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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.10 n.2 São Paulo Jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2007000200004 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Caracterização do consumo de maconha entre escolares do ensino médio de São José do Rio Preto, SP, Brasil, 2003

 

Marijuana consumption among high school students in São José do Rio Preto, State of São Paulo, Brazil, 2003

 

 

Rafael Augusto Borges PavaniI; Elissandro de Freitas SilvaI; Maria Silvia de MoraesII; Francisco Chiaravalloti NetoII, III

IGraduandos em Medicina, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, SP
IIDepartamento de Epidemiologia e Saúde Coletiva, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, SP
IIISuperintendência de Controle de Endemias, São José do Rio Preto, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Caracterizar o consumo de maconha entre escolares do ensino médio do município de São José do Rio Preto - SP.
MÉTODO: Utilizou-se um estudo de corte transversal em escolas públicas do ensino médio com uma amostragem de conglomerados. Foram aplicados 1.041 questionários autopreenchíveis de maneira coletiva nas classes, mantidos sem identificação. As variáveis selecionadas foram cruzadas e para a associação foi realizado o teste do qui-quadrado com nível de significância de 5%.
RESULTADOS: As prevalências do consumo de maconha foram: uso na vida, 12,1%; no ano, 7,4%; no mês, 4,1%; e na semana, 2,9%. O consumo de maconha na vida foi mais prevalente no sexo masculino, período escolar noturno, estado civil casado, não ter ou não praticar religião e não morar com pai e/ou mãe. Relacionamento bom com os pais e os pais viverem juntos com bom relacionamento estavam associados a menor consumo de maconha. Dentre as atividades de lazer, aqueles que experimentaram maconha referiram mais sair sem destino certo, ir dançar, freqüentar bares e ficar com namorado(a), e menos assistir televisão, sair com a família e ir ao cinema. Ingerir bebida alcoólica toda semana e usar tabaco estiveram associados a um maior índice de experiência com maconha. Experimentar maconha relacionou-se com maiores índices de experiência com anfetamínicos, alucinógenos, cocaína e crack.
CONCLUSÃO: O consumo de maconha está relacionado a muitas variáveis. Família e religiosidade estão associadas a menor consumo de maconha, enquanto desajuste familiar e uso de álcool e tabaco estão associados a maiores índices de consumo da droga.

Palavras-chave: Consumo de maconha. Estudantes. Epidemiologia. Família. Drogas ilícitas. Transtornos relacionados ao uso de substâncias.


ABSTRACT

OBJECTIVE: This research aimed to study marijuana consumption among high school students in São José do Rio Preto, SP, Southeastern Brazil.
METHOD: A cross-sectional survey was carried out in São José do Rio Preto. A self-completion questionnaire was given to a proportional sample of 1,041 teenagers enrolled in the 9th, 10th and 11th grades of public schools.
RESULTS: The prevalence of marijuana consumption was: throughout life: 12.1%, in the past year: 7.4%, in the past month: 4.1%, and in the past week: 2.9%. Marijuana consumption was more prevalent in male, nighttime students, married individuals, those who work, those who do not have a religion or do not practice it, and who does not live with a father and/or mother. Excellent or good relationship with parents and parents living together with a good relationship were associated with less prevalent marijuana consumption. Students that experimented marijuana referred activities like wandering, going dancing, attending bars, and staying with boyfriend / girlfriend more frequently as leisure activities, and referred watching TV, going out with family and going to the movies less frequently than the population in general. Weekly alcohol consumption and tobacco use were associated with higher marijuana experience indices. Marijuana experience is associated with greater amphetamine, hallucinogen, cocaine, and crack experience indices.
CONCLUSION: Marijuana consumption is associated with many variables. Family and religiosity may be protective factors against the marijuana experience, while family disharmony, tobacco and weekly alcohol use were associated with higher marijuana consumption indices.

Keywords: Consumption of marijuana. Students. Epidemiology. Family. Illicit drugs. Substance-related disorders.


