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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.14 n.4 São Paulo Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2011000400014 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Comparação de métodos de avaliação da gordura corporal total e sua distribuição

 

Comparison of methods to evaluate total body fat and its distribution

 

 

Karine Anusca MartinsI; Estelamaris Tronco MonegoI; Régis Resende PaulinelliII; Ruffo Freitas-JuniorII

IFaculdade de Nutrição da Universidade Federal de Goiás
IIDepartamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG)

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Comparar dois métodos de avaliação da gordura corporal total e sua distribuição.
MÉTODOS: Estudo transversal, aninhado a uma coorte. Em amostra de 62 mulheres realizou-se avaliação do estado nutricional, incluindo a gordura corporal (GC) total obtida pelo somatório de dobras cutâneas (
ΣDC) e bioimpedância (BIA). Mensurou-se a distribuição da gordura visceral por ultrassonografia (USG) (espessura de gordura intra-abdominal-EIA) e circunferência da cintura (CC). Foram calculados o coeficiente de correlação de concordância (CCC) e o coeficiente de determinação (r2).
RESULTADOS: A média de idade das pacientes foi de 48,19 (8,99) anos. Observou-se 36 (58,06%) mulheres com a CC muito aumentada e 42 (67,74%) com GC aumentada. Identificou-se moderada concordância (r2 = 0,42; CCC = 0,59; p < 0,01), entre os métodos avaliados para determinação da gordura corporal (%) e uma ótima concordância (r2 = 0,90; CCC = 0,91; p < 0,01) para a gordura corporal (kg), avaliadas por BIA e
ΣDC. A comparação entre a CC e EIA (USG) evidenciou uma moderada concordância (r2 = 0,49; p < 0,01), entre os métodos.
CONCLUSÕES: Evidenciou-se moderada concordância na avaliação da gordura corporal total (%) e ótima concordância na avaliação da gordura corporal (kg), entre os métodos utilizados. Identificou-se uma moderada concordância entre os métodos de distribuição da gordura corporal.

Palavras-chave: Composição corporal. Distribuição da gordura corporal. Dobras cutâneas. Impedância bioelétrica. Circunferência da cintura. Saúde pública.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To compare two methods for evaluating total body fat and its distribution.
METHODS: Cross-sectional, cohort-nested study. Sixty-two women received a nutritional status evaluation which included total body fat (BF) obtained through the sum of skinfolds (
ΣSF) and bioimpedance (BIA). Visceral fat distribution was measured using ultrasonography (USG) (intra-abdominal fat thickness) (IAT) and waist circumference (WC). The concordance correlation coefficient (CCC) and the determination coefficient (r2) were calculated.
RESULTS: Mean patient age was 48.19 (8.99) years. Thirty-six women (58.06%) had a very large WC and 42 (67.74%) had high body fat. There was moderate concordance (r2 = 0.42; CCC = 0.59; p < 0.01) between the methods for determining body fat (%) and optimal concordance (r2 = 0.90; CCC = 0.91; p < 0.01) for body fat (kg) determined by BIA and
ΣSF. The comparison between WC and IAT (USG) showed moderate concordance (r2 = 0.49; p < 0.01) between the methods.
CONCLUSIONS: Moderate concordance in determining total body fat (%) and optimal concordance in determining body fat (kg) were found between the methods. Moderate concordance was found between the methods for determining body fat distribution.

Keywords: Body composition. Body fat distribution. Skinfold thickness. Electric impedance. Waist circumference. Public health.


 

 

Introdução

A avaliação do estado nutricional é peça chave na identificação de problemas e/ou inadequações do estado nutricional em qualquer fase da vida1, em especial nas enfermidades2,3, incluindo as neoplasias, uma vez que direta ou indiretamente influi no prognóstico de saúde do indivíduo avaliado4.

O aumento da gordura corporal total ou visceral traz prejuízos à saúde, em especial das mulheres, com destaque àquelas portadoras de alguma enfermidade crônica não-transmissível3,5, entre elas o câncer de mama6,7. Tem sido observado ao longo do tempo que a gordura visceral representa fator de risco mais proeminente que a gordura corporal total, em se tratando de intercorrências metabólicas8-12.

Considerando as consequências que a modificação da composição corporal pode causar no estado nutricional e na saúde das mulheres, avaliar e detectar alterações na composição corporal o mais precocemente possível pode contribuir na redução de efeitos decorrentes dos problemas de saúde acarretados13.

