Saúde mental de trabalhadoras sexuais na pandemia da COVID-19: agentes estressores e estratégias de coping

Pablo Luiz Santos Couto Carle Porcino Samantha Souza da Costa Pereira Antônio Marcos Tosoli Gomes Luiz Carlos Moraes França Alba Benemérita Alves Vilela Sobre os autores

Resumo

Objetivou-se analisar as estratégias de coping adotadas por trabalhadoras sexuais frente aos agentes estressores decorrentes da pandemia da COVID-19. Estudo qualitativo, apoiado nas teorias do Sistemas e Coping. Realizou-se entrevista em profundidade com 30 trabalhadoras sexuais, do Alto Sertão Produtivo Baiano, entre os meses de setembro e outubro de 2020. As narrativas foram submetidas aos recursos da hermenêutica-dialética para organização das categorias. Quatro categorias remetem aos agentes estressores do sistema: sentimentos negativos de medo, ansiedade e dificuldades de dormir com as incertezas diante da pandemia; preocupação com o sustento dos familiares; irritabilidade diante de conflitos; angústias e inseguranças com as condições de trabalho. Cinco categorias fazem alusão ao coping: focam no problema (pandemia); ressignificação e regulação de emoções; espiritualidade e religiosidade; redes de apoio e suporte social; uso de substâncias e medicamentos. Os estressores surgem em decorrência das vivências do serviço sexual aliadas a situação pandêmica com redução de clientes e renda, desenvolvendo sentimentos e emoções negativas. Todavia, as estratégias de coping são diversas e tentativas de lidar com os problemas e equilibrar a saúde mental.

Palavras-chave:
Profissionais do Sexo; Saúde mental; Teoria de Enfermagem; Estratégias de enfrentamento; Pandemias

Introdução

A pandemia da COVID-19 tem permanecido latente em todo o mundo, com evolução de múltiplas cepas do SARS-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) e agravamento da doença entre os diversos grupos populacionais11 Adebisi YA, Alaran AJ, Akinokun RT, Micheal AI, Ilesanmi EB, Lucero-Prisno DE. Sex workers should not be forgotten in Africa's COVID-19 response. Am J Trop Med Hyg 2020; 103(5):1780-1782.. O avanço do vírus e suas consequências ultrapassam os aspectos referentes ao processo saúde-doença, impactando as dinâmicas sociais, culturais, políticas e econômicas de populações em situações vulnerabilizadas por condições de vida adversas e injustas22 Li Q, Guan X, Wu P, Wang X, Zhou L, Tong Y, Ren R, Leung KSM, Lau EHY, Wong JY, Xing X, Xiang N, Wu Y, Li C, Chen Q, Li D, Liu T, Zhao J, Liu M, Tu W, Chen C, Jin L, Yang R, Wang Q, Zhou S, Wang R, Liu H, Luo Y, Liu Y, Shao G, Li H, Tao Z, Yang Y, Deng Z, Liu B, Ma Z, Zhang Y, Shi G, Lam TTY, Wu JT, Gao GF, Cowling BJ, Yang B, Leung GM, Feng Z. Early transmission dynamics in Wuhan, China, of novel coronavirus-infected pneumonia. N Engl J Med 2020; 382:1199-1207..

Tais situações potencializam danos que dificultam tanto a obtenção da qualidade de vida e bem-estar, quanto o enfrentamento à pandemia e adoção de medidas preventivas22 Li Q, Guan X, Wu P, Wang X, Zhou L, Tong Y, Ren R, Leung KSM, Lau EHY, Wong JY, Xing X, Xiang N, Wu Y, Li C, Chen Q, Li D, Liu T, Zhao J, Liu M, Tu W, Chen C, Jin L, Yang R, Wang Q, Zhou S, Wang R, Liu H, Luo Y, Liu Y, Shao G, Li H, Tao Z, Yang Y, Deng Z, Liu B, Ma Z, Zhang Y, Shi G, Lam TTY, Wu JT, Gao GF, Cowling BJ, Yang B, Leung GM, Feng Z. Early transmission dynamics in Wuhan, China, of novel coronavirus-infected pneumonia. N Engl J Med 2020; 382:1199-1207.

3 Kramer A, Kramer KZ. The potential impact of the Covid-19 pandemic on occupational status, work from home, and occupational mobility. J Vocat Behav 2020; 119:103442.
-44 Howard S. Covid-19: Health needs of sex workers are being sidelined, warn agencies. BMJ 2020; 369:m1867.. Países latino-americanos e, nesse estudo, o Brasil (com desigualdades sociais marcantes) tem adotado estratégias duvidosas e destoantes daquelas orientadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), potencializando uma crise políticoeconômica55 World Health Organization (WHO). Emergency Committee. Statement on the second meeting of the International Health Regulations (2005) Emergency Committee regarding the outbreak of novel coronavirus (COVID-19) [Internet]. 2020 [cited 2020 dez 27]. Available from: https://www.who.int/news-room/detail/30-01-2020-statement-on-the-second-meeting-of-the-international-healthregulations-(2005)-emergency-committee-regarding-the-outbreakof-novel-coronavirus-(COVID-19).
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. Assim, há aumento da taxa de morbimortalidade em pessoas vulnerabilizadas e da base da pirâmide social, como as trabalhadoras sexuais, pois muitos governos continuam a perpetuar iniquidades intersecionais (gênero, raça, classe, migratórias)33 Kramer A, Kramer KZ. The potential impact of the Covid-19 pandemic on occupational status, work from home, and occupational mobility. J Vocat Behav 2020; 119:103442.

4 Howard S. Covid-19: Health needs of sex workers are being sidelined, warn agencies. BMJ 2020; 369:m1867.

5 World Health Organization (WHO). Emergency Committee. Statement on the second meeting of the International Health Regulations (2005) Emergency Committee regarding the outbreak of novel coronavirus (COVID-19) [Internet]. 2020 [cited 2020 dez 27]. Available from: https://www.who.int/news-room/detail/30-01-2020-statement-on-the-second-meeting-of-the-international-healthregulations-(2005)-emergency-committee-regarding-the-outbreakof-novel-coronavirus-(COVID-19).
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-66 Cluver L, Lachman JM, Sherr L, Wessels I, Krug E, Rakotomalala S, Blight S, Hillis S, Bachman G, Green O, Butchart A, Tomlinson M, Ward CL, Doubt J, McDonald K. Parenting in a time of COVID-19. Lancet 2020; 395(10231):e64..

O conceito de vulnerabilidade extrapola e rompe com a noção de risco ou comportamento de risco, por apontar para exposição aos agravos e romper com o ideal de responsabilização e culpabilização da pessoa como a responsável pela sua enfermidade. O termo foi pensado, a posteriori do início da pandemia da aids, para entender o contexto e situações de adoecimento de grupos sociais, para além de condutas e práticas pessoais. Mais tarde, o termo foi utilizado, também, para entender os contextos de outras causas de adocimento77 Bertolozzi MR, Nichiata LYI, Takahashi RF, Ciosak SI, Hino P, Val LF, Guanillo MCTU, Pereira ÉG. Os conceitos de vulnerabilidade e adesão na Saúde Coletiva. Rev Esc Enferm USP 2009; 43(n. esp. 2):1326-1330.,88 Ayres JR. Vulnerabilidade, direitos humanos e cuidado: aportes conceituais. In: Barros S, Campos PFS, Fernandes JJS, organizadores. Atenção à saúde de populações vulneráveis. Barueri: Manole; 2014, p. 1-25..

