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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.14  suppl.1 São Paulo Sep. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2011000500014 

ARTIGOS

 

Prevalência do consumo de álcool e drogas entre adolescentes: análise dos dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar

 

 

Deborah Carvalho MaltaI; Márcio Dênis Medeiros MascarenhasII; Denise Lopes PortoIII; Eliane Aparecida DuarteIV; Luciana Monteiro SardinhaV; Sandhi Maria BarretoVI; Otaliba Libânio de Morais NetoVII

ICoordenação Geral de Vigilância de Doenças e Agravos Não-transmissíveis (CGDANT) da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde (MS), Brasília (DF); Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil
IICGDANT da SVS do MS, Brasília (DF); Universidade Federal do Piauí (UFPI) - Teresina (PI), Brasil
IIIDepartamento de Análise de Situação de Saúde (DASIS) da SVS do MS - Brasília (DF), Brasil
IVCGDANT da SVS do MS, Brasília (DF), Brasil
VCGDANT da SVS do MS, Brasília (DF), Brasil
VIFaculdade de Medicina da UFMG - Belo Horizonte (MG), Brasil
VIIDASIS da SVS do MS - Brasília (DF), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever a prevalência do consumo de álcool e outras drogas entre estudantes adolescentes.
MÉTODO: Estudo transversal com amostra de conglomerados de 60.973 estudantes do nono ano do Ensino Fundamental de escolas públicas e privadas das capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, em 2009. Foram analisadas as prevalências e os intervalos de confiança de 95% (IC95%) do consumo de álcool e drogas.
RESULTADOS: Para o conjunto dos alunos entrevistados, identificou-se o seguinte: experimentação de bebida alcoólica (71,4%; IC95% 70,8-72,0); consumo regular de álcool (27,3%; IC95% 26,7-28,0); embriaguez na vida (22,1%; IC95% 21,6-22,7); preocupação da família se chegasse bêbado em casa (93,8%; IC95% 93,3-94,2); problemas com uso de álcool (9,0%; IC95% 8,6-9,4) e experimentação de outras drogas (8,7%; IC95% 8,3-9,1).
CONCLUSÃO: O estudo demonstra a extensão do problema do uso de álcool e drogas entre adolescentes brasileiros, destacando a facilidade com que os jovens entrevistados tiveram acesso ao álcool em festas, bares, lojas e até em suas próprias casas.

Palavras-chave: adolescente; saúde escolar; álcool; drogas; comportamento de risco; fatores de risco; vigilância; doenças crônicas.


 

 

Introdução

A adolescência é uma fase do desenvolvimento humano caracterizada por mudanças biológicas, cognitivas, emocionais e sociais importantes para a afirmação e consolidação de hábitos na vida adulta. Nesta fase geralmente ocorre a experimentação de substâncias psicoativas como álcool e drogas ilícitas. O uso do álcool na adolescência é um fator de exposição para problemas de saúde na idade adulta, além de aumentar significativamente o risco de o indivíduo se tornar um consumidor em excesso ao longo da vida1.

Quando consumido de maneira abusiva, o álcool está associado a consequências negativas para a saúde da população, pois trata-se de um dos principais fatores de risco para o desencadeamento de doenças cardiovasculares, ocorrência de acidentes de trânsito e homicídios, os quais representam a maior causa de morte entre jovens2,3. A cada ano, ocorrem aproximadamente 5,2 milhões de mortes por acidentes e violências em todo o mundo, das quais cerca de 1,8 milhões estão associadas ao consumo de bebidas alcoólicas4.

O uso do álcool demonstrou ser um fator de risco para o consumo de outras drogas como tabaco, drogas ilegais e a manifestação de condições como desordens depressivas, ansiedade, brigas na escola, danos à propriedade e problemas com a polícia4. Outros estudos relatam que o álcool na adolescência está associado com a ausência do convívio parental, com o fato de estudar em escola pública e a reprovação escolar1,5.

A constante exposição dos adolescentes à mídia direcionada a propagandas de bebidas foi associada ao consumo de álcool entre adolescentes6,7. Alguns estudos mostram que a pior condição socioeconômica aumenta o risco do consumo de álcool na adolescência1. Além do álcool, outras drogas constituem um importante fator de risco nesta fase da vida, por se tratar de um período de vulnerabilidade para aquisição do hábito de consumir substâncias psicoativas4.

Considerando a importância da adolescência como uma fase vulnerável à aquisição de hábitos, os quais podem se tornar duradouros ao longo da vida, o presente estudo tem por objetivo descrever a prevalência do consumo de álcool e outras drogas entre estudantes adolescentes, que frequentavam escolas públicas e privadas nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, em 2009.

