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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.15 n.2 São Paulo Jun. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2012000200011 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Fatores associados à dislipidemia em crianças e adolescentes de escolas públicas de Salvador, Bahia

 

 

Osvaldo Dário de Alcântara NetoI; Rita de Cássia Ribeiro SilvaI; Ana Marlúcia Oliveira AssisI; Elizabeth de Jesus PintoII

IEscola de Nutrição. Universidade Federal da Bahia. Salvador, BA, Brasil
IIInstituto de Matemática. Universidade Federal da Bahia. Salvador, BA, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Este estudo aborda os fatores associados a dislipidemia em crianças e adolescentes matriculados na rede pública de ensino da cidade de Salvador, BA.
MÉTODOS: Os participantes foram submetidos a avaliação antropométrica, coleta de sangue para dosagem de colesterol e triglicérides. As informações relacionadas a consumo alimentar, atividade física e condições socioeconômicas e de moradia da família foram fornecidas pelos responsáveis. Regressão logistica mutivariada foi utilizada para as avaliações de interesse.
RESULTADOS: A prevalência de dislipidemia encontrada no presente estudo foi de 25,5% (IC:95% 22,7; 28,3). Observou-se associação positiva e estatiticamentre significante entre dislipidemia e excesso de peso (0R = 3,40; IC95%: 2,07-5,58), moderado e alto consumo de alimentos de risco (OR = 1,49; IC95%: 1,01-2,19), baixo e moderado consumo de alimentos protetores (OR = 1,54; IC95%: 1,05-2,26) e menor nível de escolaridade materna (OR = 1,72; IC95%: 1,05-2,26).
CONCLUSÃO: O excesso de peso, consumo alimentar inadequado e baixa escolaridade materna constituem fatores associados a dislipidemia.

Palavras-chave: Prevalência. Fatores de risco. Dislipidemia. Doenças cardiovasculares. Crianças. Adolescentes.


 

 

Introdução

Estudiosos vêm alertando para a ascendência das dislipidemias em crianças e adolescentes. No Brasil não existem dados epidemiológicos nacionais referentes à prevalência desse agravo que cubram todo o território nacional. Contudo, estudos pontuais têm mostrado altas prevalências de dislipidemia, oscilando entre 3,1% a 46,5% em crianças e adolescentes em algumas regiões do país1-10.

Alguns estudos têm sido conduzidos para avaliar os fatores associados à dislipidemia3-7. Nestes estudos, postula-se que o risco da dislipidemia encontra-se associado, na maioria dos casos, ao excesso de ganho ponderal. Estudiosos vêm ressaltando que a tendência de aumento da proporção do sobrepeso e da obesidade - a exemplo do que vem ocorrendo em países desenvolvidos - tem se refletido em alterações metabólicas relacionadas ao perfil lipídico11. A ocorrência do sobrepeso e da obesidade, por sua vez, estaria condicionado a uma série de fatores ambientais relacionados com o estilo de vida, entre os quais estão incluidas a inatividade física e as mudanças negativas nos hábitos alimentares12,13. Contudo, não é possível descartar o papel da escolaridade materna na adoção de comportamentos saudáveis, podendo, portanto, influenciar a magnitude da ocorrência desse agravo14.

Inúmeros estudos têm indicado associação entre a dislipidemia e a ocorrência das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), em particular as doenças do aparelho circulatório (DACs). Entre as DACs, destacaram-se as doenças cerebrovasculares e as doenças isquêmicas do coração, que em 2004 compuseram mais de 47% dos óbitos por DACs no Brasil15. Assim, a detecção dos fatores que levam à dislipidemia pode contribuir para o desenvolvimento de programas de saúde de caráter preventivo, com enfoque na mudança do estilo de vida com vista à promoção da saúde e, assim, evitar que milhares de jovens desenvolvam prematuramente doença arterial coronariana.

Diante do exposto, este estudo foi conduzido para dimensionar e avaliar os fatores associados à dislipidemia de crianças e adolescentes matriculados na rede pública de ensino da cidade de Salvador, BA, Brasil.

 

Métodos e técnicas

Tipo de estudo/população/amostra

Trata-se de um estudo transversal em que participaram estudantes com idade entre 7 e 14 anos, de ambos os sexos. Esses estudantes foram identificados em uma investigação mais ampla que teve por objetivo estudar fatores associados à anemia ferropriva em crianças e adolescentes matriculadas na rede pública de ensino da cidade de Salvador16.