Assim, pensar em vulnerabilidade é trazer à tona que aspectos sociais e estatais, como as políticas públicas e os serviços ofertados pelo Estado, contribuem tanto para a presença de obstáculos que interferem no processo saúde-doença de grupos populacionais, como a produção de respostas e enfrentamento de tais situações88 Ayres JR. Vulnerabilidade, direitos humanos e cuidado: aportes conceituais. In: Barros S, Campos PFS, Fernandes JJS, organizadores. Atenção à saúde de populações vulneráveis. Barueri: Manole; 2014, p. 1-25..

Ressalta-se que a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) proporciona uma visão holística acerca da saúde feminina e, poderia, portanto, ser útil à promoção da saúde de trabalhadoras sexuais99 Couto PL, Gomes AM, Pereira AB, Carvalho JS, Silva JK, Boery RN. Use of hormonal contraceptives by prostitutes: a correlation with social vulnerability markers. Acta Paul Enferm 2019; 32(5):507-513.. Contudo, a PNAISM não prevê a inclusão desse grupo em seu bojo e discussões, por negligenciar as especificidades que elas possuem nessa atividade laboral: ações de educação e promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos voltados a essa prática ocupacional99 Couto PL, Gomes AM, Pereira AB, Carvalho JS, Silva JK, Boery RN. Use of hormonal contraceptives by prostitutes: a correlation with social vulnerability markers. Acta Paul Enferm 2019; 32(5):507-513..

As situações vulnerabilizadoras podem também residir no fato de que, embora a prostituição seja uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) desde 2002 com a inclusão da expressão “profissional do sexo” na Classificação Brasileira de Ocupações do MTE, algumas vivências sejam condenadas pelo código penal brasileiro, como atividades comerciais ligadas os mercado do sexo (tais quais as casas de prostituição), aumentando a insegurança do trabalho e a exploração ilegal por cafetões1010 Leite GS, Murray L, Lenz F. O Par e o Ímpar: o potencial de gestão de risco para a prevenção de DST/HIV/AIDS em contextos de prostituição. Rev Bras Epidemiol 2015; 18(Supl. 1):7-25.. Além disso, a nova reforma trabalhista prevê mudanças ainda mais deletérias para qualquer classe trabalhadora e o será ainda mais para as trabalhadoras sexuais, a qual já padece da exclusão e invisibilidade praticadas pelo Estado1111 Gonçalves JR, Ribas SEM. Validade de acordo ou convenção coletiva de trabalho em face das normas previstas na reforma trabalhista. Rev Interfaces 2021; 9(2):997-1007..

Destaca-se que o trabalho sexual, sob o viés de teóricas feministas progressistas, é entendido como uma atividade laboral, sendo uma prática sexual remunerada e consentida, em que há troca do prazer sexual (do cliente) por renda ou outros meios que possibilitem às mulheres inseridas nessa prática forma de sustento/subsistência, evidenciado em estudos tanto no Brasil, quanto em países europeus, a exemplo da França em que também há esse entendimento1212 Kluge HHP, Jakab Z, Bartovic J, D'Anna V, Severoni S. Refugee and migrant health in the COVID-19 response. Lancet 2020; 395(10232):1237-1239.

13 Pasini E. Limites simbólicos corporais na prostituição feminina. Cad Pagu 2015; 14:181-200.

14 Broqua C, Deschamps C. Transactions sexuelles et imbrication des rapports de pouvoir. In: Broqua C, Deschamps C, editors. L'échange economico-sexuel. Paris: Éditions EHESS; 2014. p. 7-17.

15 Piscitelli A. Economias sexuais, amor e tráfico de pessoas- novas questões conceituais. Cad Pagu 2016; 47:e16475.
-1616 Couto PLS, Gomes AMT, Porcino C, Rodrigues VV, Vilela ABA, Flores TS, Suto CSS, Paiva MS. Entre dinheiro, autoestima e ato sexual: representações sociais da satisfação sexual para trabalhadoras sexuais. Rev Eletr Enferm 2020; 22(59271):1-8..

Entretanto, o mercado do sexo, remunerado consensual, bem como o enfrentamento das mulheres aos agravos emergidos no exercício dessa profissão, é marginalizado em diversas nações, como Brasil, quanto africanas e asiáticas (a exemplo da Malásia)1313 Pasini E. Limites simbólicos corporais na prostituição feminina. Cad Pagu 2015; 14:181-200.,1515 Piscitelli A. Economias sexuais, amor e tráfico de pessoas- novas questões conceituais. Cad Pagu 2016; 47:e16475.

16 Couto PLS, Gomes AMT, Porcino C, Rodrigues VV, Vilela ABA, Flores TS, Suto CSS, Paiva MS. Entre dinheiro, autoestima e ato sexual: representações sociais da satisfação sexual para trabalhadoras sexuais. Rev Eletr Enferm 2020; 22(59271):1-8.

17 Gichuna S, Hassan R, Sanders T, Campbell R, Mutonyi M, Mwangi P. Access to Healthcare in a time of COVID-19: Sex Workers in Crisis in Nairobi, Kenya. Glob Public Health 2020; 20:1-13.
-1818 Thng C, Blackledge E, Mclver R, Watchirs Smith L, McNulty A. Private sex workers' engagement with sexual health services: an online survey. Sex Health 2018; 15(1):93-95., pois muitas delas rompem com a naturalização da construção social do comportamento esperado para as mulheres1313 Pasini E. Limites simbólicos corporais na prostituição feminina. Cad Pagu 2015; 14:181-200.

14 Broqua C, Deschamps C. Transactions sexuelles et imbrication des rapports de pouvoir. In: Broqua C, Deschamps C, editors. L'échange economico-sexuel. Paris: Éditions EHESS; 2014. p. 7-17.
-1515 Piscitelli A. Economias sexuais, amor e tráfico de pessoas- novas questões conceituais. Cad Pagu 2016; 47:e16475.,1818 Thng C, Blackledge E, Mclver R, Watchirs Smith L, McNulty A. Private sex workers' engagement with sexual health services: an online survey. Sex Health 2018; 15(1):93-95.. Doutro modo, a marginalização, exclusão sociocultural e estatal, assim como a exposição às diversas situações que interferem no processo saúde-doença, se intensificam na medida em que governos se negam a pensar e implementar políticas públicas focada nesse grupo de mulheres.

As políticas públicas são necessárias para reduzir a cadeia de transmissão do coronavírus SARS-CoV-2 e não sobrecarregar/sufocar os sistemas de saúde, ao passo que tem favorecido a elevação da taxa de mortalidade nos grupos em situações que os vulnerabilizam. As trabalhadoras do sexo já têm sofrido de situações vulnerabilizadoras, desde o período antecedente à pandemia e potencializado por ela, como estigmas sociais, invisibilidade, queda abrupta do número de clientes, assim como a redução da renda a quase zero, o que dificulta a sobrevivência11 Adebisi YA, Alaran AJ, Akinokun RT, Micheal AI, Ilesanmi EB, Lucero-Prisno DE. Sex workers should not be forgotten in Africa's COVID-19 response. Am J Trop Med Hyg 2020; 103(5):1780-1782.,33 Kramer A, Kramer KZ. The potential impact of the Covid-19 pandemic on occupational status, work from home, and occupational mobility. J Vocat Behav 2020; 119:103442.,55 World Health Organization (WHO). Emergency Committee. Statement on the second meeting of the International Health Regulations (2005) Emergency Committee regarding the outbreak of novel coronavirus (COVID-19) [Internet]. 2020 [cited 2020 dez 27]. Available from: https://www.who.int/news-room/detail/30-01-2020-statement-on-the-second-meeting-of-the-international-healthregulations-(2005)-emergency-committee-regarding-the-outbreakof-novel-coronavirus-(COVID-19).
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,66 Cluver L, Lachman JM, Sherr L, Wessels I, Krug E, Rakotomalala S, Blight S, Hillis S, Bachman G, Green O, Butchart A, Tomlinson M, Ward CL, Doubt J, McDonald K. Parenting in a time of COVID-19. Lancet 2020; 395(10231):e64.,1212 Kluge HHP, Jakab Z, Bartovic J, D'Anna V, Severoni S. Refugee and migrant health in the COVID-19 response. Lancet 2020; 395(10232):1237-1239.. Aliada a essa situação, o medo da contaminação, tende a gerar sentimentos negativos, anseios, angústias e medo, estressores psicoemocionais que afetam na saúde mental44 Howard S. Covid-19: Health needs of sex workers are being sidelined, warn agencies. BMJ 2020; 369:m1867.,1414 Broqua C, Deschamps C. Transactions sexuelles et imbrication des rapports de pouvoir. In: Broqua C, Deschamps C, editors. L'échange economico-sexuel. Paris: Éditions EHESS; 2014. p. 7-17.,1919 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327..

