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Revista Brasileira de Epidemiologia

versión impresa ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.15 no.2 São Paulo jun. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2012000200014 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Fatores sociodemográficos associados aos diferentes domínios da atividade física em adultos de etnia negra*

 

Sociodemographic factors associated with different domains of physical activity in adults of black ethnicity

 

 

Francisco José Gondim PitangaI; Inês LessaII; Paulo José B. BarbosaIII; Simone Janete O. BarbosaIV; Maria Cecília CostaV; Adair da Silva LopesVI

IDepartamento de Educação Física da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
IIInstituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
IIIEscola Bahiana de Medicina e Saúde Pública
IVUnião Metropolitana de Educação e Cultura
VEscola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
VIUniversidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a prevalência e os fatores sociodemográficos associados aos diferentes domínios da atividade física em adultos de etnia negra.
MÉTODOS: Estudo transversal com amostra de 2.305 adultos negros de 20 a 96 anos de idade, sendo 902 (39,1%) homens, residentes na cidade de Salvador, BA, Brasil. Foram analisadas as variáveis sociodemográficas sexo, idade, escolaridade, nível socioeconômico (NSE), estado civil, discriminação racial no trabalho/escola (DRTE), em ambientes públicos (DRAPU) e privados (DRAPR) e percepção de policiamento (PPB)/violência no bairro (PVB), além da atividade física total (AFT) e em diferentes domínios: tempo livre (AFTL), trabalho (AFTR), deslocamento (AFDL) e doméstico (AFDM). As associações foram analisadas por meio dos testes qui-quadrado, qui-quadrado de tendência e razão de prevalência (RP). Utilizou-se também regressão logística para estimar a razão de chances (RC) com intervalo de confiança de 95%.
RESULTADOS: As proporções de indivíduos ativos foram 39,1% para AFT, 11,2% para AFTL, 9,6% para AFTR, 23,7% para AFDL e 33,7% para AFDM. A AFT associou-se positivamente com escolaridade e inversamente com sexo masculino, idade maior que 60 anos e com não PPB. A AFTL associou-se positivamente com sexo masculino, maior escolaridade e maior NSE. A AFTR associou-se inversamente à idade maior que 60 anos e positivamente com o sexo masculino, maior escolaridade e não PPB. A AFDL associou-se inversamente à idade maior que 60 anos e positivamente ao sexo masculino. A AFDM associou-se inversamente com o sexo masculino, idade maior que 60 anos e não PPB; e positivamente com maior escolaridade e NSE.
CONCLUSÕES: Os fatores sociodemográficos, principalmente sexo, idade e escolaridade se mostraram associados aos diferentes domínios da atividade física em adultos de etnia negra.

Palavras-chaves: Atividade física. Etnia negra. Fatores sociodemográficos. Atividade física no tempo livre. Atividade física no deslocamento. Atividade física no trabalho.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze the prevalence and sociodemographic factors associated with different domains of physical activity among adults of black ethnicity.
METHODS: Cross-sectional study with a sample of 2,305 black individuals from 20-96 years of age, 902 (39.1%) of which men living in the city of Salvador, Bahia, Brazil. Sociodemographic variables analyzed were: gender, age, schooling, socioeconomic status (SES), marital status, racial discrimination at work/school (RDWE), in public (RDPUP) and private (RDPRP) places and perception of police (PPN) /violence in the neighborhood (PVN), as well as total physical activity (TPA) in its different domains: leisure time (LTPA), work (WPA), commuting (CPA) and household activity (HPA). Associations were analyzed using chi-square tests, chi-square trend and prevalence ratio (PR). We also used logistic regression analysis to estimate the odds ratio (OR) with a 95%confidence interval.
RESULTS: The proportions of active individuals were 39.1% for TPA, 11.2% for LTPA, 9.6% for WPA, 23.7% for CPA and 33.7% for HPA. TPA was positively associated with higher schooling and inversely associated with male gender, age over 60 years and with no PPN. LTPA was positively associated with male gender, higher schooling and higher SES. WPA was inversely associated with age over 60 years and positively associated with male gender, higher schooling and no PPN. CPA was inversely associated with age over 60 years and positively associated with male gender. HPA was inversely associated with male gender, age over 60 years and no PPN and positively associated with higher schooling and SES.
CONCLUSION: Socio-demographic factors, particularly gender, age and schooling were associated with different domains of physical activity among adults of black ethnicity.

