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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.14 n.4 São Paulo Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2011000400010 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Associação entre a qualidade de vida das mães e o estado nutricional de seus filhos

 

Association between mothers' quality of life and infants' nutritional status

 

 

Fernanda de Matos FeijóI; Deborah Filippini CarraroII; Maria Rita Macedo CuervoIII; Martine Elisabeth Kienzle HagenIV; Wilson Paloschi SpiandorelloV; Alessandra Campani PizzatoVI

IPrograma de Pós-Graduação em Medicina: Ciências Médicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Sistema de Saúde Mãe de Deus
IIPrograma de Pós-Graduação em Ciências Cirúrgicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
IIIPrograma de Pós Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS); Curso de Graduação em Nutrição da Faculdade de Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - FAENFI/PUCRS
IVCurso de Graduação em Nutrição da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
VCurso de Graduação em Medicina da Universidade de Caxias do Sul (UCS)
VICurso de Graduação em Nutrição da Faculdade de Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - FAENFI/PUCRS

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar associações entre a qualidade de vida das mães e o estado nutricional de seus filhos.
MÉTODOS: Foi realizado um estudo caso-controle com mães de crianças com idade entre zero e cinco anos, moradoras da área de abrangência de uma unidade básica de saúde, no município de Porto Alegre. O cálculo de tamanho amostral foi estimado em 152 mães, sendo 76 mães com filhos em risco nutricional/desnutrição (casos) e 76 mães com filhos eutróficos (controles). Foram coletadas informações referentes à qualidade de vida das mães, medida através do instrumento da Organização Mundial da Saúde, e analisada a associação entre a qualidade de vida materna e o estado nutricional de seus filhos.
RESULTADOS: Em relação ao domínio psíquico, para cada criança eutrófica cuja mãe tem baixa qualidade de vida existe uma chance de 5,4 crianças em risco nutricional/desnutrição com mães em igual condição. No domínio ambiental, para cada criança eutrófica cuja mãe tem baixa qualidade de vida existe uma chance de 2,9 crianças em risco nutricional/desnutrição com mães em igual condição. Em relação ao nível educacional, para cada criança eutrófica cuja mãe tem baixa qualidade de vida existe uma chance de 4,2 crianças em risco nutricional/desnutrição com mães em igual condição.
CONCLUSÕES: A baixa qualidade de vida materna mostrou-se associada ao risco nutricional/desnutrição infantil e pode ser um fator de risco para o estado nutricional dos filhos.

Palavras-chave: Transtornos da nutrição infantil. Vigilância nutricional. Fatores de risco. Desnutrição. Qualidade de vida. Estado nutricional.


ABSTRACT

OBJECTIVE: Determine associations between the quality of life of mothers and the nutritional status of children.
METHODS: case-control study involving 152 mothers of children aged zero to five years, living in the coverage area of a basic health unit in the city of Porto Alegre. The calculation of sample size was estimated as 152 mothers - 76 mothers with children at nutritional risk/malnutrition (cases) and 76 mothers with eutrophic children (controls). Information was collected regarding the quality of life of mothers, measured by the instrument of the World Health Organization, and the association between maternal quality of life and nutritional status of children was examined.
RESULTS: In relation to the psychiatric realm, for each eutrophic child whose mother has lower quality of life there is a chance of 5.4 children at nutritional risk/malnutrition with mothers in the same condition. In the environmental field, for each eutrophic child whose mother has lower quality of life there is a chance of 2.9 children at nutritional risk/malnutrition with mothers in the same condition. Regarding educational level, for each eutrophic child whose mother has lower quality of life there is a chance of 4.2 children at nutritional risk/malnutrition with mothers in the same condition.
CONCLUSIONS: Mothers' low quality of life was associated with an infant in nutritional risk/malnutrition and may be a risk factor for the nutritional status of children.

Keywords: Infant nutrition disorders. Nutritional vigilance. Risk factors. Malnutrition. Quality of life. Nutritional status.


