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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.12 n.2 São Paulo Jun. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2009000200010 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Avaliação da informação sobre drogas e sua relação com o consumo de substâncias entre escolares

 

Information about drugs and its relation to drug abuse among high school students

 

 

Rafael Augusto Borges PavaniI; Elissandro de Freitas SilvaI; Maria Silvia de MoraesII

IMédicos - Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto - SP (FAMERP)
IIDepartamento de Epidemiologia e Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Conhecer a percepção dos adolescentes sobre os programas de prevenção ao uso de drogas, e com quem eles aprendem e conversam sobre as drogas. Relacionar o consumo de drogas com essas informações.
MÉTODO: Foi realizado um estudo transversal com questionário anônimo autoaplicado em uma amostra proporcional de 1041 alunos do ensino médio no município de São José do Rio Preto, São Paulo, Brasil.
RESULTADOS: 89,2% dos alunos receberam orientação sobre drogas na escola. Os meios selecionados para a realização de programas de prevenção contra o uso de drogas foram: palestras 83,1%, televisão 72%, jornal 33,7%, cursos 29,3%, cartazes 27,8% e rádio 25,8%. Os meios que permitem diálogo e questionamento foram mais bem avaliados, enquanto os apenas informativos foram criticados. Os alunos conversariam sobre drogas principalmente com os próprios pais (56,6%) e os amigos (50,5%), seguidos de profissionais especializados e professores (30,4% e 22,7%, respectivamente). Eles relataram ter aprendido sobre drogas com os pais (66,5%), seguidos dos professores (60%). As revistas e jornais foram selecionados por 51% dos escolares, e os amigos por 41,4%. Foram relacionados a menor taxa de consumo de drogas lícitas e ilícitas no último mês, o relato de ter recebido orientação sobre drogas na escola, e ter aprendido sobre drogas com pais ou professores.
CONCLUSÃO: Os adolescentes consideram os pais e professores suas fontes de conhecimento sobre drogas, porém preferem conversar a respeito com os pais e amigos. A escola é um local oportuno para abordar o assunto, utilizando para isso estratégias que permitam a reflexão.

Palavras-chave: Drogas ilícitas. Transtornos relacionados ao uso de substâncias. Estudantes. Comunicação em saúde.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To find the perception high school students have of drug abuse prevention programs, from whom they learned and with whom they talk about drugs; to relate drug consumption to this information.
METHOD: A cross-sectional survey was carried out in São José do Rio Preto, São Paulo, Brazil. A self-completion questionnaire was given to a proportional sample of 1,041 high school students.
RESULTS: 89.2% of the students received orientation about drugs at school. The communication media selected to promote drug prevention campaigns were: talk 83.1%, television 72%, newspaper 33.7%, specific courses 29.3%, posters 27.8%, and radio 25.8%. Media that allow dialogue and discussion were better evaluated while the merely informative media were more criticized. They would choose mainly their parents (56.6%) and friends (50.5%), followed by specialists and teachers (respectively 30.4 and 22.7%) to talk about drugs. They reported that they learned about the subject from parents (66.5%), teachers (60%), magazines and newspapers (51%), and friends (41.4%). Receiving information about drugs at school or learning about drugs from parents and teachers were associated to lower prevalence of drug consumption in the month before.
CONCLUSION: Students consider parents and teachers as drug information sources; however they prefer to talk about this subject with parents and friends. The school is a suitable place to deal with drug abuse prevention, and strategies that permit the development of the students' reflexive and judgment skills should be used for that purpose.

Keywords: Street drugs. Substance-related disorders. Students. Health communication.


 

 

Introdução

A problemática do consumo de drogas entre adolescentes é abordada com frequência tanto em estudos científicos como nos meios de comunicação em massa1,2. Diversos estudos têm procurado os fatores associados ao consumo abusivo e à experiência com drogas3-7. Contudo, dificulta essa avaliação a exposição dos jovens a situações complexas com a família, a religião, os colegas, a escola, os professores, a situação sócio-econômica e a cultura8-11, ainda mais na adolescência, período marcado por conflitos de reafirmação social, familiar e pessoal12.

