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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.5 n.3 São Paulo Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2002000300002 

Editorial

 

Endemias e epidemias brasileiras — perspectivas da investigação científica

 

 

Maria Rita Donalísio

Editora Especial Convidada para a série Endemias/Epidemias

 

 

As afecções crônico-degenerativas, a violência urbana, as doenças psicossomáticas, para citar poucos exemplos, configuram-se na atualidade como agravos de maior impacto no perfil epidemiológico da população brasileira. Não obstante, as doenças transmissíveis endêmico-epidêmicas ainda são relevante problema de saúde pública no Brasil. Novas doenças ou velhas conhecidas (re)aparecem em diferentes contextos ecológicos e sociais. A intervenção dos serviços de saúde nas complexas redes de propagação de infecções encontra suas limitações nos determinantes macro-estruturais do processo saúde-doença, na exclusão social, nas migrações, nas desigualdades urbanas, como apontam tantos autores. Porém a identificação de pontos vulneráveis nos caminhos de várias endemias e epidemias nacionais tem sido um dos principais desafios para profissionais de saúde, gestores e pesquisadores na área.

Depara-se com a intensificação da circulação de vírus, bactérias e parasitas, com a (re)emergência de doenças, com a resistência a antimicrobianos e inseticidas, com a adaptação de vetores e microrganismos a novas conjunturas ecológicas e sociais. Ainda há muito o que compreender sobre as doenças transmissíveis no país, mesmo as já amplamente estudadas, tradicionais problemas de saúde pública. São muitas as perguntas a responder, de variadas amplitudes, desde a intimidade molecular dos processos biológicos até a avaliação das políticas nacionais de controle de doenças.

Diferentes abordagens sobre a ocorrência e disseminação de doenças enriquecem o debate. Estudos sobre tendências e comportamentos de epidemias auxiliam a predição de situações de risco. Novas tecnologias na detecção precoce e identificação de cepas de microrganismos explicam melhor os caminhos da transmissão. Medicamentos e imunoterápicos mais potentes e específicos podem determinar o sucesso do controle de endemias e epidemias no país. Abordagens multidisciplinares que transcendem o âmbito da epidemiologia contribuem para o impacto das intervenções, particularmente no campo da educação em saúde e participação da comunidade. A revisão de campanhas do passado, seus erros e acertos, além da constante avaliação das atuais, estão entre os desafios dos técnicos da Saúde Pública Nacional.

Estas investigações geram muitas vezes novos delineamentos nas rotinas dos serviços de saúde, proporcionando a incorporação de conhecimentos, o acesso a experiências de outras regiões, além de facilitar a integração da sociedade civil na co-responsabilização sobre a detenção das epidemias.

Embora sejam campos de pesquisa que ensejam universos metodológicos variados, é na Saúde Pública que estes temas melhor se integram, reforçando a vocação da área de privilegiar o coletivo e de acolher diversos saberes na explicação do processo saúde-doença em populações.

Nessa perspectiva, a partir deste número da RBE serão publicados artigos sobre algumas doenças transmissíveis endêmico-epidêmicas de relevância no país, entre elas: dengue, febre amarela, hanseníase, influenza, doenças emergentes, aids, tuberculose, doença meningocócica, hepatites virais, malária. O objetivo é abordar os limites da investigação científica na atualidade, na perspectiva do controle da transmissão no país. Apontar as principais questões em aberto e linhas de pesquisa promissoras.

Na última década, nota-se a progressiva integração entre instâncias gestoras dos programas de vigilância e controle de doenças com grupos de pesquisa, e destes com os serviços. Seria um maior compromisso de pesquisadores e financiadoras nacionais? Maturidade das instâncias gestoras de vigilância e controle de doenças na busca de soluções concretas? O crescente público de serviços de saúde, ingressante nas pós-graduações, senso lato, cujo vínculo institucional facilita o compromisso com estes temas de pesquisa? Melhor formação técnica de recursos humanos na área de saúde pública, facilitando a revisão crítica e a flexibilidade dos programas nacionais/estaduais/municipais? Maior exigência da sociedade civil (melhor) organizada para solução de problemas epidemiológicos?

Uma das modalidades que tem se desenvolvido no país são as pesquisas operacionais capazes de responder com maior agilidade a problemas cotidianos das equipes de vigilância e controle de doenças. Também a disponibilização de bancos de dados nacionais, cuja qualidade e confiabilidade são crescentes (SINAN, SIM, SINASC, SIH-SUS, entre outros) propiciam diagnósticos epidemiológicos oportunos.

A associação entre os interesses da pesquisa com os dos serviços de saúde tem gerado projetos de investigação integrados, leves, mais baratos, todavia conduzidos com rigor e disciplina metodológicos. Afinadas com as indagações dos serviços de saúde, as pesquisas saem já endereçadas, não somente às bibliotecas acadêmicas, mas aos manuais de trabalho em campo. Desse modo, amplia-se o diálogo entre técnicos de saúde e pesquisadores, qualificando a revisão de protocolos, facilitando a experiência de novas soluções e tecnologias apropriadas aos problemas nacionais.