O processo de amostragem no estudo original envolveu desenho complexo, valendo-se da estratificação das escolas em dois níveis (estadual e municipal), seguida pelo procedimento de amostragem por conglomerado em três estágios descrito a seguir: o primeiro estágio representado pelos distritos sanitários; o segundo pelas escolas; e o último pelos alunos. Devido às questões logísticas de campo, as informações dos estudantes selecionados foram extraídas de 6 distritos, dos 12 existentes em Salvador, onde se observaram 117 escolas estaduais e 173 municipais. As escolas estaduais comportavam 58.059 alunos e as municipais 56.555. Para atender ao número amostral previamente definido, verificou-se a necessidade de selecionar 10 alunos de cada uma das 58 escolas municipais e 23 alunos de cada uma das 27 escolas estaduais, contabilizando-se 1.200 estudantes. Desse total, inicialmente selecionado, registrou-se a perda de 69 deles (5,75 %), o que resultou em uma amostra de 1.131 participantes. Essas perdas ocorreram devido à recusa e à mudança da criança para outra cidade; ou à transferência para outra escola. Desse total, foram excluídos 194 estudantes dada a falta de registro do lipidograma. Assim, a amostra efetivamente estudada constituiu-se de 937 crianças e adolescentes de ambos os sexos, com idade de 7 a 14 anos. A mostra efetivamente estudada constituiu-se de 937 indivíduos. Considerando que esta amostra não foi estimada, levando-se em conta o objetivo investigado neste estudo, decidiu-se por calcular o erro amostral a posteriori. Nestas circunstâncias, o erro a posteriori calculado para detectar uma prevalência de 25,5% de dislipidemia foi de 2,8%. com um nível de confiança de 95%.

Variável dependente

Dislipidemia - (nível de colesterol e nível de triglicérides)

Para a dosagem dos níveis do colesterol total e dos triglicérides foi utilizado o monitor portátil Accutrend® CGT (Roche Diagnostics), que adota o método da fotometria de reflexão. A calibração é automática, sendo realizada por meio de uma Tira Código que acompanha cada frasco com as tiras reagentes. O produto tem código n° 40000486. É fabricado pela Roche Diagnostics GMBH, de procedência Alemã e Registro no Ministério da Saúde n° 12016400350.

Os valores de referência utilizados para diagnóstico de hipercolesterolemia e hipertrigliceridemia em crianças e adolescentes foram os preconizados pela I Diretriz de Prevenção da Aterosclerose na Infância e na Adolescência da Sociedade Brasileira de Cardiologia17. Foram considerados como dislipidêmicos os indivíduos que apresentavam pelo menos um desses exames com valor aumentado: Colesterol > 170 (mg/dl) e/ou Triglicérides > 130(mg/dl).

Variáveis independentes

Nível de atividade física

O nível de atividade física foi avaliado por meio do Questionário de Atividades Físicas Realizadas Ontem - QUAFIRO. Trata-se de um questionário desenvolvido por Russell R. Pate, da University of South Carolina (Estados Unidos), traduzido e modificado por M.V. Nahas, do Núcleo de Pesquisa em Atividade Física e Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina (SUÑÉ, 2007)18. O questionário informa a intensidade e o tempo gasto na atividade física. A partir destes valores é produzido então o escore final do QUAFIRO, que é obtido multiplicando-se o coeficiente da intensidade (3, 2 ou 1 para intensa, moderada ou leve, respectivamente) pelo coeficiente da duração do exercício (1, 2 e 3 para < 15', 15-30' e > 30' respectivamente). Neste estudo, o escore gerado foi distribuído em tercil: 1º tercil (0 a 5 pontos), 2º tercil (6 a 12 pontos) e 3º tercil (> 13 pontosCategoria de referência).

Estado antropométrico

As medidas antropométricas foram coletadas na escola, de maneira padronizada, seguindo os procedimentos preconizados pelo Anthropometric Standartization Reference Manual (Lohman et al., 1988)19. O peso foi obtido com o auxílio de balança microeletrônica, marca Marte, modelo PP 200-50, com capacidade para 199,95 kg e precisão de 50 gramas. Para a obtenção da estatura, utilizou-se estadiômetro marca Leicester Height Measure, graduado em décimos de centímetros. Adotou-se como procedimento de coleta dos dados antropométricos aqueles preconizados por Lohman et al. (1988)19.

Anotou-se a idade dos participantes a partir das informações das Secretarias Estadual e Municipal de Educação. A idade foi confirmada com consulta ao registro de nascimento ou carteira de identidade, durante a entrevista.

