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Revista Brasileira de Epidemiologia

versão impressa ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.15 no.3 São Paulo Set. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2012000300013 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Características das mulheres com câncer de mama assistidas em serviços de referência do Norte de Minas Gerais

 

 

Priscila Bernardina M. SoaresI; Sidinei Quirino FilhoII; William Pereira de SouzaII; Renata Cristina R. GonçalvesIII; Daniella Reis B. MartelliIV; Marise Fagundes SilveiraIV; Hercílio Martelli JúniorIV

IDepartamento de Oncologia da Santa Casa de Misericórdia de Montes Claros, MG
IIIniciação Científica do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes, MG
IIIDepartamento de Oncologia da Santa Casa de Misericórdia de Montes Claros, MG.
IVCentro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes, MG

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Descrever as principais características de pacientes com câncer de mama admitidas em dois serviços de referência para o tratamento desse tipo de câncer no norte de Minas Gerais, incluindo estágio da doença ao diagnóstico e local de tratamento.
MÉTODOS: Realizou-se estudo transversal e descritivo, avaliando 288 prontuários de pacientes do gênero feminino com câncer de mama, admitidas entre janeiro de 2006 a dezembro de 2009, oriundas de um serviço público e de um privado. As variáveis analisadas foram submetidas a tratamento estatístico por meio dos testes qui-quadrado e regressão logística multinomial.
RESULTADOS: Observou-se que 68,1% da população analisada procediam do serviço público. Predominaram pacientes com mais de 50 anos (54,5%), casadas (59%) e com filhos (87,8%). Dentre a população estudada, a média de idade foi de 63 anos, sendo que em 42,7% dos casos prevaleceu o intervalo de tempo acima de 6 meses entre a suspeita clínica e a confirmação diagnóstica. Em 47,6% das mulheres o diagnóstico foi tardio (estágios III e IV). 20,1% tinham histórico familiar de câncer de mama; 20,8% faziam autoexame das mamas e 41% faziam mamografia.
CONCLUSÃO: Verificou-se maior prevalência de pacientes nos estágios III e IV no serviço público quando comparado ao privado. O tempo prolongado entre a suspeita clínica e a confirmação diagnóstica, a ausência de história familiar de câncer de mama e a não realização de mamografia de rastreamento são observados, neste estudo, como os principais fatores associados ao diagnóstico tardio.

Palavras-Chave: Câncer de mama. Epidemiologia. Diagnóstico tardio. Serviços de saúde. Fatores de risco.


 

Introdução

O câncer é um relevante problema mundial de saúde pública, sendo responsável por 7 milhões de óbitos anualmente1. Os tumores que apresentam as mais elevadas taxas de mortalidade são: pulmão, estômago, cólon e mama. Estima-se que, em 2020, o número de novos casos anuais de câncer será de 15 milhões, sendo que 60% desses ocorrerão em países em desenvolvimento1.

O câncer de mama constitui a neoplasia maligna mais frequente no gênero feminino, representando 23% de todos os casos mundiais2. Anualmente, verifica-se que mais de um milhão de mulheres são diagnosticadas em todo o mundo e acima de 410.000 morrerão dessa doença3. Essa neoplasia é mais frequente em países desenvolvidos, sendo que as maiores incidências são observadas no Reino Unido, Austrália, Estados Unidos da América (EUA) e Canadá1. Embora a mortalidade de pacientes com câncer de mama ainda apresente tendência ascendente em diversos países há vários anos, países desenvolvidos como EUA, Reino Unido e Austrália já registram queda da mortalidade4, sendo essa diminuição atribuída ao uso ampliado de mamografia e ao tratamento precoce da doença5. Em geral, a sobrevida média de pacientes com câncer de mama é superior, em cinco anos, em países desenvolvidos como EUA, Canadá, Japão e alguns países da Europa ocidental, e menor em países em desenvolvimento como Argélia, Brasil e na Europa Oriental6,7. Tais diferenças de sobrevida podem ser explicadas pelos estágios mais avançados de diagnóstico nos países em desenvolvimento8.

