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Revista Brasileira de Epidemiologia

versão impressa ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.15 no.3 São Paulo Set. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2012000300010 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Associação entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns em mulheres

 

 

Paloma de Sousa PinhoI; Tânia Maria de AraújoII

IUniversidade Federal do Recôncavo da Bahia
IIUniversidade Estadual de Feira de Santana

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Os Transtornos Mentais Comuns (TMC) acometem mais frequentemente as mulheres. A baixa gratificação e a falta de visibilidade na realização do trabalho doméstico constituem quadro determinante para esse adoecimento psíquico.
OBJETIVOS: Avaliar a associação entre sobrecarga doméstica e a ocorrência de transtornos mentais comuns em mulheres da zona urbana do município de Feira de Santana - BA.
METODOLOGIA: Estudo epidemiológico de corte transversal incluindo 2.057 mulheres com 15 anos ou mais de idade, selecionadas através de amostragem aleatória por conglomerado. O indicador de sobrecarga doméstica foi criado a partir das atividades domésticas: lavar, passar, limpar e cozinhar, ponderadas pelo número de moradores do domicílio. Os transtornos mentais comuns foram avaliados através do SRQ-20.
RESULTADOS: Mulheres com alta sobrecarga doméstica apresentaram prevalência de TMC mais elevada do que as mulheres com baixa sobrecarga: 45,6% contra 36,2%. A análise de regressão logística múltipla confirmou associação entre sobrecarga doméstica e TMC (RP: 1,23; IC95%: 1,05 - 1,44), ajustada pelas variáveis renda, escolaridade e atividades de lazer.
CONCLUSÃO: Os achados sustentam a hipótese de que o trabalho doméstico, em elevada sobrecarga, está associado a transtornos mentais.

Palavras-chave: Trabalho doméstico. Sobrecarga doméstica. Mulher. Transtorno mental comum. Saúde mental. SRQ-20.


 

Introdução

A literatura aponta aumento da morbidade psíquica entre as mais diversas populações e, entre as doenças mentais, os Transtornos Mentais Comuns (TMC) vêm se destacando, principalmente entre as mulheres. Os Transtornos Mentais Comuns são caracterizados por sintomas como fadiga, esquecimento, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, dores de cabeça e queixas psicossomáticas1. Esses transtornos alteram o funcionamento normal dos indivíduos, prejudicando seu desempenho na vida familiar, social, pessoal e no trabalho2.

As mulheres têm apresentado consideravelmente mais sintomas de angústia psicológica e desordens depressivas do que os homens3-6. Os transtornos mais frequentes entre as mulheres são aqueles relacionados aos sintomas de ansiedade, humor depressivo, insônia, anorexia nervosa e sintomas psicofisiológicos; enquanto os homens apresentam maiores taxas de distúrbios de conduta, tais como comportamento antissocial, uso de drogas e abuso de álcool.

A inserção feminina no mercado produtivo, ao contrário dos homens, é limitada por responsabilidades domésticas e familiares, tendo o emprego que ser adaptado às suas outras funções7. Assim, estando ou não inseridas no mercado de trabalho, em geral as mulheres são donas-de-casa e realizam tarefas que, mesmo sendo indispensáveis para a sobrevivência e o bem-estar de todos os indivíduos, são socialmente desvalorizadas e desconsideradas.

Estudos para a identificação das atividades realizadas no ambiente domiciliar começaram a ser feitos a partir das décadas de 70 e 80, com o intuito de se caracterizar o volume de trabalho doméstico, principalmente das mulheres8. Nesse período, o movimento feminista, por sua vez, fortalecido como movimento social, forjou a discussão sobre a inserção da mulher nos processos de reprodução, dando visibilidade ao seu papel social. Assim, o trabalho doméstico, até então considerado como algo "naturalizado", passa a ser compreendido como decorrente de um processo de qualificação produzido no âmbito privado. Contesta-se, nesse debate, o estatuto dos afazeres domésticos como inatividade econômica e como atribuição e responsabilidade exclusiva das mulheres, uma sobrecarga inevitável9. Neste sentido, são também discutidos os pilares de sustentação da divisão sexual do trabalho, por meio da qual se destina ao homem o trabalho produtivo, em que se recebe salário, e à mulher o trabalho reprodutivo, cuja função econômica é omitida.