Foram coletadas medidas antropométricas (peso e estatura) para o cálculo do índice de massa corporal (IMC). Para avaliar o estado antropométrico foram utilizadas como padrão de referência as tabelas de percentis da World Health Organization (2007)20 segundo a idade (2 a 20 anos de idade) e o sexo. E, para classificação, utilizou-se a proposta da WHO, 200621: magreza ou baixo peso (< percentil 3), eutrofia (> percentil 3 e < percentil 85Categoria de referência), sobrepeso ( > percentil 85 e < percentil 97) e obesidade (> percentil 97). Para análise, foram agregadas as categorias sobrepeso e obesidade. Portanto, os indivíduos com excesso de peso conferiam IMC situados no percentil igual ou acima de 85.

Padrão de consumo alimentar

Foi utilizado o Questionário Quantitativo de Frequência Alimentar (QQFA) para avaliação do consumo alimentar. Para cada item alimentar do QQFA dispõe-se de categorias de frequência do consumo que caracteriza a ausencia do consumo "nunca" até "diariamente" e da quantidade de vezes que tal item alimentar foi consumido no dia de consumo que vai desde "um" até "seis vezes/dia".

Os itens alimentares foram distribuídos em 2 grupos. Adotou-se como critério para a inclusão de cada alimento no grupo o fato de ter o consumo relatado por no mínimo 70% dos participantes.

Grupo I: composto por alimentos considerados de risco para o desenvolvimento de dislipidemias: produtos lácteos integrais (queijos, requeijão); gorduras de origem animal (banha, toucinho, manteiga, torresmo); gorduras de origem vegetal (margarinas); alimentos fritos (batata, pastéis, salgadinhos); carnes (ave, peixe frito, bovina e suína); produtos derivados (embutidos, salsicha, hambúrguer, preparações à base de carnes); e ovos.

Grupo II: composto por alimentos considerados protetores para o desenvolvimento de dislipidemias: leguminosas; frutas e e cereais e derivados (arroz, pães, biscoitos e farinhas).

A avaliação do consumo alimentar foi realizada com base na metodologia proposta por Fornés et al. (2002)22, que adotam como referencia para a avaliação o consumo diário, equivalente a 30 dias do mês (consumo mensal). Assim, atribuiu-se um peso a cada categoria de frequência de consumo baseada na frequência mensal. E, o consumo diário do item alimentar corresponde ao valor de peso máximo (peso 1). Os demais pesos foram obtidos de acordo com a seguinte equação:

Peso = (1/30) [(a+b)/2],

sendo a e b a representação do intervalo numérico da frequência de consumo no mês. Como a maior parte das possibilidades de resposta da frequência alimentar reflete o consumo semanal, converteu-se o número de respostas semanal em consumo mensal. Considerando que o mês tem 4 semanas, a frequência semanal foi multiplicada por 4, gerando a frequência de consumo mensal. Para cada alimento consumido pelo participante foi atribuído um escore de frequência de consumo.

Posteriormente essas variáveis foram distribuídas em tercil; o grupo I foi categorizado da seguinte forma: 1º tercil - consumo baixoCategoria de referencia; 2º tercil - consumo moderado; 3º tercil - consumo elevado. O grupo II foi categorizado da seguinte forma: 1º tercil - consumo baixo; 2º tercil - consumo moderado; 3º tercil consumo elevadoCategoria de referencia.

Características socioeconômicas e condições de moradia e ambiente

Utilizaram dados acerca das características do domicílio (condições de posse do domicílio, tipo de construção, material predominante de piso, material predominante na cobertura e parte do domicílio, número de habitantes por dormitórios) e de saneamento básico (abastecimento de água, coleta de lixo, esgotamento sanitário) para a construção de um índice adaptado do modelo proposto por Issler & Giugliani (1997)23. A cada situação atribuiu-se uma pontuação, tendo a mais favorável recebido o valor 0, e a mais desfavorável a pontuação 1. O somatório desses valores caracteriza o indicador das condições de moradia e ambiente, classificado em dois estratos: adequado (escore < 04Categoria de referencia) e inadequado (escore > 04).

Foram coletados, ainda, dados de escolaridade materna (indicador proxy das condições socioeconômicas da família). Para esta variável foram considerados três níveis conforme as séries escolares cursadas: I - até a 4ª série; II - da 5ª a 8ª série; e III - 2º grau ou superiorCategoria de referencia.

Questões éticas

O protocolo de estudo foi submetido ao Comitê de Ética do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, que apreciou e emitiu parecer favorável sobre a pertinência ética da investigação.