 

 

Introdução

Nos últimos anos, muitos estudos têm demonstrado um índice elevado para o uso abusivo de drogas lícitas e ilícitas entre os adolescentes1-6. No período de 14 a 16 anos de idade, encontra-se o maior índice de início do consumo de drogas ilícitas e de tabaco1,2, demonstrando a importância da fase de adolescência na questão das drogas7. Nesta fase há rápido desenvolvimento biopsicossocial, e as dificuldades na resolução do processo podem influenciar pelo resto da vida8.

No Brasil, segundo a literatura, há índices significativos de usuários de drogas nas escolas2,5,9,10. Dentre as drogas ilícitas, a maconha é uma das mais experimentadas e utilizadas com maior freqüência por adolescentes no Brasil e também em outros países, como Chile, México, Estados Unidos, Noruega e Croácia, e na América Central3,6,11-15.

O consumo de maconha é um problema de saúde pública difícil de ser controlado, pois se associa às características próprias da adolescência, na qual surgem conflitos com os pais e a sociedade, busca por liberdade individual e desejo por novas experiências7,8,16. Essa droga é freqüentemente considerada pelos jovens menos maléfica do que outras drogas ilícitas ou mesmo lícitas, e mais aceita socialmente, mesmo com o reconhecimento dos comprometimentos familiares, sociais e biológicos resultantes do uso contínuo7,16-18.

Segundo o I Levantamento Domiciliar Nacional Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas realizado pelo CEBRID, a maconha é a droga ilícita mais consumida no Brasil. Estudos mostram, no Brasil, o índice de uso de cannabis na vida entre escolares variando de 6,6 a 19,9%, com a idade da primeira experiência concentrada na faixa de 14 a 16 anos1,3,10,19. O uso na semana ou uso freqüente ficou entre 0,9 e 4,4%1,2,4,9. Essa droga é utilizada por todas as classes sociais em níveis elevados, quando comparada com as outras drogas ilícitas7,9,20,21.

Alguns dos fatores relatados, relacionados ao consumo de maconha, foram: disponibilidade financeira, disponibilidade da droga, tolerância social, uso de drogas entre amigos ou na família, depressão, problemas familiares, estudo em período noturno, relacionamento ruim com quem mora, uso de tabaco, consumo semanal de álcool, comportamentos de risco e delinqüência, comportamento sexual de risco, maior taxa de faltas à escola, maior número de reprovações escolares, não trabalhar, e morar sozinho ou com amigos1,5,6,14,15,21,22.

Assim como o tabagismo e o etilismo estão associados ao consumo de maconha, a experiência com essa droga é por vezes considerada a "porta de entrada" para drogas mais pesadas, como cocaína, alucinógenos e crack16-18. Sanchez e Nappo (2002) entrevistaram 31 usuários ou ex-usuários de crack em um estudo qualitativo para saber a seqüência de drogas utilizadas por eles. O estudo indicou uma primeira fase de uso pesado de drogas lícitas (álcool e tabaco) em idade precoce, seguida por uma segunda fase com consumo de maconha, iniciado geralmente entre 12 e 16 anos de idade. Todos os entrevistados referiram ter utilizado maconha antes de começarem drogas mais pesadas como cocaína, alucinógenos e crack (apenas um referiu utilizar primeiro chá alucinógeno e depois maconha). A maconha foi considerada por eles uma droga "leve" e sem capacidade de dependência, e a progressão para drogas mais pesadas decorreu da busca por maior prazer17.

Em 2003 foi realizada uma pesquisa em São José do Rio Preto - SP envolvendo 1.035 escolares do ensino médio, resultando em uma caracterização da prevalência do consumo de substâncias psicoativas semelhante à encontrada em outros estudos23. Nessa pesquisa obtiveram-se dados referentes ao consumo de maconha e outras drogas, vida familiar dos alunos, religião, trabalho, escolaridade dos pais, atividades de lazer, entre outros, que em uma análise preliminar encontrou freqüência de uso de maconha de 12,1% na vida, 7,4% no ano, 4,1% no mês e 2,9% na semana23.

O presente estudo tem como objetivo geral caracterizar a população de usuários de maconha das escolas públicas do ensino médio de São José do Rio Preto, SP, Brasil, através dos dados obtidos na pesquisa de 200323. Serão analisadas variáveis socioeconômicas, o relacionamento familiar, atividades de lazer e consumo de outras drogas, visando além da caracterização, o delineamento de possíveis fatores protetores ou de risco para o consumo de maconha.

