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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Comentários ao artigo: itinerários e métodos do aborto ilegal em cinco capitais brasileiras]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">    <b> DEBATEDORES</b> DISCUSSANTS</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Coment&aacute;rios    ao artigo: </b><strong><em>itiner&aacute;rios e m&eacute;todos do aborto ilegal em cinco capitais    brasileiras</em></strong></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Comments on    the article: itineraries and methods of illegal abortion in five Brazilian state    capitals</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Maria Andr&eacute;a    Loyola</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Instituto de Medicina    Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. <a href="mailto:andrea.loyola@terra.com.br">andrea.loyola@terra.com.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; muito    bem vindo e oportuno o artigo de Diniz e Medeiros - <i><b>Itiner&aacute;rios    e m&eacute;todos do aborto ilegal em cinco capitais brasileiras</b></i> - publicado    neste n&uacute;mero da Revista Ci&ecirc;ncia &amp; Sa&uacute;de Coletiva. Realizado    a partir de entrevistas estruturadas com mulheres que levaram a termo abortos    ilegais, em cinco capitais brasileiras. Este trabalho complementa, aprofundando,    as etapas anteriores do primeiro estudo sistem&aacute;tico sobre o aborto no    Brasil, publicado pelos mesmos autores. Ambos os estudos nos informam o qu&atilde;o    forte e generalizada &eacute; a cultura do aborto em todas as regi&otilde;es    do pa&iacute;s e qu&atilde;o limitado &eacute; nosso conhecimento sobre a realidade    desta pr&aacute;tica. Evidentemente que esse vazio de informa&ccedil;&otilde;es    decorre do fato de tratar-se de tema legalmente criminalizado e objeto de acaloradas    controv&eacute;rsias, ainda que tenha sido tratado, em revis&atilde;o sistem&aacute;tica    coordenada e publicada pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de em 2009<sup>1</sup>,    como um problema de sa&uacute;de p&uacute;blica. Al&eacute;m de seu pioneirismo,    o grande m&eacute;rito do trabalho de Diniz e Medeiros foi ter enfrentado de    forma corajosa a abordagem deste tema.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Do ponto de vista    &eacute;tico e metodol&oacute;gico o trabalho &eacute; impec&aacute;vel. Os    autores n&atilde;o somente inovam em mat&eacute;ria da metodologia aplicada,    como se cercam de v&aacute;rios e criativos recursos para garantir o sigilo    em torno das identidades das informantes, assim como, a neutralidade poss&iacute;vel    do local das entrevistas e dos procedimentos dos entrevistadores. O estudo,    aprovado por v&aacute;rios comit&ecirc;s de &eacute;tica em pesquisa, constitui,    em si mesmo, um modelo de pesquisa com &eacute;tica em ci&ecirc;ncias humanas    e da sa&uacute;de.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Orientados pelo    mesmo rigor com que realizaram o trabalho, os autores advertem insistentemente    que est&atilde;o se referindo a um universo restrito (&agrave;s 122 mulheres    que foram entrevistadas) e que suas conclus&otilde;es n&atilde;o podem ser generalizadas.    Isso n&atilde;o impede que algumas delas sejam transformadas em hip&oacute;teses    a serem exploradas por eles mesmos ou por outros pesquisadores. Ainda mais,    porque o rico e raro conhecimento por eles colocado em evidencia, confirma resultados    de trabalhos anteriores mais pontuais, contribuindo, assim, para diminuir significativamente    a &aacute;rea de sombra que paira sobre o tema.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tudo indica, pois,    que os itiner&aacute;rios das mulheres que abortaram, embora apresentem varia&ccedil;&otilde;es    regionais, por idade, cor e escolaridade, n&atilde;o diferem significativamente    no que diz respeito ao percurso e, principalmente, aos m&eacute;todos utilizados.    Todos esses itiner&aacute;rios tem como ponto de partida um diagn&oacute;stico    seguramente configurado da gravidez e desembocam em um procedimento abortivo    ao t&eacute;rmino de aproximadamente dois meses, ap&oacute;s a suspens&atilde;o    das regras.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Grande parte das    mulheres entrevistadas usam diferentes combina&ccedil;&otilde;es de ervas e    medicamentos popularmente consagrados antes da ingest&atilde;o do medicamento    Cytotec. Outras vezes, o ingerem diretamente. Em todos os casos, o medicamento    &eacute; fornecido em embalagens n&atilde;o identificadas, procedimento que    se coaduna com a clandestinidade de seu destino.