Para tanto, é fundamental que além da compreensão das medidas adotadas, com vistas na mitigação da transmissão, necessita-se a verificação de estratégias de coping utilizadas pelas trabalhadoras sexuais para os estressores psicoemocionais, potencializados durante a pandemia. Diante disso, a Teoria de Enfermagem proposta por Betty Neuman, que versa sobre Sistemas, faz aproximação com o objeto em estudo, por ser importante para a análise dos agentes estressores, ou seja, das forças que estimulam o sistema energético das pessoas (trabalhadoras sexuais) nas três dimensões estressoras (intrapessoais, interpessoais e extrapessoais) e o ambiente em que está inserido2020 Neuman B, Fawcett J. The Neuman Systems Model. 5ª ed. Boston: Pearson; 2011.,2121 Greco RM, Moura DCA, Arreguy-Sena C, Martins NA, Alves MS. Condições laborais e teoria de Betty Neuman: trabalhadores terceirizados de uma universidade pública. Rev Enferm UFPE Online 2016; 10(Supl. 2):727-735..

Além dos estressores, o componente teórico do Coping permite o entendimento das ações de cuidado adotadas para enfrentamento e manejo dos estressores, seja com foco no problema ou com foco nas emoções2020 Neuman B, Fawcett J. The Neuman Systems Model. 5ª ed. Boston: Pearson; 2011.,2222 Sousa AR, Santana TS, Moreira WC, Sousa AFL, Carvalho ESS, Craveiro I. Emoções e estratégias de coping de homens à pandemia da COVID-19 no Brasil. Texto Contexto Enferm 2020; 29:e20200248.,2323 Kato T. Frequently Used Coping Scales: A Meta-Analysis. Stress Health 2015; 31(4):315-323.. O Coping remeterá as ações cognitivo-comportamentais usadas para adaptação e controle dos agravos e problemas, como os eventos decorrentes e provocados pela pandemia da COVID-192222 Sousa AR, Santana TS, Moreira WC, Sousa AFL, Carvalho ESS, Craveiro I. Emoções e estratégias de coping de homens à pandemia da COVID-19 no Brasil. Texto Contexto Enferm 2020; 29:e20200248.,2323 Kato T. Frequently Used Coping Scales: A Meta-Analysis. Stress Health 2015; 31(4):315-323..

Dessa forma, este estudo tem a possibilidade de apontar caminhos para que profissionais de saúde repensem os cuidados às mulheres trabalhadoras sexuais, focados nas necessidades, demandas e entendimentos delas, de forma a contribuir para uma práxis congruente à promoção da saúde mental, com perspectiva que extrapola o tratamento e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (IST) e do vírus da imunodeficiência humana (HIV). Além disso, as necessidades e complicadores da saúde mental poderão reverberar na elaboração de taxonomias condizentes aos diagnósticos de enfermagem, contribuindo para o desenvolvimento teórico da ciência do cuidado, importante na promoção à saúde e prevenção de agravos.

Outrossim, traçou-se como questões norteadoras: Quais os estressores que têm acometido as trabalhadoras sexuais durante a pandemia da COVID-19? Quais estratégias de Coping adotadas pelas trabalhadoras sexuais frentes aos estressores no transcurso da pandemia? Para auxiliar nas respostas a tais indagações, objetivou-se analisar as estratégias de Coping adotadas por trabalhadoras sexuais para os agentes estressores decorrentes da pandemia da COVID-19.

Métodos

Trata-se de um estudo qualitativo, aportados nos referenciais teóricos da Teoria dos Sistemas de Betty Neuman e de Coping. A teoria proposta por Neuman transversaliza Saúde Mental e Enfermagem, cujo modelo proposto relaciona o posicionamento holístico do indivíduo, o qual é visto como um sistema aberto em constante interação com o ambiente, de onde se originam os estressores multidimensionais2020 Neuman B, Fawcett J. The Neuman Systems Model. 5ª ed. Boston: Pearson; 2011.,2121 Greco RM, Moura DCA, Arreguy-Sena C, Martins NA, Alves MS. Condições laborais e teoria de Betty Neuman: trabalhadores terceirizados de uma universidade pública. Rev Enferm UFPE Online 2016; 10(Supl. 2):727-735.. O sistema é dinâmico por ter relação direta e contínua com fatores estressores ambientais tendo como resultado três tipos de ambientes: interno (intrapessoal, com interação na própria pessoa), externo (tanto inter como extrapessoal, com interação externas ao indivíduo) e criado (originado para que as pessoas saibam lidar com os estressores)2020 Neuman B, Fawcett J. The Neuman Systems Model. 5ª ed. Boston: Pearson; 2011..

Esse último ambiente, permite aos indivíduos criar um mecanismo de enfrentamento e defesa denominado pela teoria dos sistemas de coping protetor, em decorrência da proteção subjetiva (mentais, afetivas e emocionais) ou até mesmo objetivos desenvolvidos pelas pessoas2222 Sousa AR, Santana TS, Moreira WC, Sousa AFL, Carvalho ESS, Craveiro I. Emoções e estratégias de coping de homens à pandemia da COVID-19 no Brasil. Texto Contexto Enferm 2020; 29:e20200248.

23 Kato T. Frequently Used Coping Scales: A Meta-Analysis. Stress Health 2015; 31(4):315-323.
-2424 Pereira SS, Teixeira CAB, Reisdorfer E, Vieira MV, Donato ECSG, Cardoso L. A relação entre estressores ocupacionais e estratégias de enfrentamento em profissionais nível técnico de enfermagem. Texto Contexto Enferm 2016; 25(4):e2920014.. O arcabouço teórico de Coping se complementa às concepções propostas por Neuman, por evidenciar tanto os esforços comportamentais quanto cognitivos, que permitem a qualquer ser humano alterar e controlar fatores internos e externos que cause fadiga, sentimentos negativos e ansiedade2121 Greco RM, Moura DCA, Arreguy-Sena C, Martins NA, Alves MS. Condições laborais e teoria de Betty Neuman: trabalhadores terceirizados de uma universidade pública. Rev Enferm UFPE Online 2016; 10(Supl. 2):727-735.,2424 Pereira SS, Teixeira CAB, Reisdorfer E, Vieira MV, Donato ECSG, Cardoso L. A relação entre estressores ocupacionais e estratégias de enfrentamento em profissionais nível técnico de enfermagem. Texto Contexto Enferm 2016; 25(4):e2920014..

