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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.14  suppl.1 São Paulo Sep. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2011000500007 

ARTIGOS

 

Consumo de bebidas alcoólicas na população adulta Brasileira: características sociodemográficas e tendência

 

 

Erly Catarina MouraI; Deborah Carvalho MaltaII, III

INúcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (USP) - São Paulo (SP), Brasil
IICoordenação Geral de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis - Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde - Brasília (DF), Brasil
IIIEscola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar o consumo de bebidas alcoólicas, identificar as características sociodemográficas associadas a este consumo em 2006 e avaliar a tendência de consumo de 2006 a 2009.
MÉTODOS: Foram avaliados, em 2006, 54.369 adultos residentes nas capitais de estados brasileiros e no Distrito Federal. Considerou-se consumo habitual a ingestão de qualquer quantidade de bebida alcoólica nos últimos 30 dias, e consumo abusivo a ingestão de mais de 5 doses para homens ou mais de 4 doses para mulheres em pelo menos uma ocasião nos últimos 30 dias.
RESULTADOS: O consumo habitual de bebidas alcoólicas atingiu 38,1% da população estudada e o de consumo abusivo 16,2%, sendo a frequência dos dois padrões maior em homens do que em mulheres. As variáveis associadas ao consumo de bebidas alcoólicas foram: idade, união conjugal e inserção no mercado de trabalho em ambos os sexos, e cor de pele para mulheres nos dois padrões de consumo; escolaridade associou-se apenas para consumo habitual.
CONCLUSÃO: A tendência de consumo abusivo de bebidas alcoólicas é crescente nos dois sexos. Os dados mostram a urgência de políticas públicas nacionais voltadas para a prevenção do consumo excessivo de bebidas alcoólicas, especialmente junto à população mais jovem.

Palavras-chave: consumo de bebidas alcoólicas; epidemiologia; entrevistas como assunto; Brasil.


 

 

Introdução

A ingestão de bebidas alcoólicas é um hábito comum e milenar em muitas sociedades. Todavia, a ingestão em excesso de bebidas alcoólicas é considerada o quinto fator de risco mais importante para a ocorrência de mortes prematuras e incapacidades no mundo, dentre elas as doenças cardiovasculares, hepáticas, nutricionais e certos tipos de cânceres, além de causar dependência química e facilitar a ocorrência de violências e acidentes1.

Nas últimas décadas, tem-se buscado universalizar a definição dos padrões de consumo de bebidas alcoólicas, levando em conta a dose ingerida (teor alcoólico) e a frequência de consumo. Várias definições foram estabelecidas, de consumo moderado a intenso (heavy drinking) e abusivo (binge drinking), de uso esporádico a dependência. O Center for Disease Control and Prevention, que monitora o consumo de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos desde 1995, tem estimado o consumo de pelo menos uma dose nos últimos 30 dias, o consumo intenso (mais do que 1 dose para a mulheres e mais do que 2 doses para homens por dia) e o consumo abusivo (inicialmente com 4 ou mais doses para mulheres e 5 ou mais para homens em pelo menos uma ocasião nos últimos 30 dias2. Atualmente considera-se 5 ou mais doses para ambos os sexos3, conforme recomendação do National Institute of Alcohol Abuse and Alcoholism4. Todavia, existe controvérsia na literatura sobre os efeitos benéficos para o organismo, sendo que em algumas situações o uso de bebidas alcoólicas não é recomendado mesmo em pequenas quantidades, por exemplo para crianças, adolescentes, gestantes, motoristas, operadores de equipamentos pesados, pessoas com depressão e indivíduos alcoólatras em recuperação, dentre outros5.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o consumo abusivo de bebidas alcoólicas vem aumentando em todo o mundo, variando de 1,4% na Índia a 31,8% na Colômbia, com padrões de consumo mais arriscados e mais frequentes em países de baixa e média renda6, por isso várias estratégias para a redução do consumo nocivo de bebidas alcoólicas têm sido discutidas pela OMS e implantadas em vários países.

