Desafios atuais da prática em pesquisa qualitativa: reflexões e posicionamento do pesquisador

Desafíos actuales de la práctica de la investigación cualitativa: reflexiones y posicionamiento del investigador

Carina Carlucci Palazzo Rosa Wanda Diez-Garcia Sobre os autores

Resumos

Este artigo parte do discurso provocativo feito pelo pesquisador Svend Brinkmann na 17ª Conferência sobre Pesquisa Qualitativa em Saúde para refletir criticamente sobre três desafios enfrentados na prática atual da pesquisa qualitativa e sobre o papel do pesquisador nesse contexto. São abordadas questões éticas, de reconhecimento e validade da pesquisa e relacionadas ao rigor metodológico que destacam o papel do posicionamento do pesquisador para o reconhecimento e a valorização da pesquisa qualitativa, em especial na área de pesquisa em saúde.

Palavras-chave
Pesquisa qualitativa; Ética; Reconhecimento; Método; Rigor


Este artículo se basa en el provocador discurso pronunciado por el investigador Svend Brinkmann en la 17ª Conferencia de Investigación Cualitativa en Salud para reflexionar críticamente sobre tres desafíos enfrentados en la práctica actual de la investigación cualitativa y el papel del investigador en ese contexto. Se abordan cuestiones éticas, de reconocimiento y vigencia de la investigación y relacionadas con el rigor metodológico, destacando el papel del puesto de investigador para el reconocimiento y valorización de la investigación cualitativa, especialmente en el área de la investigación en salud.

Palabras clave
Investigación cualitativa; Principio moral; Reconocimiento; Método; Rigor


O caminho percorrido para se tornar um pesquisador qualitativo impõe desafios que vão além daqueles normalmente enfrentados por qualquer pesquisador. Pensar criticamente sobre as particularidades da pesquisa qualitativa pode resultar não apenas em uma atuação mais consciente por parte do pesquisador, mas também no fortalecimento da pesquisa qualitativa no cenário científico atual.

Este artigo parte de três questões propostas pelo pesquisador Svend Brinkmann em sua palestra na 17ª Qualitative Health Research Conference11 Brinkmann S. Qualitative research between craftsmanship and McDonaldization. A keynote address from the 17th Qualitative Health Research Conference. Qual Stud. 2012; 3(1):56-68. Doi: https://doi.org/10.7146/qs.v3i1.6273.
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para refletir sobre alguns dos desafios atuais enfrentados pelos pesquisadores qualitativos e sobre o papel do pesquisador nesse contexto.

Desafios éticos na pesquisa qualitativa

Em seu discurso, Brinkmann fala sobre as relações de poder na sociedade de consumo. Segundo ele, em vez de estruturas hierárquicas bem definidas, hoje é mais comum lidar com formas sutis de poder, em que o controle é exercido de forma quase não percebida pelos cidadãos11 Brinkmann S. Qualitative research between craftsmanship and McDonaldization. A keynote address from the 17th Qualitative Health Research Conference. Qual Stud. 2012; 3(1):56-68. Doi: https://doi.org/10.7146/qs.v3i1.6273.
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Essa forma sutil de poder também pode ser percebida na relação pesquisador-pesquisado. O treinamento em pesquisa qualitativa envolve a aquisição de técnicas utilizadas para construir um bom relacionamento com os participantes, o que permite a geração de bons dados de pesquisa. Na literatura podemos encontrar muitos exemplos de conselhos sobre como se comportar, como mostrar empatia, como se expressar e até como se vestir para que participantes de um determinado grupo social, gênero ou idade se sintam mais à vontade e confiantes frente ao pesquisador22 Mason-Bish H. The elite delusion: reflexivity, identity and positionality in qualitative research. Qual Res. 2019; 19(3):263-76.,33 Dickson-Swift V. Doing sensitive research: what challenges do qualitative researchers face? Qual Res. 2007; 7(3):327-53.. Essa prática gera uma relação de poder muito assimétrica entre pesquisador e pesquisado, embora oculta, uma vez que o participante da pesquisa tende a se sentir acolhido e até mesmo cuidado em uma relação construída de acordo com as demandas do pesquisador. Essa situação, associada à ideia disseminada de que a pesquisa qualitativa é eticamente superior porque dá voz aos participantes, que podem se posicionar sobre os temas estudados, constitui sério obstáculo à prática ética da pesquisa11 Brinkmann S. Qualitative research between craftsmanship and McDonaldization. A keynote address from the 17th Qualitative Health Research Conference. Qual Stud. 2012; 3(1):56-68. Doi: https://doi.org/10.7146/qs.v3i1.6273.
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Assim, reconhecer a relação assimétrica de poder que se estabelece entre pesquisador e pesquisado é o primeiro passo para uma pesquisa mais ética. Além disso, é pertinente reconsiderar a intencionalidade da pesquisa. Uma pesquisa extrativista, ou seja, uma pesquisa que vê os participantes como meros provedores de dados44 Kouritzin S, Nakagawa S. Toward a non-extractive research ethics for transcultural, translingual research: perspectives from the coloniser and the colonised. J Multiling Multicult Dev. 2018; 39(8):1-13. Doi: https://doi.org/10.1080/01434632.2018.1427755.
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, dificilmente será consolidada como eticamente adequada. Enxergar os participantes para além de seu papel para a pesquisa em si inclui dar suporte às demandas que possam surgir durante o relacionamento com o pesquisador, bem como planejar criteriosamente o momento de finalização da pesquisa, ou seja, o momento de deixar o campo55 Hammersley M, Atkinson P. Ethnography: principles in practice. 3th ed. Routledge: Taylor and Fracis Group; 2007. Field relations; p. 63..