Em relação ao Brasil, projetaram-se, em 2010, 49.240 novos casos de câncer de mama, com um risco estimado de 49 casos a cada 100 mil mulheres. Na região Sudeste, o câncer de mama é o mais comum entre as mulheres, com um risco estimado de 65 novos casos por 100 mil mulheres9. Particularmente em Minas Gerais, no período de 1998 a 2007, ocorreram aproximadamente 85 mil novos casos de câncer, sendo que 14.363 foram de mama, cerca de 17% do total10. Também é a maior causa de óbitos por câncer na população feminina brasileira, sendo provável que o diagnóstico da doença em fase avançada seja o principal responsável pela manutenção elevada das taxas de mortalidade9.

Estudos têm sugerido que fatores como a falta de acesso aos serviços de saúde, os atrasos na investigação de lesões mamárias suspeitas e na efetivação do tratamento da doença têm contribuído para o diagnóstico tardio e, consequentemente, para a elevada mortalidade por câncer de mama11-17. Assim, este estudo teve como objetivo descrever as principais características de pacientes com câncer de mama admitidas em dois serviços de referência oncológica, um público e um privado.

 

Métodos

Realizou-se um estudo transversal e descritivo. Foram avaliados 288 prontuários clínicos de pacientes admitidas, entre janeiro de 2006 a dezembro de 2009, em dois centros de referência em oncologia, um público e um privado, ambos no município de Montes Claros, norte de Minas Gerais, Brasil. Os serviços citados utilizam o mesmo prontuário clínico e o mesmo protocolo terapêutico. Todas as pacientes com diagnóstico histopatológico de carcinoma de mama, independente das variáveis clínicas, foram incluídas neste estudo, tendo sido excluídos os casos com diagnóstico de outros tipos histológicos de neoplasia maligna de mama que não os carcinomas, bem como os de câncer de mama no gênero masculino.

Foram coletadas informações gerais e clínicas das pacientes. As características gerais foram: idade (categorizada em três faixas etárias), procedência (Montes Claros e outros municípios), estado civil (solteira, casada, viúva, divorciada/separada), atividade profissional (empregada/autônoma, do lar/aposentada), religião (católica, evangélica e outras), número de filhos, hábito de fumar (sim ou não) e de beber (sim ou não) e local da coleta (serviço público ou privado). Quanto às características clínicas, foram investigadas as seguintes variáveis: estadiamento clínico do tumor (estágio I, estágio II, estágio III/IV), tempo entre a suspeita clínica e a confirmação diagnóstica (0 a 5 meses e mais de 5 meses), status menopausal (pós-menopausa e pré-menopausa), presença de metástases ao diagnóstico (sim ou não), realização de mamografia (sim ou não), autoexame das mamas (sim ou não), tratamento cirúrgico (cirurgia conservadora ou mastectomia), história familiar de câncer de mama (sim ou não), realização de quimioterapia (sim ou não), realização de radioterapia (sim ou não), realização de hormonioterapia (sim ou não), e o perfil imunohistoquímico das lesões (RE, RP, Her2 e triplo-negativo).

Foi realizada análise descritiva das características gerais e clínicas por intermédio das distribuições de frequências. Para comparar a frequência de estadiamento clínico da doença entre os dois serviços, utilizou-se o teste qui-quadrado.

Para avaliar a associação entre o "estadiamento clínico" e as demais características das pacientes, também foram realizadas análises bivariadas e múltipla e estimadas as razões de prevalências brutas e ajustadas. Para isso, os estágios III e IV foram agrupados, ficando a variável desfecho categorizada em três níveis (estágio I, estágio II e estágio III/IV), sendo, portanto, adotado o modelo logístico multinomial, cuja categoria de referência foi o Estágio I. O nível de significância adotado foi de p < 0,05. A construção do banco de dados foi realizada utilizando-se o programa estatístico SPSSTM 17.0 (Statistical Package for Social Science for Windows, Inc., USA).

O estudo foi conduzido com a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros (Processo N.º 1497/09), Minas Gerais, Brasil, e contou com o con-sentimento dos dois serviços participantes do estudo.