Keywords: Physical activity. Black ethnicity. Sociodemographic factors. Leisure time physical activity. Work physical activity. Commuting physical activity.


 

 

Introdução

O avanço dos processos de industrialização e automação, além do crescimento do acesso a máquinas e equipamentos poupadores de energia humana, vem contribuindo para que as pessoas se tornem cada vez mais inativas fisicamente, com pouca motivação para participar de atividades que envolvam práticas corporais. O acesso mais facilitado a eletrodomésticos, eletro-eletrônicos e automóveis, a utilização de elevadores, escadas rolantes, internet e a redução dos espaços livres para o lazer podem ser considerados como fatores determinantes para diminuição significativa dos níveis de atividade física das pessoas1.

A atividade física pode ser definida como qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética que resulte em gasto energético acima dos níveis de repouso2, sendo composta pelos domínios das atividades de trabalho (AFTR), deslocamentos (AFDL), atividades domésticas (AFDM) e tempo livre (AFTL).

Diversos fatores sociodemográficos podem influenciar o comportamento da prática da atividade física em grupos populacionais. O nível socioeconômico, a escolarização, a idade, os aspectos étnicos, entre outras variáveis, vêm sendo relatados na literatura como determinantes da atividade física em seus diferentes domínios3-6. Por outro lado, apesar da existência de poucos estudos procurando abordar a associação entre percepção de violência/policiamento e atividade física, sugere-se que a percepção da violência está associada a medo e atividade física7, ou seja, o ambiente mais seguro aumenta a possibilidade de prática de atividades físicas.

Além disto, o conhecimento sobre cada um dos domínios da atividade física com seus respectivos determinantes pode trazer importantes informações para o gerenciamento de políticas públicas de promoção de atividades físicas8.

Na cidade de Salvador, BA. aproximadamente 75% da população tem origem afro-descendente9, sendo que historicamente estas pessoas têm sido discriminadas pela sociedade, fato que pode gerar desigualdades importantes em diversas variáveis de saúde, inclusive no comportamento em relação à prática de atividades físicas10.

Considerando que, no Brasil, não existem estudos sobre atividade física e fatores associados na população adulta de etnia negra, é importante identificar estas características neste grupo populacional. Estas informações podem ser utilizadas para conscientizar os gestores de saúde para o desenvolvimento de políticas públicas de promoção de atividades físicas que poderão influenciar como um dos meios de prevenção dos diversos agravos metabólicos e cardiovasculares e, consequentemente, de gastos excessivos para o sistema de saúde11-13.

Assim, o objetivo deste estudo foi identificar a prevalência e analisar os fatores sociodemográficos associados aos diferentes domínios da atividade física em adultos de etnia negra.

 

Métodos

Desenho e local do estudo

O estudo foi de corte transversal, realizado em Salvador, Bahia, Brasil, no segundo semestre de 2007, com foco nas doenças crônicas não transmissíveis e nos seus fatores de risco. O município de Salvador está subdividido em 12 distritos sanitários (DS), quatro deles com 75% da população de etnia negra. Por conveniência foram selecionados para o estudo dois desses DS, ambos densamente povoados: Liberdade, com todos os seus sete bairros, e Barra-Rio Vermelho com 56% dos seus bairros.

Amostragem

A base para o tamanho da amostra foi a prevalência de 35% de hipertensão arterial observada em representantes negros no estudo realizado em Salvador em 2000, que incluiu todas as etnias9. Considerando-se erro menor do que 2% e nível de confiança de 95%, a estimativa foi de 2.185 (» 2.200) adultos negros com idade > 20 anos. Como regra geral estipulou-se entrevistar um elegível por domicílio. Assim, o número de domicílios sorteados teve por base o número dos participantes; porém, na eventualidade (rara) de mais de uma família não consanguínea morando no mesmo domicílio, permitiu-se o sorteio de um elegível por família.

Como os negros correspondiam a 75% da população das áreas selecionadas, a mesma percentagem deveria ser encontrada na população geral, admitindo-se 25% de brancos. A princípio seria necessário visitar 2.950 domicílios, 2.200 habitados por negros e 750 por brancos, que seriam descartados. Foram acrescentados mais 25% ( 740 domicílios) para cobrir imóveis desocupados, não residenciais ou ruínas, e domicílios de moradores com idade inferior a 20 anos ou não encontrados em duas visitas sucessivas, ampliando a amostra domiciliar para 3.690. A esses foram acrescidos mais 15% (553) para cobertura de perdas por recusa domiciliar ou recusa apenas do elegível. O total de domicílios foi estimado então em 4.243 arredondados para 4.250, sorteados probabilisticamente no universo das ruas.

