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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.11 n.2 São Paulo Jun. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2008000200008 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Prevalência e fatores de risco de anemia em mães e filhos no Estado de Pernambuco

 

Prevalence and risk factors of anemia among women and their children in the State of Pernambuco

 

 

Shirley Cristina Lima e SilvaI; Malaquias Batista FilhoII; Teresa Cristina MiglioliIII

IFaculdade do Vale do Ipojuca - FAVIP
IIInstituto Materno Infantil Profº Fernando Figueira (IMIP)
IIICentro de Pesquisa Aggeu Magalhães - CPqAM/Fiocruz

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estudar a prevalência e fatores de risco de anemia em mães e filhos menores de 5 anos, no Estado de Pernambuco, em três espaços geográficos: Região Metropolitana do Recife (RMR); Interior Urbano (IU) e Interior Rural (IR).
MÉTODO: Estudo seccional, em amostra representativa de 807 mulheres adultas e 827 crianças menores de 5 anos, sorteadas em 3 estágios (municípios, setores censitários e famílias), possibilitando 523 pareamentos mães x filhos biológicos. A hemoglobina foi determinada em aparelho portátil (HemoCue). Fez-se avaliação de fatores de risco (biológicos, socioeconômicos, ambientais e acesso a serviços de saúde).
RESULTADOS: No conjunto dos resultados, 21,8% das mulheres e 46,9% das crianças tinham anemia, prevalências semelhantes no pareamento mães/filhos biológicos. As prevalências mais baixas de anemia foram encontradas no IU, enquanto as mais elevadas ocorreram no IR. Ocorreu associação entre a situação das mães e dos filhos, com um RP = 1,45, IC (95): 1,21-1,74. Quatro fatores de risco foram comuns às mães e filhos: tipo de ocupação das moradias, coleta de lixo, assistência pré-natal e distância do serviço de saúde. As crianças incorporam mais sete fatores: idade da mãe, idade da criança, espaço geográfico, baixa escolaridade das mães, baixa renda familiar, tamanho da família e falta de esgotos sanitários.
CONCLUSÃO: A prevalência de anemia se diferencia por espaços geográficos, idade das crianças e condição de exposição de mães e filhos a fatores biológicos, sócio-econômicos e ambientais.

Palavras-chave: Anemia. Prevalência. Mães e filhos. Estado de Pernambuco.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To determine the prevalence and risk factors for anemia in mothers and their children under five years of age in the state of Pernambuco (Brazil) in three geographic areas: Metropolitan Recife (MR); Urban Interior (UI) and Rural Interior (IR).
METHOD: A cross-sectional study was carried out with a representative sample of 807 adult women and 827 children under five years of age selected by lots in three stages (municipal, census sectors and families), which provided 523 biological mother/child pairings. Hemoglobin was determined by a portable hemoglobinometer (HemoCue). Risk factors (biological, socioeconomic, environmental and access to health services) were assessed.
RESULTS: A total of 21.8% of the women and 46.9% of the children had anemia, with a similar prevalence in the mother/child pairings. The lowest prevalence was found in the UI, while the highest rates occurred in the RI. There was an association between the situation of the mothers and children (PR = 1.45; 95%CI: 1.21-1.74). Four risk factors were common to both mothers and children: type of residence, garbage collection, antenatal care, and distance from healthcare services. Children incorporated another seven factors: mother's age, child's age, geographic area, mother's low schooling, low family income, family size, and lack of sewage.
CONCLUSION: The prevalence of anemia is different according to geographic space, child's age and exposure of mothers and children to biological, socioeconomic and environmental factors.

Keywords: Anemia. Prevalence. Mothers and Children. Pernambuco - Brazil


 

 

