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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.2 n.3 São Paulo Dec. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X1999000200001 

Editorial

Mortes violentas: epidemia do terceiro milênio?

 

 

José da Rocha Carvalheiro

 

 

Com este número a Revista Brasileira de Epidemiologia inaugura duas tendências. A primeira é o lançamento de números especiais, com temas definidos em função de sua relevância epidemiológica ou metodológica. A segunda, representada pelo próprio processo de escolha desses temas, para o qual se exige o fiel cumprimento dos princípios básicos que orientam esta publicação da Abrasco: a participação dos membros da comunidade na escolha dos temas e na indicação dos autores convidados. A idéia básica é a de escolher temas capazes de identificar pontos importantes na área epidemiológica, induzindo o debate e a apresentação de contribuições originais.

Não poderia ter sido melhor a escolha do tema e dos autores. A violência tem sido considerada componente central e preocupante do perfil epidemiológico dos países da Região das Américas. Os autores escolhidos têm larga tradição na área, em particular o Autor Principal, João Yunes, Professor Titular da Faculdade de Saúde Pública, da USP, que tem um invejável currículo tanto no mundo acadêmico quanto no de gestão em saúde pública no Brasil, e de representação dos sanitaristas brasileiros no contexto internacional. Membro da equipe de dirigentes do Ministério da Saúde na década de 70, foi Secretário de Estado da Saúde no primeiro governo eleito democraticamente em São Paulo, no início dos anos 80. Membro do Ministério, teve papel saliente na retomada da tradição de realizar periodicamente as Conferências Nacionais de Saúde, uma delas quase inteiramente dedicada à epidemiologia e controle da xistosomose. No governo estadual determinou o resgate da explícita importância da epidemiologia na organização das ações de saúde ao criar o Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) e o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) da Secretaria Estadual de Saúde. Representante da Organização Pan-Americana da Saúde em Cuba e, posteriormente, membro da equipe central da OPS Central em Washington, onde foi Diretor da Divisão de Promoção de Saúde. Foi Diretor da BIREME e esteve sempre ligado a temas de relevo epidemiológico na Região das Américas da OMS (AMRO/ WHO). Com uma importante produção científica em diversas áreas, especialmente no campo da saúde da mulher e da criança e das estatísticas vitais, dedica-se presentemente à questão da mortalidade por causas externas.

O tema da violência afigura-se como um dos mais importantes no início do século XXI, em particular na Região das Américas. Este fato preocupante pode ser evidenciado na leitura dos Relatórios da situação de saúde produzidos pela OMS e pela OPAS. Os acidentes de trânsito mantêm-se como causa principal de morte por causas externas, porém o aumento impressionante dos homicídios, em particular no grupo de homens jovens e adolescentes, é uma das principais características da situação epidemiológica das Américas. Fazer com que esse tema seja considerado como o principal na discussão das políticas de saúde no continente é uma tarefa que nos espera neste início do terceiro milênio. Evidentemente, não cabe exclusivamente à epidemiologia e à saúde pública a tarefa de estudar a situação e propor ações. Esta é uma questão eminentemente transdisciplinar no âmbito da reflexão teórica e inter-setorial no da proposta de intervenções. A saúde, e por decorrência a epidemiologia, tem um papel a desempenhar que, se não é exclusivo, é profundamente relevante. Quanto mais não seja, porque o resultado da violência crescente impacta fortemente sobre a organização dos serviços de atenção às vítimas e da incorporação de tecnologia, além da melhoria na organização do resgate das vítimas em tempo hábil.

No debate teórico a saúde deve se fazer presente com o seu instrumental epidemiológico. A questão da determinação social dos fenômenos ganha aqui uma relevância extrema. Porém, a tradição epidemiológica da vigilância fundada no registro contínuo de estatísticas vitais segue sendo nossa principal característica. Nesse sentido, os Autores transitam de maneira competente pela questão do sub-registro e sua importância quando se buscam comparações internacionais. Pensando na possível incursão pela questão dos determinantes sociais este será um óbvio ponto para aprofundamento futuro. Outra questão que surge imediatamente do texto é relacionada com a absoluta falta de estudos epidemiológicos sobre os eventos violentos que não levam a óbito, mas a incapacitações permanentes com suas repercussões econômicas e, especialmente, no cotidiano da vida de milhares de pessoas jovens nas Américas.

Uma última reflexão deve ser a de quais razões podem fazer com que um continente, com relativamente poucos conflitos bélicos na atualidade, se torne o principal motivo de preocupação das autoridades sanitárias mundiais nesta questão do aumento da mortalidade por causas externas, em particular de homicídios de adolescentes e adultos jovens. Por que estamos matando nossos jovens ?

 

O Editor