Existem diversos métodos que podem ser utilizados nesta avaliação, entre eles métodos mais acurados e precisos, entretanto dispendiosos, morosos e de execução complexa, tais como absortometria por dupla emissão de raios-X (DEXA), pesagem hidrostática, ressonância magnética e tomografia computadorizada (TC)14,15. Em contrapartida, há outros métodos de custo mais acessível e de fácil execução, como Impedância Bioelétrica ou Bioimpedância (BIA) e mensuração das dobras cutâneas para avaliação da gordura corporal total14.

Já para determinação do tecido adiposo visceral, a tomografia é considerada, classicamente, o método mais eficaz e preciso16; entretanto, torna-se inviável em função do seu alto custo. Como alternativa, a ultrassonografia vem sendo utilizada, por apresentar alta concordância com a tomografia computadorizada, principalmente onde as áreas de gordura visceral são maiores17.

Na indisponibilidade dos métodos mais precisos, uma alternativa mais acessível seria a mensuração das dobras cutâneas (avaliação da gordura corporal total) e aferição da medida da circunferência da cintura que determina indiretamente a gordura visceral14. Tais métodos são de fácil execução, aplicabilidade e acessibilidade; entretanto, alguns estudos questionaram sua precisão1,14.

Grande parte dos estudos desenvolvidos para comparar a avaliação da gordura corporal total utilizando-se os métodos de fácil execução, como a bioimpedância e o somatório das dobras cutâneas, foi realizada em desportistas ou atletas18,19. Já os estudos realizados em mulheres de diversas faixas etárias utilizaram diferentes métodos, incluindo aqueles mais dispendiosos15,20-22. Poucos são os estudos realizados com mulheres da normalidade à obesidade23, com câncer de mama e com alterações benignas na mama, provenientes de serviços públicos de saúde. Também são poucos os trabalhos que comparam a medida da espessura intra-abdominal com a circunferência da cintura para avaliação da gordura visceral24,25.

Os objetivos do estudo foram: verificar se os métodos supracitados podem ser utilizados no acompanhamento nutricional de mulheres atendidas em serviços públicos de saúde, em especial aquelas com doenças mamárias; comparar dois métodos de estimativa de gordura corporal total (somatório de dobras cutâneas e impedância bioelétrica); e avaliar a correlação entre duas estimativas de gordura visceral (medida da circunferência da cintura e medida da espessura intra-abdominal obtida por ultrassonografia).

 

Metodologia

Trata-se de um estudo transversal aninhado em uma coorte, realizado na cidade de Goiânia, GO, no ano de 2009. O estudo de coorte é prospectivo e continua em andamento, com o objetivo de conhecer o impacto do tratamento quimioterápico na distribuição da gordura corporal e no perfil lipídico de mulheres com câncer de mama, em dois centros de referência de Goiânia, GO.

O tamanho amostral foi calculado para o estudo de coorte supracitado. Foram incluídas 62 mulheres, sendo 31 recém diagnosticadas com câncer de mama e 31 com alterações benignas na mama. Todo o grupo estudado foi proveniente do Programa de Mastologia do Hospital das Clínicas, da Universidade Federal de Goiás e do Serviço de Ginecologia e Mama do Hospital Araújo Jorge, da Associação de Combate ao Câncer de Goiás (ACCG). Como característica em comum, ambos os serviços atendem mulheres provenientes do Sistema Único de Saúde e são pertencentes à Rede Goiana de Pesquisa em Mastologia.

A coleta de dados foi realizada por entrevistadores e antropometristas previamente treinados, seguindo as normas do Manual do Entrevistador e Antropometrista e padronização de medidas, conforme técnica previamente descrita 26,27. Os dados foram coletados em questionário aplicado por meio de entrevista direta, com caracterização sociodemográfica e avaliação do estado nutricional (antropometria).

Dentre as variáveis sociodemográficas pesquisou-se a idade (em anos), a escolaridade (anos de estudo) e a renda familiar per capita (categorizada em salários mínimos). Dentre as variáveis antropométricas considerou-se: peso atual, altura, dobra cutânea bicipital (DCB), dobra cutânea tricipital (DCT), dobra cutânea supra-ilíaca (DCSI), dobra cutânea sub-escapular (DCSE) e circunferência da cintura (CC). Para avaliação da composição corporal utilizou-se a impedância bioelétrica ou bioimpedância (BIA).

