EDITORIAL EDITORIAL

 

 

Este número de Ciência & Saúde Coletiva vem responder a uma indagação fundamental dos sanitaristas: que impacto os avanços da biologia, mormente da genética, estão provocando no campo da saúde? Essa pergunta é essencial, pois, a partir do chamado relatório Lalonde no final da década de 1970, tornou-se consensual, entre os estudiosos do setor, o fato de que saúde é um processo complexo de relações entre ambiente físico e social, condições (estruturais) e estilos (individuais) de vida, qualidade dos serviços de saúde e avanços da biologia. Para ampliar a reflexão sobre esse último item, convidamos, como editor deste número, um dos mais renomados geneticistas de nosso país, o dr. Francisco Salzano. Por sua vez, ele nucleou vários de seus pares, propiciando com seus textos que os pesquisadores da área de saúde coletiva possam, em seu veículo de divulgação, participar do debate mundial sobre o tema. Ao dr. Salzano fazemos um agradecimento especial, pois sua presença, dedicação e organização durante todo o processo editorial foram incomparáveis!

Nesta oportunidade, não me furto à tentação de referir-me à obra de Lucien Sfez, La Santé Parfaite, editada na segunda metade dos anos 90, na qual o autor analisa o sentido antropológico do avanço do conhecimento em genética, e de forma particular, as conquistas ligadas ao projeto genoma. Sfez mostra, a partir de entrevistas e observações de campo realizadas nos Estados Unidos, Japão e França, toda a complexidade das transformações provocadas pelo desenvolvimento acelerado da biologia, quanto aos benefícios e às contradições sociais que encerram. Sfez denomina o momento atual como o do novo mito da saúde que se configura como religião ecobiológica, cujos textos sagrados estão escritos nos grandes laboratórios de genética, tendo nos produtos de biotecnologia, seus objetos de culto.

A ninguém pode passar despercebido que a ciência e a tecnologia são hoje o ponto nevrálgico da criação de valor e, portanto, da acumulação de capital e da concentração de poder e de interesses. Sem pretender entrar numa atitude conservadora que demoniza a ciência, preferimos pensar de forma dialética nesses novos passos da humanidade. De um lado, valorizando o bem que as atuais descobertas trazem para a "diminuição da canseira da humanidade", como dizia o Galileu da peça de Bertold Brecht, respondendo ao inquisidor sobre a utilidade da ciência. Numa visão positiva, é fundamental ressaltar que o desenvolvimento da biologia é uma das maiores esperanças desse momento histórico: para uma infinidade de pessoas que sofrem doenças hereditárias; para os que desejam envelhecer de forma saudável; para os que querem gerar filhos sem problemas genéticos; e para a cura de várias doenças. De outro lado, não somos ingênuos de pensar que bastam as descobertas. Os avanços do conhecimento, que prometem a realização de grandes lucros, são objetos de poderosos interesses diferenciados, dirigidos a quem pode pagar, e manipulados e controlados por mecanismos de discriminação.

É preciso saber quem terá direito a esses produtos tecnológicos; quem e sob que condições se patenteiam as descobertas; e quem certamente ficará excluído ou terá acesso apenas às migalhas do banquete servido pelo desenvolvimento científico de ponta. Sendo assim, de forma alguma podemos abrir mão das mediações políticas necessárias para defender a sociedade da privatização pragmática e inescrupulosa das benesses que o avanço da biologia vem trazendo. Sobretudo, é imprescindível exigir que o direito à qualidade de vida e aos bens sociais conquistados pela humanidade sejam socializados. E para isso, defendemos o financiamento púbico para as pesquisas, apoiando o que, neste momento, está fazendo o governo brasileiro em relação a essa questão: a Fapesp em nome do Estado de São Paulo; e o CNPq, buscando a articulação do capital social e científico do país, em prol de um desenvolvimento que possa trazer benefícios à população que o financia.

 

Maria Cecília de Souza Minayo
Editora científica

 

 

This issue of Ciência & Saúde Coletiva deals with a fundamental question raised by public health experts, namely, what is the impact of current progress in the field of biology, and specifically that of genetics, on the field of health? Since the Lalonde Report was published in the late 1970s, researchers from the field have agreed that health is a complex process of relations between the physical and social environment, structural conditions, individual life styles, quality of health services, and advances in biology. In order to address this question in greater depth, we have invited one of Brazil’s most renowned geneticists, Dr. Francisco Salzano, to be the guest editor of this issue. He, in turn, convened several of his most distinguished peers, whose papers now allow researchers from the field of collective health to participate in the international debate on this theme through this journal. We wish to express our special gratitude to Dr. Salzano, whose steadfast dedication and organizational expertise throughout the publishing process have been incomparable.

The endeavor immediately brings to mind the pioneering study by Lucien Sfez entitled La Santé Parfaite, published in the late the 1990s, analyzing the anthropological meaning of progress in knowledge in the field of genetics, especially the advances achieved through the Genome Project. Based on interviews and field observations in the United States, Japan, and France, Sfez analyzes the complexity of transformations caused by the rapid development of biology and the benefits and social contradictions this process entails. Sfez refers to the current moment as one of the "new myth of health", shaping an "ecobiological religion" whose sacred scriptures are written in the great genetics laboratories and whose objects of worship are biotechnology products.

No one can deny that science and technology now form the nerve center for creating value and thus accumulating capital and concentrating power and interests. Rather than adopting a conservative attitude that demonizes science, we prefer to take a dialectic view of these new steps by humankind. On the one hand, valuing the good that current discoveries bring in "decreasing the weariness of humanity", as expressed by Galileo in the play by Bertolt Brecht, responding to the Inquisitor on the usefulness of science. From a positive view, it is crucial to highlight that the development of biology is one of the greatest sources of hope at this juncture in history: for countless individuals suffering from hereditary diseases; for those who wish to age in good health; for those who wish to bear children without genetic problems; and to cure various diseases. On the other hand, we are not so naive as to believe that scientific discoveries themselves are enough. Scientific advances promising major financial returns are the object of various powerful interests, directed towards those who can afford them and manipulated and controlled by discriminatory mechanisms.

Society must know who will have the right to these technological products; who patents the discoveries, and under what conditions; and who will be excluded altogether or have access only to crumbs from the banquet served by state-of-the-art scientific development. Thus, we should never desist from the political negotiation needed to defend society from the pragmatic, unscrupulous privatization of the benefits brought about by progress in biology. Above all, it is crucial to demand that the right to the quality of life and social goods achieved by humankind be shared. In order for this to happen, we defend public funding of research, supporting the current Brazilian government’s wise moves in this direction: the São Paulo State Research Foundation (Fapesp) on behalf of that State and the Brazilian National Research Council (CNPq), seeking to link the country’s social and scientific capital in the quest for a form of development that will bring benefits to the country’s population, the ultimate funders of this process.

 

Maria Cecília de Souza Minayo
Scientific editor

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revscol@fiocruz.br