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Revista Brasileira de Epidemiologia

versão impressa ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.15 no.3 São Paulo Set. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2012000300017 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Resultados do monitoramento dos Fatores de risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis nas capitais brasileiras por inquérito telefônico, 2008

 

 

Deborah Carvalho MaltaI, II; Sara Araújo da SilvaIII; Patrícia Pereira Vasconcelos de OliveiraI; Betine Pinto Moehlecke IserI, V; Regina Tomie Ivata BernalIV; Luciana Monteiro Vasconcelos SardinhaI; Lenildo de MouraI, V

ICoordenação Geral de Doenças e Agravos Não Transmissíveis, Departamento de Análise de Situação de Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde. Brasília, DF, Brasil
IIUniversidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Belo Horizonte, MG, Brasil
IIICoordenação-Geral de Alimentação e Nutrição, Departamento de Atenção Básica, Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde. Brasília, DF, Brasil
IVPrograma de Pós-Doutorado da Faculdade de Saúde Pública da USP
VUniversidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Porto Alegre, RS, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar os fatores de risco e proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis - DCNT nas capitais do Brasil.
METODOLOGIA: Foram analisadas informações provenientes do sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para DCNT por inquérito telefônico - VIGITEL, em 2008. A amostra foi composta por 54 mil entrevistas sendo as frequências apresentadas para o conjunto das capitais por sexo, faixa etária e escolaridade.
RESULTADOS: O estudo mostrou diferenças na prevalência de fatores de risco e proteção de DCNT entre sexos, idade e escolaridade. Os homens apresentaram maiores frequências de fatores de risco como fumo, excesso de peso, consumo de refrigerantes, carnes com excesso de gordura e bebidas alcoólicas. Os homens praticam mais atividade física no lazer. As mulheres se alimentam melhor e referem mais diagnóstico médico de doenças, como hipertensão arterial, dislipidemia e osteoporose, além de estado de saúde ruim. Em geral, os fatores de risco são mais frequentes na população de menor escolaridade.
DISCUSSÃO: Estas informações devem redirecionar a implementação das políticas públicas com foco em um modo de viver mais saudável e escolhas individuais mais adequadas por parte da população adulta brasileira.

Palavras-chave: Fatores de risco. Doença crônica. Levantamento epidemiológico. Entrevista por telefone. Prevenção e controle.


 

Introdução

As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) constituem sério problema de saúde pública no mundo, afetando países com alta, média e baixa renda. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que as DCNT já são responsáveis por cerca de 60% das mortes ocorridas no mundo, causando mais de 35 milhões de mortes anuais1. No Brasil, cerca de dois terços dos óbitos são devidos às DCNT, bem como a maioria das causas de internações2.

Dentre os fatores de risco para doenças crônicas destacam-se os comportamentais, como tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas, consumo de alimentos fonte de gorduras e açúcares e inatividade física. Os fatores de risco comportamentais são potencialmente modificáveis e condicionados por fatores socioeconômicos, culturais e ambientais1-3. Existem evidências de que estratégias de promoção à saúde e prevenção reduzem a morbimortalidade por estas doenças, tornando o monitoramento dos fatores de risco das DCNT uma medida importante na definiçao de ações efetivas no controle das mesmas1.

Com o intuito de implantar a vigilância das DCNT no Brasil, o Ministério da Saúde desenvolve desde 2006 o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL), possibilitando o monitoramento contínuo e rápido dos fatores de risco para DCNT em 27 capitais brasileiras4. O uso das informações geradas pelos sistemas de informação nacionais tem sido estimulado e recomendado para o conhecimento do perfil epidemiológico das doenças crônicas no país, elaboração de indicadores para gestão e monitoramento dos principais fatores de risco para DCNT, subsidiando a implantação de políticas de promoção à saúde5.

O objetivo deste estudo é descrever a distribuição dos principais fatores de risco e proteção para DCNT em adultos no conjunto das capitais brasileiras e Distrito Federal, segundo sexo, faixas etárias e escolaridade no ano de 2008.

 

Métodos

Foi realizado inquérito telefonico de fatores de risco e proteção de doenças crônicas não transmissíveis, Vigitel, representativo da população adulta ( 18 anos) residente nas capitais dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal que possuem telefone fixo.