No Brasil, em 2006, foi implantado o sistema contínuo de monitoramento de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL), tendo o consumo de bebidas alcoólicas como um dos temas investigados, o que possibilita avaliar o padrão de consumo de bebidas alcoólicas junto à população com idade igual ou maior do que 18 anos7. Em sua primeira versão, o VIGITEL8 questionou sobre a frequência semanal de consumo de bebidas alcoólicas para os indivíduos que referiram algum consumo nos últimos 30 dias. Para aqueles que referiram algum consumo semanal, questionou-se sobre o consumo maior do que duas doses numa única ocasião para homens e maior do que uma para mulher. Para os que respondiam sim a esta questão, perguntou-se sobre o consumo maior do que cinco doses numa única ocasião para homens e maior do que quatro para mulher. Na segunda versão9, em 2007, permaneceram apenas as questões sobre os limites máximos (cinco e quatro doses, para homens e mulheres, respectivamente), o que foi mantido em 200810. Já na quarta versão, em 200911, estes limites foram alterados para cinco ou mais e quatro ou mais, também mantidos em 2010. Estas alterações foram efetuadas no sentido de se adequar ao padrão internacional, reduzir a duração da entrevista, sem perder a comparabilidade mínima.

Neste sentido, este trabalho teve por objetivo estimar o consumo de bebidas alcoólicas e identificar as características sociodemográficas associadas a este consumo na população adulta das 26 capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, além de avaliar a tendência de consumo de 2006 a 2009.

 

Métodos

Por ano, o VIGITEL entrevista pouco mais de 54.000 indivíduos, num mínimo de 2.000 entrevistas por localidade, se caracterizando como um estudo de corte transversal. A população avaliada é obtida por amostra aleatória das residências com pelo menos um telefone fixo e por sorteio de um morador adulto de cada residência para responder à entrevista. A fim de expandir os dados para a população geral, o VIGITEL usa fatores de ponderação pós-estratificação, compostos pela multiplicação das seguintes razões: número de adultos em cada residência/número de linhas telefônicas fixas em cada residência; frequência de determinadas categorias de sexo, idade e escolaridade identificadas no censo de 2000 em cada cidade/frequência das mesmas categorias avaliadas no VIGITEL em cada cidade; e número de adultos identificados em cada cidade no censo de 2000/número de adultos avaliados em cada cidade pelo VIGITEL.

Para este estudo, foram considerados dois padrões de consumo de bebidas alcoólicas: 1) habitual - referência de consumo de bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias, independentemente da dose - e 2) abusivo - referência de consumo de mais de 5 doses para homens ou mais de 4 doses para mulheres, em pelo menos uma ocasião nos últimos 30 dias. O consumo de bebida alcoólica foi considerado como variável dependente, sendo categorizado como presente ou ausente conforme cada padrão. As variáveis independentes foram: idade (categorizada em seis faixas etárias: 18 a 24, 25 a 34, 35 a 44, 45 a 54, 55 a 64 ou 65 ou mais anos), cor (categorizada em dois grupos, branca ou não branca), escolaridade (categorizada em quatro faixas, 0 a 4, 5 a 8, 9 a 11 ou 12 ou mais anos de estudo), união estável (categorizado em dois grupos, não ou sim), inserção no mercado de trabalho (categorizado em dois grupos, não ou sim).

As estimativas da frequência de consumo de bebidas alcoólicas foram calculadas segundo as variáveis independentes, com intervalo de confiança de 95%. Optou-se pelo ano de 2006 por se tratar da linha básica de consumo de bebidas alcoólicas investigada pelo VIGITEL. Razões de prevalência, brutas e ajustadas, do consumo de bebidas alcoólicas foram calculadas separadamente para homens e mulheres, considerando-se nível de significância de 5% (p<0,05). Para o cálculo das razões de prevalência utilizou-se regressão de Poisson. Os cálculos foram realizados com auxílio do aplicativo Stata versão 9.2 (StataCorp, College Station, Texas, EUA).

