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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.12 n.4 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2009000400010 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Prevalência de dor musculoesquelética em professores

 

 

Jefferson Paixão CardosoI; Isadora de Queiroz Batista RibeiroII; Tânia Maria de AraújoIII; Fernando Martins CarvalhoIV; Eduardo José Farias Borges dos ReisIV

IPrograma de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Feira de Santana, Bahia
IIPrograma de Pós-graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, Bahia
IIINúcleo de Epidemiologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Feira de Santana, Bahia
IVDepartamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, Bahia

Correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo descreve a prevalência de dor musculoesquelética segundo variáveis sociodemográficas e ocupacionais de professores do ensino básico. Um estudo epidemiológico de corte transversal, de caráter censitário, incluiu todos os 4.496 professores do ensino fundamental da rede municipal de Salvador, Bahia, Brasil. As prevalências de dor musculoesquelética em membros inferiores (41,1%), membros superiores (23,7%) e dorso (41,1%) foram elevadas. A prevalência global de dor musculoesquelética relacionada a qualquer um dos três segmentos corporais foi de 55%. A dor musculoesquelética foi mais prevalente, nos três segmentos investigados, entre as mulheres, os mais velhos, de nível educacional médio, casados, com três ou mais filhos e que trabalhavam mais de quatorze anos como docente. A prevalência de dor músculoesquelética associou-se às seguintes variáveis ocupacionais: tempo de trabalho superior a cinco anos na escola estudada, elevado esforço físico, outra atividade remunerada não docente e calor em sala de aula. Esses achados alertam para a necessidade de adoção de políticas públicas para melhoria das condições de trabalho do professor.

Palavras-chave: professor; saúde do trabalhador; educação; dor lombar; dor nas costas.


 

 

Introdução

O trabalho é fundamental na vida de homens e mulheres; contudo, quando realizado de maneira inadequada, pode transformar-se em fator prejudicial à saúde humana. Alguns grupos de trabalhadores, por suas características ocupacionais, tornam-se mais expostos ao surgimento de dores musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho1. Dentre estes grupos, destacam-se os professores. Por vezes, o trabalho docente é exercido sob circunstâncias desfavoráveis, sob as quais os docentes mobilizam as suas capacidades físicas, cognitivas e afetivas para atingir os objetivos da produção escolar, gerando com isso sobreesforço ou hipersolicitação de suas funções psicofisiológicas2. Se não há tempo para a recuperação, são desencadeados ou precipitados os sintomas álgicos que explicariam os elevados índices de afastamento do trabalho por agravos à saúde neste grupo de trabalhadores. Assim, o trabalho docente é uma atividade que promove estresse, com repercussões sobre a saúde física e mental e com impactos no desempenho profissional1,3.

As transformações sociais, as reformas educacionais e os novos modelos pedagógicos influenciaram as condições de trabalho docente atuais, provocando mudanças na profissão. Assim, o profissional docente passou da situação de estabilidade e de relativa segurança para uma situação de insegurança no trabalho, em conseqüência das novas formas de trabalho, precarizadas e desregulamentadas2.

Nos últimos anos, o setor educacional sofreu mudanças que levaram à intensificação das atividades docentes e à precarização das relações de trabalho. Os cortes nos recursos financeiros destinados à educação são reflexos dos novos processos de organização social na era globalizada. Frente às exigências de mercado impostas no processo de globalização econômica, as instituições escolares passaram a enfrentar novos obstáculos, especialmente com relação a cumprir adequada e satisfatoriamente seus compromissos educacionais. Este processo é gerador de intensos conflitos para os professores, que são ainda agravados pelas exigências sociais do papel do professor: de um lado as exigências de ensino de qualidade e de resultados positivos; mas de outro, num contexto de produção em massa, escassez de recursos materiais e humanos. Esses movimentos, em sentidos contrários, empurram à um dilema: gerar resultados positivos sem dispor de ferramentas adequadas e necessárias para isto. Este quadro tende a gerar desprestígio e desvalorização dos docentes, já sobrecarregados pela necessidade de cumprir as novas exigências da Educação4.