 

Metodologia

Área de estudo, população alvo

A cidade de São José do Rio Preto localiza-se na região sudeste do Brasil, no Estado de São Paulo, e dista 442 km, em sentido noroeste, da capital. A população estimada para o ano de 2003 era de 382.273 habitantes24. O universo amostral constituiu-se de 425 turmas de 22 escolas públicas de ensino médio com 15.134 alunos matriculados e uma média de 35,6 alunos por turma. A Diretoria Regional de Ensino de São José do Rio Preto forneceu o número de alunos, o turno (diurno e noturno), a série (primeira, segunda e terceira) e a localização (centro e periferia).

Desenho do estudo e amostragem

Do repertório epidemiológico para abordar a questão do consumo de substâncias psicoativas, os estudos de corte-transversal cobrem satisfatoriamente os objetivos do trabalho. Utilizou-se uma amostragem por conglomerados em único estágio: turmas.

Elaborou-se lista com todas as 425 turmas e as respectivas quantidades de alunos ordenadas em primeiro lugar pelo turno, em segundo pela localização e em terceiro pela série. Por intermédio de sorteio sistemático, 41 turmas foram selecionadas, com a inclusão na amostra de todos os alunos pertencentes a cada uma delas. Três escolas não tiveram salas sorteadas. O sorteio sistemático proporcionou a estratificação da amostra segundo localização, turno e série.

Maiores detalhes no desenho do estudo e cálculo do tamanho da amostra podem ser encontrados no artigo Prevalência do Uso de Drogas entre Escolares do Ensino Médio de São José do Rio Preto23.

Instrumento de coleta de dados

Para a obtenção das informações sobre o consumo de drogas e outros dados, foi utilizado um questionário anônimo auto-aplicado, com 66 questões, a maioria pré-codificada, tratando-se de caracterização sociodemográfica (sexo, estado civil, faixa etária, trabalho, religião, moradia), aspectos familiares (relacionamento entre os pais, relação com os pais, escolaridade dos pais) e sobre atividades de lazer. O questionário foi desenvolvido para o estudo, baseando-se no instrumento utilizado por Galduróz et al (1997)10. Para avaliar o consumo de drogas foram consideradas as seguintes categorias para o uso de substâncias psicoativas, de acordo com a classificação da OMS25:

  • Uso na vida: usou pelo menos uma vez na vida;
  • Uso no ano: usou pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores à pesquisa;
  • Uso no mês: usou pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores à pesquisa;
  • Uso na semana: usou pelo menos uma vez nos 7 dias anteriores à pesquisa;

Realizou-se um pré-teste com a aplicação do questionário em uma turma de alunos e adaptação do material para as dificuldades levantadas. Os questionários foram aplicados nos meses de Outubro e Novembro de 2003, de maneira coletiva nas turmas selecionadas, e mantidos sem identificação. Não havia data marcada para a aplicação, e só participaram da pesquisa os alunos presentes na sala de aula no dia da aplicação do questionário e que entregaram o Termo de Consentimento assinado por responsável. Não houve critérios de exclusão.

Análise dos dados

Os questionários foram conferidos individualmente para a exclusão daqueles entregues em branco ou claramente não fidedignos (discrepâncias entre respostas), e digitados em um banco de dados no Microsoft Excel 2000®. Responderam ao questionário 1.041 alunos, com 6 exclusões.

A análise estatística foi realizada nos programas Epi Info 2002® e Intercooled Stata 7.0®, considerando desenho amostral por conglomerados com a turma como unidade primária de amostragem (UPA). Não foi considerada para a análise estatística a estratificação em turno, localização e série.

Foram selecionados para as análises os usuários de maconha na vida e no mês, buscando abordar tanto um consumo experimental (uso na vida) como um consumo atual e possivelmente mais freqüente (uso no mês). Foi utilizado o consumo no último mês e não o na última semana por não haver diferença entre as prevalências de uso de maconha no mês e na semana, segundo o Intervalo de Confiança (IC) de 95% (respectivamente 4,1% com IC de 2,3 a 5,9%, e 2,9% com IC de 1,5 a 4,3%)23, obtendo-se um aumento na amostra de 29 alunos para 42 alunos, com maior precisão nos cálculos estatísticos.