O debate efervescente nas décadas de 70/80 praticamente se manteve ausente da produção científica dos anos 90 e, apesar de estar sendo retomado em anos recentes, é ainda pouco estudado, especialmente no que se refere às repercussões na saúde das mulheres - que permanecem as principais responsáveis pelo trabalho doméstico10.

Dentre os estudos sobre a relação entre trabalho doméstico e profissional e saúde mental, destacam-se os estudos na literatura3,11. Em estudo comparando mulheres empregadas e donas-de-casa observou-se que fatores distintos produziam adoecimento psíquico e recompensa entre esses dois tipos de ocupação, embora ambos os grupos experimentassem, em média, níveis similares de sintomas depressivos11.

Dentre os aspectos referentes ao trabalho doméstico associado a sintomas depressivos, ansiosos ou psicossomáticos destacaram-se a rotinização das tarefas, a desvalorização e interrupções constantes das mesmas12.

Salienta-se também que fatores do ciclo da vida, tais como idade, situação conjugal, número de filhos, chefia da família e lazer, assim como o elevado volume de trabalho não pago realizado pelas mulheres, como a dupla jornada e o trabalho de cuidar da família, associados aos componentes emocionais, podem intensificar o sofrimento psíquico entre a população feminina.

A avaliação dos transtornos mentais entre as mulheres é importante para o seu adequado dimensionamento e a compreensão dos fatores associados à sua ocorrência, com foco no trabalho doméstico. Este estudo objetivou avaliar a associação entre sobrecarga doméstica e a ocorrência de transtornos mentais comuns em mulheres residentes em áreas urbanas na Bahia, Brasil. O diagnóstico proveniente dessa avaliação poderá fornecer informações relevantes para nortear as políticas de intervenção em saúde mental, contribuindo para diminuir ou prevenir tais agravos, além de dar visibilidade aos fatores que, no trabalho doméstico, podem contribuir para o adoecimento psíquico das mulheres.

 

Materiais e métodos

Um estudo epidemiológico de corte transversal foi conduzido na zona urbana do município de Feira de Santana, Bahia, Brasil, incluindo uma amostra representativa da população feminina, com 15 anos ou mais de idade, selecionada através de amostragem aleatória por conglomerado, estratificada por subdistrito.

Feira de Santana está subdividida em cinco subdistritos; e cada subdistrito encontra-se dividido em setores censitários que incluem agrupamentos de ruas. Inicialmente foi realizado um levantamento dos dados populacionais de cada subdistrito e a delimitação geográfica de cada área13. Em seguida, por procedimento aleatório, foi feita a seleção dos setores censitários em cada subdistrito. Em cada setor censitário selecionaram-se as ruas. Todos os domicílios das ruas sorteadas foram visitados e todas as mulheres com 15 anos ou mais de idade foram consideradas elegíveis para o estudo.

Para cálculo do tamanho da amostra assumiu-se a prevalência estimada de transtornos mentais de 24% na literatura14, erro amostral de 3%, com 95% de confiança. A partir destes parâmetros chegou-se a uma amostra de 774 mulheres. Para correção do efeito do desenho de estudo (amostragem por conglomerado), dobrou-se o tamanho da amostra (N = 1.548). Admitindo-se recusas e perdas em torno de 20%, definiu-se n amostral de 1.857 mulheres. No entanto, para verificar se o estudo tinha poder para avaliar a associação entre sobrecarga doméstica e transtorno mental comum entre as mulheres, já que a amostra inicial não foi desenhada para esse fim, foi recalculado o n amostral. Para este cálculo assumiram-se os seguintes parâmetros: frequência esperada de TMC no grupo não exposto de 35,2%, frequência de TMC entre expostos de 45,6%, intervalo de confiança de 95% e poder de 90%, chegando-se a um n amostral de 1.086 mulheres.