O aumento das responsabilidades e exigências sobre a classe docente é conseqüência de um processo histórico que ocorreu rapidamente no contexto da sociedade brasileira. Um dos reflexos dessas transformações estrutura o denominado "mal-estar" docente representado por um conjunto de agravos à saúde decorrente, entre tantos fatores, do processo de adaptação às novas exigências da profissão2.

Na última década, diferentes estudos descreveram os problemas de saúde mais prevalentes entre os professores, com destaque para as desordens musculoesqueléticas, problemas vocais e distúrbios psíquicos1,5-10.

A dor musculoesquelética ou sensação dolorosa é apontada em diversos estudos com professores como um relevante problema de saúde e as doenças decorrentes de agravos ao sistema musculoesquelético aparecem como as principais causas de afastamento do trabalho e de doenças profissionais nessa categoria11. Toda pessoa, excluindo os indivíduos com insensibilidade congênita, já sentiu dor em algum momento da vida. Porém, quando o sintoma se prolonga, torna-se um problema, motivo de redução da atividade laboral, licenças e afastamento do trabalho, além da possibilidade de desenvolvimento de quadros de depressão12. Vários fatores sociodemográficos, psicossociais, físicos e organizacionais estão relacionados ao desencadeamento, desenvolvimento e manutenção da dor musculoesquelética13.

Os custos médicos e sociais advindos dessa problemática têm crescido incessantemente nos últimos anos e atingem atualmente cifras da ordem de bilhões de dólares em vários países, representando significativo impacto na saúde e qualidade de vida dos trabalhadores14. Portanto, a análise e adequado dimensionamento do problema, bem como a investigação de seus fatores associados, são relevantes para constituir medidas que possam intervir sobre o problema.

Este estudo tem como objetivo descrever a prevalência de dor musculoesquelética segundo características sociodemográficas e do trabalho docente entre professores da rede municipal de ensino de Salvador, Bahia, Brasil.

 

Material e Métodos

Realizou-se um estudo epidemiológico de corte transversal, de natureza descritiva, sobre as condições de trabalho e saúde dos professores da rede municipal de ensino de Salvador. A rede municipal de ensino abrange a educação infantil (pré-escola), ensino fundamental I (1ª a 4ª série) e ensino fundamental II (5ª a 8ª série). Um inquérito que incluiu todos os professores da rede municipal de Educação de Salvador foi realizado durante o recadastramento dos professores, no ano de 2006.

O instrumento de coleta de dados utilizado era composto por blocos de questões relativas às informações sociodemográficas, destinadas a caracterizar o professor; seu trabalho na rede municipal de Salvador; condições do ambiente de trabalho na escola; saúde mental; saúde vocal e principais problemas de saúde referidos pelo professor. O questionário foi entregue ao professor em envelope lacrado e não identificado. O envelope, além do questionário, continha também uma carta do Secretário Municipal de Educação e Cultura, solicitando a participação do docente no inquérito e informando que esta era de caráter voluntário, e que o professor não deveria identificar-se.

A variável dependente, freqüência de dor musculoesquelética, foi investigada em três regiões corporais: membros inferiores: "dor nas pernas"; membros superiores: "dor nos braços" e no dorso: "dor nas costas/coluna". A freqüência da dor foi medida numa escala do tipo Likert: 0=nunca; 1=raramente; 2=pouco freqüente; 3=freqüente e 4=muito freqüente. Neste estudo, foi considerada como queixa de dor musculoesquelética quando o professor referiu sentir a queixa álgica como "freqüentemente" ou "muito freqüentemente", para cada região corporal acima mencionada.

Inicialmente foi feita análise descritiva considerando variáveis sociodemográficas, variáveis relativas ao trabalho docente e variáveis relativas às cargas de trabalho.