Introdução

Em termos de magnitude, as anemias configuram a principal endemia carencial do mundo, ocorrendo em cerca de 2.150 milhões de pessoas e se difundindo entre todos os continentes, grupos sociais e segmentos biológicos, embora predominando amplamente nas regiões pobres, nas famílias de baixa renda, no grupo de mulheres no período reprodutivo e em crianças menores de cinco anos1. Avaliações mais recentes chegam a dimensionar valores bem mais elevados, a exemplo do Comitê UNICEF/WHO, 1999, calculando que o problema poderia se estender a um contingente de 3,5 bilhões de pessoas, o que representaria uma prevalência global de aproximadamente 58% da população humana2. Deve-se esclarecer que, embora como problema de patologia humana, as anemias possam compreender o desfecho isolado ou combinado de variados fatores, desde os de natureza genética até múltiplas condições ambientais, na prática o que predomina em nível populacional é a gênese carencial, envolvendo sobretudo a deficiência quali ou quantitativa de ferro alimentar3. É uma condição tão comum que, sempre que a magnitude das anemias se torna elevada, passa a ser assumida como sinonímia de anemia carencial e até especificamente como ferropriva, inclusive com o reconhecimento dos comitês internacionais de especialistas encarregados de estabelecer conceito, normas e recomendações sobre o tema3.

No caso do Brasil, as anemias apresentam uma característica epidemiológica singular, por sua tendência de endemia progressiva documentada em alguns estudos de observações temporais em crianças de São Paulo, no Estado da Paraíba e em escolares do Recife, com aumentos de prevalência variando de 88% a 120%, em intervalos compreendidos entre 10 a 21 anos4-6. É um comportamento que contraria as tendências verificadas em outros problemas carenciais, como a redução da incidência do baixo peso ao nascer (em cerca de 40% nas regiões Norte e Nordeste nos últimos 25 anos), o declínio da desnutrição (déficit altura/idade) em aproximadamente 70%, o desaparecimento da deficiência calórica em escala de saúde coletiva em populações adultas, o controle epidemiológico da carência de iodo e a provável tendência de desaparecimento da hipovitaminose A7.

Apesar da sua importância, dos custos relativamente baixos de sua avaliação em inquéritos populacionais e, ainda, da relativa simplicidade operacional das técnicas de diagnóstico tipo "screening", apenas três Estados (Pernambuco, Piauí e Sergipe) realizaram inquéritos laboratoriais em amostras representativas de sua população de crianças8-10, sendo que, no caso de Pernambuco e Piauí, a avaliação se estendeu ao segmento de mulheres com história reprodutiva. Nestas circunstâncias, a oportunidade de um estudo que, simultaneamente, possa representar os segmentos biológicos mais vulneráveis (mulheres no período reprodutivo e crianças menores de cinco anos), cobrindo o território de um Estado e incluindo variáveis socioeconômicas, ambientais e acesso aos serviços de saúde, configura uma iniciativa que pode oferecer informações interessantes para o dimensionamento, compreensão e novos estudos do problema. Objetiva-se, neste artigo, descrever a prevalência das anemias, sua distribuição no espaço geográfico e relação com possíveis fatores associados à sua ocorrência no binômio mães/filhos, na segunda metade da década de 90 (1997), no Estado de Pernambuco.

 

Materiais e Métodos

O artigo aqui apresentado utiliza-se do banco de dados da pesquisa "Saúde, nutrição, alimentação e condições socioeconômicas no Estado de Pernambuco"8, derivando da criação de um arquivo secundário (ad hoc) com o resgate seletivo de informações sobre o nível de hemoglobina das crianças menores de 5 anos e mulheres com história reprodutiva, incluindo as mães da grande maioria das crianças investigadas.

 

Amostragem

Os procedimentos utilizados para a coleta de dados de campo da pesquisa básica, compreendendo um inquérito de 1.431 famílias, totalizando 7.748 pessoas distribuídas na Região Metropolitana do Recife (RMR), Interior Urbano (IU) e Interior Rural (IR), acham-se detalhadamente descritos no relatório Alimentação, Nutrição e Saúde no Estado de Pernambuco, organizado por Batista Filho e Romani (2002)8, já desdobrado em outra publicação11. No referido estudo básico, considerando o indicador de maior interesse do inquérito (altura/idade < 2 escores Z do padrão NCHS)12, admitindo um erro de ± 3%, um nível de confiança de 95% e uma prevalência estimada de 30% (década anterior para o Nordeste), a amostra calculada foi de 2.012 crianças, para representar o universo de 849.500 menores de 5 anos. Para o caso das anemias em mães, com prevalência estimada em 25%, erro de ± 3% e nível de confiança de 95%, a amostra representativa para o Estado seria de 800 observações. Para as crianças, utilizando uma prevalência de 45% erro de ± 4 e nível de confiança de 95%, o tamanho da amostra resultava em 594 unidades de observação. No entanto, levando em conta o objetivo do pareamento mãe/filho biológico, adotou-se um "n" amostral mínimo também de 800 observações. Estes cálculos são representativos para o conjunto do Estado de Pernambuco, não se aplicando os mesmos critérios de dimensionamento para os três estratos geográficos (RMR, IU, e IR), de modo que os resultados destas sub-áreas devem ser usados, estatisticamente, para comparações entre si.