Para o estudo da sobrecarga doméstica e saúde mental, foram avaliadas todas as 2.057 mulheres residentes nos 1.479 domicílios selecionados para o estudo dos cinco subdistritos da zona urbana de Feira de Santana. A taxa de resposta obtida foi de 72%.

Na coleta de dados foram utilizados dois instrumentos: ficha domiciliar (incluindo informações gerais sobre o domicílio) e questionário individual (contendo informações sociodemográficas, condições de vida, trabalho doméstico, trabalho profissional e saúde mental).

A sobrecarga doméstica (variável independente) foi avaliada a partir do somatório das tarefas domésticas básicas (lavar, passar, limpar, cozinhar), ponderado pelo número de moradores, exceto a própria entrevistada, através da fórmula: SD = (S lavar + passar + limpar + cozinhar) x (M-1)15.

A variável sobrecarga doméstica foi analisada, inicialmente, em tercis: alta, média e baixa sobrecarga. Em seguida, foi dicotomizada em alta sobrecarga doméstica e baixa sobrecarga doméstica (incluiu mulheres que não realizavam atividades domésticas ou as que as realizavam moderadamente).

Os Transtornos Mentais Comuns (TMC) (variável dependente) foram avaliados utilizando-se o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20). O SRQ-20 é um instrumento recomendado pela OMS16) para uso em países em desenvolvimento e tem se mostrado eficaz no rastreamento e detecção de transtornos mentais comuns.

Um estudo de validação do SRQ-20 foi conduzido na população deste estudo, encontrando-se o ponto de corte de melhor desempenho para as mulheres em 7 ou mais respostas positivas, que apresentou sensibilidade de 68,0% e especificidade de 70,7%. A área sob a curva ROC apresentou um valor de 0,789 com um desvio padrão de 0,48 e intervalo de 95% de confiança, variando de 0,696 a 0,882, apontando assim um nível razoável de discriminação entre casos e não casos.

As covariáveis analisadas foram: características sociodemográficas (bairro, idade, escolaridade, migração, cor da pele/raça, situação conjugal), trabalho profissional (ocupação e realização de dupla jornada de trabalho) e condições de vida (renda, chefia de família, atividades de lazer, condições de moradia, infraestrutura e posse de bens duráveis).

A variável condição de moradia foi avaliada através do indicador que incluiu quantidade de cômodos da casa, quantidade de cômodos usados como dormitório e número de pessoas por domicílio. A infraestrutura foi estudada considerando-se acesso a água encanada e luz elétrica e posse de bens duráveis segundo o indicador construído a partir do somatório da posse de som, rádio, TV, geladeira e máquina de lavar. Esses indicadores foram agrupados segundo tercis nas categorias: boa, média e precária.

O banco de dados foi construído utilizando-se o programa estatístico "Social Package for the Social Sciences - SPSS", na versão 10.0. Na análise dos dados também foram utilizados o Epi Info, versão 6.0, e o "R" The R Foundation for Statistical Computing versão 2.2.1.

Na análise foi feita, inicialmente, a caracterização da população estudada. Em seguida, realizou-se análise estratificada para identificar possíveis modificadores de efeito e confundidores. Quando confirmada a existência de confundimento, as medidas de efeito foram ajustadas pelo método de Mantel-Haenszel.

Em seguida, realizou-se análise de regressão logística múltipla (ARLM) para avaliação simultânea das variáveis estudadas, pois este método é apropriado para encontrar o modelo mais adequado, parcimonioso e biologicamente razoável para descrever as relações entre uma variável dependente e um conjunto de variáveis independentes17.