 

Métodos

Foram analisados os resultados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde (MS), na qual foram incluídos os escolares do nono ano (oitava série) do Ensino Fundamental em escolas públicas e privadas das capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, no primeiro semestre de 2009.

A amostra por conglomerados em dois estágios utilizou os dados do Censo Escolar de 2007. No primeiro estágio foi feita a seleção das escolas e no segundo a seleção das turmas, entrevistando-se os alunos das turmas selecionadas8. A amostra foi calculada para fornecer estimativas de proporções (ou prevalências) de algumas características de interesse, em cada um dos estratos geográficos (as 26 capitais dos estados e o Distrito Federal), com um erro máximo de 0,03 (3%) e intervalos de confiança de 95% (IC95%). Mais detalhes sobre o inquérito podem ser obtidos em publicações específicas8,9. O instrumento da coleta de dados foi elaborado a partir de modelos aplicados em outras pesquisas sobre comportamentos de adolescentes escolares em âmbito nacional e internacional, adaptado para a realidade brasileira por meio de testes em escolas do Rio de Janeiro, Belém e Recife9.

Durante a PeNSE, o questionário foi aplicado aos alunos das turmas selecionadas por meio de um computador portátil operado pelo próprio aluno, o Personal Digital Assistant (PDA), que registrava as informações automaticamente. Os dados eram armazenados ao longo do dia e depois transferidos para uma planilha. Os alunos que não se sentiam motivados a participar da pesquisa foram considerados como perda.

Foram selecionadas 1.453 escolas, as quais abrangiam 2.175 turmas, totalizando 68.735 alunos frequentes. No dia da coleta de dados, havia 63.411 alunos presentes em sala, resultando em uma perda de 7,7% nesta etapa. Foram excluídos da amostra 501 estudantes que se negaram a participar e os que não preencheram a variável sexo. Assim, foram analisados dados referentes a 60.973 escolares, com uma taxa de não-resposta geral de 11,3%.

Utilizou-se o pacote estatístico SPSS10 para calcular as prevalências e os IC95% referentes às variáveis de estudo, as quais foram analisadas segundo sexo e dependência administrativa da escola (pública ou privada) para o conjunto das 26 capitais e Distrito Federal, possibilitando a identificação das diferenças estatisticamente significativas. Foram analisados os seguintes aspectos: experimentação de bebida alcoólica na vida; ocorrência dos episódios de embriaguez na vida; consumo regular de álcool ou apenas nos últimos 30 dias; problemas com família ou amigos devido ao consumo de álcool, tais como perder aulas, machucar-se ou brigar; percepção dos familiares se o adolescente chegasse bêbado em casa; e experimentação de algum outro tipo de droga (maconha, cocaína, crack, cola, loló, lança perfume, ecstasy, etc.).

As variáveis: experimentação de bebida alcoólica alguma vez na vida e de algum outro tipo de droga na vida foram ainda descritas para cada uma das capitais, por sexo e idade e IC95%. São ainda descritos o número de copos de álcool ingeridos por dia nos últimos 30 dias, e o meio de obtenção da bebida alcoólica, com seus respectivos IC95%.

O estudo foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) do MS, sob a emenda nº 005/2009 referente ao Registro 11.537. A realização da pesquisa foi precedida de contato com as Secretarias Estadual e Municipal de Educação e com a direção das escolas selecionadas em cada município.

 

Resultados

A PeNSE revelou que 71,4% (IC95% 70,8-72,0) dos escolares do nono ano do Ensino Fundamental já experimentaram bebida alcoólica alguma vez na vida. Observou-se que tal experimentação foi significativamente superior entre os estudantes do sexo feminino (73,1%; IC95% 72,3-73,9) e matriculados em escolas privadas (75,7%; IC95% 74,6-76,8), quando comparados aos alunos do sexo masculino (69,5%; IC95% 68,5-70,5) e os de escolas públicas (70,3%; IC95% 69,5-71,0), respectivamente (Tabela 1).