 

 

Introdução

A desnutrição infantil é uma doença de origem multicausal e complexa com condicionantes biológicos e sociais, relacionada ao atendimento de necessidades básicas como saúde, alimentação, saneamento e educação, entre outros, e tem suas raízes na pobreza1-6. Percebe-se que a origem da desnutrição é multicausal quando esta se apresenta de forma diferenciada nas crianças de uma mesma família, entre famílias diversas e em classes sociais distintas6,7. Ou seja, mesmo vivendo sob as mesmas condições, as pessoas apresentam estados nutricionais diferentes4,7-10. Segundo Monte11, a natureza do vínculo mãe-filho, bem como as práticas de cuidado com a criança e suas condições de vida são importantes fatores na gênese da desnutrição.

Para compreender a origem da desnutrição é preciso um conhecimento mais aprofundado dos fatores de risco de desnutrição. São eles: baixo nível socioeconômico, abandono do aleitamento materno, saneamento básico ausente ou inadequado, desajustamento familiar, fraco vínculo mãe-filho, baixa escolaridade, baixa estimulação e baixo peso ao nascer7-10. Dentre os fatores de risco de desnutrição, o vínculo mãe-filho tem se demonstrado de grande importância. Muitos autores enfatizam a importância da condição mental e psicológica da mãe como fator de risco para desnutrição4,8,12,13.

A boa relação entre mãe e filho é aquela em que há possibilidade de trocas afetivas. Para que esta relação se desenvolva, é necessário que a mãe possa exercer bem o seu papel materno, que é influenciado por vários fatores, tais como sua história de vida, os cuidados e afetos recebidos de seus pais e a qualidade da relação conjugal e familiar. Quando a mãe está bem assistida, tanto em relação à sua saúde quanto emocionalmente, ela desenvolve a função materna adequadamente8,13,14. Isso nos leva a reconhecer que a qualidade de vida (QV) da mãe tem uma forte relação com o estado nutricional de seu filho, e que a mesma tem um impacto importante sobre a saúde dele14,15.

Reduzir a prevalência da desnutrição infantil requer ação focalizada e sistemática não apenas na área de saúde, mas também na segurança alimentar e, particularmente, nos cuidados com a mãe para que ela possa cuidar bem da sua criança6,11. Por isso, delineou-se o presente estudo a fim de verificar associações entre a QV das mães e o estado nutricional de seus filhos. A hipótese a ser testada foi de que mães com baixa QV apresentam maior chance de terem filhos em risco nutricional/desnutrição em relação a mães com QV aceitável. Utilizou-se o instrumento próprio para medir a QV da OMS e classificou-se as mães como em baixa QV e QV aceitável.

 

Métodos

Foi realizado no ano de 2006 um estudo de caso-controle com mães de crianças com idade entre zero e cinco anos, moradoras na área de abrangência de uma unidade básica de saúde, no município de Porto Alegre, em uma região que apresenta elevada vulnerabilidade social.

O cálculo de tamanho amostral foi estimado em 152 mães, sendo 76 mães com filhos em risco nutricional/desnutrição (casos) e 76 mães com filhos eutróficos (controles). Este número foi calculado para se obter um intervalo de confiança de 95%, poder de 80% e odds ratio (OR) de três, valores esses considerados de relevância clínica pelos pesquisadores.

As participantes desse estudo foram selecionadas através do banco de dados de um estudo de vigilância nutricional, no ano de 2006, que realizou rastreamento do estado nutricional de todas as crianças com idade entre zero e cinco anos, moradoras na área de abrangência de uma unidade básica de saúde, no município de Porto Alegre17. Esta pesquisa, financiada pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi uma parceria entre a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e a Associação Hospitalar Moinhos de Vento (HMV). Este estudo realizou avaliação nutricional das crianças, empregando os índices antropométricos: peso/altura, altura/idade e peso/idade, sendo comparadas às curvas de referência do Center for Disease Control and Prevention (CDC) Growth Charts 2000, com dados do National Center for Health Statistics (NCHS), mediante a colaboração do National Center for Disease and Health Promotion18,19. O peso corporal foi verificado por meio de uma balança da marca Plena, modelo MEA-07400, com capacidade para 150kg, devidamente calibrada, com a criança descalça e com o mínimo de roupa possível. A mensuração da estatura foi feita com a utilização do antropômetro horizontal (marca Sunny) para avaliação das crianças menores de 2 anos e com a utilização do antropômetro vertical para crianças acima de 2 anos (marca Sunny), descalças e com o mínimo de roupa possível.