A ARLM foi conduzida segundo os procedimentos recomendados na literatura18, e incluiu as seguintes etapas:

  • Seleção das variáveis a partir dos objetivos do estudo e revisão de literatura;
  • Verificação de pressupostos do modelo;
  • Pré-seleção das variáveis para inclusão na análise através do teste de razão de verossimilhança, adotando valor de p £ 0,25;
  • Análise de modificação de efeito, com introdução dos termos produtos, usando-se o teste de máxima verossimilhança para comparar o modelo completo;
  • Análise de confundimento das variáveis (exceto aquelas confirmadas como modificadoras de efeito no modelo principal), comparando-se as medidas de associação e respectivos intervalos de confiança do modelo completo resultante da retirada de cada potencial confundidor;
  • A ARLM propriamente dita, utilizando procedimento backward, adotando o critério de significância de p < 0,10 para permanência no modelo final.

Considerando que a prevalência de TMC na população investigada foi elevada, distanciando-se dos parâmetros estimados para OR (odds ratio), procedeu-se ao cálculo das estimativas de RP (razões de prevalência) e de seus respectivos intervalos de confiança de 95%, utilizando-se os procedimentos do método Delta.

A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital São Rafael - Salvador, tendo sido aprovada (Projeto de Pesquisa de nº 17/01).

 

Resultados

Entre as mulheres estudadas (N = 2.057), predominaram as mais jovens, de 15 a 30 anos de idade (44,0%), as casadas ou em união estável (46,7%), baixo nível de escolaridade (13,0% eram analfabetas e 44,2% tinham apenas o ensino fundamental) e baixa renda (18,6% ganhavam até ½ salário mínimo e 39,2% ganhavam até um salário mínimo). Segundo a ocupação, 28,9% eram donas-de-casa, 11,6% estavam desempregadas e cerca de 30% referiram trabalhar. Destas, 67,6% tinham vínculo de trabalho informal (portanto, sem qualquer tipo de seguridade social ou direito trabalhista). Aproximadamente 90,0% realizavam trabalho doméstico todos os dias; um percentual expressivo das mulheres não mantinha atividade regular de lazer (45,1%).

Avaliação da sobrecarga doméstica entre as mulheres

Alta sobrecarga doméstica foi observada para 34,3% das mulheres (Tabela1).

A sobrecarga doméstica alta foi expressivamente maior entre as mulheres que estavam na faixa etária de 21-30 anos e 31-40 anos de idade (43,4% e 41,4%, respectivamente), com nível de escolaridade fundamental (41,2%), entre as casadas ou em união estável (41,6%) e entre aquelas de cor preta (39,5%). Entre as mulheres com filhos, 39,8% apresentaram sobrecarga doméstica alta contra 22,4% para aquelas que não tinham filhos. Esse percentual aumentava com a elevação do número de filhos: 35,0% para mulheres com até dois filhos e 45,8% com três ou quatro filhos (Tabela 1).

A sobrecarga doméstica aumentou com a precarização das condições de moradia: entre as mulheres que referiram ter boa condição de moradia, 56,0% apresentaram baixa sobrecarga doméstica e entre as que tinham precárias condições, 17,1% apresentaram baixa sobrecarga doméstica contra 51,5% das mulheres com alta sobrecarga de trabalho. Entre as mulheres residentes em domicílios com infraestrutura média/precária, 43,8% referiram ter alta sobrecarga doméstica contra 32,9% entre aquelas com boa infraestrutura.

Também se observou relação linear entre rendimento próprio no último mês e a sobrecarga doméstica: quanto menor a renda, maior a sobrecarga doméstica. Para aquelas que recebiam até ½ salário mínimo, 48,4% tinham alta sobrecarga, esse percentual caiu para 21,2% quando as mulheres recebiam mais de um salário mínimo por mês.