A partir das medidas antropométricas foram calculados o Índice de Massa Corporal (IMC), o somatório das dobras cutâneas (ΣDC), a gordura corporal, em percentual (% GC) e em quilogramas (kg), por meio do ΣDC e BIA. A espessura de gordura subcutânea e a espessura de gordura intra-abdominal foram determinadas por ultrassonografia abdominal (USG).

Para a coleta dos dados antropométricos (peso, altura, circunferências e dobras cutâneas) foram seguidas as normas e os procedimentos propostos por Lohman, Roche, Martorell27. Para a determinação do estado nutricional das pacientes de acordo com o IMC adotou-se a classificação da Organização Mundial da Saúde28, e para o percentual de gordura corporal adotou-se a classificação segundo Kyle et al.29.

As medidas das dobras cutâneas foram obtidas com adipômetro (Lange Skinfold Caliper), escala de 0-60 mm, resolução de 1 mm, com 3 repetições. O somatório das quatro dobras cutâneas (DCT, DCB, DCSE, DCSI) permitiu o cálculo indireto da gordura corporal em porcentagem (% GC) e em quilogramas (kg). Com os valores encontrados foi possível calcular a densidade corporal (Dc), segundo proposto por Durnin e Womersley30, aplicado posteriormente à fórmula sugerida por Siri31, chegando-se assim à gordura corporal (% e kg).

A avaliação da gordura corporal total foi realizada pelo aparelho de Bioimpedância (BIA) Bodystat modelo 1500, com escala de medição da impedância de 20-2000ohms, precisão de aproximadamente de 6 ohms e frequência de 50 KHz (KiloHertz). Foram consideradas as seguintes condições prévias para a realização do exame: não usar marcapasso, jejum (a partir de 2 horas), incluindo a ingestão de café ou bebidas alcoólicas, não ter fumado por pelo menos duas horas antes do exame, estar com bexiga vazia, não ter se exercitado pelo menos 12 horas antes32.

A medida da espessura de gordura intra-abdominal (EIA-USG) foi obtida em equipamento de ultrassonografia de marca TOSHIBA, modelo SSA 250 A. A estimativa da gordura visceral foi obtida pela medida de espessura de tecido adiposo com transdutor convexo de 3 a 5 MHz na paciente em jejum de pelo menos seis horas e em decúbito dorsal, em região imediatamente superior à cicatriz umbilical, na linha xifoumbilical, com o mínimo de pressão necessária para visualizar a imagem, conforme padronização da técnica17.

A leitura foi realizada diretamente de imagens congeladas na tela. Considerou-se como espessura da gordura intra-abdominal (EIA-USG) a medida entre a parede posterior do músculo reto abdominal e a parede posterior da aorta17. Somente as pacientes atendidas no Hospital das Clínicas fizeram este exame, em função da disponibilidade de utilização do aparelho, totalizando 49 mulheres.

Para a tabulação dos dados utilizou-se o programa Excel 2003 e, para a análise estatística, os programa SPSS 8.0 e STATA 8.0. Na análise dos dados utilizou-se estatística descritiva (frequência, média, mediana, mínimo e máximo).

Para avaliar a concordância entre a gordura corporal (% e kg) avaliada pela BIA e pelo ΣDC, utilizou-se o coeficiente de correlação de concordância (CCC) proposto por Lin33 e a estratégia de Bland e Altman34 para avaliar a reprodutibilidade das medidas (grau de similaridade), bem como o coeficiente de determinação (r2).

Para avaliar a associação entre a medida da circunferência da cintura e a espessura da gordura intra-abdominal, utilizou-se o coeficiente de determinação (r2). Considerou-se o nível de significância de α < 5%.

As mulheres foram informadas dos objetivos da pesquisa, no momento da entrevista, sendo-lhes apresentado um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) e a possibilidade de não participar do estudo.

O estudo foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa Humana e Animal do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG), protocolo número 073/2008 e no Comitê de Ética em Pesquisa da Associação de Combate ao Câncer de Goiás (ACCG) do Hospital Araújo Jorge, protocolo número 001/09.

 

Resultados

A média de idade das 62 mulheres estudadas foi de 48,19 (8,99) anos, a renda per capita média mensal em reais de R$ 319,51 (291,64), o que representa 0,69 (0,63) salários mínimos, e uma média de 6,32 (3,71) anos de escolaridade (Tabela 1).