Foram classificadas como risco nutricional/desnutrição aquelas crianças que apresentaram percentil menor que 10 em dois desses índices, sendo um deles peso/idade, e como eutróficas aquelas que apresentaram percentil entre 97 e 100, inclusive nos índices peso/altura e altura/idade1,15,16.

Assim, foram identificadas mães com filhos em risco nutricional/desnutrição e mães com filhos eutróficos. Todas as mães que apresentaram pelo menos um filho em risco nutricional ou desnutrido foram incluídas no caso. Foram excluídas do estudo as mães que estavam grávidas no momento da avaliação, as que possuíam filhos em tratamento de qualquer doença crônica, como também as que não quiseram participar do estudo.

Foi realizada alocação aleatória das participantes através de um software de informática do banco de dados da pesquisa de vigilância nutricional acima referido. Foram coletadas informações referentes à QV das mães, medidas através do instrumento de avaliação da QV, o WHOQOL-bref, criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e validado no Brasil20. Trata-se de um questionário com vinte e seis questões que foi desenvolvido com a perspectiva de ser transcultural, ou seja, considerando as diferenças culturais para poder ser utilizado internacionalmente. Empregando uma escala com valores que variam entre zero e 100, avaliam-se quatro diferentes domínios: físico (sete questões), psicológico (seis questões), relações sociais (três questões), meio ambiente (oito questões), além de duas questões adicionais sobre QV geral. Este instrumento estima as condições em que a pessoa se encontrava nos últimos 15 dias21. Esta versão resumida é uma alternativa para as situações em que a versão longa seja considerada de difícil aplicação, como, por exemplo, em estudos com utilização de múltiplos instrumentos de avaliação20,21.

Ele se origina do WHOQOL-100, constituído por 100 questões que verificam as condições em que a pessoa se vê, percebe, considera e se analisa, ao longo dos 15 dias precedentes. As questões foram formuladas para respostas em uma escala de: intensidade (nada - extremamente), capacidade (nada - completamente), frequência (nunca - sempre) e avaliação (muito insatisfeito - muito satisfeito; muito bom - muito ruim), cujos escores são em uma direção positiva, isto é, escores maiores denotam melhor QV22-24.

Segundo Fleck e colaboradores,o WHOQOL-bref apresenta boa consistência interna, validade discriminante, validade concorrente, validade de conteúdo e confiabilidade teste-reteste. A consistência interna do WHOQOL-bref, medida pelo coeficiente a de Cronbach, foi boa; quando comparada com a consistência interna da versão longa de 100 questões, o coeficiente de Cronbach foi inferior. Segundo os autores, este achado era esperado, pois instrumentos compostos por um número maior de questões tendem a ter coeficientes de Cronbach mais elevados20.

Avaliar a QV é muito complexo, uma vez que não existe uma definição consensual sobre o que ela realmente significa. O conceito que norteia o trabalho é o mesmo adotado pela OMS, definido como "a percepção do indivíduo sobre sua posição na vida, no contexto da cultura e dos sistemas de valores nos quais ele vive, e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações" 25.

O WHOQOL-bref foi escolhido por ser um instrumento genérico que procura englobar todos os aspectos importantes relacionados à saúde, e que reflete o impacto de uma doença sobre o indivíduo. Pode ser usado para estudar indivíduos da população geral ou de grupos específicos, como portadores de doenças crônicas. Assim, permite comparar a QV de indivíduos sadios com doentes ou portadores da mesma doença, vivendo em diferentes contextos sociais e culturais25,26.

Inicialmente, os resultados foram descritos para toda a amostra e, em seguida, para os grupos em separado. Depois, os domínios de QV foram comparados, nos grupos, segundo o estado nutricional: risco nutricional/desnutrição e eutrofia, através do teste t de Student. Para a análise multivariada de regressão logística, o nível educacional foi categorizado em primeiro grau e outros, sendo esse último a agregação do segundo e terceiro graus. Os motivos para se realizar esse tipo de transformação foram a relação entre o tamanho da amostra e o número excessivo de categorias, e a perda irrelevante de informações para os objetivos do estudo.

Os domínios foram classificados em qualidade aceitável, com escores acima de 60%, e baixa qualidade, com escore inferior. Esses valores foram identificados como um ponto de corte diferencial durante as análises estatísticas.