O local de desenvolvimento do estudo foi no Alto Sertão Produtivo Baiano e que conta em sua região de abrangência com 19 municípios e cerca de 400.000 habitantes1616 Couto PLS, Gomes AMT, Porcino C, Rodrigues VV, Vilela ABA, Flores TS, Suto CSS, Paiva MS. Entre dinheiro, autoestima e ato sexual: representações sociais da satisfação sexual para trabalhadoras sexuais. Rev Eletr Enferm 2020; 22(59271):1-8.. Ocorreram encontros em salas reservadas de um salão de uma igreja evangélica, na localidade em que estão localizados os diversos estabelecimentos - bares, restaurantes, pensões e pousadas - usado para as mulheres se encontrarem com os clientes.

Adotou-se como critérios de elegibilidade ter idade maior que 18 anos e estar inserida no serviço sexual há pelo menos 01 ano (considerando que a experiência possibilita a visão mais ampliada do serviço sexual), bem como ter capacidade cognitiva e auditiva para participar do estudo. Participaram, portanto, 30 mulheres que desempenham o serviço sexual remunerado. Não foram aplicados critérios de exclusão, pois a seleção da amostra (participantes) ocorreu mediante convites com a técnica de snowball2525 Vinuto J. A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temat 2014; 22(44):203-220., a partir do auxílio de duas Agentes Comunitários de Saúde, vinculadas ao um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que atuam na região de trabalho das mulheres, de modo a localizá-las, indicarem e, assim, avançar com os convites. A snowball ou Bola de Neve, é uma técnica de recrutamento de participantes usada em pesquisas qualitativas para delimitar o quantitativo de participantes mediante convite, quando não é possível o uso de cálculo amostral, obtendo-se então, uma amostra por conveniência2525 Vinuto J. A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temat 2014; 22(44):203-220..

A coleta de informações foi realizada por dois dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, desenvolvida individualmente, em espaços reservados, com cada uma das 30 trabalhadoras sexuais participantes, durante os meses de setembro e outubro de 2020. Utilizou-se um roteiro composto por itens para a caracterização sociodemográfica das participantes e três perguntas que guiou a Entrevista em Profundidade: “Fale-me como tem sido a pandemia para você e os fatores que têm interferido no seu dia a dia, ocasionando estresse”, “Fale-me como está sua saúde mental nesse período pandêmico, suas emoções e sentimentos diante das adversidade” e “Fale-me como tem sido suas ações de cuidado adotadas para enfrentar a pandemia e os possíveis problemas mentais/emocionais decorrentes dela”. As entrevistas desenvolvidas com as participantes tiveram duração média de 35 minutos cada. As respostas foram gravadas em um aparelho celular, em seguida transcritas na íntegra no Software Microsoft Word 2016.

Na medida em que as entrevistas eram finalizadas, no mesmo dia os autores transcreviam as falas das participantes, a fim de examinar os dados em sua totalidade e empreender um processo articulado de imersão, com vistas no desenvolvimento de uma compreensão facilitada da lógica e dos sentidos das narrativas.

A estruturação das categorias, produzidas após análise das narrativas das participantes, foi aportada nas proposições teórico-metodológicas da hermenêutica-dialética e suas etapas de operacionalização dos dados, para situar o pesquisador no contexto das atrizes sociais. A hermenêutica-dialética contém três níveis de interpretação, porém, para esse estudo considerou-se o segundo nível, o qual se baseia na observação dos fatos surgidos durante a investigação, assim como as narrativas individuais, aspectos subjetivos, condutas, costumes, comportamentos e sentidos/significados atribuídos ao objeto de estudo2626 Gomes R. A análise dos dados em pesquisa qualitativa. In: Minayo MCS, organizadora. Pesquisa social: teoria, métodos e criatividade. Petropólis: Vozes; 2016. p. 67-80.,2727 Stein E. Dialética e Hermenêutica: uma controvérsia sobre método e filosofia. In: Habermas J. Dialética e Hermenêutica. São Paulo: L± 1987. p. 98-134., que favorecem a construção das categorias.

A operacionalização dos dados ocorreu com as seguintes etapas: ordenação dos dados; classificação dos dados, a partir das convergências e divergências das interrogações estruturadas nas narrativas, consideradas relevantes para as trabalhadoras sexuais; agrupamentos das falas conforme semelhança das unidades de sentido (por meio da recorrência, expressividade e relevância para o objeto); após saturação dos dados, procedeu-se com o levantamento das categorias e nomeação dos temas oriundos das unidades de sentido; por conseguinte, a análise final possibilitada com as interpretações e articulações mediante o referencial teórico2323 Kato T. Frequently Used Coping Scales: A Meta-Analysis. Stress Health 2015; 31(4):315-323.,2424 Pereira SS, Teixeira CAB, Reisdorfer E, Vieira MV, Donato ECSG, Cardoso L. A relação entre estressores ocupacionais e estratégias de enfrentamento em profissionais nível técnico de enfermagem. Texto Contexto Enferm 2016; 25(4):e2920014., nesse caso os arcabouços do Sistema e de Coping.

Durante todo o processo de operacionalização da pesquisa e escrita do artigo os autores seguiram todas as normas e critérios de rigor da qualidade em estudos qualitativos, ao guiarem-se pelas diretrizes do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ). O estudo esteve vinculado a um projeto guarda-chuva, respeitou a Resolução 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde, sendo submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Faculdade Guanambi pelo protocolo número 2.007.080/2017. Salienta-se que foi aplicado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). As participantes deram consentimento para que todo processo de pesquisa, incluindo os momentos anteriores às entrevistas, como observações e conversas informais, fossem publicados. Com vistas na garantia do anonimato das participantes e preservação das identidades delas, adotou-se códigos para nomeá-las, as letras “TS” (sigla para trabalhadora sexual), seguida de um número (exemplo: TS 01).

Resultados

Dentre as 30 trabalhadoras do sexo que contribuíram com o estudo, a maioria possuía idade entre 18 e 35 anos (78,26%), apresentava baixo nível de escolaridade (53,62%); declarou-se negra (59,42%), católica (55,07%), trabalhava nessa profissão há menos de cinco anos (68,12%), não estava satisfeita com a profissão (55,97%), usava preservativos nas relações sexuais (63,77%), referia uso de anticoncepcional oral hormonal (66,66%). Contudo, uma pequena parcela (41,2%) revelou utilizar remédios psicoativos (controlados) para tratamento de agravos à saúde mental e um quantitativo ainda menor (6,6%) apontou fazer terapia com psicólogo para controle das emoções e do sofrimento mental. A fim de contextualizar com o período pandêmico, indagou-se se elas estavam recebendo auxílio emergencial e, apenas 36,7% tiveram acesso ao benefício ofertado pelo governo à população carente e de baixa renda.

Destaca-se que associado a descrição do perfil, a partir da observação e bate-papo informal anterior às entrevistas e interação com as trabalhadoras do sexo (etapa importante demandada pela hermenêutica-dialética), percebeu-se que a maioria são provenientes das cidades menores e zona rural que compõem a região do Alto Sertão Produtivo Baiano; muitas delas casadas ou divorciadas, que estão no serviço sexual remunerado com o intuito de subsidiar o sustento para si e seus familiares. Além disso, conforme os relatos, foram abandonadas pelos companheiros e impossibilitadas, por falta de recursos financeiros, manter a agricultura de subsistência. São frequentadoras assíduas dos centros das feiras-livres, para articular o serviço sexual com os clientes (a maioria comerciantes e feirantes) e, desse modo, se encontram com eles em quartos alugados por donos de residências e bares, que estimulam indiretamente o serviço sexual remunerado e consentido. Sobre o benefício do auxílio emergencial ofertado pelo Governo à população, muitas trabalhadoras sexuais não receberam ou não se inscreveram com medo de ter a sua profissão descoberta ou porque algum familiar já tinha se inscrito.

