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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.10 n.1 São Paulo Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2007000100015 

OBTUÁRIO

 

 

Faleceu Juan Samaja, pensador argentino, freqüentador assíduo de nossos Congressos e grande amigo da Abrasco. Em sua homenagem transcrevemos um currículo sucinto extraído da apresentação de sua obra "Epistemologia e Metodologia", sexta reimpressão ampliada, editada em 1999 por EUDEBA, Buenos Aires.

Iniciamos, ainda, a publicação de uma série de "Testemunhos" de amigos com um texto de Lia Giraldo da Silva Augusto, do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, da Fiocruz em Recife, Pernambuco. Esperamos novos testemunhos de brasileiros e latino-americanos que conviveram com mestre Samaja.

 


 

Juan Samaja, Profesor Titular Regular de Metodología de la Investigación Psicológica, en la Facultad de Psicología de Buenos Aires. Realizó sus estudios de grado e postgrado en la Universidad Nacional de Buenos Aires, obteniendo los títulos de Profesor en Filosofía (1968), Licenciado en Sociología (1974) y Diplomado en Salud Pública (1974).

Obtuvo el Doctorado en Ciencia en la Escola Nacional de Saúde Pública (FIOCRUZ – Rio de Janeiro) del Ministerio de Salud del Brasil (1997). Fue miembro titular del Departamento de Investigación del Instituto Nacional de Epidemiología, de Mar del Plata (entre 1971 y 1976), y ocupó la titularidad de la cátedra universitaria en diversas universidades del país y del extranjero. En particular, fue Profesor Ordinario en la Facultad de Humanidades de la Universidad Nacional de Mar del Plata, de la cual llegó a ser Decano inmediatamente antes de la debacle institucional argentina (1975) y a la que retornó en los años 1986 a 1991; en la Maestría de Medicina Social de la Universidad Autónoma Metropolitana (Xochimilco) de México, DF, (1979); y fue Profesor Visitante en las universidades autónomas (estatales) de Honduras y de Nicaragua (de 1976 a 1983). Dirigió dos Maestrías en Epistemología y Metodología (U. N. de San Juan y U. N. del Nordeste) y participa como profesor en cursos de maestrías y doctorados de instituciones de primer nivel en el Centro de Estudios Avanzados (UBA); en la Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO); en la Secretaria de Postgrado y Secretaria de Investigaciones de la FADUUBA, en la Facultad de Ciencias Económicas de la UNER, entre otras.

 


 

Morre Juan Alonso Samaja: transcendem a obra e o exemplo do filósofo, do cientista, do professor, do amigo e antes de tudo da pessoa em profunda congruência com as idéias, as circunstâncias de vida e o compromisso de cuidar do próximo. Tudo em um movimento de profunda solidariedade.

 

 

Lia Giraldo da Silva Augusto Pesquisadora Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

 