A realização de atividade de lazer foi inversamente proporcional à sobrecarga doméstica: entre as mulheres que mantinham regularmente atividades de lazer, 36,6% tinham baixa sobrecarga, contra 28,5% entre aquelas que não realizavam qualquer atividade. A situação se inverteu quando se considerou as mulheres sem atividades regulares de lazer: 29,2% entre aquelas com baixa sobrecarga e 41,2% entre as mulheres com alta sobrecarga, revelando comprometimento das atividades de lazer na medida em que se eleva as responsabilidades com os afazeres domésticos.

Como esperado, o fato de ter empregada doméstica diminuiu a sobrecarga doméstica: entre as mulheres que tinham o auxílio, apenas 19,1% tinham alta sobrecarga doméstica; já entre aquelas que não tinham empregada doméstica, esse percentual elevou-se para 37,1% (Tabela 2). Observou-se coerência entre alta sobrecarga doméstica e o fato de receber ou não apoio para desenvolver as atividades e os dias que disponibiliza para desenvolvê-las: 45,5% das mulheres que não recebiam qualquer apoio referiram alta sobrecarga contra 32,7% entre aquelas que recebiam algum tipo de apoio; entre as mulheres que realizavam atividades domésticas todos os dias esse percentual chegou a 39,0% contra 13,7% entre aquelas que só realizavam essas atividades nos finais de semana.

O fato de a mulher ter um trabalho remunerado, fora de casa, alterou o percentual de alta sobrecarga doméstica quando comparado com mulheres que não tinham um trabalho remunerado, 30,4% e 36,0%.

Quando avaliamos a sobrecarga doméstica segundo a ocupação, confirmou-se o dado anteriormente observado, pois entre as donas-de-casa, 49,1% apresentaram alta sobrecarga doméstica, contra 39,9% para as desempregadas e 30,4% para as trabalhadoras.

Associação entre Sobrecarga Doméstica e Transtornos Mentais Comuns

Observou-se associação positiva linear estatisticamente significante entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns (c2 = 15,909; p < 0,0001): quando aumentava a sobrecarga doméstica, aumentava a prevalência de TMC.

As características sociodemográficas analisadas (idade, escolaridade, migração, cor da pele, situação conjugal e ter filhos) não revelaram interação estatística com a associação principal aqui avaliada (SD e TMC). No entanto, algumas características das condições de vida, do trabalho doméstico e do trabalho profissional apresentaram interação estatística.

Dentre as variáveis analisadas referente às condições de vida, apenas posse de bens duráveis foi modificador de efeito da associação principal investigada (Tabela 3).

 

 

Algumas características do trabalho doméstico acentuaram o efeito da sobrecarga doméstica sobre os transtornos mentais: não receber ajuda na realização das tarefas domésticas e realizar essas atividades de segunda a sexta ou todos os dias, sendo modificadores de efeito da associação principal (Tabela 4).

 

 

No que se refere ao trabalho profissional, a ocupação no momento da pesquisa foi uma variável modificadora da associação entre sobrecarga doméstica e TMC.

Em síntese, os fatores que revelaram interação estatística, na análise estratificada, foram: precária posse de bens duráveis, ausência de ajuda na realização do trabalho doméstico, realização de atividades domésticas de 5 a 7 dias por semana e tipo de ocupação.

Desta forma, após se afastar a possibilidade de interação, as demais variáveis foram analisadas para presença de confundimento na associação principal. Foram confirmados como potenciais confundidores: escolaridade, lazer, renda, serviço doméstico remunerado e presença de filhos (Tabela 5).

O ajuste por escolaridade, lazer, renda, serviço doméstico remunerado e ter filhos, co-variáveis identificadas como confundidoras, não modificou a direção da associação sob estudo: a associação entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns manteve-se positiva em níveis estatisticamente significantes (Tabela 5).

 

 

A análise de regressão logística permitiu avaliar simultaneamente os modificadores de efeito sobre a associação entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns entre as mulheres. No entanto, a modelagem não confirmou a presença de interação estatística: os termos-produtos avaliados não permaneceram no modelo final obtido.