O processo de amostragem foi desenvolvido em três estágios. No primeiro, foram sorteados os municípios, com uma probabilidade proporcional à sua população; no segundo, foram selecionados aleatoriamente o(s) setor(es) censitário(s) dentro de cada município; finalmente, no terceiro estágio foram indicadas as famílias com crianças menores de 5 anos (crianças-índice) que seriam objeto do estudo. A escolha das famílias e crianças foi feita por sorteio de uma residência inicial, a partir da qual, em sentido anti-horário da localização cartográfica do setor, seriam identificadas as unidades de observação: crianças e mulheres com história reprodutiva. Em cada setor seriam avaliadas em média 46 ± 3 crianças e mulheres com antecedentes de gravidez, entre as quais, necessariamente (se possível) as mães biológicas das crianças da amostra. Foram assim pesquisados 45 setores censitários (16 na RMR, 17 no IU e 12 no IR). No procedimento operacional, para cada três crianças e três mães, uma era indicada para compor a amostra prevista para os exames bioquímicos (hemoglobina, e retinol sérico para as crianças, mais as dosagens de glicose, colesterol e triglicerídios para as mães). Foi estabelecida uma margem adicional de 10% para compensar possíveis perdas nas avaliações de consistência e integralidade das informações. Antes da coleta de dados, as famílias sorteadas foram visitadas por um profissional de comunicação social, oportunizando o esclarecimento dos objetivos e procedimentos do estudo, sorteio e aceitação das pessoas que seriam examinadas.

O desenvolvimento do trabalho incluiu a confecção de 9 blocos de questionários, teste e adaptação dos protótipos propostos, elaboração de guias instrutivos, estabelecimento e teste do plano logístico para o trabalho coordenado de quatro sub-grupos de pesquisadores de campo (entrevistadores, avaliação do consumo alimentar, antropometria e coleta de amostras de sangue para determinações bioquímicas), mobilizando uma equipe de 22 pessoas (médicos, nutricionistas, sociólogos e técnicos de laboratório) durante quatro meses (janeiro a maio de 1997).

Variáveis estudadas

A determinação laboratorial de hemoglobina foi efetuada em aparelho portátil HemoCue com leitura direta e imediata, utilizando-se amostras de sangue coletado por venopunção ou, eventualmente, amostras obtidas da polpa digital.

Para discriminação da anemia, como variável dependente, foram adotados os pontos de corte recomendados pelo Comitê UNICEF/WHO2: hemoglobina abaixo de 12g/dL para as mães e abaixo de 11g/dL para as crianças menores de 5 anos.

Como variáveis independentes foram consideradas:

Variáveis biológicas: idade das crianças (em meses) e das mães (em anos), e peso ao nascer das crianças, ordenado em três categoriais: baixo peso (< 2500g); peso insuficiente (e" 2.500 < 3.000g); peso normal (e" 3.000g). Os dados de peso ao nascer foram obtidos do cartão da criança.

Variáveis do macro e micro-ambiente: espaço geográfico Região Metropolitana do Recife (RMR), Interior Urbano (IU) e Interior Rural (IR), esgotamento sanitário (categorizado em rede geral e sem rede geral), destino do lixo (coletado e não coletado).

Condições socioeconômicas: escolaridade materna (anos de escolaridade), renda familiar total e renda familiar per capita (em salários mínimos), número de pessoas por domicílio (< 5 pessoas, 5-9 pessoas e e" 10 pessoas), regime de ocupação da residência (própria, alugada, cedida ou invadida).

Acesso aos serviços e ações de saúde: visita regular do Agente Comunitário de Saúde (ACS), distância (em km) do serviço de saúde mais próximo (< 1 km; 1-3 km; e" 3 km), assistência pré-natal da mãe (não, sim, número de consultas).