No último dia 3 de fevereiro faleceu Juan Alonso Samaja. Personalidade querida da geração que fez e faz a luta pela saúde na America Latina como um direito humano universal. Conheci Samaja no Congresso da Associação Latino-Americana de Medicina Social – ALAMS, em Caracas, no ano de 1989. Ali estava um homem curioso e aberto para ouvir e debater as teses do Congresso. Eu, sentada ao lado dele, nada sabendo inicialmente de seu perfil acadêmico, recebia sua gentil atenção e comentários muito interessantes. Na época, eu era uma sanitarista de serviço, engajada no fazer acontecer aquilo que os intelectuais da saúde pública de esquerda debatiam. Encantava-me com aquela oportunidade. Era a minha segunda participação nesses encontros políticos da Academia Latino-Americana de Medicina Social. Os Congressos da ALAMS e da Associação Internacional de Políticas de Saúde – IAPH, que algumas vezes ocorreram conjuntamente, eram uma fonte de inspiração. Entusiasmada contava-lhe as minhas iniciativas e ele ouvia com a alegria do professor que também aprende. Na ocasião eu tratava de refletir as questões dos problemas de saúde ambiental e de saúde dos trabalhadores vividos na prática do sanitarista. Inquieta e insatisfeita com os modelos de causalidade, buscava articular as questões complexas às ações transformadoras com as quais estava comprometida. Juan Samaja discorria sobre os passos de uma ontologia transdisciplinar para a saúde e suas dimensões: era tudo o que eu precisava para construir um modelo de intervenção contextualizado para os graves problemas de saúde pública que vivenciava em Cubatão-SP, especialmente os relacionados aos processos produtivos. Samaja brindou-me com um poderoso ferramental de meta análise, que até então eu não tinha tido a oportunidade de conhecer. Ficamos amigos; uma profunda simpatia e cumplicidade nasceram entre nós. No Congresso seguinte da ALAMS, em Buenos Aires, assisti a um curso dado por ele e então tomei contato com sua ampla produção bibliográfica. A partir daí ele passou a ser uma referência permanente de meus trabalhos acadêmicos, em particular a relacionada com Matrizes de Dados. Era o pensamento complexo aplicado ao equacionamento de problemas de saúde e do desenvolvimento humano. Quando passei à condição de Coordenadora da Pós-Graduação no Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, em 1996, Samaja foi convidado a ser nosso colaborador, e periodicamente ministrou disciplinas que integravam o tema da saúde ambiental. Foi também forte colaborador do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, muito próximo de Naomar, a quem tinha também grande apreço. Foi nesse processo que ele fez o seu encontro "intelectual" com Milton Santos, leu grande parte de sua obra e passou a reputá-lo como um dos maiores pensadores da América Latina. Aceitava desafios para trazer luz aos nossos questionamentos. Presenteou-nos com um curso especialmente desenhado denominado "método para uma epidemiologia miltoniana", tema que foi também apresentado no Congresso de Saúde Coletiva da Abrasco em Brasília, em 2003. Assim foi Juan Samaja, um homem refinado e aberto, que tratava a todos com muita amorosidade e respeito. Aquele sorriso largo, aquela voz grave, os olhos atentos sob as sobrancelhas largas, dava ao seu poder de comunicação uma moldura doce. Além de tudo, Samaja era um primoroso Professor, muito próximo dos alunos, de invejável didática e pedagogia. A última vez que esteve conosco, em 2003, fomos com ele desfrutar um lual na praia de Boa Viagem, todos os alunos encantados, à sua volta, ouvindo-o tocar guitarra e cantar belos tangos. Em total descontração, contou-nos particularidades de sua militância política, por exemplo, do período em que esteve nas fileiras sandinistas; na mesma época em que outros intelectuais engajados, como Sérgio Arouca e Pedro Luís Castelhanos, também prestavam sua solidariedade internacionalista. Assim, transmitia-nos seus valores mais fundamentais, em absoluta consonância com sua história de vida e suas idéias. Um filósofo hegeliano, marxista, contemporâneo, que dialogava com a semiótica de Pierce e os construtivistas desde Kant, Vigotzky, Bruner, Piaget, entre outros, articulando Aristóteles a Humberto Maturana. Em se tratando de princípios intelectuais e políticos, não fazia concessões. Era homem íntegro, modesto, sereno e consciente de seu compromisso com as transformações sociais em favor da humanidade. Falava-nos que a humanidade do humano estava em sua necessidade de cuidar do outro. Em cima disto fazíamos reflexões sobre o sujeito e a noção de pessoa "que se constitui quando o sujeito alcança o reconhecimento dos demais sujeitos, de seus vínculos com suas condições de existência e de que tem relações de direito."

Este breve testemunho nos remete apenas às circunstâncias vividas em amizade com Juan Samaja, sem neutralidade. É uma homenagem de reconhecimento que prestamos a esta grande pessoa que marcou definitivamente o pensamento da Saúde Coletiva latino-americana. Espero que não passe muito tempo para que toda a sua obra esteja traduzida para o português e amplamente difundida, e que nós brasileiros possamos melhor conhecê-la e utilizá-la de acordo com sua intenção: a de revolucionar. Sim, pois Juan Alonso Samaja foi um revolucionário. Viva Samaja!