Análise dos dados

Foram selecionadas as variáveis que apresentaram valor de p < 0,30 na análise univariada, conforme critério sugerido por Hosmer & Lemeshow (1989)24. Posteriormente foi realizada a análise multivariada empregando a técnica de regressão logística, A magnitude da associação entre os fatores associados e a ocorrência de dislipidemia foi expressa em Odds Ratio (OR) e respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%). Permaneceram no modelo ajustado apenas aquelas variáveis com valor de p < 0,05.

As análises estatísticas foram corrigidas pelo delineamento complexo da amostra, utilizando-se o conjunto de comandos SVY do STATA (versão 9.0).

 

Resultados

Do total das 1.131 crianças e adolescentes que integravam o estudo, 194 se recusaram ou não tiveram autorização dos pais para fazerem o exame. Assim, a amostra efetivamente estudada constituiu-se de 937 crianças e adolescentes de ambos os sexos, com idade de 7 a 14 anos. Ressalta-se que não foi observada diferença estatisticamente significante entre as características socioeconômicas, antropométricas e demográficas da amostra original e a subamostra utilizada nesse estudo (dados não apresentados em tabela).

A prevalência de dislipidemia foi calculada em 25,5% (IC:95% 22,7; 28,3) (os adolescentes tinham pelo menos um dos distúrbios investigados). Das 937 crianças e adolescentes, 49,9% dos participantes eram do sexo feminino e a maioria com idade entre 10 e 14 anos (86,0%). Quanto às condições socioeconômicas, 32,9% viviam sob condições inadequadas de moradia e 32,6% das mães haviam cursado até a 4º série. Observou-se que a inatividade fisica era comum a 27,6 % das crianças e o consumo de alimentos de moderado e alto risco para as dislipidemias era de 67,5%, prevalência ligeiramente mais elevada do que a observada para o consumo baixo e moderado dos alimentos protetores (62,9%). A ocorrência de sobrepeso/obesidade foi identificada em 12,4% dos participantes (Tabela 1).

 

 

Os resultados da análise univariada, indicam associação positiva e estatisticamente significante entre dislipidemia e estado antropométrico (p < 0,001), e nível borderline de significância para frequência de consumo de alimentos protetores selecionados (p = 0,051). Não houve associação estatisticamente significante para as demais variáveis estudadas (p < 0,051) (Tabela 2).

De acordo com os dados apresentados na Tabela 3, pode-se observar que a dislipidemia esteve associada significantemente a baixa escolaridade materna (0R = 1,72; IC95%: 1,08-2,75), ao baixo consumo de alimentos protetores (2º e 3º tercil) (OR = 1,54; IC95%: 1,05-2,26), ao consumo moderado e alto de alimentos de risco (2º e 3º tercil) (OR = 1,49; IC95%: 1,01-2,19) e ao excesso de peso (sobrepeso/obesidade) (OR = 3,14; C95%: 193-5,12).

 

 

Discussão/Conclusão

A prevalência de dislipidemia encontrada no presente estudo (20,4%) é menor do que a relatada por Franca e Alves (2006) em Recife/PE (29,7%)7, e por Moura et al, (2000) em Campinas/SP (35%)9. Contudo, é compatível com aquela encontrada em Florianópolis/SC (22,0%) por Giuliano et al. (2005)25 e por Seki et al. (2001) em Londrina/PR (20,8%)2. E é mais elevada do que aquelas encontrados por Gerber & Zielinsky (1997) em Bento Gonçalves/RS (10,33%)26 e Grillo (2005) em Itajaí-SC (4,7%)27. Independentemente dos pontos de corte utilizados para tal diagnóstico ou mesmo das técnicas de análise bioquímica, há que destacar as altas prevalências deste evento em crianças e adolescentes nas diversas regiões do país.

No presente estudo os dados revelaram a influencia do excesso de peso na ocorrência da dislipidemia (Tabela 3). Estudos que avaliam os fatores determinantes para o desenvolvimento da dislipidemia, como o excesso de peso em crianças e adolescentes, ainda são escassos no Brasil. Dos existentes na literatura nacional, citam-se principalmente, os realizados por Giuliano et al. (2008)25, por Coronelli e Moura (2003)3 e por Carvalho et al. (2007)8. Os resultados destes estudos indicam o papel aterogênico do excesso de peso neste ciclo da vida, contribuindo assim para a ocorrência da dislipidemia. Para alguns autores, a dislipidemia ocorre devido especialmente ao desenvolvimento do hiperinsulinismo (resistência à insulina), inicialmente periférico, e posteriormente sistêmico, entre outros mecanismos28. As evidências produzidas indicam que a adequação peso/estatura melhora o perfil lipídico e diminui os riscos cardiovasculares29.