Em relação às variáveis antropométricas observou-se que o IMC médio das mulheres estudadas se encontra acima do preconizado na classificação de sobrepeso (IMC > 25 kg/m2), ou seja, verificou-se que 42 (67,74%) entrevistadas se encontravam acima do peso, 28 (45,16%) pacientes apresentando sobrepeso (IMC > 25) e 14 (22,58%) algum grau de obesidade (IMC > 30) (Tabela 1).

Em relação aos métodos de avaliação da distribuição da gordura corporal foram obtidas médias de 90,27cm (14,32) para a circunferência da cintura e de 53,94mm (13,13) para o valor da espessura intra-abdominal (Tabela 1). Com isso observa-se que a média da circunferência da cintura se situa no valor de risco muito aumentado de complicações metabólicas (> 88 cm) associado ao excesso de peso.

Em relação à porcentagem de gordura corporal identificou-se um valor médio de 37,93% (7,78) avaliada pela BIA, e de 36,72% (5,23) avaliada pelo somatório das dobras cutâneas (ΣDC). Já para os valores de gordura corporal total (kg) identificou-se um valor médio de 26,76kg (12,06) avaliado pela BIA e de 25,56kg (9,14) pelo somatório das dobras cutâneas (ΣDC). Verificou-se, assim, que a média da porcentagem de gordura corporal (%GC) também se encontra aumentada, na classificação de risco de distúrbios associados à obesidade (> 32,0%) (Tabela 1).

Trinta e seis (58,06%) das 62 mulheres entrevistadas apresentaram risco muito aumentado de complicações metabólicas identificado pelos valores de circunferência da cintura (> 88 cm), inferindo gordura abdominal aumentada, o que caracteriza obesidade central. Verificou-se que a maioria (n = 50; 80,64%) das mulheres avaliadas apresentou a porcentagem de gordura corporal aumentada, ou seja, adiposidade corporal, avaliada por dois métodos (somatório das dobras cutâneas e bioimpedância).

No que se diz respeito à correlação entre os valores da porcentagem (%) da gordura corporal obtida pelo somatório das dobras cutâneas e pela impedância bioelétrica (BIA) com vistas à comparação dos dois métodos de avaliação, foi identificado um coeficiente de correlação de concordância (CCC = 0,59) e um coeficiente de determinação (r2 = 0,42; p < 0,01), que evidenciaram concordância moderada entre os métodos (Figuras 1A e 1B).

 

 

 

 

Já a correlação entre os valores da gordura corporal total (kg) obtida pelos métodos supracitados identificou um coeficiente de correlação de concordância (CCC = 0,91) e um coeficiente de determinação (r2 = 0,90; p < 0,01) que evidenciaram ótima concordância entre os métodos (Figura 2A e 2B).

 

 

 

 

Observou-se uma grande variabilidade (do ponto de vista clínico) da gordura corporal em percentual (%) e quilogramas (kg), ou seja, comparando-se a medida por bioimpedância (BIA) versus aferição pelo somatório das dobras cutâneas (DC), observa-se nos gráficos de Bland & Altman (Figuras 1B e 2B), utilizando-se o IC 95% da média da diferença, que a comparação entre os métodos apresenta excelente concordância; entretanto, pode haver grande variação (em kg) na diferença entre a gordura aferida por um ou outro método.

A correlação entre os valores da gordura visceral (adiposidade central) obtida pela USG e pela circunferência da cintura com vistas à comparação dos dois métodos evidenciou um moderado coeficiente de determinação (r2 = 0,49; p < 0,01), entre a circunferência da cintura e a espessura intra-abdominal (Figura 3).

 

 

Discussão

O presente estudo demonstra que as mulheres avaliadas apresentaram média de peso e IMC acima das recomendações para um peso ideal28 e percentual de gordura corporal aumentado29. Este perfil indica a necessidade de uma intervenção específica de promoção da saúde com vistas à redução dos fatores de risco para diversas enfermidades que se associam com excesso de peso, realizada pela equipe interdisciplinar3,35.

A comparação entre os dois métodos de avaliação da porcentagem da gordura corporal total proposta neste estudo (somatório das dobras cutâneas e a impedância bioelétrica) indicou uma concordância moderada33,34 significante.