Pesquisas descreveram alguns dos fatores influentes no consumo de drogas, como a pressão social do grupo, o fácil acesso social ou econômico e o não reconhecimento da possibilidade de dependência química5,6,10,13,14. Monteiro et al. (2003), ao avaliar os resultados obtidos através de um jogo educativo com 62 adolescentes, referem que estes colocam como colaboradores no início do uso de drogas a escassez de diálogo franco em casa e no colégio15. Em entrevista com 32 jovens que nunca experimentaram drogas, Sanchez et al. (2005) identificaram o não-uso decorrente de bom relacionamento familiar e acesso à informação, enquanto 30 usuários referiram o início do consumo devido ao não acesso à informação sobre drogas na adolescência11. Abramovay & Castro (2005), em um estudo abrangendo 14 capitais brasileiras, descreveram como motivos de uso de drogas ilícitas: busca por prazer, influência de amigos e família, pressão do grupo, conflitos familiares e pessoais e ingenuidade. Em menor grau, foi descrita a falta de informação16.

Em vista dos referidos dados, e por ser a informação manipulável pelos programas de prevenção, é essencial compreender como ela chega aos adolescentes. Ribeiro et al. (1998) analisaram a ideologia presente na mídia escrita em quatro textos dirigidos a adolescentes, encontrando a visão de um jovem indefeso, vulnerável, abordado de forma assertiva por textos que não permitiam questionamento1. Os textos alertavam para o "perigo" das drogas, seu "controle" sobre o usuário, desconsiderando a capacidade de raciocínio crítico do adolescente. Essa abordagem é comum nos programas de prevenção e não contempla a integralidade do indivíduo10,12,15,17.

Cuijpers (2002) revisou pesquisas concernentes a programas de prevenção do uso de drogas em escolas, destacando a importância da interatividade, de atingir também a comunidade, e de usar os pares como líderes, para a eficácia da prevenção. Os programas apenas informativos resultaram em menor efeito17.

Em pesquisa realizada em 2003 com 1.035 escolares de escolas públicas em São José do Rio Preto - SP2, foram obtidos dados referentes ao consumo de drogas e à informação sobre drogas, e que serão analisados no presente estudo, com o objetivo de conhecer a percepção dos adolescentes sobre os programas de prevenção, com quem eles aprendem sobre as drogas, e buscar a associação do consumo recente de drogas com os dados referentes ao recebimento de informação. Esse conhecimento é importante no planejamento de formas mais eficientes de transmissão da informação, visando a prevenção do consumo de substâncias psicoativas.

 

Material e método

O município de São José do Rio Preto situa-se no interior do Estado de São Paulo, e apresentava cerca de 380.000 habitantes no ano de 2003, com 15.134 alunos matriculados no ensino médio público, distribuídos em 22 escolas e 425 turmas2. Os dados foram obtidos através de uma amostragem por conglomerados, proporcional segundo a localização da escola, a série e o período de estudo, realizada junto às escolas públicas do município. Considerou-se a turma como unidade amostral2.

Foram sorteadas aleatoriamente 42 salas do ensino médio de 19 escolas públicas, e aplicados de maneira coletiva nas classes 1.041 questionários, mantidos sem identificação. O questionário continha 64 questões fechadas, com caracterização sociodemográfica, orientação sobre drogas, estratégias de prevenção e consumo de drogas2. Também foram questionadas quais as pessoas escolhidas pelos alunos para conversar sobre drogas e com quem eles aprenderam sobre drogas. Havia 2 questões abertas, uma versando sobre o motivo da escolha do(s) meio(s) de prevenção contra o uso de drogas, e a última livre para comentários. Foram consideradas "drogas" as substâncias pscicoativas lícitas e ilícitas abordadas no questionário, sem descrição de efeitos ou referência à legalidade do uso.

Os dados foram digitados no programa Microsoft Excel 2000® e a análise realizada com os programas Epi Info 2002® e Intercooled Stata 7.0®, com frequências absolutas e relativas calculadas com intervalo de 95% de confiança, considerando a amostragem por conglomerados com a turma de alunos como unidade primária de amostragem (UPA) para todos os testes de significância. A existência de associação foi confirmada por meio da aplicação do teste do qui-quadrado com nível de significância de 5%.