A tendência de consumo habitual e abusivo foi avaliada separadamente para cada sexo utilizando-se regressão de Poisson tendo o padrão de consumo como variável dependente e o ano do estudo como variável explanatória. Foi ainda apresentada a tendência do consumo habitual e abusivo entre 2006 a 2009.

O VIGITEL conta com aprovação da Comissão de Ética em Pesquisa para Seres Humanos do Ministério da Saúde, e as entrevistadas são realizadas apenas após consentimento verbal.

 

Resultados

A Tabela 1 mostra a frequência de consumo de bebidas alcoólicas segundo as variáveis independentes. O hábito de consumir bebidas alcoólicas atingiu 38,1% da população total. Destes, 42,0 (16,2% do total) consomem dose abusiva. O consumo é sempre maior entre os homens: 2,1 vezes mais para consumo habitual e 3,1 vezes mais para consumo abusivo. A faixa etária de maior consumo de bebidas alcoólicas, independente do padrão, encontra-se entre 18 e 44 anos de idade, atingindo aproximadamente 42% da população com consumo habitual, iniciando declínio após esta idade, até alcançar aproximadamente 20% daqueles com 65 e mais anos de idade. O mesmo padrão se repete para o consumo abusivo (passando de 19% entre 18 e 44 anos para pouco mais de 2% após 64 anos). A escolaridade exerce influência direta no consumo habitual, aumentando de 28,9% na faixa de menor escolaridade para 47,7% na de maior escolaridade. Já para o consumo abusivo aumenta de 11,4 para 17,5%. Indivíduos em união estável mostraram menor consumo de bebidas alcoólicas nos dois padrões, assim como os inseridos no mercado de trabalho. Quanto à cor da pele, não se observou diferença para o padrão de consumo.

Para ambos os sexos, a razão de prevalência do consumo habitual de bebidas alcoólicas diminui com a idade, aumenta com a escolaridade, é menor nos indivíduos com união conjugal estável e é maior naqueles inseridos no mercado de trabalho. Para o sexo feminino, após ajuste, a razão é menor para as mulheres de cor branca (Tabela 2).

O consumo abusivo de bebidas alcoólicas (Tabela 3), em homens e mulheres, mostra que a razão de prevalência aumenta com a idade, é menor nas pessoas com união conjugal estável e maior nas inseridas no mercado de trabalho. Todavia, após ajuste, a escolaridade perde a significância para ambos os sexos. Mulheres de cor branca apresentaram menor chance de consumo de bebidas alcoólicas (razão de prevalência=0,81).

A Figura 1 mostra que o consumo habitual de bebidas alcoólicas na população avaliada se manteve constante de 2006 a 2009, porém o consumo abusivo aumentou nos dois sexos.

 

 

Discussão

O hábito de consumo de bebidas alcoólicas, pelo menos uma vez nos últimos 30 dias, atingiu 38,1% da população adulta das 26 capitais de estados brasileiros e do Distrito Federal, enquanto a prevalência de consumo abusivo (mais de 5 doses para homens ou mais de 4 doses para mulheres em pelo menos uma ocasião nos últimos 30 dias) atingiu 16,2% da população total, o que significa mais de 40% dos consumidores habituais. Este valor é menor do que o obtido no primeiro levantamento nacional sobre padrões de consumo de bebidas alcoólicas, que identificou 28% da população adulta consumindo bebidas de forma intensa12, diferença que pode ser explicada pelo período de questionamento que foi de 12 meses, enquanto que no nosso estudo foi de 30 dias. A frequência de consumo habitual no Brasil é aproximadamente 31% menor do que nos Estados Unidos e a de consumo abusivo semelhante, utilizando-se os mesmos cortes e entrevista por telefone. Dados dos Estados Unidos2, para o ano de 2006, mostraram 55,2% da população com consumo habitual e 15,4% com consumo abusivo, sendo que 4,9% da população total consomem bebidas alcoólicas de forma intensa todos os dias. Estes valores demonstraram, em relação ao início do monitoramento, a manutenção das frequências de consumo habitual (53,2% em 1995 e 53,9% em 2009), aumento do consumo intenso (2,9% em 1995 e 5,1% em 2009) e do consumo abusivo (14,1% em 1995 e 15,5% em 2009), cuja tendência também é observada no Brasil, em 2009, com 37,9% da população tendo consumo habitual e 18,9% consumo abusivo11.