A associação das variáveis foi testada mediante a estimativa de "razão de prevalência de Mantel Haenzel" entre os grupos comparados, com um intervalo de confiança (IC) de 95%. Em uma situação específica (comparação de prevalência de anemia entre mães e filhos por grupos etários das crianças), utilizou-se o teste de proporções percentuais para discriminar, estatisticamente, as possíveis diferenças nos resultados. Nas comparações para identificar fatores de risco, as análises estatísticas foram efetuadas mediante situações dicotômicas, considerando-se o grupo de menor ocorrência como referencial em relação ao de maior prevalência, nos casos em que a variável independente apresentava três ou mais alternativas, como se exemplifica com a estratificação de renda e de escolaridade. Para decisões estatísticas, admitiu-se um erro alfa de 0,05.

Para a realização das análises epidemiológicas, foi utilizado o software "EPI-INFO 6", versão 6.04, mediante a aplicação do teste de Mantel Haenzel, (razão de prevalência).

A pesquisa foi autorizada pelo Comitê de Ética do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco.

Os autores, através de documentação assinada e enviada a RBE, declaram não existir nenhum tipo de conflito de interesses.

 

Resultados

Na Tabela 1, acham-se descritas as características amostrais dos grupos estudados nos diversos espaços geográficos. Destaca-se, no conjunto de informações, o baixo nível educacional das mães (40,1% com 4 anos ou menos de estudo) e de renda, principalmente nas famílias rurais (50% ganhando até ¼ de salário mínimo per capita) e a baixa cobertura em relação ao acesso à rede geral de esgotos sanitários: pouco mais de ¼ das residências.

Para o conjunto amostral de todo o Estado, a freqüência de anemia entre as mães foi de 21,8%, enquanto nas crianças elevou-se para 46,9%, apresentando, assim, uma razão de prevalência de 2,15. Entre as mães, os valores mais baixos (15,9%) foram encontrados no IU, enquanto os mais elevados foram assinalados no IR (24,7%), praticamente equivalentes aos obtidos na RMR (21,8%). Em relação às crianças, a freqüência mais alta de anemia ocorreu na amostra do IR (56,6%), em contraste com a prevalência mais baixa (41,2%) detectada no interior urbano.

Como se verifica no segundo segmento (parte B da Tabela 2) os resultados referentes ao pareamento mãe/filho biológico não diferem da distribuição percentual encontrada no total da amostra do Estado. Provas estatísticas realizadas para comparar diferenças de prevalência entre mães e crianças, sejam ou não filhos biológicos, demonstraram que em todas as situações, com exceção da área urbana do interior (IU), a ocorrência de anemia foi mais de duas vezes maior entre as crianças (Tabela 2).

 

 

Ao analisar, caso a caso, a associação entre a ocorrência ou não de anemia na mãe com a ocorrência ou não de anemia em seu filho biológico, verificou-se que as duas condições se encontram relacionadas de forma estatisticamente significante. Assim, para o conjunto do Estado, as mães anêmicas apresentaram uma probabilidade de 66,3% de ocorrência de anemia em seus filhos, enquanto nas mães não anêmicas a chance de filhos também anêmicos baixou para 45,7%. No interior rural, filhos de mães anêmicas apresentaram um risco de 74,3% de serem, também, portadores de anemia. Apenas no IU esta associação não se confirmou, sob o ponto de vista estatístico (Tabela 3).

 

 

Uma outra análise considerou a idade (< 3 anos/ e" 3anos) como possível fator de diferenciação dos resultados de distribuição das anemias em crianças. Com este tratamento, a ocorrência do problema no grupo de menores de 36 meses foi de 57,6%, enquanto nas crianças maiores de 36 meses situou-se em 24,6%. A freqüência de anemia nas crianças com 36 meses ou mais, tornou-se estatisticamente semelhante à verificada nas mães (21,8%), segundo o teste de diferenças percentuais. Na comparação entre a prevalência de anemia nas mães (21,8%) e filhos menores de 36 meses (57,6%), a diferença percentual de 35,8% para um erro de diferença (Ed%) de 2,6, foi estatisticamente significante (p < 0,01). Já na comparação entre mães e filhos com 36 meses e mais, a diferença percentual (2,8%) equivale ao erro (2,9%), não sendo, assim, estatisticamente significante.