 

Resultados

Foram incluídas no estudo 288 mulheres com carcinomas de mama, admitidas, entre os anos de 2006 a 2009, em ambos os serviços de referência oncológica (público e privado). A Tabela 1 apresenta as características gerais da população analisada, enquanto as características clínicas estão mostradas na Tabela 2. A maioria dos casos (68,1%) foi procedente do serviço público de saúde; predominaram mulheres com mais de 50 anos (54,5%), casadas (59%), com filhos (87,8%) e pós-menopáusicas (53,5%). Observou-se que 42,7% tiveram o intervalo de tempo acima de 6 meses entre a suspeita e a confirmação diagnóstica; em 47,6% das mulheres o diagnóstico foi tardio (estágios III e IV), registrando-se percentuais mais elevados desse achado no serviço público do que no privado; 20,8% realizavam autoexame das mamas; 41% faziam mamografia e 40,6% foram mastectomizadas. Quanto ao perfil imunohistoquímico das lesões, observou-se que 69,4% foram RE positivo, 26% tiveram superexpressão do Her-2 e 18,4% foram triplo negativo.

 

 

 

 

Em relação ao estadiamento, comparou-se o serviço público com o privado e percebeu-se maior frequência de pacientes nos estágios clínicos III e IV no serviço público (53,6% versus 34,8%). Por outro lado, quando se analisou o diagnóstico inicial (estágio in situ/I) houve maior frequência deste no serviço privado do que no público (43,5% versus 14,8%), como é visualizado no Gráfico 1. Na Tabela 3, por intermédio da regressão logística multinomial, quando se comparou os estágios II, III e IV com o estágio inicial (in situ/I), observou-se ausência de associação da idade, status menopausal, profissão, painel imunohistoquímico e realização de autoexame das mamas com o estadiamento. De forma distinta, a não realização de mamografia (RPajustada = 5,10), a ausência de história familiar para câncer de mama (RPajustada = 2,23 e 2,43) e o tempo entre a suspeita e a confirmação diagnóstica 6 meses (RPajustada = 2,97 e 3,04) mostraram-se associados ao estadiamento clínico mais avançado da doença.

 

 

Discussão

Diferente de diversos países desenvolvidos, o Brasil tem registrado nos últimos anos aumento da taxa de mortalidade por câncer de mama, justificado, sobretudo, pelo diagnóstico tardio e pelo atraso na implantação do tratamento adequado, uma vez que essa neoplasia é considerada curável se diagnosticada e tratada precocemente5-9. O presente estudo possibilitou conhecer o perfil de mulheres com câncer de mama admitidas em centros de referência, público e privado, localizados no município de Montes Claros, norte de Minas Gerais, para receber tratamento oncológico. A média de idade registrada destas mulheres foi de 63 anos. A mais jovem tinha 27, enquanto a mais idosa estava com 100 anos, sendo que a maior parte (54,5%) tinha mais de 50 anos e 53,5% eram pós-menopáusicas. Embora a idade seja um reconhecido fator de risco para o desenvolvimento do câncer de mama, de acordo com os resultados obtidos essa variável não mostrou associação entre o estadiamento clínico da doença e o diagnóstico. Outros estudos, porém, sugerem que o câncer de mama em mulheres mais jovens tem uma fisiopatologia mais agressiva, corroborando para estágios mais avançados de diagnóstico e, quando comparados aos tumores de mama em mulheres mais idosas, o prognóstico é pior18-23.

Houve um predomínio de mulheres casadas (59%) e com filhos (87,8%), sendo que o estado civil e o número de filhos também não interferiram no estadiamento, embora a nuliparidade seja um dos fatores de risco associado ao câncer de mama24,25. De forma semelhante, em um estudo de sobrevida envolvendo 1.022 mulheres com neoplasia de mama, a situação conjugal não foi considerada um fator importante26, o que confirma os resultados da revisão sistemática da literatura realizada por Ramirez et al.13. De maneira controversa, outro estudo envolvendo 540 pacientes norte-americanas revelou que o fato de nunca terem sido casadas aumentou em quase três vezes o risco de apresentarem doença em estágio avançado27.

