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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.12 n.1 São Paulo Mar. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2009000100005 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Vulnerabilidades e situações de riscos relacionados ao uso de agrotóxicos na fruticultura irrigada

 

Vulnerability and risk situations related to the use of pesticides in irrigated fruit farming

 

 

Cheila Nataly Galindo BedorI; Lara Oliveira RamosII; Paulo José PereiraIII; Marco Antônio Vasconcelos RêgoIV; Antonio Carlos PavãoV; Lia Giraldo da Silva AugustoVI

IColegiado de Medicina da Universidade Federal do Vale do São Francisco
IICurso de Enfermagem da Universidade Federal do Vale do São Francisco
IIIColegiado de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Vale do São Francisco
IVDepartamento de Medicina Preventiva e Social da Universidade Federal da Bahia
VDepartamento de Química Fundamental da Universidade Federal de Pernambuco
VIDepartamento de Saúde Coletiva do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães da FIOCRUZ

Correspondência

 

 


RESUMO

A determinação de situações de riscos na população que faz uso de agrotóxico é complexa. O objetivo desse estudo foi conhecer o contexto social, econômico e cultural e algumas das vulnerabilidades para a saúde relacionadas com o processo produtivo químico dependente da fruticultura do Vale do São Francisco. Questionário semiestruturado foi aplicado a uma amostra aleatória de trabalhadores rurais, para obtenção de informações socioeconômicas e culturais, assim como a morbidade relacionada com intoxicação por agrotóxicos. Os trabalhadores rurais da região têm em sua maioria baixo grau de escolaridade, sendo esta uma importante vulnerabilidade para compreensão da rotulagem dos agrotóxicos e sua implicação toxicológica e ambiental. Foi observado uso indiscriminado de agrotóxicos em condições inseguras de trabalho que comprometem a saúde dos expostos. A sintomatologia sugestiva de intoxicação por agrotóxicos aponta para quadros relacionados com exposição à organofosforados, carbamatos e piretróides, em congruência com os biocidas utilizados na fruticultura. 7% da população estudada referiram ter sofrido pelo menos um caso de intoxicação no decorrer da vida. A assistência técnica relacionada com o manejo de agrotóxicos é precária e não se observaram ações de proteção no âmbito da saúde, do trabalho, da previdência ou do ambiente. Estas vulnerabilidades institucionais corroboram aquelas relacionadas com o modelo tecnológico que objetiva meramente a produtividade e o rendimento financeiro.

Palavras-chave: Agrotóxico. Vulnerabilidade. Situações de risco. Saúde do trabalhador. Saúde ambiental. Zona semi-árida.


ABSTRACT

Determining the risks in a population that uses pesticides is a complex task. The purpose of this study was to outline the socio-economic and cultural context and some of the health vulnerabilities related to fruit production in the São Francisco River valley in Brazil. Semi-structured questionnaires were applied to random samples of farm workers to obtain data on social, economic and cultural characteristics, as well as the morbidity related to pesticide poisoning. These farm workers have low level of schooling, and this is a major vulnerability for understanding the labels of pesticides and their toxicological and environmental implications. This study found indiscriminate use of pesticides in unsafe and unhealthy conditions of work that compromise the health of exposed workers. Symptoms suggestive of pesticide poisoning are closely related to exposure to organophosphates, carbamates and pyrethroid, which match pesticides used in fruit farming. Seven percent of the population reported poisoning events at some point in their lives. Technical assistance related to the management of pesticides is poor, and actions toward the improvement of health, environment and work conditions were not seen. These vulnerabilities corroborate those related to a technological model that aims merely at productivity and good financial performance.

Keywords: Pesticides. Vulnerability. Risk situations. Occupational health. Environmental health. Semi-arid region.