Evidências sólidas versus anedotas subjetivas

Atualmente, a soberania dos ensaios clínicos randomizados em termos de alinhamento e contribuição para a ciência baseada em evidências é inegável. Nesses termos, a pesquisa qualitativa é subestimada e até mesmo considerada incapaz de fornecer resultados confiáveis e aplicáveis. Em resposta a esse cenário, alguns pesquisadores qualitativos afirmam que a pesquisa qualitativa não lida com questões objetivas, mas sim com questões subjetivas, pessoais e contextuais. Essa oposição feita entre objetividade e subjetividade pode acabar tendo um efeito inverso, uma vez que resultados subjetivos muitas vezes não são considerados confiáveis, o que reduz a anedotas o conhecimento gerado pela pesquisa qualitativa11 Brinkmann S. Qualitative research between craftsmanship and McDonaldization. A keynote address from the 17th Qualitative Health Research Conference. Qual Stud. 2012; 3(1):56-68. Doi: https://doi.org/10.7146/qs.v3i1.6273.
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Considerando a importância de possibilitar uma melhor visibilidade, compreensão e valorização da pesquisa qualitativa no meio acadêmico e – por que não? – na sociedade como um todo, acreditamos ser primordial que o pesquisador qualitativo se posicione como educador em relação aos seus pares pertencentes a outras perspectivas ontoepistemológicas.

O resultado de um trabalho realizado com rigor, ou seja, que alinha coerentemente aspectos teóricos e metodológicos em todas as etapas do estudo e feito de forma organizada, analítica e crítica, nunca deve ser reduzido a anedotas66 Hall JM. The power of qualitative research inquiry. In: Beck CT, editor. Traumatic experiences of marginalized groups. Routledge: International Handbook of Qualitative Nursing Research; 2013. p. 47-63.. Promover o reconhecimento das contribuições da pesquisa qualitativa depende também da forma como os pesquisadores compartilham seus trabalhos, revelando a seriedade com que os conduzem e as contribuições dadas aos seus campos de pesquisa.

Método versus intuição

Uma das características mais marcantes da pesquisa qualitativa é a importância da criatividade. Não existe um modelo único a ser seguido, mesmo assumindo-se uma metodologia específica. O uso da criatividade é o que nos permite trabalhar com populações totalmente diferentes, em diferentes contextos e de forma flexível, ou seja, podendo modificar o uso das técnicas ao longo do desenvolvimento da investigação. É a sensibilidade e a experiência do pesquisador – que, neste caso, aparecem como os principais instrumentos de pesquisa – que determinarão as nuances e os detalhes da abordagem. Apesar disso, vemos atualmente uma tendência à padronização das abordagens em pesquisa qualitativa11 Brinkmann S. Qualitative research between craftsmanship and McDonaldization. A keynote address from the 17th Qualitative Health Research Conference. Qual Stud. 2012; 3(1):56-68. Doi: https://doi.org/10.7146/qs.v3i1.6273.
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Essa tendência é discutida pelas pesquisadoras Braun e Clarke (2019), que constataram, ao longo dos anos, a existência de diversos trabalhos nos quais a técnica por elas desenvolvida (Análise Temática) foi aplicada como uma receita de bolo a ser seguida passo a passo de forma pouco reflexiva77 Braun V, Clarke V. Reflecting on reflexive thematic analysis. Qual Res Sport Exerc Health. 2019; 11(4):589-97..