As respostas abertas foram codificadas após identificação das categorias de respostas mais frequentes. Para facilitar a análise, algumas vezes foram realizados agrupamentos de algumas categorias. Os dados foram analisados para caracterizar o que os jovens pensam a respeito dos meios de prevenção contra o uso de drogas. A análise de conteúdo, segundo Bardin (1977), é um conjunto de técnicas de análise que permite informações sobre os atores sociais no contexto cultural em que estão inseridos18.

Participaram da pesquisa os alunos presentes na sala de aula no dia da aplicação, e que entregaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado por responsável. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto - SP (FAMERP), protocolo 5561/2002, e cumpre os princípios éticos contidos na Declaração de Helsinki. Não há conflito de interesses no estudo.

 

Resultados

Dos 1.041 questionários aplicados, 6 foram desconsiderados por conterem informações conflitantes ou por ausência de fidedignidade. Como exemplos, em uma questão o aluno refere ter utilizado determinada substância, e logo na próxima nega o uso; relato de idade incompatível; uso de linguagem obscena despropositada. Dos 1.035 escolares avaliados, 48,1% eram do sexo masculino, 95,8% tinham entre 14 e 19 anos de idade, 97,3% eram solteiros e 60% estudavam no período diurno2.

A Tabela 1 contém alguns dados sociais sobre os escolares. A maioria morava com pai e mãe (67%), e 19,3% apenas com a mãe. Sobre o relacionamento familiar, cerca de um quarto (26,6%) dos escolares referiram que seus pais viviam separados, enquanto para 60,1% eles viviam juntos e com bom relacionamento entre si. Dos 5,8% com pai e/ou mãe falecido(s), apenas o pai de 4,3% (44) dos alunos havia falecido. Dentre os que possuem religião (93,2%), 80,2% referiram praticá-la.

Na Tabela 2 encontra-se a porcentagem dos que receberam orientação a respeito de drogas na escola, e qual a sua avaliação quanto a esta, sem especificar tipo ou carga horária. Apenas 10,8% negaram ter recebido orientação sobre drogas, e dos que dizem ter recebido, mais de 90% consideraram a orientação útil ou muito útil.

 

 

Na Tabela 3 estão os principais meios escolhidos para a veiculação de campanhas preventivas contra o uso de drogas, contudo sem explicação sobre a abordagem ou conteúdo dos mesmos. A palestra foi considerada um bom meio por 83,1% dos alunos. Sua justificativa está na possibilidade de interação entre o palestrante e os alunos, de questionar alguém com entendimento do assunto, e de conhecer ex-usuários recuperados ou em processo de recuperação. Algumas frases relacionadas às palestras foram:

"O interessante seria palestras (sic) com ex-drogados, para que eles passem a história de vida deles e nos estimulem a não entrar nesse mundo das drogas."

"As pessoas principalmente os jovens, gostam de sempre expor suas opiniões, e não há como fazer isso lendo um simples cartaz, é preciso contato com pessoas que já tiveram experiência e ex-usuários de drogas, e nada melhor que uma palestra."

"Através das palestras você vê testemunhos de pessoas que eram ex-drogados e isso dá força para que as pessoas que usam droga saibam que têm chance de sair dessa vida e seguir uma vida conforme os conceitos de Jesus."

"Pelo contato pessoal, principalmente se o palestrante já foi viciado e conseguiu sair dessa."

"Possibilidade de se expressar."

"Porque conversar é o melhor jeito."

"Porque quando tenho dúvidas, posso discutir o assunto."

 

 

A televisão foi bastante citada, por ser acessível a todos, com maior alcance e velocidade para divulgar a informação, "É onde atinge um maior número de pessoas, principalmente jovens". Poucos comentaram os cursos, e os cartazes foram considerados pouco eficazes, devido à não interatividade e "Porque as pessoas não param para ler cartazes", mas uma alternativa a mais para a prevenção, ou "Porque chama atenção um cartaz grande com fotos de pessoas que usa droga (sic) e os problemas que passa por causa do vício".

Muitos alunos assinalaram várias alternativas e 80 alunos assinalaram todas, com as seguintes justificativas:

"Quanto mais informações tiver, melhor."

"Porque quanto mais falar no assunto 'Drogas' mais informados (sic) serão as pessoas, e assim ficarão mais conscientes."

"Por que (sic) quanto mais falar o mal que a droga faz mais nós estudantes vamos ficar longe delas."