Após censo em toda a área para delimitação das ruas e contagem das residências foram extraídas amostras aleatórias simples: a) de ruas; b) de residências das ruas sorteadas (n = 4.250); c) de um elegível para domicílios habitados por uma família ou dois elegíveis para domicílios habitados por mais de uma família não consanguínea. O número de casas amostradas previu a exclusão dos 25% de domicílios de moradores brancos e 25% das residências desocupadas, moradores ausentes, moradores inelegíveis, recusas de domicílios e moradores, imóveis não residenciais ou ruínas e terrenos/lotes sem construções.

Elegibilidade

Foram critérios obrigatórios de elegibilidade: referir-se como negro (pardo ou preto), ter idade ³ 20 anos e concordar em participar das duas etapas da investigação: 1ª) inquérito domiciliar e 2ª) comparecimento ao serviço de saúde para exames complementares. Foram inelegíveis as pessoas que se declarassem brancas, mulheres grávidas ou pessoas sem condições mentais para responder ao questionário ou de comparecer ao serviço de saúde, sede de campo do projeto para a realização da segunda etapa do estudo. Antes do sorteio do participante, os moradores foram questionados quanto à cor da sua pele, sem possibilidades outras que não aquelas adotadas nos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e se aceitariam participar das duas fases do estudo. Entraram no processo de amostragem aqueles que concordaram em realizar os exames. Se na data agendada para a entrevista a pessoa amostrada desistisse de realizar os exames complementares, era considerado recusa e descartado da investigação.

Instrumento de Coleta de Dados

Todos os participantes da pesquisa foram entrevistados em domicílio para coleta dos dados sociodemográficos e de atividade física. O instrumento de coleta de dados foi um questionário programado em Java, para uso em Palm, modelo Z-22. Para isso, o instrumento foi planejado e discutido com a equipe do projeto e depois com o programador da área de informática, para adequação ao programa e discussão dos vários tipos de respostas e codificações. Quando as perguntas eram interdependentes, a maioria tinha a chave de controle da informação (aceitação/rejeição) e não possibilitava o adiamento de digitação das informações. Semanalmente, ou antes desse prazo, caso necessário, um dos coordenadores do projeto recebia os aparelhos e descarregava os questionários em computador, diretamente em programa Excel. O aparelho permitia armazenar até 100 questionários da extensão do usado (163 perguntas com inúmeros desdobramentos) e no Palm de cada entrevistador foi aberta a possibilidade de 100 questionários com números consecutivos. Uma vez completada a centena, outros 100 eram colocados. O treinamento no uso do Palm foi realizado pelo programador, inicialmente para a equipe de coordenadores e, posteriormente, para os dez entrevistadores na presença de toda a equipe. Após o treinamento procedeu-se ao teste-piloto. Cada entrevistador, todos com nível médio de escolaridade e grande experiência em entrevistas, aplicou dez questionários. O piloto funcionou também para testar o desempenho do Palm, a facilidade de seu uso pelos entrevistadores e a duração da entrevista, automaticamente registrada pelo programa. Os entrevistadores foram supervisionados diretamente em campo por técnicos de nível superior.

Variáveis do estudo

Foram utilizadas as seguintes variáveis: sexo, idade, escolaridade, nível socioeconômico (NSE), estado civil, discriminação racial no trabalho/escola (DRTE), em ambientes públicos (DRAPU) e privados (DRAPR), e percepção de policiamento (PPB)/violência no bairro (PVB), além da atividade física total (AFT) e em seus diferentes domínios: AFTL, AFTR, AFDL e AFDM.