As prevalências de dor musculoesquelética foram estimadas segundo as variáveis sociodemográficas (idade, sexo, situação conjugal, nível de escolaridade, presença de filhos e número de filhos), características do trabalho docente (tempo de trabalho como professor, tempo de trabalho na escola em que o professor respondeu o questionário, turno de trabalho, números de turmas que ensinava, número médio de alunos por turma, carga horária semanal e outra atividade remunerada além da docência) e cargas de trabalho (cargas físicas: calor; cargas ergonômicas: mobiliário e tamanho das salas de aula). Foram calculadas razões de prevalência e seus respectivos intervalos de confiança a 95%. Para avaliação da medida de significância estatística utilizou-se o teste de qui-quadrado de Pearson, adotando α=5%. A prevalência de queixas musculoesqueléticas segundo tempo de trabalho foi ajustada por faixa etária utilizando o método de Mantel-Haenszel.

O presente estudo seguiu as recomendações da resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Foi assegurado aos professores o sigilo dos dados fornecidos, sendo as informações usadas exclusivamente para atender aos objetivos da pesquisa. Em nenhuma situação o professor foi identificado, garantindo assim, a confidencialidade das informações. O projeto foi aprovado pelo comitê de Ética em Pesquisa da Maternidade Climério de Oliveira da Universidade Federal da Bahia, parecer n.83/2007.

 

Resultados

Foram estudados 4.496 professores dos 4.697 docentes da rede municipal de ensino do município (taxa de resposta de 95,1%). As mulheres representaram a maioria da população estudada (92,0%); 47,9% tinham 40 anos ou mais de idade, variando de 18 anos a 69 anos; a média de idade foi 40,0 ± 9,4 anos. O tempo de trabalho como professor e na escola variaram, respectivamente, de 1 a 45 anos (média de 14,4 ± 8,4 anos) e de 1 a 37 anos (média de 6,5 ± 6,3 anos). No ensino Fundamental I estavam 68,3% dos docentes. Os professores tinham, em média, 2,1±1,7 turmas e 31,2 ± 5,8 alunos por sala de aula. Aproximadamente 14% dos professores trabalhavam em outra escola da rede municipal de ensino e 31,9% em escola de outra rede de ensino.

A prevalência de dor musculoesquelética (DME) foi de 41,1% para membros inferiores, 41,1% para o dorso e 23,7% para os membros superiores (Tabela 1). A prevalência global, para DME relacionada a qualquer um dos três segmentos corporais foi de 55%: 19,7% referiram dor apenas em um dos três segmentos corporais analisados, 19,9%, em dois segmentos, e 15,4%, nos três segmentos.

 

 

A prevalência de DME foi mais elevada entre aqueles que referiram, conjuntamente, dor no dorso e em membros inferiores (29,8%). A concomitância de DME no dorso e membros superiores foi referida por 18,5% e, entre membros superiores e membros inferiores, 17,7% dos professores.

A prevalência de dor musculoesquelética na população estudada mostrou-se mais elevada entre as mulheres do que entre os homens nos três segmentos corporais: membros inferiores, membros superiores e dorso (Tabela 2). Em relação à faixa etária, observou-se que a prevalência de DME aumentava com a idade (Tabela 2). Os professores que possuíam nível de escolaridade médio apresentaram maior prevalência de dor nos membros inferiores (46,4%) do que no nível de escolaridade superior. Maiores prevalências de dor nos membros superiores e dorso foram observadas entre os docentes viúvos, separados ou divorciados. Ter mais de três filhos associou-se positivamente à DME (Tabela 2).

Professores que possuíam quatorze ou mais anos na profissão apresentaram prevalências mais elevadas de DME em níveis estatisticamente significantes nos segmentos analisados (Tabela 2). Quando ajustada pela idade a associação entre tempo de trabalho e DME nos três segmentos estudados manteve-se positiva (Tabela 3).