"Todos os meios de comunicação são eficientes, mas não infalíveis."

"Pois devemos usar de todos os meios de comunicação possível (sic) para que todas as pessoas saibam do respeito das drogas (sic), para assim nos prevenir deste mal, que + e + acaba com a juventude."

"Porque é necessário que todos os meios de comunicação desaprovem as drogas e não apoiem, com comerciais engenhosos, e com essas estratégias fica mais descontraído (sic) as campanhas."

"Assim todo mundo saberá que as drogas causa (sic) morte."

"São meios que (sic) todos podem obter informações. Obs: Sem doar seringa ou camisinha pois isso incentiva, (ilegível) desaprovar totalmente essas práticas errôneas."

"Por quê (sic) com tudo isso se as pessoas quiser (sic) usar drogas ela é burra."

"Mostra o que faz com a pessoa que usa."

Apenas 6 alunos não assinalaram nenhuma alternativa, comentando:

"Eu acho que nenhum porque quem usa drogas não tá nem aí no que as outras pessoas falam, nem jornal, televisão e palestras, usa e nem liga."

"Liberando o uso o sujeito não iria matar nem roubar para fumar, ou seja o governo deveria fazer uma plantação e quem quizesse (sic) buscava aí iria perder a graça e não existiria mais o tráfico. e fuma só quem quer."

"Nada, vai pela cabeça de qualquer um e de cada um."

Além desses, um aluno que escolheu apenas palestras escreveu: "Na verdade na minha opinião quanto mais se fala em drogas mais as pessoas vão se lembrar que existe drogas e vão começar a usar mais."

Dentre as respostas não existentes na questão, o teatro foi a mais citada, por permitir interação, melhor compreensão e ser interessante, segundo os escolares.

Eles avaliaram também seu próprio conhecimento a respeito das drogas. 78,4% dos alunos consideraram-se bem informados sobre o assunto, enquanto apenas 4,8% disseram estar razoavelmente ou pouco informados. Os outros 16,8% consideram-se informados, uma alternativa entre as anteriores.

A Tabela 4 (segunda coluna) contém a pessoa que os escolares procurariam para conversar sobre drogas. Os alunos escolheram principalmente os próprios pais (56,6%) e os amigos (50,5%), seguidos pelos profissionais especializados e professores (com 30,4% e 22,7% respectivamente). Dentre todos os escolares, 4,2% não procurariam ninguém para conversar sobre drogas. Nessa questão não havia a alternativa "Religiosos".

Quando foi questionado aos alunos com quem eles aprenderam sobre drogas (Tabela 4, primeira coluna), os pais foram os mais citados (66,5%), seguidos dos professores (60%). As revistas e jornais foram selecionados por 51% dos escolares. Pessoas teoricamente leigas, porém do convívio dos escolares, também foram escolhidas, como amigos (41,4%), namorados (11%) e irmãos (13,2%).

Para os resultados das Tabelas 5 e 6, foram utilizados os dados referentes ao consumo de drogas (Silva et al.)2. Foi criada a variável DROGA no mês, que engloba o consumo de cocaína, crack, alucinógeno ou anfetaminas no mês anterior à da pesquisa.

Na Tabela 5 estão os resultados do cruzamento do consumo de drogas com dados referentes à informação sobre drogas. Dentre aqueles que relataram ter recebido informação e a consideraram muito útil ou útil, houve menor porcentagem significante de consumo de álcool na semana, e tabaco, maconha ou outras drogas no mês.

Na Tabela 6 foi excluído das fontes de informação o item Ninguém devido ao pequeno número de estudantes ter escolhido essa opção. Excluídos Namorado(a) e Irmão(s) por serem os resultados semelhantes aos de Amigo(s), e terem sido menos selecionados. Excluído Religiosos devido à menor frequência e pouca significância nos resultados (apenas associado a menor uso de álcool na semana).

Entre aqueles que referiram ter aprendido sobre drogas com os amigos (Tabela 6), houve maior taxa de consumo recente de drogas lícitas e ilícitas, enquanto aprender com os professores e pais foi associado com menor uso. Selecionando-se os que relataram ter aprendido com jornais ou revistas, apesar das menores taxas de consumo para todas as drogas, houve significância apenas para o menor consumo de drogas ilícitas, com exceção da maconha (p-valor 0,07).