A prevalência de experimentação de bebida alcoólica também variou segundo o município pesquisado, oscilando de 55,1%, em Macapá, a 80,7%, em Curitiba. Entre meninas, as capitais com maiores prevalências foram: Curitiba (82,3%; IC95% 80,1-84,5), Porto Alegre (81,9%; IC95% 79,2-84,6), Rio de Janeiro (79,4%; IC95% 77,1-81,7), Campo Grande (79,3%; IC95% 76,7-81,8), Florianópolis (78,4%; IC95% 75,9-80,9), Belo Horizonte (77,6%; IC95% 75,4-79,9) e São Paulo (77,1%; IC95% 74,6-79,5). Para os meninos, as prevalências mais elevadas foram encontradas nas seguintes capitais: Curitiba (78,9%; IC95% 76,4-81,3), Campo Grande (78,7%; IC95% 75,9-81,4), Florianópolis (76,5%; IC95% 73,8-79,1), Salvador (75,6%; IC95% 72,6-78,5), Porto Alegre (74,7%; IC95% 71,5-77,9), Rio de Janeiro (73,9%; IC95% 71,4-76,4), Aracaju (73,6%; IC95% 70,6-76,5) e Belo Horizonte (72,9%; IC95% 70,2-75,6), como pode ser visto na Figura 1.

 

 

O consumo regular de bebida alcoólica entre os escolares, avaliado pelo consumo feito nos últimos 30 dias, foi de 27,3% (IC95% 26,7-28,0) para o conjunto de capitais e Distrito Federal. As meninas apresentaram maior consumo nos últimos 30 dias (28,1%; IC95% 27,2-29,0) do que os meninos (26,5%; IC95% 25,5-27,5), porém sem significância estatística. O consumo regular de álcool foi significativamente maior entre alunos de escolas privadas (29,5%; IC95% 28,2-30,8) do que entre os matriculados em escolas públicas (26,8%; IC95% 26,1-27,5), como pode ser visto na Tabela 1.

A pesquisa revelou que aproximadamente um em cada cinco escolares já se embriagou (22,1%; IC95% 21,6-22,7), sendo que episódios de embriaguez foram significativamente mais frequentes entre os meninos (23,3%; IC95% 22,4-24,2) do que entre as meninas (21,1%; IC95% 20,3-21,9). A proporção de adolescentes que beberam a ponto de ficarem embriagados foi maior nas escolas públicas (22,8%; IC95% 22,2-23,5) do que nas privadas (19,4%; IC95% 18,4-20,5), como é visto na Tabela 1.

Indagados sobre a percepção dos pais caso chegassem bêbados em casa, a maioria dos adolescentes afirmou que seus pais se importariam bastante mediante tal situação (93,8%; IC95% 93,3-94,2). Esta percepção foi semelhante entre meninas (93,2%; IC95% 92,4-94,0) e meninos (92,5%; IC95% 91,8-93,2), bem como entre alunos de escolas privadas (93,2%; IC95% 93,4-94,4) e públicas (93,9%; IC95% 92,4-94,0). O consumo de bebida alcoólica foi a causa do desencadeamento de problemas como perda de aula, ferimentos ou brigas para 9,0% (IC95% 8,6-9,4) dos alunos, sem apresentar diferença entre meninas e meninos, porém com maior frequência entre os estudantes da escola pública (9,3%; IC95% 8,5-9,5) do que na privada (7,6%; IC95% 6,9-8,3) (Tabela 1).

Em relação ao uso de algum tipo de droga ilícita (maconha, cocaína, crack, cola, loló, lança-perfume, ecstasy) alguma vez na vida, os dados da PeNSE evidenciaram que 8,7% (IC95% 8,3-9,1) dos escolares já haviam experimentado alguma dessas substâncias. O uso de drogas ilícitas foi significativamente maior entre os escolares do sexo masculino (10,6%; IC95% 10,0-11,3) e estudantes de escolas públicas (9,0%; IC95% 8,5-9,5) (Tabela 1). Segundo as capitais, a prevalência de experimentação de outras drogas ilícitas variou de 5,3%, em Macapá, a 13,2%, em Curitiba. Entre meninas, as capitais com as mais elevadas prevalências foram: Curitiba (12,1%; IC95% 10,2-14,0), Belo Horizonte (9,0%; IC95% 7,5-10,6) e Natal (8,4%; IC95% 6,8-10,0). Para os meninos, as maiores prevalências foram observadas em: Curitiba (14,3%; IC95% 12,2-16,5), Recife (14,3%; IC95% 12,1-16,5) e João Pessoa (14,1%; IC95% 11,7-16,5) (Figura  2).