 

 

Introdução

A ampla utilização de agrotóxicos no sistema produtivo rural é um grave problema para a saúde e para o ambiente, por contaminação do solo, da água e do ar1. Estima-se que ocorram no mundo cerca de três milhões de intoxicações agudas por agrotóxico com 220 mil mortes, sendo 70% dessas provenientes dos países em desenvolvimento2. Os trabalhadores rurais constituem um grupo populacional reconhecidamente vulnerável aos efeitos danosos dos agrotóxicos na saúde3. Relatos da literatura indicam que a cada caso de intoxicação aguda há uma expectativa de oito casos de intoxicação crônica4. Segundo Augusto et al.5, mesmo sendo o Brasil um dos principais países consumidores de agrotóxicos na América Latina, ainda se observa grande escassez de informações sobre os efeitos decorrentes da exposição humana a esses compostos.

Os agrotóxicos representam um grupo heterogêneo de compostos com variadas estruturas químicas e com diferentes toxicicidades6. Por conseguinte, monitorar e controlar seu uso continua sendo um desafio para a vigilância da saúde e ambiental.

A baixa percepção das situações de riscos a que está exposto o indivíduo e também o seu coletivo é uma questão presente no conjunto de vulnerabilidades existentes no âmbito do uso dessa tecnologia para diversos fins1. Reconhecer os condicionantes sociais, culturais e econômicos presentes no processo produtivo agrário químico-dependente é uma necessidade para minimizar os danos à saúde e ao ambiente decorrente do uso de agrotóxicos7. Diversos estudos referem que esses condicionantes contextuais também determinam o nível de percepção social dessas situações de riscos (Popper et al.8, na Guatemala; Mwanthi et al.9, no Quênia; McDougall et al.10; na Ilha de Santa Lúcia no Caribe; e Stewart11, no Egito).

No Brasil, a região do submédio do Vale do São Francisco é um dos principais polos produtores e exportadores de frutas, sendo especializada na produção de uva e manga. A irrigação associada ao uso de agrotóxicos e fertilizantes é o modelo utilizado para a produção dessas monoculturas.

O objetivo desse estudo foi conhecer o contexto social, econômico e cultural e algumas das vulnerabilidades para a saúde relacionadas com o processo produtivo químico-dependente da fruticultura do Vale do São Francisco. Busca-se contribuir para ações de proteção da saúde dos trabalhadores rurais frente ao uso de agrotóxicos em um modelo produtivo agro-exportador.

 

Método

Trata-se de um estudo descritivo, realizado no período de 2006 a 2007, no polo fruticultor do submédio do Vale de São Francisco. Especificamente nos projetos de irrigação Nilo Coelho, Maria Tereza e Bebedouro, localizados em Petrolina - PE, e os de Curaçá, Maniçoba e Tourão, situados em Juazeiro - BA e cidades circunvizinhas. O mapa da região do submédio do vale do São Francisco esta identificado na Figura 1.

 

 

Como estratégia de seleção da amostra, as áreas foram escolhidas por estratificação segundo o tamanho dos lotes. Procurou-se garantir a representatividade de todos os tipos de propriedades que, segundo a Companhia do Vale do São Frâncico (CODEVASF), correspondem a cerca de 3.040, dividas em 2.874 pequenas propriedades (lotes com até 12 hectares), 133 pequenas e médias empresas (12 a 50 hectares) e 33 grandes empresas (áreas com mais de 50 hectares).

População de estudo: amostra de 300 indivíduos, randomizada com 95% de confiança e um erro de 2,5%. Dada à dificuldade de se saber a priori a quantidade de trabalhadores rurais em todos os lotes, foi utilizada para a base de cálculo do tamanho da amostra a prevalência de 5% de referência de intoxicação por agrotóxico encontrada na região por Ramos et al.12, no Projeto de Irrigação Nilo Coelho.