Tem que ser feito um adendo às observações quanto ao detalhamento desse contexto em que elas estão inseridas: por ser uma região cuja cultura patriarcal é forte e, o machismo que marca de sobremaneira as relações estabelecidas entre homens e mulheres, faz com que o entendimento que se tem da sexualidade no imaginário social é uma prática destinada para obtenção do prazer do masculino, o qual é estimulado a explorar desde a adolescência os espaços públicos e se relacionar com o máximo de mulheres possíveis (nesse sentido, com as trabalhadoras sexuais) para “aprimorar sua performance sexual” e confirmar para a sociedade o constructo da masculinidade: macho, viril e heterossexual.

Além disso, o fato de as entrevistas terem sido desenvolvidas em salão de igreja, não permite apontar que há menos preconceito na região, que por sinal mantém o tradicionalismo, o conservadorismo e as raízes cristãs (católicas e evangélicas). O CTA do munícipio sede, utiliza o espaço da igreja, pela facilidade de acesso às mulheres, para desenvolver ações preventivas e de promoção à saúde, visto que tal salão fica em uma das ruas usadas como ponto para o serviço sexual. Todavia, pode-se inferir que há uma maior cobertura da ESF, maior adesão das trabalhadoras sexuais às práticas preventivas, menos barreiras de acesso a rede de cuidado primário, sendo esse um dos fatores que podem contribuir positivamente para a formação das estratégias de coping, a despeito das negligências do Estado; vide o que resultados de estudo de outrora já apresentaram, desenvolvido com trabalhadoras sexuais do Alto Sertão Produtivo Baiano99 Couto PL, Gomes AM, Pereira AB, Carvalho JS, Silva JK, Boery RN. Use of hormonal contraceptives by prostitutes: a correlation with social vulnerability markers. Acta Paul Enferm 2019; 32(5):507-513., corroborando com essa percepção dos autores desse presente artigo.

Alguns sentidos foram congruentes às narrativas e ao cotidiano delas (descritos ou observados), apresentando semelhanças que possibilitaram convergências para a inferência de dimensões subjetivas organizadas e operacionalizadas pela hermenêutica-dialética, que originou categorias temáticas de análise, as quais remetem ao entendimento que as trabalhadoras sexuais possuem sobre os agentes estressores durante a pandemia e as estratégias utilizadas para enfrentar problemas e superar os agravos à saúde mental.

No que tange aos estressores dos três sistemas (intra, inter e extrapessoais) apontado pelos Sistemas, emergiram quatro categorias temáticas, organizadas no Quadro 1, cujos temas referem à vivência do serviço sexual, enquanto mulheres, pobres, residentes em uma região carente e distante dos grandes centros do país, cuja pandemia tem potencializado sentimentos e emoções negativas.

Quadro 1
Organização das categorias temáticas que remetem aos agentes estressores do sistema e os respectivos trechos das narrativas. Alto Sertão Produtivo Baiano, Brasil (n=30).

Na sequência, há apresentação de categorias que apontam as estratégias de cuidado e coping adotadas pelas trabalhadoras do sexo, organizadas em um quadro sintético (Quadro 2) para facilitar a visualização, as quais denotam que são apenas subterfúgios na tentativa de superar os agentes estressores (sentimentos e emoções negativas e o sofrimento mental). Emergiram, portanto, cinco categorias temáticas.

Quadro 2
Organização das categorias temáticas que remetem às estratégias de cuidado e coping frente aos agentes estressores do sistema e os respectivos trechos das narrativas. Alto Sertão Produtivo Baiano, Brasil (n=30).

Os trechos das narrativas que compuseram as categorias, indicam que as estratégias de coping usadas pelas trabalhadoras sexuais configuram-se em tentativas de enfrentar e sobreviver à pandemia, desde focar nos problemas e criar formas de seguir as orientações para superar esse momento: ressignificar e regular as emoções e os sentimentos, como modo de não agravar os sintomas subjetivos e emoções negativas. Outrossim, a busca pela espiritualidade e religiosidade tornam-se uma forma de enfrentar, na medida em que buscam forças no divino para passar pela pandemia e criar emoções positivas. A rede de apoio formada por familiares e o suporte social ofertado por movimentos sociais tem ajudado a superar as consequências impostas pela pandemia. Por fim, o uso de substâncias psicoativas e medicamentos controlados tem se mostrado comum no cotidiano, a fim de evitar desordens psicoemocionais.

Discussão

O perfil das trabalhadoras sexuais, que correspondem a caracterização das estudadas aqui, coadunam com estudos anteriores1313 Pasini E. Limites simbólicos corporais na prostituição feminina. Cad Pagu 2015; 14:181-200.,1515 Piscitelli A. Economias sexuais, amor e tráfico de pessoas- novas questões conceituais. Cad Pagu 2016; 47:e16475.,1919 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327.. Em pesquisa desenvolvida junto às trabalhadoras sexuais, tanto de Belo Horizonte (Brasil) quanto de uma cidade do Sudoeste Asiático, evidenciou que elas estavam na base da pirâmide social e tinham pouco tempo de escolaridade. Algumas outras pesquisas anteriores confirmam os resultados aqui apresentados, pois embora historicamente essas mulheres têm composto grupos de pessoas em situações de vulnerabilidade às IST/HIV, percebeu-se eficácia nas estratégias de educação em saúde para promoção à saúde e prevenção às IST, permitindo a adesão ao uso de preservativo e de anticoncepcional hormonal99 Couto PL, Gomes AM, Pereira AB, Carvalho JS, Silva JK, Boery RN. Use of hormonal contraceptives by prostitutes: a correlation with social vulnerability markers. Acta Paul Enferm 2019; 32(5):507-513.,1616 Couto PLS, Gomes AMT, Porcino C, Rodrigues VV, Vilela ABA, Flores TS, Suto CSS, Paiva MS. Entre dinheiro, autoestima e ato sexual: representações sociais da satisfação sexual para trabalhadoras sexuais. Rev Eletr Enferm 2020; 22(59271):1-8.,2525 Vinuto J. A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temat 2014; 22(44):203-220.

26 Gomes R. A análise dos dados em pesquisa qualitativa. In: Minayo MCS, organizadora. Pesquisa social: teoria, métodos e criatividade. Petropólis: Vozes; 2016. p. 67-80.
-2727 Stein E. Dialética e Hermenêutica: uma controvérsia sobre método e filosofia. In: Habermas J. Dialética e Hermenêutica. São Paulo: L± 1987. p. 98-134..

As emoções e sentimentos negativos presentes nas narrativas, são apenas reflexo das condições de invisibilidade e marginalidade vivenciadas pelas trabalhadoras sexuais, com agravamento de estressores oriundos das consequências impostas pela pandemia e a ausência contínua do apoio do Estado. Tais mulheres se viram obrigadas a seguir medidas restritivas, como distanciamento social e confinamento, ao passo que houve redução abrupta do número de clientes e da renda.