Amostras probabilísticas da população com 18 anos ou mais residente em domicílios servidos por pelo menos uma linha telefônica fixa, foram obtidas em dois estágios: sorteio sistemático de 5.000 linhas telefônicas em cada cidade, seguido por re-sorteio e organização de 25 réplicas (subamostras ou réplicas) de 200 linhas; e sorteio de um morador adulto do domicílio para responder a entrevista. O sistema Vigitel estabelece o tamanho mínimo de amostra de 2.000 entrevistas telefônicas em cada uma das 27 capitais brasileiras para que se possa estimar a frequência de qualquer fator de risco na população adulta, com coeficiente de confiança de 95% e erro amostral de dois pontos percentuais.

As estimativas dos fatores de risco e proteção foram ponderadas levando-se em conta as diferenças na composição sociodemográfica da amostra do VIGITEL em relação à composição da população adulta total de cada cidade, segundo a distribuição censitária do ano 2000. O peso final atribuído a cada indivíduo é resultante da multiplicação dos seguintes fatores: inverso do número de linhas telefônicas no domicílio do entrevistado, número de adultos no domicílio entrevistado e o peso pós-estratificação, que visa igualar a composição sociodemográfica da população adulta da cidade ao censo, segundo os dados de sexo, faixas etárias e escolaridade. Um quarto fator de ponderação é utilizado para as estimativas relativas ao conjunto das 27 capitais, sendo a razão entre a proporção de adultos de uma dada cidade pela proporção de adultos das 27 cidades. Maiores detalhes sobre o desenho amostral e procedimentos metodológicos encontram-se publicados4,6.

Este estudo avalia as frequências de fatores de risco e proteção no conjunto das capitais brasileiras e Distrito Federal, a partir do percentual de indivíduos que relatam as questões que compõem o indicador. Dentre os fatores de risco, foram consideradas as seguintes variáveis: fumantes (indivíduos que fumam, independentemente da frequência e intensidade do tabagismo); consumidores de 20 ou mais cigarros (indivíduos que fumam 20 ou mais cigarros por dia); ex-fumantes (indivíduos que já fumaram em alguma época da vida); excesso de peso (índice de massa corporal igual ou superior a 25 kg/m2); obesidade (índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m2); consumo de refrigerantes (consumo de refrigerante ou suco artificial com açúcar cinco ou mais dias por semana) e de carnes com excesso de gordura (consumo de carne vermelha com gordura aparente ou frango sem a remoção da pele); inativo (indivíduos que não praticaram qualquer atividade física no tempo livre nos últimos três meses, que não realizam esforços físicos intensos no trabalho, que não se deslocam para o trabalho caminhando ou de bicicleta e que não são responsáveis pela "limpeza pesada" de suas casas); consumo abusivo de bebidas alcoólicas (indivíduos que, nos últimos 30 dias, chegaram a consumir, em um único dia, mais de quatro doses [mulheres] ou cinco doses [homens] de bebida alcoólica); autoavaliação de estado de saúde ruim (indivíduos que autoavaliaram o estado de saúde como ruim); referência a diagnóstico médico de hipertensão arterial (indivíduos que referem diagnóstico médico de hipertensão arterial), diabetes (indivíduos que referem diagnóstico médico de diabetes), dislipidemia (indivíduos que referem diagnóstico médico de dislipidemia), osteoporose (indivíduos que referem diagnóstico médico de osteoporose). Os fatores de proteção avaliados foram: consumo regular de frutas, legumes e verduras (FLV) (consumo de FLV em cinco ou mais dias da semana) e consumo recomendado de FLV (consumo de cinco ou mais porções diárias de FLV em cinco ou mais dias da semana); ativo suficiente no tempo livre (lazer) (indivíduos que praticam atividades físicas de intensidade leve ou moderada por pelo menos 30 minutos diários em cinco ou mais dias por semana ou atividades de intensidade vigorosa por pelo menos 20 minutos diários em três ou mais dias da semana).

Para o processamento dos dados e análises estatísticas utilizou-se o aplicativo "STATA" versão 97, empregando-se comandos que estimam os intervalos de confiança de 95%.

Os resultados são apresentados em percentuais e seus respectivos intervalos de confiança (IC 95%), segundo sexo, escolaridade, faixas etárias, e calculadas as Razões de Prevalência ajustada por idade. O inquérito do Vigitel foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa em Seres Humanos (CONEP, Registro CONEP 13081 - Parecer Nº 749/2006). O consentimento livre e esclarecido foi substituído pelo consentimento verbal obtido por ocasião dos contatos telefônicos com os entrevistados.

 

Resultados

O VIGITEL realizou 54.353 entrevistas completas, sendo 21.435 em homens e 32.918 em mulheres. A Tabela 1 mostra a frequência de fatores de risco e proteção para DCNT no conjunto da população estudada de capitais e por sexo. Todos os indicadores, à exceção de obesidade, inatividade física e referência a diagnóstico médico de diabetes, apresentam diferenças significativas entre os sexos.