 

 

A identificação de dor musculoesquelética nos segmentos corporais estudados segundo variáveis do trabalho docente e cargas de trabalho é apresentada na tabela 4. Maior tempo de trabalho na escola em que respondeu ao questionário (> 5 anos) associou-se positivamente à dor musculoesquelética, em níveis estatisticamente significantes. Após ajuste por idade, o tempo de trabalho na escola permaneceu significantemente associado à DME em membros superiores (p < 0,001) e dorso (p < 0,01) e apresentou nível de significância limítrofe (p < 0,06), em membros inferiores. A prevalência de DME nos membros inferiores associou-se de forma estatisticamente significante (p < 0,05 ou menor) a tempo de trabalho > 5 anos, carga horária semanal > 40 horas, ter outra atividade remunerada além da docência (como fator protetor), muito esforço físico e calor na sala de aula. Queixas de DME nos membros superiores associaram-se significantemente a tempo de trabalho > 5 anos, > 30 alunos por turma, carga horária semanal > 40, ter outra atividade remunerada (como efeito protetor), muito esforço físico e calor na sala de aula. DME no dorso associou-se significantemente a tempo de trabalho > 5 anos, muito esforço físico, mobiliário inadequado e calor na sala de aula.

 

Discussão

Na população estudada predominaram as mulheres com média de idade acima de 40 anos, com nível superior completo, casadas e com um filho. Tais achados são semelhantes aos de outros estudos realizados com professores5,6,8,10. O tempo médio de trabalho como professor foi de 14,4 anos, relativamente maior quando comparado com os estudos de Reis et al.8 e Silvany Neto et al.5, onde o tempo médio foi de 10,4 e 11 anos, respectivamente. Gasparini et al.10, em estudo realizado com professores da rede municipal de Belo Horizonte, encontrou tempo médio de trabalho de 16,6 anos, superior aos achados para professores de Salvador.

Os achados confirmam o maior percentual de docentes do sexo feminino no setor educacional. Este quadro reflete o crescimento do setor ocorrido a partir da segunda metade do século XX, quando houve a incorporação de muitos trabalhadores na área da educação. A introdução das mulheres no mundo do trabalho, como professoras e enfermeiras, foi concebida como atividade do "cuidado" e continuidade das atividades domésticas6. Dessa forma, atualmente, a educação é um campo profissional desempenhado predominantemente pelas mulheres. As mulheres são maioria na categoria. Segundo pesquisa realizada pela UNESCO15 sobre o perfil do docente no Brasil, 81,3% dos docentes são do sexo feminino.

Diferenças entre as condições de trabalho entre homens e mulheres têm sido apontadas em diferentes estudos com professores, observando que as mulheres são menos qualificadas, recebem salários mais baixos e apresentam menores níveis de controle sobre o trabalho em relação aos homens e níveis mais elevados de demandas9. Também tem sido descrito que essas características, por sua vez, estão associadas ao maior adoecimento físico e psíquico. Mesmo as mulheres predominando nas atividades de ensino, ainda são destinados a elas os postos de trabalho de menor qualificação, com menores salários e baixo status social5,9.

A prevalência de DME foi mais elevada entre as mulheres, nos três segmentos corporais estudados. Outros estudos encontraram prevalências menores de DME entre as mulheres do que as observadas aqui 16-18. Registra-se, contudo, que maior acometimento de DME entre mulheres comparadas aos homens se manteve nesses estudos. Em um estudo realizado com moradores da província de Quebec16 foi observado que 20,4% das mulheres referiram dor musculoesquelética nos membros inferiores, 22,3% nos membros superiores e 30,4% no dorso/costas. No estudo de Kjellberg e Wadman18, realizado na Suécia, evidenciou-se apenas 19% das ocorrências de dor nos membros inferiores. As diferenças sociais e econômicas entre o Brasil e os países dos estudos citados, a forma como o trabalho é organizado, as demandas enfrentadas pelos trabalhadores e os fatores de proteção envolvidos2 contribuem para as diferenças observadas no presente estudo.

A associação entre DME e idade maior que 40 anos, nos três segmentos analisados, pode ser explicada pelo processo de desgaste natural do corpo. Contudo, deve-se considerar também que este processo pode ser influenciado, pelo ambiente de trabalho, pelo tipo de atividade desenvolvida e pela organização do trabalho6. Desta forma, a idade seria um fator associado à ocorrência de dor. Reis et al.3 discutem que o professor com mais experiência profissional é menos suscetível aos efeitos negativos do trabalho sobre a saúde; por outro lado se o tempo de profissão foi marcado por restrições ao ganho de experiência como professor, a exposição pode se associar a situações adversas à saúde.