 

 

A Figura 3 apresenta a prevalência do consumo de álcool e outras drogas segundo a idade de experimentação e sexo. Percebe-se que a experimentação do álcool apresenta maior prevalência no período que vai dos 12 a 13 anos, sendo maior no sexo feminino (20,6 versus 19,4% e 24,8 versus 23,0%, respectivamente). Os meninos apresentam maior prevalência de experimentação de álcool a partir dos 14 anos de idade (15,1 versus 13,0%). Quanto às outras drogas ilícitas, percebe-se um deslocamento na idade de experimentação, a qual ocorre com maior prevalência aos 13 e 14 anos, principalmente entre as meninas (30,4 versus 24,2% e 32,9 versus 27,6%, respectivamente), enquanto os meninos se destacam a partir dos 15 ou mais anos de idade (15,6 versus 13,0%) (Figura 3). O número de doses de bebida alcoólica apresentou distribuição diferente, segundo o sexo dos alunos, em duas situações: a ingestão de menos de uma dose de bebida alcoólica foi maior entre as meninas (29,9 versus 25,2%), enquanto o consumo de mais de cinco doses foi significativamente maior entre os meninos (20,1 versus 15,2%) (Figura 4).

 

 

 

 

Dentre os estudantes adolescentes que consumiram álcool nos últimos 30 dias, a forma mais comum para adquirir a bebida alcoólica foi em festas (39,8%), seguido da compra em mercado, loja, supermercado ou bar (18,4%). No sexo feminino, a principal forma de obter bebida alcoólica foi por meio de festas (43,7 versus 35,1%) ou na própria casa (14,5 versus 11,5%). Para os meninos, a aquisição de bebida alcoólica ocorre em maior prevalência fora do domicílio, por meio da compra de bebida em mercado, lojas, bares, supermercados (23,0 versus 14,6%) ou vendedores de rua (5,0 versus 2,1%) (dados não-apresentados).

 

Discussão

A PeNSE revelou a prevalência do consumo de álcool e outras drogas entre escolares nas capitais brasileiras e Distrito Federal. Cerca de três quartos dos adolescentes de 13 a 15 anos já experimentaram álcool, cerca de um quarto bebeu regularmente nos últimos 30 dias com episódios de embriaguez e 9% relatam ter tido problemas com o álcool. Quanto às drogas, 8,7% relataram já ter experimentado estas substâncias alguma vez na vida, sendo que a experimentação do álcool e drogas ocorreu muito precocemente. Estes dados mostram a extensão do problema de tema tão sensível junto aos adolescentes brasileiros. São diversas as formas de obtenção do álcool pelos jovens, com destaque ao acesso em festas, seguido de bares, lojas e na própria casa.

Diversos estudos comprovam que o uso do álcool entre adolescentes tem sido bastante comum no Brasil e no mundo. Nos Estados Unidos, a pesquisa de abrangência nacional11 revelou que a experimentação de álcool pelo menos uma vez na vida foi citada em 81,6% dos adolescentes em 1997, com frequência reduzida para 75% dos adolescentes em 2007. Um inquérito realizado na Espanha12 mostrou que a experimentação de bebidas alcoólicas entre os escolares de 13 a 14 anos foi de 35,5%, entre meninos, e de 27,3%, entre meninas, com aumento desta frequência no grupo de 15 e 16 anos para 67,6%, em meninos, e 71,9%, entre meninas.

Pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Álcool e Drogas13 entre adolescentes de 14 a 17 anos, residentes em 143 municípios brasileiros, mostrou que 75% já haviam consumido bebida alcoólica pelo menos uma vez na vida. Portanto, os dados encontrados na PeNSE apresentam prevalências semelhantes às observadas em outros países, ressaltando a extensão do problema no Brasil e no mundo.

Cerca de 50% dos adolescentes entrevistados na PeNSE referiram ter consumido álcool até os 12 anos de idade, resultado semelhante ao observado em estudo14 com escolares da rede pública dos Ensinos Fundamental e Médio realizado nas 27 capitais brasileiras em 2004, quando foi demonstrado que a média de idade para a iniciação do consumo de álcool foi de 12,5 anos.

Quanto ao consumo atual, ou consumo regular nos últimos 30 dias, as proporções também são elevadas em outros estudos. Nos Estados Unidos11, encontrou-se que 44,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos disseram ter bebido álcool no último mês. Em Pelotas, no Rio Grande do Sul1, um estudo transversal mostrou que, em 2005 e 2006, 23% dos adolescentes entre 11 e 15 anos consumiram bebida alcoólica no mês anterior à pesquisa, sendo 21,7% entre homens e 24,2% entre mulheres. Os adolescentes entrevistados na PeNSE também relataram consumo nos últimos 30 dias em níveis altos. De maneira geral, os estudos demonstram que o consumo de álcool tem sido muito elevado entre jovens.