Os princípios éticos foram respeitados com o objetivo de proteger os direitos dos sujeitos envolvidos, considerando-se as questões expressas na Resolução 196/96 do CNS-MS27, as recomendadas por Polit e Hungler28, e os aspectos apontados por Goldim29. O projeto de pesquisa foi aprovado por dois Comitês de Ética: o Comitê de Ética em Pesquisa da PUCRS e do HMV.

 

Resultados

Na Tabela 1, observam-se as comparações entre os grupos de mães com filhos eutróficos e mães com filhos em risco nutricional/desnutrição quanto aos escores de QV. Analisando os domínios de QV (físico, psíquico, social e ambiental) dos grupos caso e controle, com teste t de Student, todos foram estatisticamente significativos.

O nível educacional foi analisado por uma variável dicotômica que representou aqueles com nível primário e os outros (agregação do segundo e terceiro graus) (Tabela 2). Essa classificação foi feita pelo número insuficiente de pessoas com educação de nível superior (quatro sujeitos). Das 152 mães, 91 (59,9%) possuíam I grau incompleto; 17 (11,2%) I grau completo; 19 (12,5%) II grau incompleto; 21 (13,8%) II grau completo, e 4 (2,6%) III grau incompleto. Das mães que tinham I grau incompleto 34 (37,4%) eram do grupo controle e 57 (62,6%) do grupo caso. Com o I grau completo, 8 (41,1%) controle e 9 (52,9%) caso. Com II grau incompleto, 13 (68,4%) controle e 6 (31,6%) caso. Com o II grau completo, 18 (85,7%) controle e 3 (14,3%) caso. E com III grau incompleto, 3 (75%) controle, e 1 (25%) caso. (p = 0.01).

A Tabela 3 apresenta a análise multivariada de regressão logística dos domínios de QV. Os escores de QV foram classificados como qualidade aceitável, quando acima de 60%, e baixa qualidade, com escore inferior. Foram considerados: o estado civil, o nível educacional, o estado de saúde atual e os quatro domínios de QV. Por essa análise, a QV física e a social deixaram de mostrar significância estatística pela interferência das outras variáveis. Permaneceram estatisticamente significativos os odds ratio da qualidade psíquica, da qualidade ambiental e do nível educacional.

Em relação ao domínio psíquico, para cada criança eutrófica cuja mãe tem baixa QV existe uma chance de 5,4 crianças em risco nutricional/desnutrição com mães em igual condição. No domínio ambiental, para cada criança eutrófica cuja mãe tem baixa QV existe uma chance de 2,9 crianças em risco nutricional/desnutrição com mães em igual condição. Em relação ao nível educacional, para cada criança eutrófica cuja mãe tem baixa QV existe uma chance de 4,2 crianças em risco nutricional/desnutrição com mães em igual condição.

Na Tabela 4 observa-se a distribuição do estado civil entre os grupos. Das 152 mães, 35 (23%) eram solteiras, 48 (31,6%) eram casadas, 62 (40,8%) viviam como casadas, 3 (2%) eram separadas, 3 (2%) eram divorciadas, e 1 (0,7%) era viúva. Das mães solteiras, 15 (42,9%) eram do grupo controle e 20 (57,1%) do grupo caso. Casadas, 32 (66,7%) eram do grupo controle e 16 (33,3%) do grupo caso. Vivendo como casadas, 27 (43,5%) eram controle e 35 (56,5%) caso. Separadas, 1 (33,3%) controle e 2 (66,7%) caso. Divorciadas, 1 (33,3%) controle e 2 (66,7%) caso. E viúvas, 1 (100%) era do grupo caso. (p = 0.12).

Em relação à saúde das mães: estavam com a saúde muito ruim, 1 (50%) de cada grupo; com a saúde fraca, 3 (42,9%) do grupo controle e 4 (57,1%) do grupo caso; com a saúde nem ruim e nem boa 16 (38,1%) controle e 26 (61,9%) caso; com a saúde boa 47 (56%) controle e 37 (44%) caso; com saúde muito boa 9(52,9%) controle e 8(47,1%) caso. De acordo com os problemas atuais de saúde dessas mães, tinham algum tipo de câncer: 1 (33,3%) do grupo controle e 2 (66,7%) do grupo caso; apresentaram Depressão: 6 (50%) de cada grupo; Diabetes: 1 (50%) era do grupo controle e 1 (50%) do grupo caso; Doença de pele: 1 (33,3%) controle e 2 (66,7%) caso; Enfisema ou bronquite: 1 (16,7%) no grupo controle e 5 (83,3%) no grupo caso; Referindo não ter nenhum problema de saúde: 47 (56,6%) controle e 36 (43,4%) caso; Com outros problemas não citados no questionário: 10 (40%) controle e 15 (60%) caso; Pressão alta: 5 (50%) de cada grupo; Problemas de coração: 2 (66,7%) controle e 1 (33,3%) caso. Problema nervoso ou emocional: 1 (25%) controle e 3 (75%) caso. (p = 0.617).