Os homens apresentaram maiores frequências de fumantes, de consumidores de 20 ou mais cigarros por dia, de ex-fumantes, de indivíduos com excesso de peso, de consumidores de refrigerantes, carnes com excesso de gordura e bebidas alcoólicas de forma abusiva, mas também de ativos suficientes no tempo livre. Nas mulheres, observa-se maior frequência de consumo de FLV cinco ou mais dias da semana (consumo regular) e cinco porções diárias em pelo menos cinco dias da semana (consumo recomendado); de referência a estado de saúde ruim e diagnóstico médico de doenças, como hipertensão arterial, dislipidemia e osteoporose (Tabela 1).

As Tabelas 2 e 3 apresentam, em homens e mulheres, respectivamente, a distribuição de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por faixa etária. Em homens, o percentual de fumantes é menor na faixa etária igual ou superior a 65 anos, observando-se que o excesso de peso aumenta com a idade, atingindo 62,3% entre 45 a 54 anos, com redução progressiva nas faixas etárias seguintes. Com o aumento da idade, há maior frequência de ex-fumantes, consumo regular e recomendado de FLV, inatividade física, referência a diagnóstico médico de doenças e autoavaliação de estado de saúde como ruim a partir dos 25 anos. Consumo de refrigerantes apresenta redução com o aumento da idade, atividade física suficiente no tempo livre apresenta redução com o aumento da idade até os 54 anos, e após 55 anos mostra aumento, enquanto para consumo de carnes com excesso de gordura e de bebidas alcoólicas essa redução ocorre a partir dos 35 anos (Tabela 2).

Entre mulheres, o percentual de ex-fumantes aumenta com a idade até a faixa de 45 a 54 anos, e as frequências de excesso de peso e obesidade aumentam até os 64 anos. A inatividade física é maior nos extremos (18 a 24 anos e após 55 anos). Consumo regular e recomendado de FLV e referência a diagnóstico médico de doenças aumentam com a idade. Os indicadores de hábito de consumo de refrigerantes, carnes com excesso de gordura e bebidas alcoólicas apresentam redução após 45 anos de idade e o percentual de mulheres que avaliaram o estado de saúde como ruim aumenta a partir dos 45 anos, atingindo 11,2% daquelas com idade igual ou superior a 65 anos (Tabela 3).

As Razões de Prevalência (RP) dos fatores de risco e proteção para DCNT em homens segundo grau de escolaridade são apresentados na Tabela 4. Os homens com escolaridade igual ou inferior a oito anos de estudo (0 a 8 anos) apresentam maiores RP nos indicadores de tabagismo, consumo maior que 20 cigarros, ex-fumantes, consumo de refrigerantes, carnes com excesso de gordura, autoavaliação de estado de saúde ruim e referência a diagnóstico médico de diabetes e osteoporose. Em homens de 12 e mais anos de escolaridade RP maiores foram encontradas em variáveis como excesso de peso, obesidade, consumo regular e recomendado de FLV, atividade física suficiente no tempo livre e diagnóstico médico de dislipidemia.

Mulheres com escolaridade igual ou inferior a oito anos (0 a 8 anos) de estudo apresentam maiores RP nos indicadores de fumantes, consumo de 20 ou mais cigarros por dia, ex-fumantes, excesso de peso, obesidade, consumo de carnes com excesso de gordura, consumo de refrigerantes, autoavaliação de estado de saúde ruim e referência à diagnóstico médico de hipertensão arterial, diabetes e osteoporose. Mulheres com 12 e mais anos de escolaridade apresentam maior RP para consumo regular e recomendado de FLV, atividade física no tempo livre e inatividade física (Tabela 5).

 

Discussão

O estudo mostrou diferenças na prevalência de fatores de risco e proteção de DCNT entre sexos, idade e escolaridade no conjunto das capitais do Brasil. Os homens apresentaram maiores frequências de fatores de risco como fumo, excesso de peso, consumo de refrigerantes, carnes com excesso de gordura e bebidas alcoólicas. Os homens praticam mais atividade física no lazer. As mulheres se alimentam melhor e referem mais diagnóstico médico de doenças, como hipertensão arterial, dislipidemia e osteoporose, além de estado de saúde ruim. Em geral os fatores de risco são mais frequentes na população de menor escolaridade.

No ano de 2008, observa-se a influência dos fatores sociodemográficos (idade e escolaridade) e as diferenças por sexo na maioria dos fatores de risco e proteção avaliados.

