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Avaliação da utilização de medicamentos em pacientes idosos por meio de conceitos de farmacoepidemiologia e farmacovigilância

 

Evaluation of using medicines in elderly subjects through the concepts of pharmacovigilance and pharmacoepidemiology

 

 

Leonardo Régis Leira PereiraI; Laura Umbelina Perna VecchiII; Marina Elisa Costa BaptistaIII; Dermeval de CarvalhoIV

IServiço de Farmácia Clínica e Atenção Farmacêutica da Universidade de Ribeirão Preto e Universidade de Franca. Curso de Ciências Farmacêuticas da Universidade de Ribeirão Preto. Av. Costábile Romano, 2202. 14096-380, Ribeirão Preto SP. lpereira@unaerp.br
IICoordenação do Projeto Renascer de Atividades Físicas na Terceira Idade, da Universidade de Ribeirão Preto
IIICoordenação do Centro Interdisciplinar de Apoio Nutricional (CIAN), da Universidade de Ribeirão Preto
IVCoordenação do Curso de Ciências Farmacêuticas da Universidade de Ribeirão Preto

 

 


RESUMO

O Conselho Federal de Farmácia tem definido, no Brasil, resoluções que proporcionam um seguimento terapêutico individualizado aos pacientes, avaliando os efeitos adversos, crônicos e agudos, bem como os riscos de um tratamento farmacológico na população em geral, ou em grupos restritos de pacientes. Estudos recentes demonstraram que a prevalência de idosos no Brasil situa-se em torno de 12%. Neste estudo foram avaliados 35 voluntários ­ 33 mulheres e 2 homens ­ por meio de entrevistas sobre os medicamentos utilizados e possíveis problemas relacionados aos medicamentos. Entre os principais medicamentos prescritos para uso crônico, destacam-se: anti-hipertensivos, estrógenos e progesteronas, antidepressivos e ansiolíticos. Dos 35 pacientes avaliados, 24 fazem uso de politerapia, nove utilizam monoterapia e um paciente não utiliza medicamento de forma crônica. Este trabalho além de avaliar a utilização de medicamentos nessa população específica, também buscou identificar interações inadequadas e prestar informações sobre o uso adequado de fármacos.

Palavras-chave: Medicamentos, Idosos, Farmacoepidemiologia, Farmacovigilância


ABSTRACT

The Federal Council of Pharmacy has defined, in Brazil, resolutions like the identification and evaluation of the side effects, chronicle as acute; as well as the risks of pharmacological therapies all around populations or restrict groups of patients in strict medical treatment. In this country recent population data indicates 12% prevalence in the elderly. It is presented in this study the results of evaluation of 35 volunteers, 33 woman and 2 men through an open interview about medicines use and possible medicine related problem. Ordinary medication in use ­ antihypertensive, estrogens and progesterone, antidepressants, and hypnotics. About eventual medicine, non-prescript use great frequency was in anti-inflammatories (NSAID e SAID) and fungicide. The 24 of the interviewed pacientes related chronic use of politherapy (2 a 7 pharmacies). Only 9 use just one kind of medicine and 1 has no use of medicine. This work found its objective identifying the medicines used by each patient and more than this, they were counseled about the right use of pharmacotherapy, avoiding wrong interactions and low or high doses.

Key words: Drugs, Elderly, Pharmacoepidemiology, Pharmacovigilance


 

 

Introdução  

A farmacoepidemiologia e a farmacovigilância, segundo a ESCP (European Society of Clinical Pharmacy), são áreas pertinentes à Farmácia Clínica. O levantamento epidemiológico de medicamentos, utilizados por uma população específica, pode ser importante para auxiliar na prevenção do surgimento de Problemas Relacionados ao Medicamento (PRM) (Hepler & Strand, 1999; Fernández-Llimos et al., 1999).

Além disso, os dados epidemiológicos podem melhorar a qualidade da assistência farmacêutica, permitindo uma intervenção mais precisa desse profissional, pois este terá conhecimento suficiente dos medicamentos mais utilizados por aquela população (OMS, 1993).

A farmacovigilância foi definida pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF), na resolução 357 de 2001, como a identificação e avaliação dos efeitos, agudos ou crônicos, do risco do uso dos tratamentos farmacológicos no conjunto das populações ou em grupos de pacientes expostos a tratamentos específicos (CFF, 2001).

Baseado nos conceitos definidos anteriormente, a população escolhida foi a de idosos, pois os indivíduos acima dos 55 anos representam cerca de 12% da população brasileira, ou seja, quase 20 milhões de pessoas. Além disso, o Censo de 2000 também demonstrou que o número de indivíduos dessa faixa etária vem aumentando a cada década (IBGE, 2001).

Além disso, os idosos são considerados uma população especial, pois, às vezes se esquecem de tomar os medicamentos prescritos, ou fazem uso destes de maneira inapropriada. Os erros de administração dos fármacos podem aumentar de acordo com o número de medicamentos prescritos (Fernández-Llimos et al., 1999).