As variáveis uso de maconha na vida e uso de maconha no mês foram cruzadas com as outras variáveis selecionadas. A existência de associação nos cruzamentos foi considerada quando o p-valor era inferior a 0,05.

Ética da Pesquisa

A pesquisa foi autorizada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, sob protocolo número 5561/2002, pela Diretoria Regional de Ensino de São José do Rio Preto e pelos diretores de cada escola. As escolas sorteadas e seus alunos foram convidados a participar da pesquisa, sendo solicitados aos participantes, ou ao responsável quando o aluno era menor de idade, assinarem um termo de consentimento livre e esclarecido para a participação na pesquisa. Não houve recusa por parte das escolas sorteadas.

Não há conflito de interesses na realização do estudo.

 

Resultados

A partir da aplicação dos questionários nas 41 turmas sorteadas, obteve-se uma amostra de 1.035 alunos. A maioria dos estudantes estava na faixa etária de 16 a 17 anos (56,6%), seguida pelas faixas de 14 a 15 anos (21,5%) e 18 a 19 anos (17,7%). A parcela mais expressiva (67%) morava com pai e mãe e 19,3% moravam apenas com a mãe. Em relação à religião, 61,7% declararam-se católicos, 22,7% evangélicos/protestantes e 6,8% sem religião. As distribuições por sexo se equivalem a 48,2% e 51,8%, respectivamente para o sexo masculino e feminino23. As freqüências para o uso de maconha na vida e no mês foram 12,1% e 4,1% respectivamente.

A idade da primeira experiência com maconha foi entre os 14 e os 16 anos, segundo 74,2% dos alunos, com média de 15 anos de idade (Tabela 1).

Na Tabela 1 encontra-se a prevalência do uso de maconha na vida e no mês relacionada com algumas variáveis. Maiores taxas de consumo na vida e no mês foram encontradas no sexo masculino, no período noturno e no grupo dos que não têm religião ou não praticam sua religião (p<0,05). Estado civil casado, trabalhar e não morar com pai e/ou mãe estiveram associados a maiores índices de experimentação da droga, mas não ao uso recente (no mês). Contudo, quando se considerou apenas morar com pai e mãe, essa condição mostrou prevalência inferior para o consumo de maconha no mês (p<0,05).

O consumo de maconha segundo o relacionamento familiar e a escolaridade dos pais encontra-se na Tabela 2. A prevalência de uso na vida nos escolares cujos pais vivem juntos e mantêm um bom relacionamento entre si foi de 8,4%, inferior à prevalência de 17,2% (p-valor <0,05) nos escolares em que os pais viviam em outra situação (juntos com relacionamento regular/ruim, separados, pai falecido, mãe falecida, pai e mãe falecidos). A freqüência de consumo no mês não se relacionou significantemente com a situação conjugal (p=0,061).

Relacionamento ótimo ou bom com o pai esteve associado a menores índices de uso de maconha na vida e no mês, e relacionamento ótimo ou bom com a mãe esteve associado a menor índice de experiência com maconha, mas não com o uso no mês (Tabela 2). Ao considerarmos apenas o relacionamento ótimo com a mãe, este se associou a menores índices de consumo no mês, com p<0,01.

Quanto à escolaridade, a única associação encontrada foi entre a mãe possuir ensino médio completo a ensino superior completo, e maior prevalência de experiência com maconha (14,9% contra 10,9% para mãe até ensino médio incompleto, p-valor <0,05).

Na Tabela 3 encontram-se as atividades de lazer mais comuns entre os escolares em geral, comparando com os estudantes que já fizeram uso de maconha alguma vez na vida. As atividades mais relacionadas àqueles que experimentaram maconha foram (p<0,05): sair sem destino certo, ir dançar, freqüentar bares e ficar com namorado(a), enquanto aquelas menos relacionadas foram (p<0,05): assistir televisão, sair com a família e ir ao cinema. Com outras atividades não houve diferença significante. Para o consumo no mês, as diferenças se acentuaram, mantendo as significâncias, porém a atividade usar computador/videogame foi menos citada por aqueles que utilizaram maconha no mês (p-valor <0,05).