Para o monitoramento de fatores de risco e proteção para DCNT, o país ainda não dispõe de séries históricas suficientemente longas e comparáveis para avaliar as tendências. De qualquer forma, algumas pesquisas anteriores podem propiciar parâmetros úteis para este monitoramento, apesar das diferenças metodológicas entre os estudos. No caso do tabagismo, a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição, realizada em 1989, mostrou prevalência de 33,1%; e, em 2003, a Pesquisa Mundial de Saúde no Brasil, com amostra nacional, mostrou declínio para 22,4%10. Os dados do VIGITEL 2008 mostram prevalência inferior, de 16,1%, nas capitais do país. Embora os dados aqui apresentados não sejam completamente comparáveis com os inquéritos anteriores, pode-se inferir uma queda importante na prevalência do tabagismo no período4. Outra evidência que apoia estes dados é o aumento de ex-fumantes, especialmente nas faixas etárias maiores, expressando o abandono crescente do tabagismo após 45 anos11. Este declínio pode ser o resultado de maior controle do uso do tabaco, com restrições de consumo em lugares públicos e proibição da propaganda na televisão, além da maior divulgação dos malefícios junto à mídia12.

A carga tabágica, expressa pela quantidade de anos fumados, e a quantidade de cigarros fumados por dia são importantes na predição do câncer de pulmão13,14. A prevalência de fumantes pesados (pessoas que fumam 20 ou mais cigarros por dia) é duas vezes maior entre os homens quando comparado às mulheres. Esse dado é condizente com a maior incidência e mortalidade por câncer de pulmão verificada para o sexo masculino15,16, embora estudos de tendência de mortalidade mostrem a redução das taxas de câncer de pulmão entre homens até 60 anos, o que pode ser explicado pelo aumento de ex-fumantes no sexo masculino, resultando em recuo das tendências de mortalidades por câncer de pulmão em homens nos últimos anos12. Em termos nutricionais, ocorreu aumento da prevalência de excesso de peso e obesidade nas últimas décadas. As pesquisas que fizeram este monitoramento no Brasil foram o Estudo Nacional de Despesas Familiares (ENDEF), em 1975; a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN), em 1989; e a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), em 2003. O excesso de peso aumentou, respectivamente de 18,6% (1975), 29,5% (1989) e 41,0% (2003) em homens e em mulheres passou de 28,6% para 40,7%, chegando a 39,2% em 2003. Nestas mesmas pesquisas, a obesidade em homens passou de 2,2% para 5,1% e para 8,8%; em mulheres, a prevalências foram 7,8%, 12,8% e 12,7%, no mesmo período17. Os dados do Vigitel aqui apresentados (2008) reforçam estes achados e mostram que, em relação às pesquisas anteriores, ocorreu uma elevação das prevalências entre os homens, embora os dados não sejam totalmente comparáveis, por serem os dados do Vigitel referentes às capitais e autorreferidos.

A obesidade e o sobrepeso são importantes fatores de risco para DCNT, especialmente diabetes e doenças cardiovasculares, mostrando a importância de se investir em ações de promoção de alimentação saudável e atividade física. Da mesma forma, o monitoramento do Vigitel mostra que estes hábitos ainda não são largamente adotados pela população adulta do país. Os inativos somam 17,4% e os ativos no lazer somam 15%. A alimentação saudável também é um problema, já que apenas um terço tem consumo regular de frutas, legumes e verduras (FLV) e apenas um quinto da população adulta atingiu os níveis recomendados pela OMS. Esses dados corroboram as informações da POF (2003), que mostra ser de cerca de 140 gramas de FLV o consumo médio do país, enquanto as recomendações da Estratégia Global de Alimentação Saudável (2005) são de em torno de 400 gramas de FLV1,17.

A influência da obesidade sobre as doenças crônicas está bem estabelecida, sendo que o IMC elevado acarreta riscos de diabetes, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia18. Estudo com a população dos Estados Unidos mostrou que o IMC esteve associado com maior chance de referir a saúde como ruim ou regular19.

A relação inversa entre a escolaridade e os desfechos nutricionais na população feminina foram observadas em estudos rea-lizados no Brasil na última década20. Entre os homens encontra-se o oposto, sendo observado menor prevalência de excesso de peso nos grupos de menor escolaridade21.