Este resultado ficou próximo, porém abaixo do esperado, quando se compara com estudos recentes em população semelhante (r2 = 0,90) 23, bem como em outras populações, tais como atletas de futebol feminino (r2 = 0,67)18 e idosas não institucionalizadas (r2 = 0,79)20.

O presente estudo observou uma forte concordância entre os métodos (bioimpedância e o somatório das dobras cutâneas) para avaliação da gordura corporal em quilogramas (kg), o que também foi observado por outros autores em pesquisas realizadas com mulheres em hemodiálise (r2 = 0,96)36 (r2 = 0,87)37, e com mulheres com sobrepeso e obesidade em treinamento de caminhada (r2 = 0,83)19.

Os resultados aqui apresentados diferem, entretanto, daqueles encontrados por Rodrigues-Barbosa et al.22, que, ao analisar mulheres idosas, não encontraram concordância (r2 = 0,25, p < 0,05) entre os métodos estudados (BIA e somatório das dobras cutâneas). Tal discordância poderia sugerir que a população idosa devesse requerer uma atenção diferenciada na avaliação da composição corporal. Não obstante, Justino et al.20, ao avaliar também mulheres idosas institucionalizadas, encontraram uma boa concordância (r2 = 0,79) entre os métodos, o que mostra ainda que, mesmo para esta população, tais métodos podem ser utilizados.

Diante dos achados, acreditamos que a utilização da bioimpedância e/ou do somatório das dobras cutâneas pode ser proveitosa para avaliação da gordura corporal e acompanhamento nutricional das mulheres avaliadas.

A bioimpedância tem sido demonstrada como um método alternativo para estimar a porcentagem de gordura corporal, quando comparada com o DEXA, método padrão-ouro, por haver uma forte concordância21; entretanto, esta avaliação deve ser realizada em indivíduos que estejam dentro do intervalo de normalidade de gordura corporal total, uma vez que a BIA tende a superestimar a porcentagem de gordura corporal em torno de 4,40% em mulheres magras e subestimar em 2,71% em mulheres obesas21.

Como os métodos apresentaram-se concordantes percebe-se que a avaliação da gordura corporal pelo método do somatório das dobras cutâneas, por seu amplo acesso e por ser financeiramente mais viável14, pode ser um bom recurso, na impossibilidade da utilização de um método mais preciso.

Este fato passa a ter grande importância nos serviços que tenham recursos financeiros limitados, uma vez que, conforme aqui demonstrado, ambos os métodos para avaliação da gordura corporal total (somatório das dobras cutâneas e bioimpedância), por serem concordantes, podem ser úteis no acompanhamento da evolução do estado nutricional das mulheres atendidas em serviços públicos de saúde, em especial para àquelas que freqüentam ambulatórios relacionados à atenção integral à saúde da mulher. Uma limitação a ser considerada é que existem algumas críticas a respeito da utilização do somatório das dobras cutâneas no caso de avaliação de pacientes obesos13.

Em relação à comparação da ultrassonografia e da medida da circunferência da cintura para avaliação da gordura visceral, observou-se que poucos trabalhos realizam o mesmo tipo de comparação proposta neste estudo. Alguns priorizaram e realizaram comparações mais específicas entre os métodos considerados padrões para avaliação da gordura visceral (tomografia computadorizada e ultrassonografia) e pouco referenciam as medidas antropométricas38,39.

Observou-se que a ultrassonografia é um excelente método para avaliação da gordura abdominal e/ou visceral, quando comparado à tomografia computadorizada, e quando compararam a acurácia das medidas antropométricas em relação à ultrassonografia, esta última mostrou uma técnica mais precisa38,39, além de apresentar melhor especificidade e acurácia que a circunferência da cintura, bem como quando comparada com outro método utilizado para predizer a gordura visceral, como o diâmetro abdominal sagital24.

O diâmetro abdominal sagital apresenta alta correlação com a área de gordura visceral avaliada pela tomografia computadorizada, além de apresentar boa confiabilidade, sensibilidade e especificidade40. Entre os métodos um pouco mais disponíveis e menos dispendiosos, a ultrassonografia poderia ser incluída na avaliação da composição corporal das mulheres avaliadas25.