Os achados fortalecem a hipótese de que a exposição prolongada à atividade docente está associada à maior ocorrência de DME. Achado que não é alterado quando se ajustam as estimativas de associação pelo efeito da idade. Cabe registrar, contudo, que dor musculoesquelética foi relatada por 37,5% (membros inferiores) a 37,2% (dorso) dos professores com até 29 anos de idade. Este fato é preocupante, pois professores mais jovens estariam experimentando o evento álgico de forma precoce. Estudo demonstrou que trabalhadores mais jovens enfrentam maiores demandas do trabalho, estando expostos a fatores de riscos, pois assumiriam um maior número de atividades e tarefas no início da carreira19.

Neste estudo, os professores que tinham nível médio referiram mais dor musculoesquelética em relação àqueles que possuíam ensino superior completo. Professores com menor nível de escolaridade poderiam experimentar condições de trabalho diferentes, pois boa parte destes docentes estaria em processo de capacitação (cursando nível superior), o que adicionaria novas demandas às atividades do trabalho docente.

Os professores de Salvador que possuíam três ou mais filhos relataram mais DME do que aqueles que possuíam um ou dois filhos. Esses achados são consistentes com os achados da literatura, os quais apontam que um número maior de filhos corresponde à maior exigência de tempo de dedicação para cuidar das crianças; possibilidade de maior estresse psíquico; e necessidade de maior carga horária de trabalho para aumentar a renda familiar20.

O tempo de trabalho como professor e o tempo de atividade docente na escola em que foi entrevistado mostraram-se associados com DME, nos três segmentos corporais investigados. As mudanças no sistema educacional brasileiro, ocorridas nas últimas décadas, trouxeram novas exigências à categoria profissional docente e condições de trabalho precarizadas. Essas condições desfavoráveis podem ser fatores que influenciam a ocorrência de DME, como apontam Malchaire, Cock e Vergracht13. Assim, a exposição prolongada a essas condições desfavoráveis passa a representar fator de risco à saúde.

Dor musculoesquelética foi mais elevada em professores que tinham carga horária de 40 horas semanais e que trabalhavam em dois ou mais turnos, embora nem todas as diferenças observadas tenham sido estatisticamente significantes. Tais características sugerem que a longa e, provavelmente, intensa jornada de trabalho poderia contribuir para ocorrência desse evento. A sobrecarga de trabalho do professor foi apontada em outros estudos, tanto com professores da educação infantil quanto professores de nível superior5-8,10,21-23.

As DME foram mais prevalentes em professores com turmas com mais de 30 alunos, ainda que, também para esta variável, o resultado tenha sido estatisticamente significante apenas para membros superiores.

Os achados com relação ao número de turmas e de alunos, ainda que as diferenças observadas não tenham alcançado níveis de significância estatística, sugerem que o aumento do número de turmas e de alunos acarreta, para o professor, acréscimo em suas atividades (planejamento e correção de atividades escolares; maior atenção), elevando a ocorrência de DME. A UNESCO e OIT (Organização Internacional do Trabalho) recomendam não ultrapassar 25 alunos por turma24. Essa situação tem influência direta na qualidade de ensino, levando à piora no aprendizado dos alunos e aos agravos à saúde dos professores.

Docentes que trabalhavam em outra escola apresentaram maiores prevalências em relação àqueles que trabalhavam em uma única escola. Contudo, aqueles que possuíam outra atividade remunerada, além da docência, tiveram prevalências de DME significantemente menores que àqueles que não a tinham. Esses achados reforçam a hipótese de que o docente está submetido a condições de trabalho que favorecem o surgimento ou a manutenção da dor musculoesquelética. Essa situação poderia ser favorecida pelo fato do trabalhador ter se ocupado em atividade diferente da docente, e, estaria experimentando outra condição de trabalho diferente da atividade como professor, podendo esta ser mais favorável. Visto assim, a associação entre possuir outra atividade e DME foi protetora para os segmentos analisados, alcançando níveis estatisticamente significantes para membros inferiores e membros superiores.