Em parte, isso pode estar relacionado ao uso indevido de parâmetros quantitativos baseados na produtividade como forma de avaliar a pesquisa qualitativa. Uma pesquisa de campo bem feita, seguida do aprofundamento teórico necessário para a análise dos dados, é um processo demorado e, em geral, gera menos publicações do que um ensaio clínico. Assim, a avaliação do pesquisador baseada principalmente no número de suas publicações acaba prejudicando a trajetória de carreira dos pesquisadores qualitativos88 Webster F, Gastaldo D, Durant S, Eakin J, Glasdstone B, Parsons J, et al. Doing science differently: a framework for assessing the careers of qualitative scholars in the health sciences. Int J Qual Meth. 2019; 18:1-7., que às vezes acabam buscando formas mais “eficientes” de fazer pesquisas e atender às demandas acadêmicas.

Ainda pensando no ambiente acadêmico, temos que considerar a pressão existente para diminuir o tempo despendido nos cursos de pós-graduação99 Chow T. Speed up PhD completion: a case study in curriculum changes. New York: Association for Computing Machinery; 2017.. Prazos curtos para a realização da pesquisa limitam a possibilidade de formação adequada dos pesquisadores e favorecem a mera aplicação de etapas preestabelecidas e descritas em manuais. Se pensarmos na pesquisa em saúde, tradicionalmente dominada pelo pensamento biomédico e pelo paradigma positivista/pós-positivista66 Hall JM. The power of qualitative research inquiry. In: Beck CT, editor. Traumatic experiences of marginalized groups. Routledge: International Handbook of Qualitative Nursing Research; 2013. p. 47-63., veremos que esse “engessamento” da pesquisa qualitativa é conveniente, pois contribui para a percepção de uma modalidade de pesquisa mais adequada às características valorizadas por este campo. A valorização da pesquisa pautada em etapas predefinidas estende-se até mesmo aos periódicos científicos, que muitas vezes não possuem corpo editorial competente para a avaliação de trabalhos qualitativos1010 Meyrick J. What is good qualitative research? A first step towards a comprehensive approach to judging rigour/quality. J Health Psychol. 2006; 11(5):799-808., valendo-se de checklists padronizados e aplicados de forma inflexível para tal1111 Lee KP, Boyd EA, Holroyd-Leduc JM, Bacchetti P, Bero LA. Predictors of publication: characteristics of submitted manuscripts associated with acceptance at major biomedical journals. Med J Aust. 2006; 184(12):621-6..

Conclusão

Neste artigo, foram discutidos alguns dos desafios atuais enfrentados pelos pesquisadores qualitativos. Uma postura reflexiva e engajada, no sentido de se posicionar diante dos pares acadêmicos, é necessária para que a pesquisa qualitativa não fique às margens da produção científica.

Agradecimentos

As autoras agradecem à dra. Denise Gastaldo por suas contribuições no desenvolvimento deste texto.

  • Financiamento

    Este trabalho foi apoiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – Brasil – código 001, que não está envolvida em nenhum procedimento para o desenvolvimento deste estudo. Diez-Garcia RW agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelas Bolsas de Produtividade (Bolsa: 303194/2018-9).
  • Palazzo CC, Diez-Garcia RW. Desafios atuais da prática em pesquisa qualitativa: reflexões e posicionamento do pesquisador. Interface (Botucatu). 2021; 25: e210487 https://doi.org/10.1590/interface.210487

Referências

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    Brinkmann S. Qualitative research between craftsmanship and McDonaldization. A keynote address from the 17th Qualitative Health Research Conference. Qual Stud. 2012; 3(1):56-68. Doi: https://doi.org/10.7146/qs.v3i1.6273.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jan 2022
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    30 Jul 2021
  • Aceito
    13 Ago 2021
UNESP Botucatu - SP - Brazil
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