 

Discussão

O estudo apresenta limitações quanto à generalização dos resultados para todos os adolescentes, pois foram abordados apenas os que frequentam a escola, em uma única cidade, e o questionário foi aplicado em um único dia, possivelmente eliminando os alunos cronicamente faltosos, como foi já abordado por Silva et al. (2006) 2. Trata-se também de questões subjetivas, nas quais o aluno opina sobre seu próprio conhecimento e sobre estratégias de prevenção de drogas, contudo sem fundamentação teórica.

Na caracterização sociofamiliar (Tabela 1), pode-se notar maior porcentagem de bom relacionamento com a mãe em comparação com o pai, porém com índices elevados para ambos. Para falar sobre drogas, 56,6% dos alunos escolheriam os pais, e 66,5% referem ter aprendido sobre o assunto com eles (Tabela 4).

A família tem influência na experimentação com drogas, com um bom relacionamento familiar servindo de proteção ao uso e também de auxílio na recuperação de usuários5,11,13,19-21. Na entrevista com 30 usuários e 32 jovens que nunca utilizaram drogas, Sanchez et al. (2005) identificaram maior influência da mãe na prevenção da experiência com drogas, e melhores relações com ela do que com o pai11. Enquanto este parece ser mais temido quando os jovens pensam em utilizar drogas, o respeito aos sentimentos da mãe parecem ter maior influência nessa decisão. Apesar disso, tanto a falta da mãe como do pai pode estar relacionada à experiência11. Assim, podemos supor que os 39,9% de escolares cujos pais não vivem juntos ou com bom relacionamento estão mais suscetíveis ao uso de drogas (Tabela 1). A correlação entre o consumo de drogas e o relacionamento familiar nessa população identificou maior uso de maconha entre aqueles que não referiram os pais viverem juntos e com bom relacionamento21, e maior consumo desta e outras drogas entre aqueles que referiram uma relação com os pais diferente de ótima ou boa20,21.

Quanto à informação sobre drogas, 89,2% referem que receberam orientação na escola, e 95,1% dos escolares referem estar informados quanto ao assunto. A prevalência do consumo na vida de drogas lícitas e maconha encontrada na mesma população (Silva et al., 2006) foi superior ao número daqueles que se consideraram pouco informados ou que não receberam orientação, com 77% para o álcool, 28,7% para o tabaco e 12,1% para a maconha, mas inferior para cocaína (3,3%), alucinógenos (3,1%) e crack (1,4%), e também para o uso frequente dessas2. Em outros estudos se faz a associação de não possuir informações sobre drogas e o início do consumo11,13,15. Usuários de drogas entrevistados por Sanchez et al. (2005) relacionaram a experiência com drogas ao não acesso à informação sobre drogas na adolescência11, apesar de aparentar ser comum a orientação sobre drogas nas escolas (Tabela 2). Assim, a relação entre a informação e o início do consumo parece ser mais importante para as drogas "pesadas", porém não para as lícitas e a maconha, que é socialmente mais aceita10,22. Na Tabela 5, vemos a associação dos escolares que se consideraram melhor informados com uma menor prevalência de consumo de cigarro no mês e drogas ilícitas, exceto a maconha.

Deve-se considerar também que o relato dos adolescentes não é exato, pois depende de seus próprios conceitos de "orientação" e de "informado" 12, como pode ser sugerido pelo estudo de Sanchez et al., no qual não-usuários referiram estar informados, enquanto os usuários negaram ter recebido orientação11. Obtivemos resultado semelhante na Tabela 5, com maior prevalência do consumo recente de drogas entre aqueles que referiram não ter recebido informação sobre drogas nas escolas, e no grupo dos que avaliaram a informação recebida como pouco útil ou inútil. Em uma pesquisa sobre comportamentos de risco com 464 adolescentes do sexo feminino realizada por Miranda et al. (2005), na entrevista pessoal, entre 90,7% e 94,2% referiram acesso a informações de sexualidade, contracepção, DST e AIDS, contudo demonstravam desconhecimento na avaliação destes assuntos e submetiam-se a comportamento de risco: 41,9% usavam preservativos às vezes e 34,7% raramente ou nunca. e 31,6% ficaram grávidas23. Portanto, não há como avaliar se a orientação e o conhecimento relatados pelos adolescentes são confiáveis. Devemos avaliar a possibilidade de o usuário se considerar menos informado como estratégia de "defesa" e transferência da responsabilidade de sua atitude para um terceiro, especialmente a escola. Tal hipótese pode ser reforçada pelo fato de os escolares que selecionaram o professor como fonte de informação sobre drogas terem apresentado menores taxas de consumo (Tabela 6), porém não há comentários nas questões abertas que a corroborem.