Na Tabela 4 está descrita a relação entre as variáveis biológicas, socioeconômicas, ambientais e de acesso a serviços como fatores associados à anemia das mães e filhos. Nas mães, quatro fatores achavam-se estatisticamente relacionados ao risco de anemia: o regime de ocupação da residência (cessão/invasão), a falta de tratamento do lixo, a falta de assistência pré-natal e a distância do serviço de saúde. Estas condições eram também, fatores de risco para a anemia dos filhos. No entanto, em relação às crianças, mais sete outras variáveis achavam-se associadas à ocorrência do problema: a idade da mãe, a idade da criança, o espaço geográfico (meio rural), a baixa escolaridade da mãe, a renda familiar abaixo de 0,5 salários mínimo, o maior número de membros da família e a falta de esgotamento sanitário ligado à rede geral de esgoto.

 

Discussão

O estudo aqui apresentado resgata um aspecto até então não explorado nas avaliações epidemiológicas das anemias: a prevalência e os fatores associados à distribuição das anemias no binômio mãe/filho, em estudo de base populacional. No caso da desnutrição energético-protéica (DEP) e sobrepeso/obesidade, há um ensaio com este enfoque analisando a relação do problema entre as crianças e suas mães13. Nosso estudo, além de constituir uma possível situação basal sobre as anemias na segunda metade da década passada, pode despertar o interesse para uma linha própria de pesquisas, ou seja, o comportamento das anemias e outros problemas carenciais a partir do micro-ambiente familiar.

Três condições importantes restringem as informações disponíveis sobre as anemias em nosso país: a limitada abrangência territorial dos estudos disponíveis; o fato de que, no período reprodutivo da mulher, a maior parte dos levantamentos se referem apenas a grupos de gestantes atendidas em serviços de saúde de áreas urbanas; e a raridade dos estudos analíticos, abordando os fatores relacionados com a ocorrência do problema. Poder-se-ia, acrescentar um quarto aspecto de interesse simultaneamente descritivo, analítico e programático: a abordagem das anemias sob a ótica do aglomerado familiar que, afinal de contas, representa o próprio micro-ambiente onde ocorre o processo saúde/doença14. É uma peculiaridade singularmente relevante para a compreensão do problema alimentar/nutricional, além de representar uma das abordagens assumidas na concepção e nas operações do Programa de Saúde da Família, no Brasil e em vários países no mundo.

Com referência à anemia nas mães, a situação não pode ser analisada comparativamente com qualquer outra unidade federativa do país, devido à inexistência de estudos de base populacional sobre o problema em outros Estados da federação, com exceção do Piauí. Neste Estado, 26,2% das mães não gestantes apresentavam anemia9. Em São Leopoldo, RS, em estudo recente, detectou-se prevalência de 19,2% de anemia, em mulheres não gestantes de 20 a 60 anos15. As poucas avaliações disponíveis no Brasil se aplicam a mulheres grávidas atendidas em exames pré-natais e em espaços geográficos restritos, limitando-se à cobertura operacional dos respectivos serviços de saúde10,16.

Santos10 estima que, em Pernambuco (2002), a prevalência de anemia em mulheres grávidas seria em torno de 30%, o que se distancia do resultado de 21,8% aqui relatado. Pelo critério do Comitê WHO/UNICEF2 seria uma prevalência moderada. Outra pesquisa realizada na área urbana de Ribeirão, Zona da Mata de Pernambuco, evidenciou uma prevalência de 16,2%17.

No Nordeste brasileiro e em outras áreas do país como um todo, são descritas freqüências bem mais elevadas de anemia em gestantes, com um intervalo modal de ocorrência de 30% a 40% das observações18. É bem possível que, no caso das gestantes, a anemia não represente uma comorbidade específica da gravidez, mas o agravamento de uma condição carencial que precede à própria concepção.