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">S&atilde;o tamb&eacute;m    recorrentes o sofrimento descrito pelas mulheres durante a noite em que aguardam    o efeito abortivo do cytotec e seu desaparecimento do sangue para evitar que    o aborto seja reconhecido como tendo sido provocado. Acrescenta-se a esta dolorosa    espera os maus tratos por parte de alguns m&eacute;dicos, quando estes percebem    que o aborto n&atilde;o foi espont&acirc;neo. Percorrer itiner&aacute;rios de    dores f&iacute;sicas e psicol&oacute;gicas s&oacute; se justifica se a gravidez    &eacute; indesejada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E, n&atilde;o obstante    o cuidado dos autores para evitar ou sugerir interpreta&ccedil;&otilde;es quando    os ind&iacute;cios s&atilde;o insuficientes, podemos inferir dos dados que eles    apresentam que existe uma grada&ccedil;&atilde;o na pr&aacute;tica do aborto    no que se refere &agrave; motiva&ccedil;&atilde;o das mulheres que o praticam,    embora essas motiva&ccedil;&otilde;es provavelmente n&atilde;o sejam excludentes:    aqueles efetuados pelas adolescentes, tudo indica, se relacionam a aus&ecirc;ncia    de uma sexualidade protegida; os praticados por mulheres negras e por prostitutas    a condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e sociais insuficientes para levar    a termo a gravidez e aqueles realizados por mulheres brancas, mais velhas e    com maior escolaridade a um desejo consciente de limitar o numero de filhos,</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Chama a aten&ccedil;&atilde;o,    secundariamente, a semelhan&ccedil;a de certas pr&aacute;ticas utilizadas por    uma parte das mulheres entrevistadas com aquelas da medicina popular, tais como    o uso de ch&aacute;s, o sangue como deposit&aacute;rio dos males e da cura org&acirc;nica    e ao jejum, popularmente associado &agrave; limpeza e ao bom funcionamento do    corpo, observado antes do inicio do processo abortivo; pr&aacute;ticas correntes    entre as popula&ccedil;&otilde;es de baixa renda e baixa escolaridade<sup>2</sup>;    e, neste estudo, &agrave;s mulheres negras. Poder&iacute;amos indagar se tais    pr&aacute;ticas persistiriam caso o aborto pudesse ser abertamente acolhido    pela medicina. Embora Diniz e Medeiros se abstenham de fazer ila&ccedil;&otilde;es    a este respeito, parece bastante prov&aacute;vel que as religi&otilde;es propriamente    ditas n&atilde;o constituem barreiras suficientemente fortes &agrave;s pr&aacute;ticas    do aborto. E isto porque, nas palavras dos autores: <i><b>a rapidez e a facilidade    com que uma mulher aciona uma ampla rede de cuidados e dispositivos para abortar    &eacute; um dos sinais de como a cultura do aborto &eacute; compartilhada entre    as mulheres no Brasil. N&atilde;o h&aacute; como descrev&ecirc;-la como uma    cultura secreta, pois as semelhan&ccedil;as encontradas entre mulheres t&atilde;o    diferentes mostra que &eacute; uma cultura feminina clandestina &agrave; restri&ccedil;&atilde;o    legal, mas transmitida entre diferentes gera&ccedil;&otilde;es</b></i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De fato, a presen&ccedil;a    de m&atilde;es, amigas e companheiros (e porque n&atilde;o dizer, tamb&eacute;m    dos m&eacute;dicos que as atendem nos hospitais p&uacute;blicos e nas clinicas    privadas) nos itiner&aacute;rios descritos por Diniz e Medeiros demonstra que    o aborto clandestino constitui uma pr&aacute;tica desde h&aacute; muito integrada    ao processo reprodutivo das mulheres brasileiras. Embora uma parte da popula&ccedil;&atilde;o    talvez n&atilde;o discorde daqueles que classificam o aborto como um ato pecaminoso    e antinatural, para as mulheres que o praticam ao risco de suas pr&oacute;prias    vidas e para por suas fam&iacute;lias ele parece ser visto como um transtorno,    ainda que indesej&aacute;vel, por vezes fundamentalmente necess&aacute;rio.    Muitos embates pol&iacute;ticos ser&atilde;o ainda necess&aacute;rios para evitar    estes itiner&aacute;rios clandestinos e arriscados trazidos &agrave; luz pelo    corajoso trabalho de Diniz e Medeiros. O pr&oacute;prio artigo desses autores,    assim como outros inclu&iacute;dos neste n&uacute;mero especial tem&aacute;tico    da Revista Ci&ecirc;ncia &amp; Sa&uacute;de Coletiva constituem certamente um    passo nesta dire&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1. Brasil. Minist&eacute;rio    da Sa&uacute;de (MS). <i><b>Aborto e Sa&uacute;de P&uacute;blica no Brasil:    20 anos</b></i>. Bras&iacute;lia: MS; 2009. (S&eacute;rie B. Textos B&aacute;sicos    de Sa&uacute;de)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1609032&pid=S1413-8123201200070000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">2. Loyola MA. <i>    <b>M&eacute;dicos e curandeiros</b></i>. Conflito social e sa&uacute;de. S&atilde;o    Paulo: DIFEL; 1984.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1609033&pid=S1413-8123201200070000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body><back>
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