Observou-se também, no presente trabalho, que a média da medida da gordura intra-abdominal está fora dos limites ideais para a predição de risco cardiovascular, conforme mostrou um estudo transversal realizado com 231 mulheres, onde os autores identificaram o valor de 7,0cm de gordura intra-abdominal como ponto de corte para predizer risco moderado e 9,0cm para predizer alto risco24,41.

Sabe-se que a circunferência da cintura é um método clássico para medida de risco metabólico, quando os valores superam 80 cm, no caso das mulheres28, e que independente do peso aumentado, a gordura abdominal/visceral é um importante fator de risco para diversas enfermidades crônicas, com destaque para as doenças cardiovasculares42.

Diante do exposto, em casos da impossibilidade de realização da medida da espessura da gordura intra-abdominal por meio da ultrassonografia, bem como na ausência de um método mais preciso e acurado, a circunferência da cintura pode ser utilizada para avaliar a distribuição da gordura corporal.

Por ser a medida da circunferência da cintura um método prático, não invasivo, simples, viável financeiramente, amplamente utilizado, com técnicas de aferição padronizadas mundialmente27, sugere-se também a inclusão desta técnica, na avaliação nutricional das pacientes atendidas nos serviços avaliados, como parte integrante do protocolo de atendimento nutricional.

Como possível limitação do estudo deve ser considerado que o número de sujeitos do estudo foi calculado para outro estudo prospectivo, sendo o presente estudo uma subanálise. Contudo, deve ser observado que algumas outras publicações objetivando o mesmo tópico utilizaram um tamanho amostral semelhante18-20,22,36. A não utilização de métodos considerados padrão-ouro, como o DEXA ou a TC, não nos permitiu fazer uma comparação direta entre estes e a antropometria; entretanto, estudos prévios20-22,25,38,39 demonstraram que tanto a bioimpedância quanto a ultrassonografia são métodos de boa precisão, permitindo que os considerássemos como métodos de referência de comparação.

A diferença inter e intra-avaliador na coleta das medidas antropométricas pode ter sido um viés do presente estudo; não obstante, deve ser considerado que para a redução desta possibilidade todos os antropometristas foram treinados segundo técnicas previamente padronizadas. Foram encontrados poucos estudos com o mesmo delineamento, principalmente que utilizassem a mesma análise estatística, o que dificultou a comparação dos resultados obtidos.

Assim, a partir dos resultados obtidos, sugere-se a implantação de um protocolo mínimo de acompanhamento nutricional mais completo e adequado às pacientes que buscam atendimento nos ambulatórios de atenção integral à saúde da mulher.

 

Conclusões

A concordância foi moderada entre o somatório das dobras cutâneas e a bioimpedância ao avaliar a gordura corporal (%), em mulheres com câncer de mama e mulheres com alterações benignas na mama, provenientes de serviços públicos de saúde. A concordância foi moderada também entre a medida da espessura intraabdominal utilizando-se a ultrassonografia e a circunferência da cintura para avaliar a gordura visceral.

A concordância foi ótima entre a bioimpedância e o somatório das dobras cutâneas para a avaliação da gordura corporal (kg).

Mediante o exposto, sugerem-se para avaliação da composição corporal de tais mulheres, a inclusão da avaliação da circunferência da cintura para avaliar distribuição da gordura corporal, e da utilização do método do somatório das dobras cutâneas para avaliar a gordura corporal (%) e (kg), até que seja possível a avaliação de tais medidas por métodos mais precisos e acurados (USG e BIA, respectivamente), visto serem métodos simples, baratos, práticos e confiáveis, que podem ser também utilizados para implementação do protocolo de atendimento nutricional nos ambulatórios pesquisados.

 

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Correspondência:
Ruffo Freitas-Junior.
Hospital das Clínicas, Bloco B. 1ªa avenida s/n Setor Universitário
Goiânia, GO CEP 74606-050.
E-mail: ruffojr@terra.com.br

Recebido em: 23/07/2010
Versão final apresentada em: 07/06/2011
Aprovado em: 05/09/2011
Conflito de interesse: Não existem conflitos de interesses.
Financiamento: O presente estudo foi parcialmente financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), processo: Nº 00228648-96; Chamada Nº 01/2007.

 

 

Trabalho realizado desenvolvido na Rede Goiana de Pesquisa em Mastologia, por meio do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde/UFG.
Extraído da tese de doutorado "Avaliação da composição corporal de mulheres recém-diagnosticadas com câncer de mama", apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, em 19/01/2010.