No âmbito internacional, os resultados do presente estudo concordam com os dados relatados por Shamah-Levy et al. em quatro regiões do México, com 20,8% das mulheres não grávidas classificadas como anêmicas19. Segundo a WHO/UNICEF/UNU (2001), freqüências bem mais elevadas seriam encontradas na África (40%), enquanto no Sul da Ásia alcançariam 74% 3.

No que se refere às crianças, os conhecimentos acumulados sobre a ocorrência de anemias no Estado de Pernambuco, no Nordeste e no país são bem mais consistentes, embora ainda limitados para conclusões mais seguras. Assim, é interessante assinalar que a prevalência de 46,7% para o total de menores de 5 anos se equivale aos resultados obtidos por Monteiro et al. na cidade de São Paulo (46,9%), Assis et al. (46,3%) em Salvador, e 47,8% encontrado por Silva et al. em Porto Alegre, RS4,20,21. Estes valores acham-se acima das prevalências descritas por Oliveira et al. no Estado da Paraíba 5 e, ainda, das ocorrências registradas nos Estados de Sergipe10 e Piauí9. Já em Pelotas, RS, um estudo realizado por Assunção et al. resultou em uma prevalência de anemia de 30,2% em menores de 6 anos22.

A situação comparativa de mães e crianças difere significativamente, desde que a prevalência em menores de 5 anos, com exceção do IU, fosse mais de duas vezes superior àquela registrada nas mulheres para o nível estadual. De forma análoga, persiste a diferença significante quando se comparam as duplas mães/filhos por pareamento biológico. Por outro lado, constata-se que as mães anêmicas têm uma maior probabilidade (praticamente dois terços) de se associar a filhos anêmicos. No entanto, mesmo mães com níveis normais de hemoglobina apresentam uma chance elevada de ocorrência de anemia em seus filhos: 45,2% para todo o Estado e em torno de 41% para a RMR e o IU. As diferenças entre mães e filhos biológicos foram estatisticamente significantes, com exceção apenas do IU. Vale observar que os resultados de Pernambuco diferem das estatísticas consolidadas em nível internacional nas nações em desenvolvimento, nas quais as mulheres, gestantes ou não, apresentam maiores prevalências que as crianças menores de cinco anos3.

Para o conjunto dos resultados do Estado de Pernambuco, as diferenças entre mães e filhos desapareceram quando os resultados das crianças foram desagregados em dois estratos, acima ou abaixo da idade de três anos. De fato, a partir desta idade, a prevalência de anemia entre mães e filhos passa a ser estatisticamente equivalente. Isto levaria a duas observações imediatas: a diferença entre mães e filhos menores de cinco deve-se, efetivamente, à participação do grupo de crianças menores de três anos; e é muito provável que, depois de 36 meses de idade, a alimentação das crianças passaria a ser semelhante ao padrão alimentar da família ou, pelo menos, ao perfil alimentar das mães.

Um objetivo muito interessante do inventário analítico consiste em relacionar a distribuição das anemias em mães e filhos segundo os fatores mais comumente utilizados em estudos epidemiológicos sobre problemas nutricionais23. Assim, para as mães, foram identificados quatro fatores associados à ocorrência de anemia: o regime de ocupação da residência (cessão/invasão representando um handicap), falta de assistência pré-natal, falta de tratamento do lixo domiciliar e distância do serviço de saúde. Estas situações expressam condições de vida marcantemente adversas que podem contribuir, de forma isolada ou interativa, com a gênese das anemias. Fazem parte do contexto de pobreza, ainda que a renda familiar, isoladamente, não possibilite um efeito estatisticamente discriminante da freqüência de anemia nas mães. Ademais, esta singularidade justifica o juízo de não limitar a expressão da pobreza à visão reducionista da renda, recomendando-se analisar outras variáveis, particularmente o acesso a bens materiais, para compreender as manifestações do estrato social no processo saúde/doença e, sobretudo, na situação nutricional24,25. Esta consideração se particulariza ainda mais no caso das anemias, considerada a mais democrática das deficiências nutricionais, por se distribuir endemicamente em todos os estratos de renda26.

As variáveis correlacionadas com a anemia das mães também foram significantes em relação aos filhos. Em relação às crianças aparecem mais sete fatores de risco: a idade abaixo de três anos, a idade das mães (< 20 anos), o baixo nível de escolaridade da mãe, o espaço geográfico, o número de pessoas da família, o esgotamento sanitário e a baixa renda familiar.

