Gazetta CE, Silva AG, Lourenção LG. Occupational stress and engagement in primary health care workers. Rev Bras Enferm 2019; 72(6):1580-1587.

34 Lourenc¸a~o LG. Work engagement among participants of residency and professional development programs in nursing. Rev Bras Enferm 2018; 71(Supl. 4):1487-1492.

35 Gonsalez EG, Lourenção LG, Teixeira PR, Rotta DS, Gazetta CE, Beretta D, Pinto MH.Work engagement in employees at professional improvement programs in health. Cad Bras Ter Ocup 2017; 25(3):509-517.
-3636 Rotta DS, Lourenção LG, Gonsalez EG, Teixeira PR, Gazetta CE, Pinto MH. Engagement of multi-professional residents in health. Rev Esc Enferm USP 2019; 530:e03437..

As variações entre valores médios e altos nos níveis de engajamento no trabalho dos policiais militares reforça que este é um fenômeno relacionado ao ambiente laboral do trabalhador, influenciado por características individuais, organizacionais e específicas do trabalho3434 Lourenc¸a~o LG. Work engagement among participants of residency and professional development programs in nursing. Rev Bras Enferm 2018; 71(Supl. 4):1487-1492..

O nível médio de Vigor apresentado pelos policiais pode colaborar para a redução do estresse ocupacional. Estudo recente com policiais militares apontou potencial de impacto positivo da resiliência na redução do estresse ocupacional, especialmente profissionais do sexo feminino3737 Chitra T, Karunanidhi S. The Impact of Resilience Training on Occupational Stress, Resilience, Job Satisfaction, and Psychological Well-being of Female Police Officers. J Police Crim Psych 2018; 3:1-16...

O alto nível de Dedicação evidencia que os policiais militares se encontram entusiasmados e identificam-se com o trabalho. De acordo com a literatura, para que os trabalhadores apresentem níveis elevados de engajamento no trabalho, é importante que o ambiente de trabalho proporcione suporte social entre os profissionais. Da mesma forma, níveis satisfatórios de Dedicação entre os trabalhadores dependerá da capacidade de suporte das chefias3535 Gonsalez EG, Lourenção LG, Teixeira PR, Rotta DS, Gazetta CE, Beretta D, Pinto MH.Work engagement in employees at professional improvement programs in health. Cad Bras Ter Ocup 2017; 25(3):509-517.,3838 Sullivan HD, Warshawsky NE, Vasey J. RN work engagement in generational cohorts: The view from rural US hospitals. J Nurs Manag 2013; 21(7):927-940..

Estudo sobre engajamento no trabalho e Burnout realizado nos países baixos, com mais de dois mil policiais concluiu que os profissionais que faziam parte de equipes altamente envolvidas com as atividades laborais apresentavam níveis mais elevados de Vigor, Dedicação e Absorção. Estes resultados reforçam as vantagens de ambientes laborais saudáveis para o bom desempenho das funções3939 Bakker AB, Emmerik H van, Euwema MC. Crossover of burnout and engagement in work teams. Work and occupations 2006; 33(4):464-489..

O nível médio de Absorção retrata bom foco e concentração dos policiais na execução de suas missões, algo importante para o trabalho diário destes profissionais. Estudo realizado na Bahia demonstrou que os policiais apresentaram maiores níveis de Dedicação e Absorção do que outros profissionais. Para os autores, essa diferença pode ser maior quando se compara policiais com profissionais da saúde, assistentes sociais e conselheiros tutelares4040 Guedes HD. Trabalho emocional, identidade e engajamento no trabalho com policiais militares: Testando modelos de predição e mediação [dissertação]. Salvador: Universidade Federal da Bahia; 2018. [acessado 2020 maio 23]. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/25662..

No entanto, mesmo apresentando altos níveis de engajamento no trabalho, os policias podem apresentar cansaço físico após o expediente. Isso ocorre porque o engajamento está associado à satisfação e ao prazer na realização das funções laborais, pois mesmo cansado fisicamente, o policial encontra significado e prazer em suas atribuições, que lhe garantem os altos níveis de engajamento3939 Bakker AB, Emmerik H van, Euwema MC. Crossover of burnout and engagement in work teams. Work and occupations 2006; 33(4):464-489.-4040 Guedes HD. Trabalho emocional, identidade e engajamento no trabalho com policiais militares: Testando modelos de predição e mediação [dissertação]. Salvador: Universidade Federal da Bahia; 2018. [acessado 2020 maio 23]. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/25662..

Nesse contexto, para evitar que o estresse ocupacional impacte negativamente nos níveis de engajamento no trabalho dos policiais e comprometa o andamento do serviço de segurança, é importante que as corporações estimulem a relação positiva dos policiais com o trabalho, a partir da valorização e recompensa dos profissionais, adequação das cargas horárias de trabalho, flexibilização dos tipos de controle, implementação de qualificações permanentes e o reconhecimento organizacional4141 Bakker AB, Albrecht SL, Leiter MP. Key questions regarding work engagement. Eur. J Work Organ Psychol 2011; 20(1):4-28..

Todavia, entende-se que a concretização dessas ações representa um desafio para a saúde do trabalhador, no mundo contemporâneo e o alcance de impactos relevantes para a saúde dos policiais exige seu envolvimento, por meio de das organizações representativas, ampliando o poder de ação individual e coletivo nas negociações com superiores hierárquicos e os governos estaduais4242 Souza KR, Rodrigues AMS, Fernandez VS, Bonfatti RJ. A categoria saúde na perspectiva da saúde do trabalhador: ensaio sobre interações, resistências e práxis. Saude Debate 2017; 41(n. spe. 2):254-263.-4343 Jackson Filho JM, Pina JA, Vilela RGA, Souza KR. Desafios para a intervenção em saúde do trabalhador. Rev Bras Saude Ocup 2018; 43(Supl. 1):e13s..

Conclusão

O estudo permitiu a identificação dos fatores que desencadeiam estresse ocupacional nos policiais militares e, ao identificar os níveis de engajamento no trabalho, favoreceu o conhecimento sobre a relação desses profissionais com o ambiente laboral.

Apesar do importante número de policiais com estresse ocupacional, estes apresentaram bons níveis de engajamento no trabalho, especialmente no domínio Dedicação, pois são altamente entusiasmados, inspirados e orgulhosos com o trabalho.

Evidenciou-se, portanto, a relevância de identificar e intervir nos fatores desencadeantes de estresse ocupacional, implementando medidas que minimizem o sofrimento e o desgaste emocional, e estimulem o engajamento no trabalho nos policiais.

Logo, este estudo contribui para o processo de implementação de estratégias que estimulem aspectos positivos e reduzam fatores negativos do trabalho policial, a partir de intervenções organizacionais que favoreçam a melhoria da saúde, da satisfação, do bem-estar e da qualidade de vida dos policiais, impactando positivamente na segurança da comunidade adscrita.

A abordagem de apenas um Batalhão da Polícia Militar representa uma limitação, por não permitir a generalização dos resultados para toda a corporação estadual ou para outras regiões do Brasil. Dessa forma, sugere-se a realização de novos estudos, com ampliação da amostra, para assegurar comparações e discussão de semelhanças e diferenças regionais, permitindo a ampliação do conhecimento sobre essa temática relevante, no âmbito da promoção da Saúde do Trabalhador na sociedade contemporânea.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Dez 2021
  • Data do Fascículo
    Dez 2021

Histórico

  • Recebido
    01 Jun 2020
  • Aceito
    21 Jul 2021
  • Publicado
    23 Jul 2021
ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revscol@fiocruz.br