Para identificar os diferentes domínios da atividade física o instrumento utilizado foi o International Physical Activity Questionnary (IPAQ), versão longa, constituído de questões relativas à frequência e duração de atividades físicas (caminhada, moderada e vigorosa) desenvolvidas no trabalho, no deslocamento, nas atividades domésticas e no tempo livre14. Os valores de cada um dos diferentes domínios da atividade física foram relatados em minutos/semana por meio da multiplicação da frequência semanal pela duração de cada uma das atividades realizadas. Na sequência, os diferentes domínios da atividade física foram categorizados em 0 = inativos fisicamente (< 150 minutos por semana em atividades físicas moderadas ou caminhada e/ou < 60 minutos por semana em atividades físicas vigorosas; 1 = ativos fisicamente (> 150 minutos por semana em atividades físicas moderadas ou caminhada e/ou < 60 minutos por semana em atividades físicas vigorosas). Para a escolaridade, foram estabelecidos três estratos: 0 = muito baixo (analfabetos até 5ª série fundamental); 1 = baixo (fundamental completo); 2 = médio/alto (2º grau completo, incluindo cursos técnicos profissionalizantes completos e nível superior completo ou incompleto). Para classe social foi usada a metodologia da Associação Brasileira de Pesquisa de Mercado (ABPEME-IBGE), cuja classificação vai de A a E. Neste trabalho foi categorizada e codificada como: baixa = 0 (classes D + E); média/alta = 1 (classe C + B + A). Para o estado civil adotou-se a seguinte classificação: 0 = solteiro(a), 1 = casado(a) ou em união estável, 2 = separado(a) ou divorciado e viúvo(a). Para a idade adotou-se a seguinte classificação: idade = 0 se < 40 anos, idade = 1 se entre 40 e 59 anos e idade = 2 se > 60 anos. A discriminação racial no trabalho/escola e em ambientes públicos e privados foi autorreferida e classificada de acordo com o seguinte critério: 0 = não e 1 = sim. A percepção sobre a existência de policiamento no bairro, também autorreferida foi classificada de acordo ao seguinte critério: 0 = sim e 1 = não. Para a percepção da violência no bairro, que da mesma forma que as variáveis anteriore, também foi autorreferida, adotou-se a seguinte forma de classificação: 0 = muito tranquilo, muito bom de morar, 1 = pouco tranquilo, mas é bom de morar, 2 = ruim para morar, com ameaças (de qualquer tipo) e não é tranquilo: é violento, tem brigas nas ruas e/ou, pessoas armadas ou usando drogas, ou traficantes.

Procedimentos de análise

A caracterização das variáveis foi apresentada por meio de prevalências com seus respectivos intervalos de confiança de 95%. As diferenças entre os estratos das variáveis sociodemográficas, em função do diversos domínios da atividade física, foram analisadas através do teste do qui-quadrado para variáveis dicotomizadas e o qui-quadrado de tendência, quando construídos três ou quatro estratos para uma mesma variável. Utilizou-se também o cálculo da razão de prevalência (RP), com intervalo de confiança (IC) de 95%, para analisar a associação entre os diversos estratos das variáveis socioeconômicas e a atividade física em seus diferentes domínios. Nesta etapa da análise, para as variáveis sociodemográficas com mais de dois estratos foram criadas variáveis dummies para comparação entre o grupo de referência = 0 e os outros estratos de variável estudada. Finalmente foi feita análise multivariada por meio da regressão logística estimando-se a razão de chances (RC) com IC de 95%. Nesta etapa foi testada a associação entre as variáveis de discriminação racial, percepção de violência/existência de policiamento no bairro e atividade física em diferentes domínios ajustados por idade, sexo, escolaridade e nível socioeconômico. Empregou-se o programa estatístico "STATA, versão 7.0".

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA sob p nº 002-07, não existindo nenhum tipo de conflito de interesses com o conteúdo do mesmo. Todos os participantes do estudo assinaram o termo de consentimento pós-informado.

 

Resultados

Da amostra total prevista, 1,2% dos elegíveis não aceitaram realizar os exames complementares (recusa parcial), porém dois terços dessas recusas foram espontaneamente revertidos no percurso da investigação. Além disso, houve excesso de 4,6% de participantes, além do número previsto, totalizando como amostra final 2.305 negros, 902 homens e 1.403 mulheres que concordaram em participar das duas etapas da pesquisa.

O cálculo do poder estatístico desta amostra para identificar associações entre as variáveis sociodemográficas e os diversos domínios da atividade física foi feito posteriormente, considerando prevalência da atividade física entre os não expostos de 45%, intervalo de confiança de 95% e poder de 80%, foi possível detectar razões de prevalência iguais ou superiores a 1,26 e iguais ou inferiores a 0,74.