A dislipidemia pode ser creditada aos fatores ambientais relacionados com o estilo de vida, entre os quais se incluem, principalmente, os hábitos alimentares inadequados e a inatividade física. No presente estudo observou-se a influência negativa do baixo e moderado consumo de alimentos protetores (2º e 3º tercil), bem como do moderado e alto (2º e 3º tercil) consumo de alimentos de risco sobre o estado lipidêmico das crianças e adolescentes participantes do estudo; esses padrões de consumo refletem as modificações do estilo de vida vivenviado por crianças e adolescentes e podem ser explicados pela transição nutricional identificada para a população brasileira nos últimos anos12,13. Essas modificações têm favorecido o aumento do consumo de alimentos industrializados, da alimentação fora de casa e da substituição das refeições tradicionais pelos lanches. Essas mudanças levam ao consumo de produtos de alta densidade de energia, como os ricos em gordura e carboidratos simples, em detrimento das fontes de fibras, representadas pelas frutas e vegetais, os quais possuem menos calorias e melhor qualidade de nutrientes. Há que registar que os resultados encontrados neste estudo são compatíveis com aqueles que destacam a influência da dieta tradicional brasileira (a base do feijão com arroz) como protetores dos fatores associados a dislipipidemia30,31. Os efeitos das fibras solúveis sobre as concentrações sanguíneas de lipídios têm sido relatados em diversos estudos, tanto em animais quanto em humanos32. Resultados de estudos mostram que as fibras solúveis representadas pela pectina (frutas) e pelas gomas (aveia, cevada e leguminosas: feijão, grão de bico, lentilha e ervilha), reduzem o tempo de trânsito gastrointestinal e ajudam na eliminação do colesterol32.

Os resultados indicaram influência do baixo nível de escolaridade sobre as alterações do perfil lipídico, mediada pelo excesso de peso. Geralmente, oportunidades de melhora no nível de instrução e de acesso às informações favorecem uma escolha mais adequada de alimentos e, consequentemente, melhoria da adequação das medidas antropométricas. A influência da escolaridade materna na ocorrência da dislipidemia observada neste estudo pode estar sugerindo ainda, entre outros, que mães de maior escolaridade estão participando mais ativamente da prestação de cuidados aos filhos, o que pode resultar em menor ocorrência de dislipidemia.

É importante salientar que a principal limitação desta investigação está no fato de se tratar de um estudo transversal, o que afeta a interpretação dos resultados, na medida em que, nesse tipo de estudo, não é possível estabelecer relações causais por não apontarem uma sequência temporal entre a exposição ao fator e o subsequente desenvolvimento da doença. No entanto, os resultados encontrados são compatíveis com o que é relatado na literatura consultada, dentre eles alguns de intervenção, de que a melhoria dos hábitos alimentares e controle de peso contituem importantes componentes na prevenção da dislipidemia, entre outros fatores de risco associados a doenças cardiovasculares32,33.

No presente estudo foi utilizado o método da fotometria para medir os níveis de colesterol e triglicérides, o que poderia implicar em uma limitação, por erros de classificação, por subestimar o diagnóstico. Contudo, a fotometria de reflexão para a dosagem de colesterol e triglicérides sanguínea ou plasmática tem sido usada na atualidade. Os coeficientes de correlação (r) acima de 0,90 verificados entre o método fotométrico e os métodos de laboratório têm motivado o uso do monitor portátil Accutrend® CGT em estudos epidemiológicos34.

Não obstante essas limitações, conclui-se que a dislipidemia esteve associada à baixa escolaridade materna, ao baixo consumo de alimentos protetores, ao consumo moderado e alto de alimentos de risco e ao excesso de peso. É possível algumas mudanças no estilo de vida, como a manutenção de um modelo dietético nutricionalmente adequado e o controle do peso corpóreo, dentre outros que incluem melhoria das condições socioeconômicas, estão relacionadas com a redução de fatores de risco para a doença arterial coronária.

 

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Correspondência:
Rita de Cássia Ribeiro Silva
Rua Desembargador Oscar Dantas, 96 apt 402
Graça - Salvador, BA CEP 40260-150
E-mail: rcrsilva@ufba.br

Recebido em: 24/11/2010
Versão final apresentada em: 20/06/2011
Aprovado em: 05/08/2011

 

 

Agências Financiadoras: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) [processo nv 1431040053551] e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) [processo nv 402462/2005-0].