Essas questões mostram-se relevantes à Teoria dos Sistemas, pois aspectos subjetivos do ser humano compõem um sistema inter-relacionados com mecanismos estressores que desequilibram o campo de energia vital, o qual reflete em reações orgânicas com efeitos de diversas dimensões como psicológicas, fisiológicas e até socioculturais. As mulheres no exercício do trabalho sexual, têm os seus sentimentos e emoções e, claro a saúde mental e a qualidade de vida, interferidas por esses agentes estressores que podem ser de origem inter, intra ou extrapessoal, assim como oriundos de interações sinérgicas com o ambiente no qual estão inseridas1717 Gichuna S, Hassan R, Sanders T, Campbell R, Mutonyi M, Mwangi P. Access to Healthcare in a time of COVID-19: Sex Workers in Crisis in Nairobi, Kenya. Glob Public Health 2020; 20:1-13.,1818 Thng C, Blackledge E, Mclver R, Watchirs Smith L, McNulty A. Private sex workers' engagement with sexual health services: an online survey. Sex Health 2018; 15(1):93-95..

Estudos desenvolvidos com trabalhadoras sexuais da Europa e África sinalizaram que muitas apresentaram angústias e medo diante da impossibilidade de faltar dinheiro para sobreviver, sobretudo por falta de políticas públicas focadas na renda emergencial a esse grupo em específico, visto que a renda decorrente do serviço sexual ficou escassa frente às orientações de distanciamento social impostas33 Kramer A, Kramer KZ. The potential impact of the Covid-19 pandemic on occupational status, work from home, and occupational mobility. J Vocat Behav 2020; 119:103442.,44 Howard S. Covid-19: Health needs of sex workers are being sidelined, warn agencies. BMJ 2020; 369:m1867.,1414 Broqua C, Deschamps C. Transactions sexuelles et imbrication des rapports de pouvoir. In: Broqua C, Deschamps C, editors. L'échange economico-sexuel. Paris: Éditions EHESS; 2014. p. 7-17.,2828 Aquino PS, Ximenes LB, Pinheiro AKB. Políticas públicas de saúde voltadas à atenção à prostituta: breve resgate histórico. Enferm Foco 2010; 1(1):18-22.,2929 França M. A vida pessoal de trabalhadoras do sexo: dilemas de mulheres de classes populares. Sex Salud Soc 2017; 25:134-155..

Os problemas com o padrão de sono, insônia e dificuldades em dormir por preocupação fazem parte do cotidiano das trabalhadoras do sexo, pois durante a noite trabalham e, no turno diurno, descansam pouco, pois têm que cuidar de outros afazeres1313 Pasini E. Limites simbólicos corporais na prostituição feminina. Cad Pagu 2015; 14:181-200.,2121 Greco RM, Moura DCA, Arreguy-Sena C, Martins NA, Alves MS. Condições laborais e teoria de Betty Neuman: trabalhadores terceirizados de uma universidade pública. Rev Enferm UFPE Online 2016; 10(Supl. 2):727-735.. O prejuízo dessa necessidade humana básica se agravou com o período pandêmico, pela dificuldade em colocar comida em casa, além da insônia contribuir para o surgimento de agravos de ordem psicoemocionais44 Howard S. Covid-19: Health needs of sex workers are being sidelined, warn agencies. BMJ 2020; 369:m1867.,1616 Couto PLS, Gomes AMT, Porcino C, Rodrigues VV, Vilela ABA, Flores TS, Suto CSS, Paiva MS. Entre dinheiro, autoestima e ato sexual: representações sociais da satisfação sexual para trabalhadoras sexuais. Rev Eletr Enferm 2020; 22(59271):1-8.,1717 Gichuna S, Hassan R, Sanders T, Campbell R, Mutonyi M, Mwangi P. Access to Healthcare in a time of COVID-19: Sex Workers in Crisis in Nairobi, Kenya. Glob Public Health 2020; 20:1-13..

O dinheiro obtido com o trabalho sexual é fundamental para a subsistência e supressão das necessidades, tanto delas quanto dos familiares, além de ajudar a adquirir meios e ações para garantir vida saudável, cuidar do aspecto físico, emocional e espiritual na sua máxima plenitude1010 Leite GS, Murray L, Lenz F. O Par e o Ímpar: o potencial de gestão de risco para a prevenção de DST/HIV/AIDS em contextos de prostituição. Rev Bras Epidemiol 2015; 18(Supl. 1):7-25.

11 Gonçalves JR, Ribas SEM. Validade de acordo ou convenção coletiva de trabalho em face das normas previstas na reforma trabalhista. Rev Interfaces 2021; 9(2):997-1007.

12 Kluge HHP, Jakab Z, Bartovic J, D'Anna V, Severoni S. Refugee and migrant health in the COVID-19 response. Lancet 2020; 395(10232):1237-1239.
-1313 Pasini E. Limites simbólicos corporais na prostituição feminina. Cad Pagu 2015; 14:181-200.,2727 Stein E. Dialética e Hermenêutica: uma controvérsia sobre método e filosofia. In: Habermas J. Dialética e Hermenêutica. São Paulo: L± 1987. p. 98-134.

28 Aquino PS, Ximenes LB, Pinheiro AKB. Políticas públicas de saúde voltadas à atenção à prostituta: breve resgate histórico. Enferm Foco 2010; 1(1):18-22.
-2929 França M. A vida pessoal de trabalhadoras do sexo: dilemas de mulheres de classes populares. Sex Salud Soc 2017; 25:134-155..

Problemas de relacionamentos interpessoais, seja com familiares ou com colegas de trabalho, fazem parte do cotidiano e interferem nas emoções, desde antes do surgimento da pandemia da COVID-19 e, potencializada nesse período crítico, com o confinamento dessas mulheres com pais, filhos e companheiros durante a quarentena. A intolerância dos familiares com o serviço sexual sempre foi motivo de conflito, evidenciado tanto na região de fronteira da região amazônica entre Brasil, Peru e Colômbia3030 Campbell R, Sanders T, Hassan R, Gichuna S, Mutonyi M, Mwangi P. Global Effects of COVID-19, government restrictions and implications for sex workers: A focus on Africa. LIAS Working Paper Series 2020; 3(S.l.):1-19. quanto na Etiópia e Quênia durante a pandemia1414 Broqua C, Deschamps C. Transactions sexuelles et imbrication des rapports de pouvoir. In: Broqua C, Deschamps C, editors. L'échange economico-sexuel. Paris: Éditions EHESS; 2014. p. 7-17.,2828 Aquino PS, Ximenes LB, Pinheiro AKB. Políticas públicas de saúde voltadas à atenção à prostituta: breve resgate histórico. Enferm Foco 2010; 1(1):18-22.,3131 Platt L, Elmes J, Stevenson L, Holt V, Rolles S, Stuart R. Sex workers must not be forgotten in the COVID-19 response. Lancet 2020; 396(10243):9-11..

Diante dos agentes estressores mencionados, quaisquer aspectos das emoções e da psiquê humana, quando prejudicados, interferem nas necessidades humanas básicas e, por conseguinte, demanda reações e estratégias de enfrentamento1717 Gichuna S, Hassan R, Sanders T, Campbell R, Mutonyi M, Mwangi P. Access to Healthcare in a time of COVID-19: Sex Workers in Crisis in Nairobi, Kenya. Glob Public Health 2020; 20:1-13., que são singulares e individuais, para alcançar benefícios diretos à saúde mental1818 Thng C, Blackledge E, Mclver R, Watchirs Smith L, McNulty A. Private sex workers' engagement with sexual health services: an online survey. Sex Health 2018; 15(1):93-95.,2020 Neuman B, Fawcett J. The Neuman Systems Model. 5ª ed. Boston: Pearson; 2011.. A implementação do coping é necessário para romper com agentes estressores e criar um sistema de proteção frente às reações orgânicas, como as psicoemocionais nas trabalhadoras sexuais1919 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327.,2020 Neuman B, Fawcett J. The Neuman Systems Model. 5ª ed. Boston: Pearson; 2011..