 

Discussão

A associação entre desnutrição infantil e o estado psíquico da mãe, nível educacional materno, bem como condições ambientais identificadas neste estudo, confirmaram resultados conhecidos na literatura. No estudo realizado por Cavalhaes & Benício31 foram identificados como fatores de risco de desnutrição infantil a precária saúde mental materna, estrutura familiar adversa e fatores de estresse familiar. A baixa escolaridade mais que duplicou o risco de desnutrição. Reichenheim & Harplan32 identificaram a condição econômica da família, indicada pelas condições ambientais de domicílio, um importante antecedente de déficit estatural. O grau de escolaridade materna também se mostrou associado ao retardo de crescimento3,8-10,33,34.

Marques30, em um estudo realizado, avaliou a QV e sexualidade de mulheres em diálise observou resultado semelhante ao do presente estudo em relação à variável nível educacional, no qual a baixa escolaridade teve efeito redutor da QV. Engstrom & Anjos10 observaram maior incidência de desnutrição em filhos de mães analfabetas, reduzindo conforme o aumento da escolaridade. Resultado confirmado por Olinto et al.8 em seu estudo sobre os determinantes da desnutrição infantil em populações de baixa renda. Nascimento et al.9 deixam clara a relação entre depressão e vínculo mãe-filho comprometido, podendo levar à perda de interesse e à negligência3,31,34.

A baixa renda foi apontada em alguns estudos como um importante fator de risco para desnutrição3,33,34. Post et al.33 evidenciaram uma clara relação inversa entre a renda familiar e a prevalência de déficit. A renda familiar seria importante de ser considerada, entretanto, devido ao nível uniforme da população ser de baixa renda, ela não foi considerada neste estudo.

Alguns autores destacam o fato de mães que trabalham fora de casa, e que possuam renda mensal, como sendo significante para o estado nutricional infantil5,8. Segundo Olinto et al.8, que investigaram os determinantes de desnutrição infantil, as famílias cujas mães não trabalhavam fora de casa apresentaram um aumento de 70% no risco de déficit de altura/idade. Esta foi uma variável que poderia ter sido incluída. O número de irmãos também teve associação com o estado nutricional infantil. Reichenhrim & Harpham32, em seu estudo com crianças menores de 5 anos em uma comunidade de baixa renda, identificaram que uma criança com pelo menos mais dois irmãos vivendo no mesmo domicílio tinha maior chance de crescimento retardado4.

Estudos também apontam a idade materna como um importante fator de risco para desnutrição infantil. Este foi um ponto fraco do presente estudo, pois a idade materna não foi avaliada3,31.

Para melhor esclarecer essa associação entre a baixa QV materna e risco nutricional/desnutrição infantil, novos estudos devem ser realizados utilizando-se mais de um instrumento de avaliação da QV ou a versão longa, o WHOQOL-100, bem como a inclusão das variáveis não analisadas neste estudo, como: idade materna, o fato de a mãe trabalhar (possuir renda própria) e a renda familiar.

 

Conclusão

Em resumo, os resultados da literatura estão de acordo com o presente estudo, sugerindo que a baixa QV materna está associada com o risco nutricional/desnutrição infantil e esta pode ser um fator de risco para o estado nutricional de seus filhos.

 

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Correspondência:
Maria Rita Macedo Cuervo.
Av. Ipiranga, 6681 Prédio 12 - Porto Alegre/RS
CEP: 90619-900.
E-mail: maria.cuervo@pucrs.br

Recebido em: 21/01/2010
Versão final apresentada em: 20/07/2010
Aprovado em: 11/04/2011
Conflito de interesse: nada a declarar.
Financiamento: sem fonte de financiamento.

 

 

Trabalho realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).