Para análise de confundimento, com a retirada de cada covariável selecionada, avaliou-se o efeito na associação principal investigada. Assim, as variáveis escolaridade, renda mensal e lazer foram potenciais confundidores para a associação entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns entre as mulheres. A associação principal investigada se manteve em níveis estatisticamente significantes, mesmo após ajustamento por todas as covariáveis confundidoras (Tabela 5).

Posteriormente procedeu-se ao cálculo das razões de prevalência (RP) das variáveis do modelo. No final, a análise revelou que as mulheres expostas a alta sobrecarga doméstica apresentaram maior prevalência de transtornos mentais comuns (1,23 vezes) do que as mulheres em situações de baixa a média sobrecarga doméstica (Tabela 6).

 

 

A medida de associação e o nível de significância estatística, obtidos depois do ajuste simultâneo por todas as co-variáveis confundidoras, na análise de regressão logística, não alteraram substancialmente os achados da associação principal quando comparados à análise sem ajuste.

Obtido o modelo final, analisou-se a sua adequação aos dados. A bondade do ajuste do modelo foi analisada através do teste de Hosmer e Lemeshow, Curva ROC e análise dos padrões das covariáveis.

A hipótese de que o modelo não se adequava aos dados foi rejeitada (o teste de Hosmer e Lemeshow revelou p = 0,497). A Curva ROC revelou uma área = 0,697.

Desta forma, o modelo obtido revelou estar bem ajustado aos dados. Em seguida foi feita análise do padrão das covariáveis, avaliando-se se as observações extremas encontradas eram influentes. A comparação dos modelos com e sem as observações demonstrou pouca influência, não havendo mudança significante nos coeficientes obtidos. Portanto, o modelo se revelou adequadamente adaptado aos dados.

 

Discussão

A presente investigação revelou elevada prevalência global de TMC entre as mulheres (proporção aproximada de 4 mulheres acometidas para cada 10 mulheres estudadas), o que revela um grave problema de saúde na população estudada, principalmente quando comparada à estimativa da Organização Mundial de Saúde (2000), que refere uma prevalência média de 24% na população. Outros estudos brasileiros também encontraram altas prevalências de transtornos mentais entre as mulheres, variando de 24,9% a 45,0%4,10,19-22. Da mesma forma, internacionalmente, as prevalências variaram de 27,0% em Santiago (Chile) a 18,0% na Grã Bretanha23. Tais dados sinalizam que as mulheres necessitam de atenção especial no que se refere à promoção e proteção de sua saúde mental, fomentando a discussão em torno da inclusão nas políticas públicas e sociais das questões relativas ao gênero.

Após a modelagem estatística, baixa escolaridade, baixa renda e ausência de atividades regulares de lazer se configuraram como potenciais confundidores na associação entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns. Vale destacar que o cuidado com as crianças, empiricamente considerado como um agravante para sobrecarga doméstica, nesta investigação não revelou diferenças significantes.

Para explicar esses achados, uma questão emerge como fundamental: a pobreza e as questões à ela associadas. Existe uma relação complexa e multidimensional entre pobreza e saúde mental. A literatura14 discute essa relação e retrata que a pobreza, juntamente com fatores associados, tais como falta de serviços de saúde, baixa instrução, desemprego e desigualdades sociais, podem criar barreiras insuperáveis para atenção à saúde, visto que o desnível de tratamento para a maioria dos transtornos mentais, que já é alto, mostra-se efetivamente enorme para a população mais carente. Os recursos para a atenção à saúde mental muitas vezes não estão disponíveis para os setores mais pobres da sociedade, e poucos profissionais são capacitados e preparados para receber, reconhecer e tratar estes transtornos.

Os achados desta investigação revelaram que as mulheres com alta sobrecarga doméstica e que recebiam até um salário mínimo apresentaram maior prevalência de TMC quando comparadas àquelas que recebiam mais de um salário mínimo. Indivíduos de baixa renda acabam por ter mais preocupações com os problemas financeiros do que os que têm maior renda per capta, levando ao desenvolvimento da ansiedade e da depressão. A falta de dinheiro pode levar ao estresse e à insegurança; a posse de bens duráveis como geladeira, telefone, máquina de lavar e televisão ilustram as diferenças de condições de vida proporcionadas pela renda mensal22.