O fato de a freqüência de anemia nas crianças ser mais de duas vezes superior à encontrada nas mães, já se torna indicativo de que, além da magnitude do problema, as crianças podem incorporar fatores adicionais de risco. Isto se evidencia na constatação de que a idade abaixo de três anos representa uma clara diferenciação em relação às crianças maiores, quando as prevalências do problema passam a se equivaler às encontradas nas mães. Por outro lado, a adição de mais três variáveis de caráter socioeconômico (a baixa escolaridade das mães, a falta de esgotamento sanitário e a renda familiar), expressaria que, no caso de Pernambuco, em discordância com a situação mundial, as crianças seriam bem mais vulneráveis que suas mães às adversidades socioeconômicas, mesmo em relação a uma "endemia democrática" como a anemia.

Nos dois casos (mães e crianças) há uma informação relevante que não foi inventariada no estudo: o consumo alimentar. De acordo com as Nações Unidas (UNICEF/UNU/WHO), a maior parte das anemias derivariam da carência primária de ferro alimentar e, particularmente, da baixa disponibilidade de ferro-heme3. No estado de Pernambuco, Osório et al.27 demonstraram que o nível de consumo de ferro heme se correlacionava com a idade das crianças, elevando-se de 0,3mg/dia na faixa de 6-11 meses, para 0,8 mg/dia, no grupo de 48-59 meses. Num outro trabalho28, demonstra-se o papel do leite de vaca como um fator de risco das anemias em crianças, tal como verificaram Levy-Costa e Monteiro29 na cidade de São Paulo. São informações importantes para explicar a maior prevalência de anemia em menores de três anos.

O trabalho tem evidentes limitações, a partir da circunstância de que não foi originariamente concebido e desenhado para um inquérito de campo específico sobre anemia em mães e crianças, derivando de um banco de dados em que os objetivos centrais eram outros. Não se conta, além da hemoglobina, com outros indicadores hematimétricos e bioquímicos, como ferritina, capacidade de ligação do ferro, protoporfirina eritrocitária e outros, para caracterizar a provável etiologia do problema. Não se dispõe de dados sobre o consumo alimentar e, por extensão, a quantidade de ferro biodisponível na dieta de mães e crianças, o que constitui por sinal, uma informação muito difícil de ser obtida e interpretada. No entanto, como se demonstra em seus resultados e questionamentos, representam subsídios básicos para o próprio aprofundamento de novos estudos. Seria interessante uma análise multivariada dos fatores associados às anemias de mães e filhos, o que enfrenta evidentes dificuldades, desde que a principal informação (o consumo alimentar de mães e filhos e seus respectivos valores nutricionais) não está disponibilizada; ademais, as crianças menores de 5 anos apresentam uma curva de distribuição de anemia bastante heterogênea, com máximo de prevalência em torno de 12-15 meses, decrescendo rapidamente a seguir; as mulheres em idade fértil têm necessidades de ferro bem diferenciadas das suas famílias e, portanto, em desacordo com as adequações de consumo que habitualmente são estimadas para o contexto familiar.

Conclusivamente, o estudo evidencia que as prevalências de anemia em mães e crianças diferem significativamente entre si e, em menor escala, nos espaços geográficos. As mães anêmicas apresentam um risco maior de ter filhos menores de 5 anos com o mesmo problema. Demonstrou-se que a anemia das mães se associa ao regime de ocupação atípica da residência, à falta de tratamento do lixo domiciliar, de assistência pré-natal e a distância dos serviços de saúde. As crianças incorporam mais sete condições de risco: sua idade (menor de três anos), a idade da mãe (menor de 20 anos), o espaço geográfico (meio rural), maior número de pessoas da família, a baixa escolaridade da mãe, a baixa renda familiar e a deficiência de esgotamento sanitário.

 

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Correspondência:
Malaquias Batista Filho
Instituto Materno Infantil Prof. Fernando Figueira
Departamento de Pesquisa
Rua dos Coelhos, 300
Boa Vista, Recife - PE
E-mail: mbatista@imip.org.br

Recebido em: 27/02/07
Versão final reapresentada em: 04/03/08
Aprovado em: 19/03/08