A amostra foi composta de indivíduos que utilizam ou já utilizaram agrotóxicos e que se encontravam trabalhando nas lavouras no momento das visitas. Foram entrevistados cerca de 1 trabalhador por pequena propriedade, 1 por pequena ou média empresa e cerca de 10 trabalhadores em cada grande empresa visitada. Como critério de exclusão foram eliminados da amostra 17 indivíduos que tiveram dificuldade de informação, o que não interferiu no perfil da amostra, totalizando 283 indivíduos, sendo 146 trabalhadores de pequenas propriedades; 73 de médio porte e 64 de grande porte. As propriedades foram escolhidas aleatoriamente através de sorteio.

Foi utilizado um questionário semiestruturado para a coleta de dados primários sobre condições de vida, ambiente e trabalho e de morbidade referida. Para avaliação da exposição ocupacional aos agrotóxicos, foram coletadas informações sobre o tipo e a maneira de utilização desses produtos, o intervalo de aplicação dos mesmos, se os indivíduos receberam orientação técnica sobre a utilização dos agrotóxicos, se utilizavam receituário para sua compra e se liam a bula antes de sua utilização. Além disso, foi verificado quais dos Equipamentos de Proteção individual (EPI), preconizados para proteção química, eram utilizados por esses trabalhadores rurais na hora em que estava sendo aplicado agrotóxico. A variável jornada de trabalho foi referente à quantidade de horas que o trabalhador permanecia nas lavouras durante o dia.

O dado de intoxicação por agrotóxico foi obtido através dos trabalhadores rurais que afirmaram já ter sofrido, ao longo da vida, intoxicação por agrotóxico confirmada por atendimento médico. Já os sintomas listados são aqueles referidos por esses trabalhadores após ou durante a aplicação de agrotóxico.

Os dados secundários, como os registros de intoxicação por agrotóxicos do município de Petrolina e os dados da Previdência Social, foram utilizados para caracterização de contexto das condições sociais, econômicas e culturais da região, cujas informações foram obtidas de documentos oficiais e publicações.

As classificações dos agrotóxicos, segundo classe, ingrediente ativo, grupo químico, classificação toxicológica e ambiental foram obtidas mediante consulta ao Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários (AGROFIT) do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento e o Sistema de Informação sobre Agrotóxicos (SIA) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, no período de novembro de 2006 a agosto de 2007.

O presente estudo teve aprovação do comitê de ética do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães - FIOCRUZ (CAEE: 0033.0.095.000-06).

 

Resultados

Os resultados desse estudo são baseados nos questionários semiestruturados respondidos pelos produtores rurais da região estudada. Três grandes empresas não permitiram entrevistas com seus trabalhadores, sendo essas substituídas por outras propriedades de área equivalente.

A Tabela 1 mostra as características sociodemográficas dos indivíduos estudados. Destaca-se que 69% eram empregados e 31% eram proprietários rurais que trabalhavam diretamente na sua terra, pequenas propriedades ou pequenas e médias empresas; a maioria era do sexo masculino, de idade entre 15 e 79 anos, com média de 35 anos (±11,8). A escolaridade é baixa, com 12% de analfabetos e 64% apenas com o primeiro grau. A renda da maioria (55%) é igual ou menor a 1 salário mínimo.

 

 

A monocultura é predominante na região, sendo a manga e a uva as principais culturas, cultivadas respectivamente por 65% e 49% dos agricultores entrevistados. Foram citados cerca de 50 nomes comerciais de agrotóxicos, com predomínio do Folisuper (parationa metílica), Vertimec (abamectina) e Dormex (cianamida).

Os organofosforados foram os mais citados entre as classes de agrotóxicos. A frequência de aplicação desses compostos nas plantações varia para cada cultura, mas em média é de quatro vezes por mês. Nenhum agricultor citou fazer uso de agrotóxicos proibidos. A Tabela 2 mostra características dos principais agrotóxicos utilizados e de seus manuseios.

