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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.7 n.1 São Paulo Mar. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2004000100001 

Editorial

 

 

José da Rocha Carvalheiro

 

 

Neste número 7(1), março de 2004, a Revista Brasileira de Epidemiologia publica nove trabalhos selecionados pelo processo regular de peer review: um Editor Associado conduz de maneira anônima a apreciação dos revisores ad hoc, geralmente três. Os artigos abordam temáticas diversas, empregam procedimentos metodológicos variados e têm origem geográfica e institucional cobrindo não apenas o ambiente acadêmico, também os serviços de saúde, em diversas regiões do país. Mantendo uma regularidade que já foi comentada em números anteriores, os artigos são geralmente produto de coletivos de autores (média de 3,7) sendo apenas um de autoria solitária. Outra característica evidente neste número é a predominância feminina: dos 33 autores, 23 (70%) são mulheres, sendo primeiras autoras em sete dos nove trabalhos.

Num trabalho, autora pertencente à UFMG, analisa a mortalidade infantil no Estado de São Paulo, em 1999, na perspectiva de contraste entre a causa básica de morte e os conjuntos de doenças identificados pelo procedimento de "causas múltiplas".

Ainda analisando um dos componentes da mortalidade infantil, a mortalidade neonatal em Campinas (SP), duas autoras, uma da Secretaria Municipal de Saúde, outra da UNICAMP, empregam um desenho do tipo caso-controle, técnica de amostragem domiciliar com dois controles por caso, e análise com regressão logística múltipla num modelo hierarquizado. O estudo "de feição pragmática", no jargão da epidemiologia francesa, aponta para a relação entre o desfecho (morte de recém-nascidos), as variáveis socioeconômicas, a morbidade materna e a atenção à saúde.

Um estudo transversal, de execução particularmente criativa, estima a prevalência de aleitamento materno em menores de um ano, em Ribeirão Preto (SP). Essa metodologia peculiar vem se consolidando como marca importante na análise da complexa relação de uma multiplicidade de propósitos. Um destes, a associação entre pesquisadores da universidade e trabalhadores dos serviços, é confirmado pela composição da equipe: três professoras da Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto e três trabalhadoras da Secretaria Municipal de Saúde. Noutro, aproveita-se a fila de mães, com suas crianças no colo num dia de Campanha Nacional de Vacinação, para procedimento simplificado de amostragem em estudo de prevalência. Finalmente, a realização desse inquérito de prevalência na fila da demanda na Campanha é, em si, um ato de promoção da prática do aleitamento materno.

Dois autores, do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, analisam a vigilância do crescimento de menores de cinco anos, seguidos em serviços de saúde. Num estudo transversal, por amostragem de crianças atendidas na Região Metropolitana do Recife e no Interior do Estado, comparam a relativa adequação da infraestrutura dos serviços com o fraco desempenho no cumprimento dos programas que ali se deviam conduzir.

Dois professores do Departamento de Epidemiologia da FSP/USP e uma pesquisadora científica de carreira (PqC VI) do Instituto Butantan, da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, analisam a baciloscopia de escarro em pacientes internados em hospitais especializados em tuberculose no Estado. Buscam as associações entre o resultado da baciloscopia e variáveis ligadas ao indivíduo, aos serviços e, especialmente, ao motivo (clínico ou social) da internação, sua duração e motivo de egresso.

Outro estudo transversal foi realizado num centro de referência para o tratamento de aids localizado em hospital universitário em São Paulo (SP). Cinco professores de diversos departamentos da FSP/USP, associados a outro da Faculdade de Medicina/ USP, analisam dados antropométricos em portadores de HIV incluídos em esquemas de terapia anti-retroviral de alta potência (HAART, na sigla em inglês). Buscam estimar as freqüências relativas de baixo peso, sobrepeso e obesidade abdominal, segundo o sexo dos indivíduos estudados.

O estudo com maior número de autores, oito, é um inquérito epidemiológico sobre a filariose bancroftiana. Foi realizado numa amostra da população urbana e rural de um município da Região Metropolitana de Recife (Moreno, PE). Tem o formato de "examination survey" em fases múltiplas, por incluir exames parasitológicos, orientados por um "interview survey" prévio, com questionário fechado. Patologia com distribuição limitada a três áreas endêmicas no País, a filariose tem sido mais freqüentemente associada a Recife e sua Região Metropolitana. Os autores buscam delimitar a área de distribuição da filariose confrontando a origem dos casos identificados parasitologicamente com a existência de uma estrutura epidemiológica propícia à transmissão. Pela complexidade operacional do estudo, não causa espanto o número de autores e a diversidade de vínculos institucionais: quatro pertencem a um Centro de Pesquisas (Aggeu Magalhães) da FIOCRUZ, em Recife. Os demais estão ligados: à Regional de Pernambuco da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), do Ministério da Saúde; ao Instituto Materno Infantil de Pernambuco; ao Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco; e à Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Moreno (PE).