A história familiar para câncer de mama, relatada por 20,1% das mulheres no presente estudo, mostrou associação com o grau de estadiamento ao diagnóstico, ratificando os achados de Hoskins et al.28, que afirmam que até 20% das mulheres com câncer de mama têm uma história familiar positiva. De acordo com estudos transversais realizados nos Estados Unidos com população de mulheres adultas, 5% a 10% apresentaram história familiar de primeiro grau de câncer de mama, sugerindo que essas mulheres herdaram uma mutação genética que as coloca em risco aumentado para o desenvolvimento de câncer de mama e de ovário28. Uma revisão sistemática de 14 estudos selecionados sobre fatores de risco para o câncer de mama em mulheres brasileiras concluiu que pouco se sabe sobre a prevalência da história familiar para câncer de mama na população brasileira, tendo encontrado taxas de prevalência variando entre 3,7% a 13,10%29. Outra revisão sobre história familiar para câncer de mama30 identificou 74 estudos publicados, nos quais os autores revelaram uma estimativa do risco relativo (RR) associado com história familiar de 2,0 (IC = 1,8-2,1) para mãe, 2,3 (IC = 2,1-2,4) para irmã e 3,6 (IC = 2,5-5) para mãe e irmã. Os riscos foram aumentados quando o parente de primeiro grau havia sido diagnosticado antes dos 50 anos31.

Em relação à imunohistoquímica, o presente estudo registrou, de acordo com os prontuários analisados, 26% de superexpressão da proteína HER-2, enquanto outros estudos32,33 confirmam a superprodução dessa proteína entre 25 a 30% dos tumores de mama, estando essa proteína associada ao pior prognóstico, assim como ao alto grau histológico, à diminuição do tempo livre de doença e à sobrevida global. O receptor de estrogênio (RE) é expressado em aproximadamente 65% dos casos diagnosticados antes da menopausa e em quase 80% daqueles diagnosticados após a menopausa, e geralmente está associado a prognósticos mais favoráveis34. Da mesma forma, 69,4% de todas as pacientes investigadas neste estudo eram RE positivos. Ainda em relação à imunohistoquimica, Rakha et al.35 identificaram os tumores triplo-negativos, definidos pela ausência de expressão de receptores hormonais e pela não positividade do HER-2. Acredita-se que o câncer de mama triplo-negativo corresponda a cerca de 15% dos casos, sendo mais frequente em mulheres negras, com mutações de BRCA1, e em mulheres mais jovens36. Dentre as mulheres analisadas neste estudo, 18,4% eram triplo-negativas. Contudo, embora os receptores hormonais e a expressão da proteína HER-2 estejam relacionados ao prognóstico33,34, essas variáveis, no presente estudo, não se associaram ao grau de estadiamento ao diagnóstico.

Ao fazer uma análise bivariada dos dados deste estudo verificou-se maior percentual de mulheres com estágios III e IV, sendo este estatisticamente mais expressivo no serviço público do que no privado (53,6% versus 34,8%). Ao contrário, enquanto 43,5% das mulheres admitidas no setor privado foram estadiadas como I, este grupo representava 14,8% no público, confirmando os resultados de Rezende et al.16, que identificaram 51% das mulheres diagnosticadas entre os estágios II e IV. Gonçalves et al.37 destacaram o estágio III como forma de apresentação em um terço das brasileiras admitidas em serviços de oncologia com câncer de mama. Da mesma forma, outro estudo38 analisou 43.442 casos de câncer de mama, no período compreendido entre 1995 e 2002, revelando que 87,7% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama encontravam-se entre os estágios II e IV (estágio II = 42,8%, estágio III = 32,6% e estágio IV = 12,3%). Enquanto nos países mais desenvolvidos as taxas de mortalidade padronizadas para o câncer de mama apresentaram redução, no Brasil observou-se incremento das taxas de óbito por câncer de mama naquele período (de 8,57 para 11,18/100.000 mulheres). A mediana do percentual de pacientes no Brasil entre os estágios II e IV foi de 45,3%, enquanto nos Estados Unidos a mediana foi de 12,1%38.