Entre as embalagens vazias de agrotóxicos, 7% são queimadas; 13% ficam retidas nas propriedades, 2% são devolvidas à loja onde foram compradas e 78% são entregues à Associação do Comércio Agropecuário do Vale do São Francisco (ACAVASF). Porém, segundo os trabalhadores rurais. a ACAVASF há cerca de um ano não realiza a coleta na região, o que justifica a observação de várias embalagens de agrotóxicos jogadas no meio do mato dos projetos visitados.

Quanto à exposição individual a agrotóxicos, 62% dos entrevistados manipulam esses produtos há cerca de 10 a 30 anos, 4% há menos de um ano, e 34% não responderam a essa questão.

O EPI completo é utilizado por 72% da população estudada, sendo observado principalmente o uso de máscara e luva naqueles que os utilizam de maneira incompleta (Tabela 2). Os produtores que responderam não utilizar EPI estão entre os pequenos produtores e trabalhadores de pequenas e médias empresas.

Cerca de 30% dos agricultores, a maioria do sexo masculino (85%), queixaram-se de pelo menos um sintoma após a aplicação ou de estar dentro da área onde foi aplicado agrotóxico. A média desses sintomas foi de 1 (29%) entre os agricultores que não sofreram intoxicação e de 2 a 3 (25% e 20%, respectivamente) nos produtores rurais que relataram já ter sofrido intoxicação por agrotóxicos. Dentre os principais sintomas estão dor de cabeça, irritação na pele e tontura, como pode ser verificado na Tabela 3. Dos trabalhadores que apresentaram sintomas, 78% utilizam agrotóxicos há cerca de 10 a 30 anos. Além disso, 65% afirmam aplicar esses produtos no mínimo 4 vezes por mês.

 

 

Vinte um (7%) dos trabalhadores rurais relataram ter sofrido intoxicação por agrotóxico, diagnosticada por um profissional da saúde, pelo menos uma vez na vida. Esses produtores são em sua maioria homens (86%), com idade entre 21 a 71 anos e média de 36,9 anos (±11,9). Quanto à exposição a agrotóxico, 19% lidam com os produtos há menos de um ano e 76% de 10 a 30 anos. A aplicação na lavoura ocorre de 4 a mais vezes por mês para cerca de 65% desses trabalhadores. Na Tabela 4, que aponta as principais características sociodemográficas e do uso de agrotóxicos entre os produtores que se queixaram de sintomas ou de intoxicação, foi observado que a associação entre intoxicação e baixa escolaridade é corroborada pela variável leitura do rótulo, e também que há associação entre o uso incompleto ou o não uso de EPI e a intoxicação, assim como de quem aplica agrotóxico mais de 02 vezes por mês. Já ter ou não orientação técnica não apresenta diferença significativa na intoxicação por esses compostos.

 

Discussão

No presente trabalho foi observada predominância da população masculina entre os trabalhadores da fruticultura no submédio do vale do São Francisco, contrariando o que foi publicado por Branco e Vainsencher13, que afirmam a preferência do empresariado dessa região em empregar mão-de-obra feminina por considerá-la mais criteriosa, delicada e produtiva. Entretanto, concordam com diversos trabalhos que apontam a população masculina como a mais empregada no meio rural1,14, inclusive na fruticultura15.

A condição de vida da maioria dos trabalhadores está comprometida pela baixa renda e pela sazonalidade dos contratos. Trata-se de importante vulnerabilidade, pois, em decorrência disso, há repercussão direta nas condições de moradia, nutrição, escolaridade etc. Em relação à baixa escolaridade há uma vulnerabilidade maior para as situações de risco, pelo fato de implicar na dificuldade de leitura dos rótulos dos agrotóxicos. Ainda com relação a este tema, foi observado que a linguagem utilizada para informar as características do produto e os cuidados com o manuseio constitui barreira(s) à comunicação de risco para a saúde e para o ambiente16, 17.

