EDITORIAL EDITORIAL

 

Humanização e cuidado em saúde

 

 

Diante dos inúmeros obstáculos que hoje se apresentam para a assistência à saúde no País, sejam de ordem financeira, política, organizativa ou ética, coloca-se em pauta o fundamental debate sobre a qualidade da atenção prestada. Qualidade esta que diz respeito de maneira indissociável ao emprego de tecnologias, saberes, recursos considerados adequados e disponibilizados num contexto singular: o do encontro entre quem sofre, sejam indivíduos ou populações, e aqueles que se dedicam a mitigar este sofrimento, profissionais de saúde, gestores ou técnicos.

Trata-se de uma proposta que busca aprofundar uma análise crítica das lógicas e relações que dão forma e sentido ao modelo vigente de produzir os cuidados em saúde. Crítica construtiva, estrategicamente propositiva. Sob o amplo e polissêmico termo de "humanização" potencializam-se essas novas propostas da atenção à saúde da criança, da mulher, da população enfim. Propostas que põem em destaque o respeito à diferença, a valorização do protagonismo dos sujeitos (profissionais e pacientes) e a centralidade do diálogo.

O debate que envolve a humanização aposta em processos relacionais re-significados, tendo como horizonte uma maior reciprocidade entre as expectativas de vida, de felicidade e a produção dos cuidados. O processo terapêutico, neste sentido, ganha em validade cultural e afetiva, ampliando sua legitimidade.

Entretanto, como toda proposta que é diretriz teórico-filosófica, campo discursivo, mas também se materializa em ação institucionalizada, demanda uma análise de sua incorporação, leituras e apropriações no cotidiano dos serviços. Como as propostas de humanização são incorporadas às regras, hierarquias, negociações das instituições de saúde? Como as "políticas de humanização" se transformam em ação prática e como são renegociadas pelos sujeitos nesta ação prática? Analisar obstáculos e potencialidades à luz das experiências torna-se exame dialeticamente necessário.

Que potencial de transformação de um modelo tecno-assistencial estas propostas contêm e como afetam seus agentes? Este número temático traz o debate à tona, convidando a um olhar crítico que se redimensiona na ação política dos discursos e na materialidade das dinâmicas de atenção produzidas nos serviços de saúde do país.

 

Suely Ferreira Deslandes
e José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres
Editores convidados

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revscol@fiocruz.br