Ao serem reveladas as formas como se cuidam, protegem e enfrentam as consequências oriundas da pandemia, emergem as estratégias de coping voltadas às individualidades de cada uma, muito embora refletem aspectos comportamentais, emocionais e atitudinais coadunados por todo o grupo. Para além daqueles apontados no referencial teórico focalizados no problema e nas emoções1818 Thng C, Blackledge E, Mclver R, Watchirs Smith L, McNulty A. Private sex workers' engagement with sexual health services: an online survey. Sex Health 2018; 15(1):93-95.

19 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327.
-2020 Neuman B, Fawcett J. The Neuman Systems Model. 5ª ed. Boston: Pearson; 2011., há outros suportes de enfretamento, como o uso da religiosidade e espiritualidade, da rede de apoio e suporte social e o uso de substâncias que interferem nos sistemas neuropsicoemocional.

No contexto dos distanciamentos sociais, isolamentos e confinamentos em massa demandados pelas orientações da OMS para contenção da pandemia, tem-se percebido o desenvolvimento de efeitos nocivos à saúde mental da população em geral do Brasil1919 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327., Espanha3232 Olivar JMN. Género, dinero y fronteras amazónicas: la "prostitución" en la ciudad transfronteriza de Brasil, Colombia y Perú. Cad Pagu 2017; 51:e175115. e China3333 Jozaghi E, Bird L. COVID-19 and sex workers: human rights, the struggle for safety and minimum income. Can J Public Health 2020; 111(3):406-407., assim como em grupos de trabalhadoras sexuais da África2828 Aquino PS, Ximenes LB, Pinheiro AKB. Políticas públicas de saúde voltadas à atenção à prostituta: breve resgate histórico. Enferm Foco 2010; 1(1):18-22.. E, para o enfrentamento do distanciamento, há adoção de respostas individuais e a criação de mecanismos subjetivos de proteção das emoções, como a espiritualidade1919 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327..

Ao revelarem a crença no divino (Deus) como um mecanismo para se alcançar equilíbrio da saúde mental, bem-estar e qualidade de vida, verifica-se a importância desse aspecto subjetivo e positivo que a maioria das pessoas dão a prática religiosa e/ou busca espiritual1515 Piscitelli A. Economias sexuais, amor e tráfico de pessoas- novas questões conceituais. Cad Pagu 2016; 47:e16475.,3030 Campbell R, Sanders T, Hassan R, Gichuna S, Mutonyi M, Mwangi P. Global Effects of COVID-19, government restrictions and implications for sex workers: A focus on Africa. LIAS Working Paper Series 2020; 3(S.l.):1-19.. As mulheres no exercício do trabalho sexual, que diariamente vivenciam a marginalidade e vulnerabilidades, recorrem a esses mecanismos subjetivos da psiquê e da individualidade humana como forma de proteção e enfrentamento44 Howard S. Covid-19: Health needs of sex workers are being sidelined, warn agencies. BMJ 2020; 369:m1867.,1414 Broqua C, Deschamps C. Transactions sexuelles et imbrication des rapports de pouvoir. In: Broqua C, Deschamps C, editors. L'échange economico-sexuel. Paris: Éditions EHESS; 2014. p. 7-17.,3131 Platt L, Elmes J, Stevenson L, Holt V, Rolles S, Stuart R. Sex workers must not be forgotten in the COVID-19 response. Lancet 2020; 396(10243):9-11..

Perspectivas da religiosidade e espiritualidade, assim como de práticas religiosas revelaram-se corriqueiras no cotidiano de trabalhadoras do sexo que contribuíram com estudos anteriores desenvolvidos no Brasil e na fronteira amazônica, como mecanismos para enfrentar a violência, exploração, dificuldade de acessar serviços de saúde e pobreza, além da busca pelo equilíbrio da saúde mental11 Adebisi YA, Alaran AJ, Akinokun RT, Micheal AI, Ilesanmi EB, Lucero-Prisno DE. Sex workers should not be forgotten in Africa's COVID-19 response. Am J Trop Med Hyg 2020; 103(5):1780-1782.,3131 Platt L, Elmes J, Stevenson L, Holt V, Rolles S, Stuart R. Sex workers must not be forgotten in the COVID-19 response. Lancet 2020; 396(10243):9-11.,3434 Ozamiz-Etxebarria N, Dosil-Santamaria M, Picaza-Gorrochategui M, Idoiaga-Mondragon N. Stress, anxiety, and depression levels in the initial stage of the Covid-19 outbreak in a population sample in the northern Spain. Cad Saude Publica 2020; 36(4):e00054020..

Deve-se fazer um adendo de que muitas mulheres inseridas no serviço sexual não receberam a verba oriunda do auxílio emergencial fornecido pelo Governo Federal (que possibilitaria desenvolver coping frente a alguns estressores) para manter o distanciamento, por dentre diversos fatores, medo de terem sua profissão descoberta por pessoas próximas ou familiares, pelo estigma institucional perpetrado por profissionais dos serviços governamentais, pelas recorrentes falhas do sistema que faz a gestão da concessão desse recurso1717 Gichuna S, Hassan R, Sanders T, Campbell R, Mutonyi M, Mwangi P. Access to Healthcare in a time of COVID-19: Sex Workers in Crisis in Nairobi, Kenya. Glob Public Health 2020; 20:1-13.,1919 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327..

A garantia de seguridade social e demais direitos trabalhistas têm sido negados, antes e durante a pandemia, potencializando vulnerabilidades e demais agentes estressores, tornando-as mais suscetíveis a agravos mentais/emocionais, trazendo-lhes insegurança acerca do seu próprio futuro e dos seus dependentes99 Couto PL, Gomes AM, Pereira AB, Carvalho JS, Silva JK, Boery RN. Use of hormonal contraceptives by prostitutes: a correlation with social vulnerability markers. Acta Paul Enferm 2019; 32(5):507-513.,1010 Leite GS, Murray L, Lenz F. O Par e o Ímpar: o potencial de gestão de risco para a prevenção de DST/HIV/AIDS em contextos de prostituição. Rev Bras Epidemiol 2015; 18(Supl. 1):7-25.,1919 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327..

Governos da Argentina e alguns países europeus, como Inglaterra e Irlanda, criaram benefícios específicos às trabalhadoras do sexo para enfrentamento da pandemia da COVID-19, todavia muitas delas relataram o medo de terem a profissão descoberta por familiares e conhecidos (com a divulgação dos dados pessoais por parte de profissionais preconceituosos). Isso se dá em função da necessidade de informar a profissão no ato do cadastramento para ter o direito a esse recurso concedido pelo Estado, fazendo com que diversas mulheres desistissem do auxílio ou omitissem a real ocupação11 Adebisi YA, Alaran AJ, Akinokun RT, Micheal AI, Ilesanmi EB, Lucero-Prisno DE. Sex workers should not be forgotten in Africa's COVID-19 response. Am J Trop Med Hyg 2020; 103(5):1780-1782.,44 Howard S. Covid-19: Health needs of sex workers are being sidelined, warn agencies. BMJ 2020; 369:m1867.,1919 Couto PLS, Gomes AMT, Pereira SSC, Vilela ABA, Flores TS, Porcino C. Situations of health vulnerabilities experienced by sex workers in times of COVID-19 pandemic. Rev Baiana Enferm 2021; 35:e37327..