Entre os agrotóxicos, 37% são extremamente ou altamente tóxicos para o homem e 42% muito perigosos para o ambiente, incluindo o Folisuper, agrotóxico mais aplicado na região e utilizado indiscriminadamente, uma vez que, apesar de ser indicado pelo Ministério da Agricultura para as culturas de algodão, feijão, milho, soja e trigo, tem a orientação dos vendedores para as culturas de cebola, manga e tomate18.

A maioria dos trabalhadores não possui orientação técnica no local de trabalho, obtendo-a nas lojas de venda de produtos agrícolas. No entanto, 21% dos vendedores das lojas de região não estão devidamente preparados para orientar os agricultores18.

Apesar da metodologia criteriosa desse estudo, pode ter ocorrido casualidade reversa, viés de memória e de informação. Como pode ser observado no fato de o trabalhador ter ou não orientação técnica no manuseio do agrotóxico, isso parece não fazer diferença quanto à intoxicação, uma vez que a falta de orientação técnica, que ocorre em várias regiões do país14,17,19, expõe os trabalhadores a situações de risco, já que estes não utilizam nenhum critério de dosagem em relação ao tipo de cultura e ao tamanho da plantação, e acabam empregando produtos não específicos para determinadas doenças20.

Os organofosforados são alguns dos produtos mais utilizados na fruticultura da região. No Brasil, são os responsáveis pelo maior número de intoxicações agudas e mortes registradas. Esse grupo químico acumula acetilcolina nas sinapses nervosas, desencadeando uma série de efeitos parassimpaticomiméticos, podendo causar neurotoxicidades e neuropatias periféricas tardias21.

As queixas de saúde referidas foram as esperadas para grupos expostos aos agrotóxicos22,23, como mostram Araújo et al.24 em um estudo com produtores de tomate no Vale do São Francisco que cita tontura e dor de cabeça como os principais incômodos relatados, e Castro e Confalonieri20, em estudo sobre o uso de agrotóxico em cachoeira de Macau. Essas queixas podem variar intensamente, dependendo das vulnerabilidades individuais e coletivas, sendo comumente diagnosticadas como intoxicação aguda as queixas imediatas pós-exposição aos agrotóxicos (fraqueza, vômitos, náuseas, convulsões, dores de cabeça). No entanto, as intoxicações crônicas necessitam de uma atenção médica ainda maior para o seu diagnóstico, o que envolveria um raciocínio clínico-epidemiológico mais atento, especialmente envolvendo profissionais da rede básica de saúde e especialistas, tais como dermatologistas, neurologistas, imunologistas, cancerologistas, gastrenterologistas, nefrologistas e pediatras25.

Neste sentido, faz-se necessário, nos trabalhadores rurais do submédio do Vale do São Francisco, realizar estudos toxicológicos, clínicos e epidemiológicos analíticos para compreender melhor os impactos do uso de agrotóxicos na saúde desses trabalhadores, tendo em vista as limitações dos estudos realizados por morbidade referida. Para isso é fundamental que os médicos estejam treinados para o diagnóstico de intoxicações agudas e crônicas e que o sistema de informação toxicológico e epidemiológico esteja organizado e articulado em todas as cidades da região.

A prevalência de 7% de pelo menos uma intoxicação por agrotóxico no decorrer da vida dos agricultores, esta próxima das encontradas em regiões Brasileiras. Faria et al.15 descreveram a prevalência de 12% de intoxicação por agrotóxicos em trabalhadores rurais da Serra Gaúcha. Já Vander Hoek et al.26 encontraram uma variação de 7 a 22% em regiões do Sri Lanka. e London et al.27 de 9% na África do Sul.

A notificação de intoxicação por agrotóxicos está estabelecida no Sistema Nacional de Agravos Notificados - SINAN. No entanto, encontra-se incipiente na rede de saúde dos municípios da região. Segundo a Secretaria de Vigilância Sanitária, de 2001-2006 foram registrados apenas 59 casos de intoxicação por agrotóxicos em Petrolina, sendo em primeiro lugar por tentativa de suicídio e em segundo por acidentes de trabalho, contaminação acidental e ingestão de alimentos contaminados. A subnotificação, segundo Ramos et al.12 é causada pelos seguintes fatos: o agricultor com sinais de intoxicação não procura o serviço de saúde; falta de conhecimento das equipes de saúde sobre os sinais e sintomas de intoxicação crônica; confusão com outras patologias; falta de diagnostico e, acrescentamos, por falta de registro.