Na literatura24, o salário contém inúmeros significados para o indivíduo: sustento da família, pagamento de dívidas, além de ser fonte de realização de projetos, sonhos e fantasias. Diversos estudos sobre saúde mental reforçam a teoria de que as condições de vida das classes menos favorecidas seriam determinantes do aparecimento dos transtornos mentais; dessa forma, a relação inversa entre transtorno mental e classe econômica tem sido um dos resultados mais consistentes dos estudos epidemiológicos populacionais.

A baixa escolaridade, pelo fato de estar associada às condições socioeconômicas, também é um importante fator de exposição para associação em análise. O acesso à escola tem um efeito direto na saúde psicológica, pois aumenta a possibilidade de escolhas na vida e influencia a autoestima, a possibilidade de aumento da renda familiar, com consequente melhoria na qualidade de vida pessoal e familiar6. A principal consequência social desta situação tem sido a falta de oportunidade para as pessoas nessas situações, assim como a difícil inclusão para a melhoria da sua situação tanto educacional como social.

Os transtornos mentais comuns estavam associados à ausência de atividades de lazer. As repercussões negativas à saúde, decorrentes da limitação do tempo para as atividades de lazer e descanso direcionadas à realização de atividades prazerosas com promoção à saúde física e mental, vêm sendo pouco descritas na literatura.

O lazer colabora para o desaparecimento do estresse, da angústia, da depressão; contudo, o lazer não pode ser isolado, deve se situar no contexto social envolvendo prazer, desejo, liberdade e criatividade, como uma atividade que só tem sentido e razão no tempo disponível, diferente das obrigações profissionais, religiosas, domésticas e sociais25.

Em síntese, os achados deste estudo evidenciam associação positiva entre alta sobrecarga doméstica e os transtornos mentais.

O trabalho doméstico é uma atividade fundamental à existência humana; assim, evidencia-se a necessidade de revisá-lo enquanto uma prática social, enquanto uma forma de trabalho essencial ao processo de reprodução/produção, buscando-se formas mais saudáveis e mais igualitárias para sua realização. Isto equivale incluir, na análise do trabalho feminino, a relação entre as esferas da produção e da reprodução, já que para as mulheres, como se observou aqui, a experiência de vida implica no convívio dessas duas esferas, seja pela via do entrosamento, seja pela via do conflito/superposição de papéis8.

Para isso, considera-se como passo primordial torná-lo visível, desvinculado-o de sua naturalização e invisibilidade social.

Nesta direção, fica evidente também a importância de se investir em políticas públicas e sociais voltadas para a criação de uma rede de apoio à população no que concerne ao trabalho doméstico e sua repercussão sobre a saúde mental, pois os achados aqui obtidos apontam para a necessidade de se discutir as relações e os papéis de gênero, enfatizando a importância de mudanças culturais que modifiquem a própria divisão sexual do trabalho doméstico, redefinindo o conceito do trabalho feminino, de trabalho produtivo e de inatividade econômica.

A presente investigação tentou contribuir para a reflexão de um novo olhar sobre a saúde e o trabalho, profissional e doméstico, envolvido no cotidiano das mulheres, no intuito de que esta realidade possa ser debatida, repensada e reconstruída.

 

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Correspondência:
Tânia Maria de Araújo
Universidade Estadual de Feira de Santana
Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva
Núcleo de Epidemiologia, Km 03 - Br 116 - Campus Universitário
CEP 44031-460 Feira de Santana, Bahia, Brasil
E-mail: paloma@ufrb.br

Recebido em: 28/07/10
Versão final apresentada em: 15/03/11
Aprovado em: 04/05/11
Financiamento: FAPESB - ET 71/ 2004 / Processo n. 1431040053314