Poucos trabalhos brasileiros de base populacional em adultos sobre consumo de bebidas alcoólicas foram publicados, limitando a comparabilidade das prevalências de padrões de consumo com este estudo, principalmente no que se refere à construção dos indicadores e dos cortes utilizados. A maioria deles13-15 utiliza o teste recomendado pela OMS para identificação de problemas relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas (AUDIT) que, além da frequência de uso e dose habitualmente consumida, também questiona sobre falta de controle no consumo, não cumprimento de compromissos, esquecimento, arrependimento, preocupação de outras pessoas e envolvimento em casos de violência e acidentes16, tendo sido validado em vários países, inclusive no Brasil14,17.

A despeito das diferenças nas classificações de padrões de consumo, demais estudos brasileiros em adultos também demonstraram maiores frequência de consumo de bebidas alcoólicas em homens do que em mulheres, como o do estado de São Paulo em 1999, com 2.411 pessoas entre 12 e 65 anos de idade13, o de Rio Grande (RS) em 2000 com 1.260 indivíduos com 15 ou mais anos de idade14, o de Salvador (BA) em 2001 que investigou 2.302 adultos com mais de 25 anos de idade18, o de Campinas (SP) em 2003 que avaliou 515 indivíduos com 14 ou mais anos de idade15 e o primeiro inquérito nacional com 2.346 adultos em 2005 e 200612. No estudo de Salvador18, após ajuste para sexo, idade, estado marital e classe social, permaneceram associados ao alto consumo de bebidas alcoólicas (consumo de pelo menos oito doses na semana aliado a episódio de embriaguez) o sexo masculino e o alto nível socioeconômico. Já em Rio Grande, permaneceram associados ao maior consumo de bebidas alcoólicas o sexo masculino, o baixo nível socioeconômico, o tabagismo e a presença de desordens psiquiátricas (ansiedade/depressão), após ajuste para todas estas variáveis mais idade14. Todavia, no estudo de Campinas, o sexo perdeu a significância após ajuste para outras variáveis, apresentando-se associados ao maior consumo de bebidas alcoólicas idade jovem, alta renda, baixa escolaridade, religião não evangélica e uso de drogas ilícitas15. Os dados sobre maior consumo entre homens estão em acordo com a literatura internacional19-21. Algumas características próprias de cada uma destas localidades, além do intervalo de tempo entre os estudos, podem explicar estas diferenças: Salvador é uma cidade praiana e Rio Grande abrange área rural, o que pode justificar o maior consumo entre homens, diferente de Campinas, que é uma cidade universitária.

Quanto à idade, a maior prevalência de consumo de bebidas alcoólicas em jovens, especialmente do consumo abusivo, é preocupante e coerente com o achado de Campinas15, dos inquéritos brasileiros sobre uso de drogas22,23 e do primeiro inquérito nacional12; este grupo foi considerado de risco para mortes violentas, acidentes de trânsito, envolvimento em brigas e uso de drogas ilícitas. Avaliando-se os dados de mais de 65 mil indivíduos com 20 ou mais anos de idade, referentes ao estudo de vítimas de acidentes e violências em 2006 e 200724, observa-se que o relato de ingestão prévia de bebidas alcoólicas foi significativamente maior (p<0,001) entre os menores de 40 anos (17,6%) do que entre aqueles com 40 anos ou mais (12,0%), situação semelhante à observada em 1998 e 1999 por Gazal-Carvalho et al.25 no município de São Paulo. Na Rússia, estudo caso-controle envolvendo quase 50 mil óbitos, mostrou risco aproximadamente 6 vezes maior de mortes por acidentes e violências no grupo com alto consumo de bebidas alcoólicas, além de maior risco para outras doenças, principalmente as crônicas26.