O suporte social do movimento de mulheres e uma rede de apoio tem se mostrado eficaz para que as trabalhadoras sexuais enfrentem as consequências e suportem as desordens emocionais surgidas. A ausência do Estado na proteção de grupos vulnerabilizados fomenta a presença de um vácuo social, escancarado durante a pandemia, sendo ocupado por grupos de apoio que as auxiliam a se proteger de agentes estressores, a exemplo do que ocorre na Índia e na África2828 Aquino PS, Ximenes LB, Pinheiro AKB. Políticas públicas de saúde voltadas à atenção à prostituta: breve resgate histórico. Enferm Foco 2010; 1(1):18-22.,3535 Reza-Paul S, Lazarus L, Haldar P, Reza-Paul M, Lakshmi B. Community action for people with HIV and sex workers during the COVID-19 pandemic in India. WHO South-East Asia. Jour Publ Health 2020; 9(2):104-106..

O uso de substâncias psicoativas também é uma constante na vida de diversas pessoas envolvidas com o serviço sexual e tem sido um subterfúgio para superar crises de ansiedade, preocupações, insônia e outros sentimentos negativos causados com o agravamento da pandemia. Estudos anteriores e posteriores à COVID-19, revelaram o uso abusivo de álcool e outras drogas, como modo de enfrentar as dificuldades e problemas cotidianos1515 Piscitelli A. Economias sexuais, amor e tráfico de pessoas- novas questões conceituais. Cad Pagu 2016; 47:e16475.,2525 Vinuto J. A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temat 2014; 22(44):203-220.,2727 Stein E. Dialética e Hermenêutica: uma controvérsia sobre método e filosofia. In: Habermas J. Dialética e Hermenêutica. São Paulo: L± 1987. p. 98-134.,3434 Ozamiz-Etxebarria N, Dosil-Santamaria M, Picaza-Gorrochategui M, Idoiaga-Mondragon N. Stress, anxiety, and depression levels in the initial stage of the Covid-19 outbreak in a population sample in the northern Spain. Cad Saude Publica 2020; 36(4):e00054020.,3535 Reza-Paul S, Lazarus L, Haldar P, Reza-Paul M, Lakshmi B. Community action for people with HIV and sex workers during the COVID-19 pandemic in India. WHO South-East Asia. Jour Publ Health 2020; 9(2):104-106..

O cuidado holístico dispensado por tais profissionais às trabalhadoras do sexo, é fundamental para adoção e atendimentos às práticas de autocuidado, coping, proteção de agentes estressores com sentimentos positivos, na medida em que as orientações repassadas de forma simples, clara e objetiva sejam congruentes à realidade e atenta à promoção da saúde mental.

Percebe-se que há relação entre a saúde mental das trabalhadoras sexuais e suas dimensões sexual e reprodutiva, visto que a falta de informação, assistência profissional desqualificada e negligência de profissionais da saúde, implicará em desequilíbrio das suas emoções, insegurança quanto ao futuro e medo de não poderem exercer plenamente a sua profissão1313 Pasini E. Limites simbólicos corporais na prostituição feminina. Cad Pagu 2015; 14:181-200.

14 Broqua C, Deschamps C. Transactions sexuelles et imbrication des rapports de pouvoir. In: Broqua C, Deschamps C, editors. L'échange economico-sexuel. Paris: Éditions EHESS; 2014. p. 7-17.

15 Piscitelli A. Economias sexuais, amor e tráfico de pessoas- novas questões conceituais. Cad Pagu 2016; 47:e16475.
-1616 Couto PLS, Gomes AMT, Porcino C, Rodrigues VV, Vilela ABA, Flores TS, Suto CSS, Paiva MS. Entre dinheiro, autoestima e ato sexual: representações sociais da satisfação sexual para trabalhadoras sexuais. Rev Eletr Enferm 2020; 22(59271):1-8.. Haja vista o fato de que seu corpo (instrumento de trabalho) exposto ao adoecimento, favorece vulnerabilidades laborais, como a falta da prática sexual consentida e remunerada, diminuição da renda e repercussões psicoemocionais1010 Leite GS, Murray L, Lenz F. O Par e o Ímpar: o potencial de gestão de risco para a prevenção de DST/HIV/AIDS em contextos de prostituição. Rev Bras Epidemiol 2015; 18(Supl. 1):7-25.,1212 Kluge HHP, Jakab Z, Bartovic J, D'Anna V, Severoni S. Refugee and migrant health in the COVID-19 response. Lancet 2020; 395(10232):1237-1239.,1313 Pasini E. Limites simbólicos corporais na prostituição feminina. Cad Pagu 2015; 14:181-200..

As limitações desse estudo estão ancoradas na aplicabilidade da pesquisa em uma região carente do nordeste brasileiro e distante dos grandes centros, o que restringe o avanço dos resultados para outros cenários, tanto do país quanto do mundo. Além disso, as restrições de investigações entrelaçadas ao período pandêmico do novo coronavírus SARS-CoV-2 em diversos países, impõe limites à discussão e reduz as comparações com outras culturas, realidades e contextos vivenciados por diversas trabalhadoras sexuais. Por fim, há uma lacuna teórica sobre o objeto em questão que aborde o arcabouço teórico (Sistemas e Coping) usado no presente estudo.

Conclusão

Conclui-se que o grupo de mulheres no exercício do trabalho sexual que contribuíram com o estudo tiveram suas necessidades pessoais e, portanto, seus agentes estressores potencializados tanto pela pandemia da COVID-19, quanto pelas consequências decorrentes das orientações feitas pelos órgãos internacionais, como a OMS e o Ministério da Saúde do Brasil, para a mitigação da cadeia de transmissão: isolamento social, confinamentos em massa e distanciamento social.

Os períodos de distanciamento social revelaram-se em uma ação dúbia, ao mesmo tempo em que protegeu e preveniu a população da infecção pelo SARS-CoV-2, permitiu o desenvolvimento de diversos agravos à saúde mental, pelo fato da ausência de estratégias do Estado que possibilitasse a essas mulheres superar esse momento. Os agentes estressores indicados pela teoria dos Sistemas foram: de ordem intrapessoal (sentimentos negativos de medo, ansiedade e dificuldades de dormir com as incertezas diante da pandemia), interpessoal (preocupação com o sustento dos familiares e a irritabilidade diante de conflitos familiares e profissionais) e extrapessoais (angústias e inseguranças com as condições de trabalho).

Por sua vez, as estratégias de Coping adotadas pelas trabalhadoras sexuais ultrapassaram os focos no problema e na regulação das emoções. Também estiveram ancoradas em aspectos subjetivos da fé, espiritualidade e religiosidade, nas redes de apoio, suporte social e, por fim, no uso de substâncias e medicamentos psicoativos. O suporte/proteção social mostrou-se ínfimo e limitado, não obstante ele ainda contribuiu para que as mulheres no serviço sexual adotassem tais estratégias, na medida em que algumas delas (minoria) obtiveram adesão do auxílio emergencial, a maioria acreditavam na vacina (ofertada pelo Sistema Único de Saúde) como forma de superar a pandemia; respeitavam (na medida do possível) as orientações dos protocolos sanitários de prevenção, tanto de controle da transmissão e de adoecimento pelo SARS-CoV-2; recebiam donativos e materiais de higiene do coletivo de mulheres, de instituições políticas e religiosos locais.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Ago 2022
  • Data do Fascículo
    Set 2022

Histórico

  • Recebido
    11 Maio 2021
  • Aceito
    01 Jun 2022
  • Publicado
    03 Jun 2022
ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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