Os idosos, de acordo com a farmacocinética clínica, possuem uma série de alterações que interferem diretamente nos processos de absorção, distribuição, metabolização e eliminação dos medicamentos, portanto os efeitos tóxicos nesses pacientes podem ocorrer de maneira mais proeminente (Labúne, 1994; Bjornsson, 1997).

Dessa forma, cabe ao farmacêutico um papel importante no contato com esses pacientes, aconselhando-os na utilização dos medicamentos prescritos e não prescritos, e garantindo que estão cumprindo a prescrição de maneira correta (Fernández-Llimos et al., 1999).

O objetivo principal deste trabalho foi realizar um levantamento farmacoepidemiológico em uma população restrita de idosos, que realizam atividades físicas diariamente em um programa de terceira idade da Universidade de Ribeirão Preto, denominado Projeto Renascer.

   

Metodologia 

Foram avaliados, por meio de questionários, 35 voluntários pertencentes ao Projeto Renascer. Durante as entrevistas foram realizadas perguntas sobre a utilização de medicamentos prescritos e não prescritos. Além disso, todos os voluntários forneceram dados pessoais, como nome completo, data de nascimento, endereço, entre outros. Os entrevistados foram questionados a respeito da administração dos medicamentos e de possíveis PRM.

   

Resultados e discussões 

Em relação aos 35 pacientes entrevistados ­ 33 mulheres e 2 homens ­, a faixa etária encontrada foi de 47 a 75 anos, com uma idade média de 64,9 anos. Nos questionários de medicamentos utilizados por uso crônico foram citadas 18 classes de fármacos, sendo as mais comuns: anti-hipertensivos (25 vezes), estrógenos e progesteronas (15 vezes), antidepressivos (5 vezes), ansiolíticos, antiulcerosos e AINEs (4 vezes).

Quando questionados sobre a utilização de medicamentos de uso esporádicos, ou de venda livre (over the counter ­ OTC) (Blenkisopp & Bradley 1998), as classes mais citadas foram: AINEs (25 vezes), antifúngico (1 vez) e AIE (1 vez).

Os questionários sobre utilização de medicamentos prescritos também demonstraram que 24 entrevistados fazem uso crônico de politerapia (2 a 7 fármacos), enquanto nove utilizam um medicamento e apenas um paciente não faz uso de medicamento prescrito.

Em relação aos medicamentos de uso esporádico, observamos que 16 pacientes não utilizam medicamentos sem prescrição médica, enquanto 19 entrevistados utilizam de um a quatro medicamentos sem prescrição médica.

Esses resultados demonstram que vários entrevistados continuam fazendo uso de medicamentos de venda livre, ou seja, definidos pelo Conselho Federal de Farmácia como aqueles cuja dispensação não requer prescrição por profissional habilitado (CFF, 2001).

Entretanto, a dispensação desses medicamentos não pode ser realizada de maneira indiscriminada, principalmente em pacientes dessa faixa etária, pois esses fármacos, apesar de serem considerados de venda livre, não são inócuos.

Além disso, como já apresentado na introdução, esses pacientes possuem várias alterações fisiológicas comuns à idade, que podem alterar significativamente a biodisponibilidade dos medicamentos, por isso, os indivíduos dessa faixa etária necessitam de um acompanhamento especial durante o tratamento farmacoterapêutico e muitas vezes carecem inclusive de um ajuste posológico.

Pelos resultados obtidos podemos considerar que este trabalho atingiu o objetivo esperado, pois os principais medicamentos utilizados por essa população foram identificados, e além disso, cada paciente foi orientado a utilizar os medicamentos de maneira correta, evitando administrações inadequadas e possíveis interações.

 

Referências bibliográficas 

Bjornsson TD 1997. Practical uses of individual pharmacokinetics parameters in drug development and clinical practice: examples and simulations. European Journal of Drug Metabolism and Pharmacokinetics 22 (1):1-14.        

Blenkisopp A & Bradley C 1998. Patients, society, and the increase in self medication. British Medical Journal 312:629-632.        

CEF 2001. Resolução 357/2001 do Conselho Federal de Farmácia.        

Fernández-Llimos F, Romero FM & Dádder MJF 1999. Problemas relacionados con la medicación. Conceptos y sistemática de clasificación. Pharmacy Care Española 1:279-288.        

Hepler CD & Strand LM 1999. Oportunidades y responsabilidades en la Atención Farmacéutica. Pharmacy Care Española 1:35-47.        

IBGE 2000. Censo 2000. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas.        

Labúne JP 1994. Farmacocinética. Ed. Andrei, São Paulo.        

OMS ­ Organização Mundial da Saúde 1993. El Papel del Farmaceutico en el Sistema de Atencion de Salud. Informe de la reunión de la OMS. Tóquio.        

Soares MA 2001. Medicamentos não prescritos. Ed. Publicações Farmácia Portuguesa, Lisboa.        

 

 

Artigo apresentado em 2/10/2002
Aprovado em 26/2/2003
Versão final apresentada em 28/12/2003

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