A hipertensão arterial é apontada como mais frequente em homens com até 50 anos de idade22, porém no estudo atual foi mais frequente em mulheres, provavelmente por se tratar de informação autorreferida e dependente do acesso ao diagnóstico. Da mesma forma, a maior frequência de diagnóstico de diabetes, dislipidemias e osteoporose no sexo feminino também podem se considerada, em parte, pela reconhecida maior procura dos serviços de saúde por parte das mulheres, resultando em maior proporção de diagnósticos médicos23.

Os achados do estudo confirmam o aumento da frequência de HA, diabetes e dislipidemia com a idade, o que é compatível com o aumento do risco para DCNT em populações idosas pelo acúmulo de fatores de risco1,24. O estudo identificou ainda maior frequência de diagnóstico de HA em indivíduos de menor escolaridade, observação evidenciada também em outros estudos25.

Os dados do Vigitel 2008 corroboram estudos prévios que mostram que a osteoporose acomete principalmente mulheres após a menopausa, e com menor nível de escolaridade26,27.

O alto consumo de álcool é descrito como fator de risco para hipertensão, cirrose, acidente vascular cerebral, câncer de faringe, laringe, esôfago e fígado. Este alto consumo de álcool em homens é consistente com outros estudos realizados no Brasil e no mundo27,29. O consumo abusivo de álcool tem crescido no país, comparado com os dados verificados no Vigitel em 20064.

Quanto ao consumo de FLV, o estudo atual mostrou que homens e indivíduos mais jovens apresentaram menor consumo, de forma semelhante ao observado na Pesquisa Mundial de Saúde30. Maior consumo de FLV em populações de maior escolaridade também pode ser explicado por maior acesso à informação para a adoção de hábitos saudáveis31.

O maior consumo de FLV foi observado em relação aos mais idosos em 14 regiões geográficas, incluindo África, América, Europa e Ásia32. Esta associação positiva entre idade e consumo de FLV pode ser explicada por hábitos alimentares adquiridos no passado, contendo dieta mais saudável e também por seguimento das orientações recebidas nos serviços de saúde, mais frequentes junto à população mais idosa e com maior prevalência de doenças crônicas31.

Estudos prévios mostram que os homens são mais ativos no lazer, no trabalho e no deslocamento, e as mulheres são mais ativas nas atividades físicas domésticas5,33. Tais achados já foram relatados em diversos estudos realizados no Brasil34, na Espanha35, na Austrália e em outros países36. Existe consistência na literatura de que menores níveis de escolaridade estão associados a maiores níveis de inatividade física no lazer33.

Dentre as limitações do estudo destaca-se o fato de a amostra se restringir àqueles que possuem telefone fixo, com menores coberturas nas regiões Norte e Nordeste, porém o uso de pesos de pós-estratificação reduz o viés, buscando aproximar a amostra do estudo da população das capitais do Brasil, segundo o censo demográfico de 2000. No entanto, estima-se que tenham ocorrido recentes mudanças na distribuição da escolaridade e faixas etárias no país, com incremento na população de idosos, o que poderá alterar as estimativas futuras do Vigitel a partir da atualização dos dados do censo. Outra limitação se refere ao uso da morbidade autorreferida, dependente do acesso ao diagnóstico médico e do entendimento do indivíduo sobre sua condição de saúde. Entretanto, a literatura mostra que a hipertensão autorreferida é um indicador satisfatório para as estimativas de prevalência, apresentando como vantagem a rapidez na obtenção da informação e o baixo custo22,23.

A vida contemporânea expõe os indivíduos e as sociedades a inúmeros fatores de risco comportamentais (tabagismo, alimentação, inatividade física, consumo de álcool e outras drogas) e, ao mesmo tempo, reduz-se a ação dos fatores protetores, tais como o acesso ampliado a alimentos in natura e de melhor qualidade nutricional, a existência de redes de suporte social e de espaços públicos seguros e facilitadores das práticas de atividade física8.

Os dados monitorados pelo Vigitel são importantes para apoiar políticas públicas de promoção à saúde, tornando-o útil para o acompanhamento dos fatores de risco e proteção para doenças crônicas não transmissíveis em adultos residentes nas capitais do Brasil, constituindo uma ferramenta epidemiológica relevante para apoiar políticas de promoção à saúde e prevenção das DCNT.

 

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Correspondência:
Deborah Carvalho Malta
Ministério da Saúde - Secretaria de Vigilância em Saúde
SAF Sul, Trechos 02, Lotes 05/06, Bloco F, Torre 1, Edifício Premium, Térreo, Sala 14
CEP 70070-600, Brasília, DF
E-mail: deborah.malta@saude.gov.br

Recebido em: 13/09/10
Versão final apresentada em: 27/02/12
Aprovado em: 18/05/12