Os escolares selecionaram várias fontes para seu conhecimento sobre drogas (Tabela 4). (Na questão não havia as alternativas televisão e Internet.) Contudo, ao serem questionados sobre quem procurariam para conversar sobre drogas, menor número de alunos escolheria os pais, apesar de estes continuarem com a maior porcentagem (56,6%), e os profissionais especializados e professores, procurados por respectivamente 30,4% e 22,7% dos adolescentes. Maior número procuraria os amigos (50,5%) e namorado(a) ou irmão (Tabela 5). Podem ser analisados dois pontos nesses resultados, além da família, já discutida.

Primeiro, as autoridades (pais, professores, profissionais especializados) são fonte comum de aprendizado sobre drogas, mas os adolescentes preferem conversar sobre o assunto com pessoas do convívio próximo, em quem talvez tenham maior confiança. O caso dos professores é especial, pois muitos os citaram como fonte de informação, contudo não os procurariam para falar sobre drogas. Por outro lado, os adolescentes avaliados por Rebello et al. (2001) referiram que a escola é o lugar "ideal" para se abordar o assunto das drogas10. As revistas e jornais podem ser considerados autoridades; contudo, como observado por Ribeiro et al. (1998), os textos dirigidos a adolescentes podem conter ideologias de "combate às drogas", drogas como agentes maléficos, e desconsiderar o raciocínio crítico do adolescente, gerando uma orientação questionável1,12. A religiosidade é com frequência associada a menores níveis de experiência com drogas11,24, porém não é possível definir se a orientação sobre drogas que 20% dos alunos receberam dos religiosos têm algum papel nessa proteção. No atual estudo, aprender sobre drogas com os religiosos esteve associado a menor prevalência do consumo de álcool na semana, mas não foi relacionado ao uso de álcool, maconha ou outras drogas ilícitas no mês.

O segundo ponto é a importância do grupo social no consumo de drogas. Os escolares e seus amigos possuem, esperadamente, informação semelhante sobre drogas, mas 41,4% dos alunos aprenderam com seus amigos e 50,5% os procurariam para falar sobre esse assunto. Alguns estudos mostram a importância do grupo no início do consumo de drogas5,6,8,15,22, e a confiança nas informações provenientes de usuários poderia levar o adolescente à experiência. Essa possibilidade é apoiada pela maior prevalência do consumo das drogas estudadas entre os escolares que escolheram seus amigos como fonte de informação (Tabela 6). Apesar desse dado, estudos avaliados por Cuijpers (2002) indicam o benefício de se introduzirem os pares dos estudantes como líderes nos programas de prevenção ao consumo de drogas, tornando-se mais efetivos17. O método de educação pelos pares estaria justificado, por nossos dados, pela alta frequência de escolares que procurariam um amigo para conversar sobre drogas (50,5%, Tabela 4), e o pequeno número absoluto de usuários no mês dentre aqueles que referiram ter aprendido sobre drogas com eles, apesar da significância, especialmente para as drogas ilícitas (Tabela 6).

Como estratégia dos programas de prevenção ao uso de drogas, a palestra foi a mais escolhida pelos escolares devido à possibilidade de interrogar os apresentadores e conhecer a realidade de usuários e ex-usuários. O interesse em participar de programas de prevenção interativos também foi observado por Monteiro et al. (2003)10,15, assim como a crítica aos programas meramente informativos15, como é o caso dos cartazes (Tabela 3). As situações de diálogo e interação favorecem a reflexão e o aprimoramento do julgamento do adolescente12, e a abordagem assertiva, que não permita questionamento, não é aceita facilmente1,12,15. Cuijpers (2002) identificou a maior efetividade dos programas de prevenção interativos sobre os puramente informativos ao analisar estudos significativos a respeito17.