Outra vulnerabilidade observada no discurso dos trabalhadores entrevistados é o fato de, mesmo quando realizado o diagnóstico de intoxicação química (aguda ou crônica), os trabalhadores são mantidos, em sua maioria, na atividade ocupacional, não recebendo da previdência social o reconhecimento de portador de doença profissional e o amparo beneficiário devido. O efeito cumulativo da exposição crônica pode significar danos irreparáveis e incapacidade permanente para o trabalho, e este fato parece não encontrar suporte na ação da previdência social. Uma solução para minimizar essa questão é apontada por Mota e Young28, que sugerem o restabelecimento dos impostos sobre agrotóxicos no Brasil ou a promoção de tributação que sirva como instrumento econômico para gestão ambiental. Segundo Sobreira e Adissi29, se os agrotóxicos são reconhecidamente substâncias que provocam lesões crônicas, os impostos fortaleceriam a previdência nacional no sentido de ampliar os benefícios concedidos aos trabalhadores lesionados, inválidos e familiares de trabalhadores mortos.

Há necessidade de um diagnóstico situacional da problemática ambiental, em especial relacionado à contaminação do solo pela quantidade de embalagens descartadas de maneira não segura, principalmente pela falta da coleta feita pela ACAVASF e também de contaminação hídrica, por conta do processo de irrigação.

Sem entrar na discussão da eficácia dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI) de modo geral, o fato de nos locais de trabalho estes nem sempre estarem apropriados ou serem insuficientes para a manipulação de produtos químicos30, revela que os trabalhadores estão ainda mais vulneráveis às exposições nocivas dos agrotóxicos. Como foi observado, a pulverização dos agrotóxicos, seja por trator, costal ou por tração animal, é o meio empregado para aplicação dos produtos, acarretando exposição massiva e desconforto, posto que os EPIs disponibilizados para os trabalhadores não estão adequados às condições climáticas17,20. O submédio do Vale do São Francisco possui temperatura média de 28ºC. Como a exposição dérmica é apontada como a principal vias de absorção de agrotóxicos31-34, o agricultor que se encontra com todas as partes do corpo com proteção tende a estar mais protegido. Esse estudo apontou que os trabalhadores que não usavam o EPI ou o utilizavam de maneira incompleta sofreram mais intoxicação. Porém o fato de usar o EPI não interferiu na proteção esperada a intoxicação por agrotóxico.

Segundo Oliveira-Silva et al.35, os indicadores socioeconômicos levantam evidências acerca da complexidade do processo de exposição/intoxicação por agrotóxicos. A ausência de ações integradas que atuem na diminuição da desigualdade social, na melhoria da escolaridade e no preparo das equipes de saúde, é reveladora da vulnerabilidade institucional observada nesse contexto produtivo analisado.

A falta de uma política efetiva de fiscalização no acompanhamento técnico e no controle de agrotóxicos nessa importante região produtora de frutas do país, e integrada no mercado globalizado, revela que o parâmetro que interessa aos tomadores de decisão é apenas o da produção. A saúde e o ambiente estão longe de uma atenção adequada.

 

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Correspondência:
Cheila Nataly Galindo Bedor
Colegiado de Medicina da Universidade Federal do Vale do São Francisco
Av. José de Sá Maniçoba, s/n, Centro
CEP 56.304-205 Petrolina, PE
E-mail: cheila.bedor@univasf.edu.br

Recebido em: 05/12/07
Versão final reapresentada em: 21/11/08
Aprovado em: 18/12/08
Financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Nº do processo 409837/2006-7