 

 

Na Tabela 4, maior prevalência de experiência com maconha foi relacionada com a ingestão de bebida alcoólica semanalmente, e uso de tabaco, com p<0,0001. Dentre os que ingerem bebida alcoólica toda semana, 35,5% experimentaram maconha, e dentre os que fumam tabaco 35,9% experimentaram, enquanto para os que não apresentaram essa exposição os índices ficaram em 8,1% e 2,9% de experiência, respectivamente.

 

 

Na Tabela 5, temos a prevalência do consumo de cocaína, crack, anfetamínico, alucinógeno, álcool e tabaco segundo o consumo de maconha na vida. A experiência com maconha esteve relacionada ao maior consumo de todas essas drogas (p<0,0001). De 34 escolares que experimentaram cocaína, apenas 5 não experimentaram maconha, e os 14 experimentadores de crack usaram maconha. Contudo, devido à característica do estudo em corte transversal, não é possível estabelecer a temporalidade dos eventos.

 

 

Discussão

O estudo apresenta limitações quanto à generalização dos resultados para todos os alunos de ensino médio do Brasil e para os adolescentes em geral, pois trata de alunos que freqüentam escolas públicas em uma localidade específica. Nos adolescentes que não freqüentam a escola, a apresentação e a freqüência de consumo de drogas tendem a possuir outro perfil1,4,6.

Devido à realização da coleta de dados nas classes em dia único e incluir apenas os alunos presentes no momento, o resultado para o uso de drogas pode estar subestimado quanto à freqüência de uso e consumo de drogas mais pesadas, uma vez que os alunos cronicamente faltosos consomem drogas com maior freqüência e utilizam drogas mais pesadas1,4,6,9.

O consumo de maconha apresentou-se alto em São José do Rio Preto, quando comparado com o Brasil em geral3,10,23; contudo, continua entre os índices já encontrados em outras cidades brasileiras3,9,10,19,23. A idade da primeira experiência (Tabela 1) foi semelhante à encontrada em outros estudos, nos quais as médias variaram entre 14 e 17 anos de idade3,9,12,19.

Sexo masculino e período de estudo noturno são freqüentemente associados a um maior consumo de maconha e drogas ilícitas em geral, com exceção para o uso de medicamentos9,11,12,19,21,23, de acordo com os resultados encontrados nesse estudo (Tabela 1).

Uma convivência familiar harmoniosa é relatada na literatura como fator associado ao menor consumo de drogas5,14,22,26. Como visto na Tabela 2, os pais viverem juntos com bom relacionamento, e relação ótima ou boa com pai ou mãe estão relacionados a menores índices de experiência e uso de maconha no último mês, enquanto uma relação regular, ruim ou péssima associa-se a um maior consumo da droga. Não morar com pai e/ou mãe, que também esteve relacionado a um maior uso de maconha, pode fazer parte de um relacionamento familiar ruim26.

A religiosidade é citada na literatura como protetora para a experiência com maconha e outras drogas26,27, e no presente estudo a prática da religião esteve associada a menores índices de experiência e uso mais freqüente de maconha. Por outro lado, estar casado e trabalhar estão associados a maiores índices de experimentação de maconha.

Por se tratar de estudo com escolares do ensino médio, cerca de 78% menores de idade23, no período mais comum de início do consumo de drogas, é possível que as associações da experiência com maconha e período noturno, estado civil casado e trabalhar ocorram devido à confusão com a idade. Visando avaliar essa hipótese, foram calculadas as médias de idade dos escolares segundo o uso de maconha na vida, período escolar, estado civil e trabalho (Tabela 6). Tanto os alunos que experimentaram maconha como os do período noturno, os casados e os que trabalham, têm idade significantemente superior à dos respectivos escolares em outra situação, indicando ser válida a hipótese de confusão com a idade para essas variáveis.