Os comentários relacionados aos programas de prevenção demonstram um adolescente reflexivo, apesar das colocações simples quanto à importância destes ("Quanto mais meios melhor.", "Para conciências (sic), para que acabe as drogas (sic)."), que aparentam considerar o recebimento de informação como "protetor", assemelhando-se às mensagens na mídia escrita destinadas aos adolescentes1. São também simples quanto à ineficiência dos mesmos ("Nada, vai pela cabeça de qualquer um e de cada um", "o uso de drogas nunca vai acabar"), desconsiderando que, apesar de o consumo de drogas estar presente em diversas culturas ao longo da História, é possível reduzir os danos causados pelo abuso de substâncias17. O comentário "quanto mais se fala em drogas mais as pessoas vão se lembrar que existe drogas e vão começar a usar mais" remete à condição de curiosidade que é indicada em alguns estudos como colaborador na experiência com as drogas15,22. Monteiro et al. (2003), por exemplo, identificaram em uma pesquisa qualitativa com 62 jovens a curiosidade como um dos motivos de iniciação no consumo de drogas15.

Apesar de dizerem procurar e ter aprendido sobre drogas com os pais, professores e profissionais especializados, ao justificarem as palestras e outros meios foi comum citarem apenas o contato com ex-usuários de drogas, que contariam sua história e os malefícios resultantes em suas vidas; ou dizer para mostrar os problemas decorrentes do consumo de drogas nos usuários. Essas colocações consideram a saúde física, porém se esquecem do tráfico de drogas, da criminalidade, dos prejuízos cognitivos e da dependência em si, aspectos de difícil demonstração em um indivíduo. Tais comentários nos levam à indagação: se não houver um usuário de drogas ou ex-usuário prejudicado, esses adolescentes confiariam na mensagem de especialistas? Eles precisariam do estímulo de um ex-usuário para se convencerem de que não devem usar drogas?

Por fim, nos comentários da questão aberta, determinados alunos falam sobre efeitos negativos do uso de drogas, principalmente sobre o corpo e alguns na vida pessoal e familiar, mas não citam o tráfico de drogas e a violência, frequentemente relacionados ao uso de drogas na mídia e em algumas pesquisas8. O comentário final "Droga faz mal mas o duro é que é bom" indica reflexão quanto aos malefícios do consumo, mas reconhecendo o prazer possível de se obter, face nem sempre abordada nos textos de prevenção sobre drogas1.

Portanto, a relação dos adolescentes com a informação sobre drogas é complexa, reflexiva, e demanda igual consideração, evitando orientações puramente informativas, sem interatividade, de pouco impacto, ou mesmo que versem apenas sobre as drogas sem considerar a família, escola e contexto social17. O programa educacional deve visar um estilo de vida de baixo risco, envolvendo a família e a sociedade12. Os adolescentes atualmente têm fácil acesso à informação, nem sempre fidedigna, e os programas de prevenção interativos podem auxiliar no julgamento do adolescente.

 

Conclusão

Em vista da complexidade da problemática do consumo de drogas e de como e por qual meio a informação sobre o assunto chega aos adolescentes, considerando sua capacidade crítica, é preciso elaborar estratégias educacionais visando permitir a interação e reflexão. Os adolescentes atualmente têm fácil e rápido acesso à informação e se consideram informados quanto às drogas. Consideram autoridades como fontes de informação sobre drogas, mas preferem conversar sobre o assunto com familiares e amigos. A escola é vista como um local para se obter informações, e os professores têm papel importante nessa orientação. As estratégias dos programas de prevenção devem abordar a integralidade pessoal e social do adolescente. Considerando o modelo da prevenção através da conscientização da população - no nosso caso, os escolares - é fundamental para o sucesso a apreensão do discurso dos que se propõem a conscientização pelos outros a serem conscientizados, isto é, só é possível quando reflete a demanda dos escolares.

 

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Correspondência:
Rafael Augusto Borges Pavani
Rua Monsenhor Bras Baffa 191 - Jardim Nazareth
São José do Rio Preto CEP 15054-210
E-mail: rpavani_med@hotmail.com

Recebido em: 21/01/09
Versão final reapresentada em: 30/04/09
Aprovado em: 14/05/09