O esforço físico elevado apresentou-se como importante fator associado à DME. Esses achados são consistentes com a pesquisa de Malchaire, Cock e Vergrocht13 que destacam, entre outros fatores estudados, as cargas físicas do trabalho como importantes fatores que contribuem para ocorrência de DME. Barros et al.25 relatam que o trabalho do professor envolve uma considerável carga física, estabelecida pela permanência do educador em posição ortostática por até 95% das atividades, com graus variados de flexão da coluna cervical. No estudo desenvolvido por Delcor et al.6, dentre os esforços físicos realizados no trabalho do docente, destacou-se o tempo que o mesmo permanecia em pé. Não somente a atividade ortostática pode contribuir para ocorrência de DME. Outras situações, como carregar material para escola ou sala de aula, instalação de equipamentos/recursos didáticos, deslocamentos dentro da escola e fora dela podem se associar à ocorrência de DME.

Entre as condições do ambiente de trabalho analisadas, encontrou-se associação entre o calor e DME nos membros inferiores, membros superiores e dorso. Estudos têm mostrado que o desempenho de atividades e o ambiente de trabalho correlacionam-se. Condições adversas ou desconfortáveis podem ocasionar danos futuros à saúde dos docentes26,27. A exposição excessiva à temperatura elevada pode acarretar distúrbios como exaustão pelo calor, intermação e câimbras. A probabilidade de desenvolver esses distúrbios aumenta em ambientes com umidade elevada e com esforço físico elevado28. Mesmo não apresentando estados mórbidos imediatos, a sobrecarga térmica contínua, no longo prazo, pode ter efeitos deletérios à saúde.

Com relação às cargas ergonômicas, observou-se que a referência do docente a mobiliário inadequado em sala de aula apresentou associação positiva com DME para dorso. No estudo de Araújo et al.7, 59,3% dos professores universitários relataram trabalhar em posição inadequada ao corpo. A adoção de posturas inadequadas do professor, influenciadas principalmente por ambientes com condições inadequadas, pode contribuir para o aparecimento das DME. No estudo de Chiu e Lam29, realizado com professores do ensino secundário em Hong Kong, a postura com a cabeça flexionada foi importante fator associado à DME no pescoço e membros superiores. A falta de cadeiras e mesas em tamanhos e formatos adequados ao professor obriga este a desenvolver posições desfavoráveis ao sistema musculoesquelético. A cadeira inadequada faz com que o educador sente-se sem apoio para a coluna, com excessiva flexão de joelhos e quadris (nos casos de cadeiras baixas), com a necessidade de fazer flexão do tronco para escrever e ler textos que estejam sobre a mesa ou mesmo fazer a chamada dos alunos, ficando os membros superiores sem apoio30.

 

Considerações Finais

Este estudo possibilitou explorar a ocorrência de dor musculoesquelética em três regiões corporais distintas. Os achados do estudo reforçam a hipótese de que as características oriundas de determinada atividade laboral produzem efeitos negativos sobre a saúde dos trabalhadores. Os professores investigados referiram elevadas prevalências de dor musculoesquelética em membros superiores, inferiores e dorso. Também foram analisadas associações de fatores sociodemográficos e ocupacionais para estas ocorrências. A identificação desses fatores pode contribuir para a adoção de políticas públicas que visem à prevenção de adoecimento e promovam bem-estar dessa categorial profissional.

 

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Correspondência:
Jefferson Paixão Cardoso
Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS
Centro de Pós-graduação em Saúde Coletiva
Núcleo de Epidemiologia. Av. Transnordestina, s/n
Novo Horizonte
CEP: 44.036-900
Feira de Santana - Bahia
E-mail: cardoso.jefferson@hotmail.com

Recebido em: 18/03/09
Versão final reapresentada em: 22/06/09
Aprovado em: 04/07/09
Conflito de interesses: Não há conflito de interesses a declarar