As prevalências da atividade física em seus diferentes domínios e das variáveis sociodemográficas analisadas no estudo estão demonstradas na Tabela 1. Observa-se maior proporção de mulheres, de pessoas com faixa etária entre 20 e 59 anos, de nível socioeconômico baixo, de escolaridade muito baixa ou média/alta e de casados. Com relação à discriminação racial constata-se que a maioria dos participantes do estudo relata que não se sentia discriminada no trabalho/escola e em ambientes públicos e privados. Quanto ao policiamento/violência no bairro, a maior parte dos entrevistados diz que percebe o bairro como apenas um pouco tranquilo e que o mesmo não é bem policiado. Com relação à atividade física notam-se maiores prevalências nas atividades domésticas, seguidas de atividades de deslocamento e tempo livre. As menores prevalências de atividade física são observadas nas atividades de trabalho.

 

 

Na Tabela 2 aparecem as associações entre os diversos fatores sociodemográficos e AFT/AFTL. Com relação à AFT observam-se menores proporções de atividade física naqueles com mais de 60 anos de idade, entre indivíduos do sexo masculino e naqueles que relatam a não existência de policiamento no bairro, enquanto que naqueles com maior nível de escolarização observa-se maiores proporções de atividade física. Quanto a AFTL, notam-se maiores proporções de atividade física entre os homens e entre pessoas com maior escolarização e nível socioeconômico.

Na Tabela 3 estão demonstradas as associações entre os fatores sociodemográficos analisados e AFTR/AFDL/AFDM. No que diz respeito à AFTR observa-se maior proporção de atividade física entre os homens, entre aqueles com nível de escolarização média/alta e entre aqueles que relatam não perceber policiamento no bairro. Nota-se também menor proporção de atividade física na faixa etária maior de 60 anos.

Quanto à AFDL, observa-se maior proporção de atividade física nos homens. Nota-se também menor proporção de atividade física na faixa etária maior de 60 anos de idade. Com relação à AFDM observam-se menores proporções de atividade física em homens, em indivíduos com faixa etária maior que 60 anos e naqueles que não percebem policiamento no bairro. Observam-se ainda, maiores proporções de atividade física nos níveis socioeconômicos e de escolarização médio/alto.

Na Tabela 4 estão demonstradas as associações entre atividade física em diferentes domínios e variáveis de discriminação racial e percepção de violência/existência de policiamento no bairro ajustados por idade, sexo, escolaridade e nível socioeconômico. Observa-se que após o ajuste, as associações observadas na análise bruta para as variáveis de discriminação racial perdem a significância estatística.

 

Discussão

Neste estudo analisamos a prevalência e os fatores sociodemográficos associados aos diferentes domínios da atividade física (AFTR, AFDL, AFDM, AFTL) e AFT em adultos de etnia negra.

No Brasil existem trabalhos que analisaram os diferentes domínios da atividade física na população de modo geral, não especificamente em etnia negra, nem comparando a atividade física em pessoas de diferentes etnias15,16. No estudo realizado em comunidades rurais de Minas Gerais15 observou-se maior prevalência de AFTR, seguido de AFDM, AFDL e AFTL, enquanto no estudo que utilizou os dados do VIGITEL16 observou-se maior prevalência de AFDM, seguido de AFTR, AFTL e AFDL. No nosso trabalho observou-se maior proporção de ativos na AFDM, seguido de AFDL, AFTL e AFTR. Com relação à AFT as mulheres são mais ativas do que os homens

Com relação à AFT, no presente estudo constatou-se que a proporção de mulheres ativas é maior que a de homens, provavelmente porque apresentam alta proporção de AFDM, com prevalência de 63,2% no sexo feminino e de 57,4% no sexo masculino. Observou-se também que a idade, escolaridade e a percepção de policiamento no bairro estão associadas à AFT. Resultados similares com relação à idade foram observados em amostra probabilística da população dos EUA composta por 2.688 adultos de ambos os sexos17. Neste estudo, a AFT foi avaliada através do acelerômetro e foi observado que os níveis de atividade física reduzem em função do aumento da idade, tanto em homens quanto em mulheres de diferentes etnias. Em outro estudo realizado no Brasil com dados do VIGITEL, também foi observado que a proporção de indivíduos ativos decresce com o aumento da idade16.

