DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

Comentários diagonais sobre a emergência dos homens na pauta da Saúde Coletiva

 

Diagonal comments about the men emergency in the Public Health targets

 

 

Sérgio Carrara

IMS-Uerj. carrara@uerj.br

 

 

Como ressaltam Schraiber, Gomes e Couto, temos assistido nos últimos anos, na área da Saúde Coletiva e na das Ciências Sociais aplicadas à saúde, a uma crescente preocupação em situar no centro da análise os homens e a(s) masculinidade(s). Colocando-me em uma perspectiva complementar àquela adotada pelos autores, farei aqui alguns comentários referentes à história e aos possíveis significados da emergência dos homens – considerados categoria de gênero e não mais representantes universais da espécie humana – como objetos de pesquisa e intervenção científica.

Tenho como pressupostos que os nossos objetos de reflexão não se oferecem passivamente à observação, como se tivessem estado sempre lá, na "realidade social", à espera de serem "descobertos" e que tal "descoberta" tem sempre uma dimensão política. E talvez seja justamente a falta de clareza quanto às conseqüências políticas do estudo da(s) masculinidade(s) que ainda hoje faz com que os homens sejam abordados, como corretamente apontam os autores, de uma maneira "instrumental", ou seja, mais como fonte de agravos à saúde dos outros do que foco central do debate. Assim, ao estudarem os homens e a masculinidade, muitos ainda devem se perguntar, se não estariam "desperdiçando" recursos intelectuais, aumentando a visibilidade e o prestígio social de quem já os possui em excesso.

É claro que um tal dilema supõe a adesão à idéia de que as conseqüências políticas da transformação de determinado grupo ou categoria social em objeto de reflexão científica operariam sempre no sentido de seu empowerment social. Bem sabemos, entretanto, que há outras versões muito mais críticas, pessimistas ou antiiluministas sobre as conseqüências políticas do trabalho científico. Muitos acham, e penso aqui obviamente em Foucault, que o empreendimento científico geralmente é ele mesmo parte de processos mais amplos de dominação social e de sujeição política. Deveríamos então compreender a emergência dos estudos sobre masculinidade como espécie de "sintoma" de um processo de desarticulação do poder masculino? Não me parece absurdo afirmar, ao menos como hipóteses a serem consideradas, que, nos últimos dois séculos, assistimos não somente a uma lenta e progressiva corrosão do poder masculino, mas também que a tal corrosão corresponde o correlativo aumento do poder do Estado e do mercado.

Comecemos pelo mercado, no qual se incluem os próprios serviços voltados à manutenção e promoção da saúde (física ou mental), os produtos da indústria farmacêutica etc. Nesse âmbito, estamos assistindo a uma mudança sem precedentes quanto à sofisticação do antigo mercado produtor de serviços e bens que, voltados para os homens, procuravam expressar sua masculinidade. De fato, algo parece estar acontecendo no plano daquilo que Luc Boltanski chamava de cultura somática, fazendo com que homens de diferentes camadas sociais passem a manter com seus corpos um tipo de atitude antes considerada mais apropriada às mulheres. Mais reflexiva e mais atenta ao próprio corpo, tal atitude propicia e incentiva o consumo de um sem-número de serviços profissionais e produtos que prometem manter os corpos nas convenções ideais da cultura de massa dessa nossa passagem de século: saudáveis, sensíveis, potentes, jovens, produtivos, flexíveis etc. Nesse sentido, parecem estar desaparecendo rapidamente os antigos pudores que, fazendo da atenção sobre si ou sobre o próprio corpo um sinal de feminilidade, tinham como um de seus mais importantes efeitos manter os homens distantes dos médicos e da medicina. E se isso tem se tornado possível, talvez seja, como queria Boltanski porque a força física (símbolo mais básico ou mais primitivo da masculinidade) venha tendo um papel cada vez menos relevante do ponto de vista de um processo produtivo cada vez mais automatizado e informatizado.

Além disso, a emergência dos homens na qualidade de consumidores de bens voltados à sua masculinidade parece estar também na dependência das profundas alterações a que assistimos nas próprias estruturas familiares. Homens não-casados, vivendo sozinhos ou em arranjos familiares não-convencionais são cada vez menos intensamente considerados casos escandalosos de anomalia social e/ou sexual. Isso parece querer dizer que um número crescente de homens está destinado a consumir para e por suas famílias, não mais o fazendo através das mulheres. Assim a identidade de pai ou de chefe de família cede o passo à genérica identidade social de homem, base sobre a qual todo o novo mercado se organiza.

Paralelamente a isso, temos inúmeros sinais de corrosão da dominação masculina que se expressam na esfera propriamente política. Concentro-me aqui em dois temas que, como ressaltam os autores, se vinculam privilegiadamente à construção dos homens como objeto de reflexão na área da Saúde Coletiva: a violência e a sexualidade. Se esses temas são privilegiados no campo científico isso se explica também pelo fato de haver investimentos estatais importantes no sentido de limitar e colocar sob vigilância cerrada tradicionais prerrogativas masculinas dentro e fora da família. Toda a atual discussão em torno da violência doméstica, do abuso sexual de crianças ou da violência contra homossexuais, com o conseqüente aparecimento de leis e instituições destinadas a mais eficazmente coibir tais práticas (como é o caso das delegacias especiais da mulher no Brasil), parece ter como objetivo o controle mais estrito do comportamento masculino ou, ao menos, o combate a certas expressões tradicionais de masculinidade. Também as políticas de controle às doenças sexualmente transmissíveis, e em especial à Aids, vêm atingindo em cheio certos privilégios masculinos, quer centrando sua ação no apoio estratégico à organização de entidades civis que se estruturam em torno de masculinidades subalternas (homossexuais, travestis, etc.), quer divulgando o fato de serem os homens os mais refratários a mudanças de comportamento no sentido de evitar ou prevenir tais males. Se isso é verdade, a ação do Estado moderno não deveria ser pensada como homogênea e fundamentalmente voltada para manutenção de uma genérica hegemonia masculina, como uma postura mais romântica poderia preferir. Conforme apontam sociólogos como Norbert Elias e historiadores como Robert Nye, a relação que envolve os homens (ou o poder masculino) e o Estado moderno configura-se muito mais como uma já secular queda-de-braço.

Enfim, o texto de Schraiber, Gomes e Couto mostra muito bem o modo como os homens emergem na pauta da Saúde Coletiva e trazem informações fundamentais para quem deseje desenvolver uma reflexão sobre o significado social e político de tal emergência. Mais importante, nele, os autores procuram compreender como as hierarquias de gênero configuram padrões específicos de cuidados de si, de adoecimento e mortalidade. Assim, vinculando sempre a reflexão sobre masculinidade às discussões mais amplas sobre as relações entre gênero e saúde, evitam uma abordagem vitimária, demonstrando que, quando se discute masculinidade e saúde, não se trata apenas da saúde dos homens, mas, através dela, da saúde de todos.

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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