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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.5 n.1 São Paulo Apr. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2002000100002 

Editorial

 

Avaliando o impacto de intervenções em saúde

 

 

Cesar G. Victora

Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia Universidade Federal de Pelotas, RS, Brasil

 

 

Nossas ações de saúde, preventivas e/ou curativas, estarão conseguindo melhorar a saúde da população? Para muitas pessoas, esta pergunta poderia parecer óbvia, mas existem diversas razões pelas quais a resposta pode ser negativa. Por exemplo, um medicamento eficaz pode estar sendo prescrito de forma errada, uma vacina pode estar sendo armazenada inadequadamente e perder suas propriedades imunogênicas, um micronutriente pode estar sendo distribuído a indivíduos que não necessitam de suplementação, ou uma campanha educativa pode ser ineficaz na mudança de comportamentos de risco. Além de demonstrar a eficácia de uma determinada intervenção em estudos experimentais realizados sob condições ideais, é essencial também comprovar que, sob condições rotineiras de serviços de saúde, a intervenção é efetiva para a redução da morbimortalidade1. Por todos esses motivos, é extremamente importante que epidemiologistas e outros profissionais de saúde investiguem constantemente se as intervenções em saúde estão resultando no impacto esperado.

As avaliações na área de saúde podem ser divididas em duas grandes categorias – avaliações de processo e de impacto2. As primeiras investigam se a intervenção ou serviço está sendo ofertado adequadamente à população, se sua qualidade é apropriada, se a população está efetivamente utilizando o serviço, e se a cobertura alcançada é apropriada. Este tipo de avaliação é freqüentemente realizado em nosso país, sendo inúmeros os exemplos de estudos de ótima qualidade. Por outro lado, avaliações de impacto de intervenções ou serviços sobre a morbimortalidade, ou sobre comportamentos diretamente relacionados à saúde, são relativamente raras. Por esse motivo, os autores do III Plano Diretor para o Desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil 2000-2004, reunidos em Brasília no mês de agosto de 20003, identificaram a necessidade de organizar um seminário nacional sobre avaliações de impacto. O Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPEL foi indicado pela ABRASCO para coordenar esta atividade.

A preparação do seminário foi iniciada por uma pesquisa sistemática de estudos de impacto, realizados no Brasil durante os últimos 10 anos. A revisão, efetuada nas bases de dados LILACS e MEDLINE, foi complementada por consultas à Comissão de Epidemiologia da ABRASCO, levando à indicação dos participantes do seminário. Este foi realizado em Pelotas, de 6 a 8 de novembro de 2001, contando com a participação de 25 pesquisadores nacionais e do Prof. Jean Pierre Habicht, da Universidade de Cornell (EUA), autoridade mundial no assunto.

O seminário foi altamente produtivo. Foram apresentadas 18 avaliações de impacto e três trabalhos sobre fontes de dados para avaliação. Dos estudos de impacto, a grande maioria avaliou programas de saúde e nutrição infantil: seis trataram da promoção de aleitamento materno, quatro do estado nutricional, três da diarréia, um da anemia e outro da mortalidade neonatal. Os demais estudos abordaram doença de Chagas, esquistossomose e diabete mélito. Ficou evidente a alta qualidade metodológica dos estudos, assim como sua adaptação às características dos programas de saúde e aos dados disponíveis. Diversos delineamentos foram utilizados: ensaios comunitários randomizados, estudos de casos e controles, estudos de coorte, estudos transversais e estudos ecológicos. Em termos da terminologia proposta por Habicht et al.2, os diversos estudos apresentados permitiram inferências do tipo adequação (estudos descritivos), plausibilidade (estudos observacionais) e probabilidade (estudos experimentais).

Por outro lado, foi notado o número reduzido de trabalhos identificados na revisão da literatura, e em especial a falta de estudos sobre alguns dos principais problemas de saúde de nossa população, como as doenças crônico-degenerativas e as causas externas. Observou-se também a carência de estudos sobre custo-efetividade de intervenções. Finalmente, salientou-se a necessidade de planejar a avaliação nos estágios iniciais de novos programas, para permitir a realização de estudos de linha de base, permitindo avaliações prospectivas.

Avaliações de intervenções e serviços de saúde são cada vez mais importantes, e a publicação desse número especial da Revista Brasileira de Epidemiologia tem como objetivo reunir diferentes metodologias usadas nessa área e estimular pesquisadores brasileiros a desenvolver novos estudos.

 

Referências

1. Black N. Why we need observational studies to evaluate the effectiveness of health care. Br Med J 1996; 312: 1215-8.

2. Habicht JP, Victora CG, Vaughan JP. Evaluation designs for adequacy, plausibility and probability of Public Health programme performance and impact. Int J Epidemiol 1999; 28: 10-8.

3. ABRASCO. do III Plano Diretor para o Desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil 2000-2004. Rio de Janeiro; 2000.