Em outro estudo transversal realizado nos EUA18 com amostra composta por 9.621 adultos com idade entre 51 e 61 anos, com o objetivo de analisar as diferenças na prática de AFTL, na atividade física relacionada ao trabalho (atividades domésticas pesadas e atividades de trabalho árduo) e atividade física total (AFT) por raça, etnia e escolaridade, verificou-se que a AFT não foi diferente entre os grupos étnico-raciais e entre categorias de escolaridade. No nosso estudo constatou-se que a AFT aumenta conforme aumentam as categorias de escolarização, provavelmente porque nesta amostra os indivíduos mais escolarizados são mais ativos no tempo livre, no trabalho e em atividades domésticas, fato que se reflete diretamente na AFT.

Outro aspecto importante a ser discutido é a associação inversa entre AFT e não percepção de policiamento no bairro, fato que reduz a probabilidade de atividade física nesta população. Nesta perspectiva, é importante ressaltar que poucos estudos têm procurado abordar a associação entre percepção de violência/policiamento e atividade física, considerando que áreas mais policiadas poderiam trazer maior sensação de segurança e, consequentemente, aumentar a possibilidade da prática de atividades físicas. Em recente trabalho realizado nos EUA, com amostra composta por 328 afro-americanos7, cujo objetivo foi analisar os indicadores ambientais de medo do crime e sua relação com atividade física, verificou-se que a percepção da violência estava associada com medo e atividade física.

Com relação à AFTL, no presente estudo específico de população de etnia negra, observou-se baixa prevalência da atividade física no lazer, e que a mesma foi maior entre homens e entre aqueles com escolaridade e nível socioeconômico mais alto.

Em outro trabalho realizado na cidade de Salvador6, quando foi analisada amostra representativa de toda a população foi encontrada prevalência de AFTL maior do que no estudo com a população negra. Observou-se também, tanto no estudo realizado em Salvador como em outros realizados no Brasil15,16, que as variáveis socioeconômicas e o nível de escolaridade estavam associados à inatividade física. Estes resultados provavelmente refletem a menor possibilidade de pessoas com baixo nível socioeconômico e escolarização participarem de atividades físicas no seu tempo livre, principalmente por falta de recursos e de locais apropriados para essas práticas nos lugares onde vivem.

Nos EUA3 foram analisados 4.695 homens e 6.516 mulheres adultos com o objetivo de identificar a prevalência da AFTL por grupos étnico-raciais entre diferentes indicadores de classe social. Os indicadores de classe social foram escolaridade, renda familiar, situação profissional e estado civil. A prevalência da AFTL foi maior entre os brancos do que entre os negros. Concordando com os resultados do nosso estudo, dentro de cada grupo étnico/racial a prevalência da AFTL foi maior entre os participantes de classes sociais mais altas.

A AFTL foi também analisada em amostra representativa da população dos EUA5, composta por 23.459 adultos do sexo masculino de diferentes etnias, onde foi observado que a probabilidade de participar de atividades físicas no tempo livre estava associada com ser mais jovem, ter níveis mais elevados de educação e renda, ter casa própria e ter melhor percepção do estado de saúde. No nosso estudo, a escolaridade e o nível socioeconômico também foram associados com AFTL.

Quanto à AFTR, também no presente estudo verificou-se baixa prevalência de pessoas classificadas como ativas fisicamente. Observou-se também que a AFTR diminui com o avançar da idade e aumenta nos homens, nas categorias de maior escolaridade e entre aqueles que não percebem policiamento no bairro. Os resultados encontrados em relação à escolaridade provavelmente refletem a realidade de que, nesta população, a prevalência da AFTR é baixa e que aqueles que conseguem assumir mais postos de trabalho, mesmo com a oferta sendo de atividades mais ativas, são os mais escolarizados. Resultados contrários foram observados em estudos realizados nos EUA18 e no Estado de Minas Gerais no Brasil15, em que foi observado que a AFTR é menor em pessoas com maior escolarização.

Com o objetivo de examinar a participação em atividades físicas no tempo livre e no trabalho entre assalariados e entre grupos étnico-raciais foram reunidos dados de 2000 a 2003 do NHIS - National Health Interview Survey4. Os resultados evidenciaram que a AFTL não estava associada à AFTR em nenhum dos grupos étnicos/raciais. Além disto, verificou-se também que os não latinos negros tiveram mais AFTR do que os não latinos brancos.