Três professores da Universidade Federal de Santa Catarina, dos programas de Pós-Graduação em Saúde Pública e em Engenharia de Produção, apresentam um "perfil epidemiológico" da cárie, do edentulismo e do uso de próteses entre idosos de 60 anos e mais, num município catarinense, Biguaçu (SC). Usando o índice CPOD, concluem por apontar as precárias condições de saúde bucal entre idosos. O que os leva a uma reflexão que merece destaque pela contundência: ao contrário dos países desenvolvidos onde a transição demográfica foi acompanhada de ampliação da proteção social dos idosos, em nosso caso as desigualdades sociais conduzem a um quadro dramático de exclusão.

Um trabalho realizado em Ribeirão Preto (SP), por um professor da USP e por um trabalhador da rede pública que atua na Vigilância Sanitária do Município, tem uma característica importante: relata o resultado de uma investigação epidemiológica "conduzida durante as inspeções de rotina". Analisa as condições sanitárias da área de alimentos da rede de supermercados do Município. A característica mais marcante deste trabalho é exatamente essa: emprego na prática da mais vezes apregoada que cumprida "Investigação em Serviços de Saúde", pelo próprio pessoal dos serviços.

Além do tradicional Noticiário, apresentamos neste número uma Resenha de Livro preparada pela Professora Maria da Penha Costa Vasconcellos, do Programa de Pós- Graduação da Faculdade de Saúde Pública da USP. Analisa o livro "Metodologias Participativas para trabalhos de Promoção de Saúde e Cidadania", Vetor Editora (2002), da Professora Rosalina Carvalho da Silva, do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP/ Ribeirão Preto. Introduz, numa Revista de Epidemiologia, análise de outra maneira de encarar as metodologias qualitativas que a Psicologia Social tem empregado para mergulhar no universo que lhe é próprio da reflexão sobre questões subjetivas, interpessoais e de convivência em sociedade. Nosso intuito, ao publicar esta Resenha, é o de apontar para a possibilidade que tem sido pouco explorada numa Revista de Epidemiologia como a nossa, que se dispõe a publicar trabalhos que utilizem metodologia qualitativa para interrogar a realidade epidemiológica. Esse livro não esgota as fantásticas possibilidades de estudos epidemiológicos com metodologias qualitativas e sua triangulação analítica com os métodos quantitativos. Associando esta Resenha a um dos trabalhos publicados neste número, fica evidente que a investigação nos serviços, pelo pessoal de serviço, muitas vezes se vale destas práticas participativas. A própria tentativa de resgate de uma "medicina baseada em narrativas", que não se contrapõe, mas complementa a hegemônica "medicina baseada em evidências" é outro importante motivo para abrir espaço numa Revista de Epidemiologia a alternativas teóricas e metodológicas. As "evidências" não devem ser encaradas apenas em seus vieses quantitativos, como querem alguns que parafraseiam Lord Kelvin, com mais de um século de atraso, em sua máxima de que "quando não se pode medir, o conhecimento é frágil e insatisfatório".

Finalmente, temos um Editorial Especial, de autoria de Ana Bernarda Ludermir, Professora do Departamento de Medicina Social da UFPE e Presidente do VI Congresso Brasileiro de Epidemiologia. Não apenas divulga o lema "Um Olhar sobre a Cidade" e os eixos temáticos do Congresso. Faz mais, convoca os leitores da RBE para junho deste ano estarem em Recife participando do que é sem dúvida uma das mais importantes iniciativas científicas da Epidemiologia brasileira. Apresenta a fantástica apreciação preliminar de mais de três mil e oitocentos trabalhos inscritos ! Mais do que isso, lembra que o lema do Congresso rende homenagem póstuma a Dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife. Nas trevas que se abateram sobre o país durante a ditadura militar, Dom Hélder lançou uma réstea de luz: um programa de rádio com o mesmo lema denunciava a repressão exercida pelo poder discricionário da época. Ana Bernarda ameniza o Editorial Especial mencionando a poesia que a cidade de Recife transmite, pela paisagem "anfíbia" e pela voz de seus poetas. Sendo de lembrar a pérola quase epidemiológica de um dos maiores, Manuel Bandeira, no uso quase abusivo do valor preditivo das hemoptises no prognóstico de gravidade de um caso de tuberculose que dispensava a medida heróica do pneumotórax: "neste caso, só mesmo cantando um tango argentino".

Tenham todos uma boa leitura.

 

O Editor.