Pesquisa realizada em 41 países conduzida pela Organização Mundial da Saúde (OMS)4 mostrou que 11% dos alunos (9% de meninas e 13% de meninos) tinham bebido excessivamente, ou se embriagado, pelo menos duas vezes. Cerca de 22% dos adolescentes entrevistados na PeNSE relataram ter-se embriagado pelo menos uma vez na vida. Tal constatação pode ser considerada grave, considerando que, neste caso, aumentam as chances dos jovens se envolverem em episódios de risco, como problemas com família, escola e amigos, situações referidas por 9% dos alunos incluídos na PeNSE.

Como o uso do álcool é socialmente aceitável e estimulado na maioria dos países do mundo3, tem sido grande a exposição dos adolescentes ao álcool e, portanto, às maiores chances de envolverem-se em episódios de risco. A família é o ambiente fundamental para o desenvolvimento dos adolescentes, tornando-se muito importante o apoio dos pais e o acompanhamento dos mesmos em relação às atividades desenvolvidas pelos filhos. Estudos15,16 mostram que filhos cujos pais estão mais atentos às atividades desenvolvidas pelos filhos apresentam menor envolvimento com álcool, drogas e tabaco. O fato de os adolescentes considerarem que 93% dos pais ficariam chateados caso chegassem bêbados em casa, mostra a família como um espaço de proteção, quando os pais se preocupam com as atitudes dos filhos e os desencorajam a atitudes consideradas de risco.

O aumento da experimentação de drogas entre jovens tem se tornado um sério problema em muitos países. A droga ilícita mais consumida na Europa e nos Estados Unidos é a maconha, cujo uso entre jovens pode ser um preditivo de desajustes psicossociais e eleva a chance de dependência na vida adulta. Inquérito realizado pela OMS4, entre adolescentes em mais de 40 países no mundo, mostrou que 18% dos jovens de 15 anos já haviam usado maconha durante algum período na vida.

Geralmente, os levantamentos sobre o uso de drogas entre estudantes demonstram que, no sexo masculino, as drogas como álcool, maconha e tabaco são mais usadas, enquanto que, entre as mulheres, o uso de anfetamínicos e ansiolíticos são mais frequentes. Além disso, as drogas consideradas lícitas, a exemplo do álcool, são responsáveis pela experimentação mais precoce comparada às drogas psicotrópicas13,14. Estudo com escolares da rede pública dos Ensino Fundamental e Médio, no conjunto das 27 capitais brasileiras, realizado em 2004, mostrou que a média de idade para primeiro uso de drogas variou entre 12,5 a 14,4 anos, enquanto que a cocaína foi a mais alta com média de 14,4 anos14.

 

Conclusões

Os dados da PeNSE mostram a gravidade do problema do álcool e drogas entre os adolescentes escolares, evidenciando a precocidade da exposição, a magnitude do problema (mais de 70% já foram expostos ao álcool e cerca de 8% às drogas) e, com isto, a crescente exposição a riscos. Ainda, revela-se que os jovens têm acesso ao álcool em festas, bares, lojas ou até na própria casa.

A propaganda do álcool e das drogas entre crianças e jovens ocasiona, dentre outros malefícios, a formação de hábitos e do estímulo ao consumo6. Para que tenha-se êxito na redução da prevalência de experimentação e do uso regular do álcool em populações jovens e vulneráveis, o posicionamento da sociedade frente ao álcool deverá evoluir de uma posição passiva e de estímulo, reconhecendo os riscos da exposição precoce e propondo medidas de controle, como, por exemplo, a proibição da propaganda do álcool, em especial da cerveja, tal qual foi obtido na proibição da propaganda do tabaco, o principal instrumento utilizado para o declínio do uso desta droga9.

Considerando ainda que o uso do álcool e das drogas está associado a diversos outros fatores de risco, acarretando prejuízos à saúde e à vida dos adolescentes, torna-se urgente a ação das famílias, escolas e sociedade para traçar medidas de promoção à saúde e prevenção do uso destas substâncias.

 

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Correspondência:
Deborah Carvalho Malta
Coordenação Geral de Vigilância de Doenças e Agravos Não-transmissíveis
Departamento de Análise de Situação de Saúde
Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde
SAF Sul, Trecho 2, Lote 5/6, Torre I - Edifício Premium - Sala 14 - Térreo
CEP: 70070-600 - Brasília (DF), Brasil
E-mail: deborah.malta@saude.gov.br

Trabalho realizado na Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.
Fonte de financiamento: Ministério da Saúde.
Conflito de interesses: nada a declarar.
Recebido em: 05/01/2011
Versão final apresentada em: 03/02/2011
Aprovado em: 04/02/2011