Com relação à AFDL encontrou-se no presente estudo prevalência de atividade física um pouco maior do que nos domínios da AFTL e AFTR. Observou-se também maior atividade física nos homens, enquanto que nos indivíduos com mais de 60 anos de idade encontrou-se menos atividade física. Em estudo realizado com amostra de 10.771 adultos jovens de diferentes etnias19 foi observado que a grande maioria não usa formas de deslocamento fisicamente ativas. Foi observado também que, de acordo com resultados encontrados no nosso estudo, o deslocamento ativo é mais comum entre os mais jovens.

Com relação à AFDM constatou-se que os homens têm níveis de atividade física bem menor do que as mulheres. Além disto, observaram-se também menores proporções de atividade física nos indivíduos com mais de 60 anos e naqueles que não percebem policiamento no bairro. Por outro lado, a atividade física foi maior naqueles com média/alta escolaridade, fato que pode refletir a importância do nível educacional no compartilhamento de tarefa domésticas. Este resultado foi contrário aos achados em outros estudos realizado nos Brasil15,16, onde foi observado que a atividade física doméstica é menor naqueles com maior nível de escolaridade.

Uma importante variável analisada no estudo foi à discriminação, pois, apesar de ser um potencial determinante de disparidades étnicos/raciais na saúde, raros trabalhos foram conduzidos para investigar se a discriminação racial contribui para disparidades nos níveis de atividade física em grupos populacionais. No nosso estudo, após análise multivariada, não foi observada associação entre discriminação racial e atividade física em nenhum dos domínios analisados. De acordo com nossos resultados, em recente estudo realizado em Boston, com 1.055 adultos predominantemente negros e hispânicos20, não foi observada associação entre discriminação racial e atividade física.

Além disso, é importante ressaltar que, com relação à percepção de policiamento no bairro, aqueles que a percebem são mais ativos globalmente e na atividade doméstica e menos ativos na atividade de trabalho, provavelmente porque os mais ativos na atividade doméstica estão mais em casa e, portanto, com mais oportunidade de perceber o policiamento, e os mais ativos no trabalho passam o dia fora de casa e têm menor chance de perceber o policiamento. Por outro lado, considerando a percepção de violência no bairro, não se observou associação com AFTL, provavelmente porque, por serem de nível socioeconômico baixo, a percepção de violência não influencia na AFTL.

Uma provável limitação do estudo foi o fato de ter sido analisada apenas a população de etnia negra, o que dificultou a comparação dos resultados encontrados com pessoas oriundas da mesma população, já que no Brasil não foram localizados trabalhos específicos para esta população. Além disso, apesar de o questionário ser instrumento bastante utilizado para analisar atividade física, além de outras variáveis utilizadas no estudo, o uso do mesmo pode resultar em viés de informação, já que exige recordação das informações por parte dos entrevistados.

Por outro lado, considerando que a amostragem foi probabilística, das ruas, dos domicílios e dos participantes, e considerando também a padronização dos entrevistadores e dos procedimentos, pode-se assumir a validade interna do estudo para população com as características de elegibilidade descritas; entretanto, considerando que a amostra não foi extraída de todos os distritos sanitários da cidade, e sim dentre aqueles com maior proporção de negros, cobrindo um grande número de bairros, além de não ser possível extrapolar as informações para bairros inteiros sabendo-se que 25 a 30% da população não é de etnia negra, pode-se assumir, apenas com cautela, a validade externa do estudo.

Com base nos resultados do presente estudo pode-se sugerir que diversas variáveis sociodemográficas, principalmente sexo, idade e escolaridade, estão associadas à atividade física em seus diferentes domínios entre os adultos de etnia negra. Considerando que as prevalências da atividade física em todos os domínios analisados foram baixas, sugere-se políticas públicas de incentivo à prática de atividades físicas específicas para este grupo populacional. Sugerem-se também novos estudos que analisem se a discriminação racial em diferentes ambientes e a violência/segurança são determinantes da atividade física em adultos de diferentes etnias.

 

Referências

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Correspondência:
Francisco José Gondim Pitanga
Av. Reitor Miguel Calmom, s/n, Vale do Canela
Salvador, BA - CEP: 40.000-00
E-mail: pitanga@lognet.com.br

Recebido em: 13/05/2010
Versão final apresentada em: 03/01/2012
Aprovado em: 02/04/2012

 

 

* Projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)/Ministério da Saúde - Processo no 09804/2006-1.