 

 

Na Tabela 2 é observada a correlação entre a mãe possuir ensino médio completo ou ensino superior e um maior índice de experiência com maconha em relação àqueles com mãe de menor escolaridade. Esse dado pode significar disponibilidade financeira, associada a um maior consumo de drogas ilícitas em alguns estudos12,13,21, menor contato com a mãe, resultando em um pior relacionamento familiar, já discutido, ou dever-se a confusão com outras variáveis, esta devido à não correlação entre a experiência com maconha e a escolaridade do pai, ou uso no mês e escolaridade da mãe.

Quando foram listadas as atividades de lazer mais comuns entre os escolares no geral e entre aqueles que já experimentaram maconha (Tabela 3), houve destaque para o relacionamento familiar. Enquanto em geral 42% referiram sair com a família, entre os que experimentaram maconha 14,4% referiram essa atividade (p<0,0001). Menos usuários na vida referiram assistir televisão e ir ao cinema, atividades que podem estar relacionadas a ambiente familiar (ver televisão), menor disponibilidade financeira e ambiente público sem possibilidade de consumir a droga (ir ao cinema). Contudo esse poderia ser apenas o perfil do experimentador de maconha, sem influência na experiência com a droga.

A Tabela 4 apresenta a significante associação do uso de álcool toda semana e de tabaco com a experiência com maconha, relatada em outros estudos14,17,22. O uso dessas substâncias poderia significar uma primeira fase antes do início do consumo de maconha17, indicando uma predisposição nos usuários pesados de drogas lícitas para a experiência com outras drogas.

A experiência com maconha é relatada como uma importante fase antes do consumo de drogas ilícitas mais pesadas, como a cocaína, o crack e alucinógenos14,17,22. Nesse estudo, maior prevalência da experiência com cocaína, crack, anfetamínicos e alucinógenos foi encontrada naqueles que também experimentaram maconha (Tabela 5, p<0,0001). Apesar de não sabermos a temporalidade dessas associações, o consumo de maconha ocorre geralmente em idades mais precoces que o das outras drogas citadas1,2,3,9,12,19. Sanchez & Nappo (2002) relataram o consumo de maconha antecedendo o de cocaína, alucinógenos e crack em 30 de 31 usuários ou ex-usuários de crack.

A presença de álcool e tabaco na Tabela 5 indica também o maior consumo de drogas lícitas entre aqueles que já experimentaram maconha, dado importante pelo fato de o consumo destas drogas ser, epidemiologicamente, mais prejudicial à saúde e à sociedade.

 

Conclusão

O consumo de maconha relaciona-se com muitas variáveis, inclusive cultura e situação socioeconômica de cada localidade. Portanto, na avaliação de fatores de risco e protetores, deve-se ficar atento à confusão entre as diversas variáveis envolvidas.

Uma família harmoniosa e a religiosidade mostraram-se possíveis fatores de proteção ao consumo de maconha. Os adolescentes que experimentaram maconha tendem a possuir atividades de lazer com diferenças quanto aos que não experimentaram, possivelmente indicando perfis psicológicos, econômicos e/ou sociais diversos. O consumo de outras drogas ilícitas e de drogas lícitas foi mais comum entre aqueles que experimentaram maconha, fortalecendo a idéia da progressão no consumo de drogas, das lícitas para a maconha, e desta para outras drogas ilícitas.

O estudo caracterizou os usuários de maconha, servindo de auxílio a futuras pesquisas epidemiológicas sobre o abuso de drogas. Ao considerar os aspectos relacionados ao consumo de maconha, programas de prevenção e recuperação de jovens envolvidos com essa e outras drogas podem ser mais eficazes, visando minimizar os danos físicos e psíquicos ao indivíduo, assim como os prejuízos à sociedade.

 

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Correspondência:
Rafael Augusto Borges Pavani
Departamento de Epidemiologia e Saúde Coletiva
Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto
Av. Brigadeiro Faria Lima 5416
São José do Rio Preto, SP - 15090-000, Brasil
E-mail: rafael_pavani@universia.com.br

Recebido em: 22/09/06
Versão final reapresentada em: 25/04/07
Aprovado em: 04/05/07
Financiamento: Bolsa de Iniciação Científica - BIC, FAMERP, processo número 3287/2004.