Quanto ao método de rastreamento, o autoexame das mamas, embora não seja uma técnica apropriada para o diagnóstico precoce do câncer de mama, vem sendo considerado como um método auxiliar39. Vários estudos40-42 afirmam que até o presente momento não há evidências científicas de que a sua prática promova a redução da mortalidade por esse tipo de câncer. Neste estudo, a não realização do autoexame das mamas não esteve associada ao estadiamento mais avançado ao diagnóstico. Já a realização da mamografia como método mais eficaz no rastreamento do câncer de mama tem um impacto favorável na taxa de mortalidade43, podendo reduzi-la em até 30% na faixa etária entre 40 e 69 anos44. Os cânceres identificados em mulheres assintomáticas são propensos a tamanhos menores e a estarem em estágios iniciais45. Embora não haja consenso sobre as orientações para o rastreamento do câncer de mama nos grupos etários com menos de 50 e mais de 70 anos46,47, no Brasil, desde abril de 2009, o Sistema Único de Saúde passou a assegurar a realização de mamografia a todas as mulheres a partir dos 40 anos de idade9. De maneira semelhante, este estudo apontou que a realização da mamografia é mais frequente no serviço privado do que no público, assim como a não realização desse método mostrou-se associada ao estadiamento mais avançado. Marchi et al.48 realizaram um estudo seccional entrevistando 643 mulheres submetidas à mamografia e verificaram que 472 foram atendidas em serviços de saúde públicos e 171 em serviço privado. Avaliaram, dentre outras características, a utilização da mamografia entre usuárias do serviço público e privado, concluindo que a forma de acesso aos serviços de saúde influenciou na proporção de mulheres previamente rastreadas pela mamografia, que foi superior na rede privada48.

O presente estudo mostrou forte associação entre o intervalo de tempo entre a suspeita e a confirmação diagnóstica com o estadiamento ao diagnóstico do câncer (RPajustada = 2,97 e 3,04). Esse intervalo foi maior que 6 meses em quase metade das mulheres (42,7%), apontando, no período estudado, para a morosidade do sistema de saúde do município. Tais resultados confirmam as conclusões de Rezende et al.16 , que conduziram um estudo objetivando identificar as causas de atraso no atendimento de mulheres com diagnóstico de câncer de mama em uma unidade hospitalar de nível terciário do município do Rio de Janeiro, entre janeiro e julho de 2004, identificando o tempo mediano de um mês entre o primeiro sinal ou sintoma da doença e a primeira consulta, e desta última até a confirmação diagnóstica de 6,5 meses16. De maneira semelhante, Trufelli et al.17, ao estudarem um serviço de oncologia de um hospital público de São Paulo, destacaram que o atraso na condução dos casos de câncer de mama foi, em grande parte, relacionada ao tempo que a paciente demorou para procurar os serviços de saúde para realizar a mamografia e proceder à biópsia de lesões suspeitas.

Verifica-se, pelos estudos epidemiológicos, que o Brasil ainda possui importantes indicadores de câncer de mama avançado ao diagnóstico, fato este ratificado no presente estudo (47,6%). A não realização de mamografia, a ausência de história familiar de câncer de mama e o intervalo temporal prolongado entre a suspeita clínica e a confirmação diagnóstica, são destacados neste estudo como importantes fatores associados ao diagnóstico tardio. Observa-se a necessidade da realização de planos e ações para reduzir o atraso na condução dos casos de câncer de mama nos serviços públicos, para que a detecção precoce e, em consequência, a cura sejam realidades mais frequentes no país.

 

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Correspondência:
Priscila Bernardina Miranda Soares
Avenida Mestra Fininha, 1.951
CEP 39403-222 Montes Claros, MG
E-mail: priscilamirandasoares@yahoo.com.br

Recebido em: 25/04/11
Versão final apresentada em: 24/11/11
Aprovado em: 05/02/12