Nossos dados apontaram para um consumo maior de bebidas alcoólicas de forma abusiva entre adultos jovens, sem união estável e inseridos no mercado de trabalho, sendo muito maior entre os homens do que entre as mulheres. Estes achados são importantes no planejamento de campanhas de prevenção de consumo excessivo de bebidas alcoólicas direcionadas a estes estratos populacionais. No ano de 2000, o equivalente a 4% de toda morbidade e mortalidade mundial estiveram relacionadas com o consumo de bebidas alcoólicas27, sendo responsável em 2002 por 3,7% da mortalidade global e por 4,4% da carga de doenças5, evidenciando clara tendência de ascensão.

Estudos sobre consumo de bebidas alcoólicas são de difícil comparação quando se restringem à quantidade de álcool ingerida, uma vez que o teor alcoólico varia entre bebidas do mesmo tipo, o volume de bebida varia com a embalagem e a quantidade consumida depende da referência do informante, entre outras incertezas, um dos limites deste estudo. Independentemente destas variações, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é nocivo para a saúde e favorece a ocorrência de acidentes e violências envolvendo inclusive outras pessoas. Ainda que o padrão de consumo de bebidas alcoólicas não seja universal, o conhecimento sobre as características da população de maior consumo auxilia no planejamento em saúde.

Outro limite deste estudo se refere à auto-referência ao consumo de bebidas alcoólicas, que pode ter sido subestimada, principalmente quanto às doses elevadas, na medida em que há restrição social a este comportamento.

Por fim, a entrevista apenas com moradores em domicílios com telefone fixo excluiu uma parcela significativa da população brasileira sem acesso a este bem, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, nas quais a cobertura de telefonia fixa é baixa, o que é corrigida parcialmente pela ponderação pós-estratificação, como é feito também no Canadá para inquérito sobre este tema28, por exemplo.

O aumento do consumo abusivo no país no período analisado pode ser justificado pela cultura reinante no Brasil que aceita socialmente o consumo de bebidas alcoólicas, porém a dose limite para o uso nocivo não é clara, especialmente para a população mais jovem. Adicionalmente, a permissividade de consumo excessivo está associada com as características das comunidades nas quais o indivíduo se insere29, reforçando a necessidade de ações direcionadas, além do envolvimento direto dos profissionais e gestores da atenção básica em saúde30 e de políticas públicas regulatórias31.

Estratégias governamentais no sentido de controlar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas têm sido implantadas com sucesso. Um exemplo é a Lei nº 11.705, implantada em 2008, que reduz para zero o nível de alcoolemia permitido, aumenta a penalidade administrativa e criminaliza o condutor que dirigir com 0,6 dcg ou mais de álcool por litro de sangue32. Como resultado da ampla divulgação da lei e da adesão pela população, observou-se nos meses seguintes à promulgação da lei, redução da condução de veículos após ingestão abusiva de bebidas alcoólicas33. A falta de fiscalização no que se refere às restrições ao uso de bebidas alcoólicas e à propaganda, conforme determina a Lei nº 9.294 de 1996, tem permitido a propaganda de bebidas alcoólicas aliada à promoção de atividades esportivas em muitos eventos nacionais, embora haja um alerta tímido na mídia sobre a necessidade de não dirigir caso tenha bebido, entretanto não foca, por exemplo, nos limites de idade e doses nocivas à saúde. Políticas públicas mais contundentes, a exemplo do controle do tabagismo, se fazem necessárias e urgentes no controle do consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

 

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Correspondência:
Erly Catarina Moura
SQSW 504 Bloco F apto 306
CEP: 70673-506 - Brasília (DF), Brasil
E-mail: erlycm@usp.br

Trabalho realizado no Ministério da Saúde.
Fonte de financiamento:
nenhuma.
Conflito de interesse: nada a declarar.
Recebido em: 05/01/2011
Versão final apresentada em: 08/02/2011
Aprovado em: 13/02/2011